« dezembro 2003 | Entrada | fevereiro 2004 »

janeiro 31, 2004

O JOGO DO TÍTULO

Não foi do título coisa nenhuma. Mas foi bem jogado (coisa rara por cá). E o Sporting meteu o F. C. Porto na ordem (coisa ainda mais rara). E merecia ter ganho (vê lá isso, Rochemback). E o Mourinho pediu ao Pinto da Costa para o deixar ir embora já para o ano (faça-lhe a vontade, Jorge Nuno, faça-lhe a vontade).

Publicado por José Mário Silva às 11:14 PM | Comentários (1)

REDUCTIO AD ABSURDUM

Diz o «Expresso» que Alberto João Jardim pode suceder a Mota Amaral como presidente da Assembleia da República. E não, aparentemente não é piada.

Publicado por José Mário Silva às 06:22 PM | Comentários (5)

SÁBADO

É sábado, acordo tarde. A um minuto do noticiário, ligo o rádio: o Governo exclui os emigrantes na Suíça, reformados e a viver em Portugal, do acesso à protecção na doença. Recuo trinta ou quarenta anos: há guerra colonial, fascismo, as remessas dos emigrantes são a salvação da pátria.
Apetece-me vomitar. Este Governo envergonha-me.
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 05:58 PM | Comentários (2)

OUTRA COISA QUALQUER

Fui ver «Anything Else», do Woody Allen. O Ricardo Araújo Pereira vai muito bem. Parece mesmo judeu e nova-iorquino.

Publicado por Margarida Ferra às 04:17 PM | Comentários (6)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (9)

De Heidelberg, onde se encontra a fazer pesquisas bibliográficas para a sua tese de doutoramento, o musicólogo António Correia Guerreiro enviou-nos a seguinte análise do primeiro ciclo de canções do compositor Arnon Maarten:

Primeiro cancioneiro [para soprano e piano] Op. 8, de 1965 (34 min.)

N.º 1 . Tarde morta
N.º 2 . A Floresta
N.º 3 . Celebração
N.º 4 . Canção de amor
N.º 5 . Labirinto e touro
N.º 6 . Labirinto e homem
N.º 7 . Touro e homem
N.º 8 . Asas
N.º 9 . Canção da solidão
N.º 10 . Biológica
N.º 11 . Avenida
N.º 12 . Onde?

Arnon Maarten terá começado cedo na sua carreira a experimentar compor para voz, que sempre considerou .um instrumento extraordinariamente versátil, capaz de tudo dizer, ou mesmo nada.. No entanto, este conjunto de 12 canções sobre poemas do poeta holandês Henk Grunberg (1889-1932) constitui a primeira colecção que .sobreviveu. ao espírito crítico do compositor.
Maarten, na lista das suas obras, conta com seis destes cancioneiros (songbooks no original), sempre para formações vocal/instrumental diferentes e todos eles com temáticas também distintas, cada um dedicado a determinado poeta e com uma considerável dispersão no tempo (desde este Op. 8 de 1965 até ao Op. 42, de 1988).
O primeiro cancioneiro é aquele que apresenta maior número de canções (12, como já se disse), sendo também o mais longo.

A escolha dos poemas de Grunberg prende-se com a publicação de uma extensa antologia da sua obra em 1963, que Arnon Maarten recebeu de um amigo e que viria a usar como suporte para este cancioneiro .não por sentir uma qualquer afinidade especial pela linguagem do poeta ou pelas temáticas abordadas, mas apenas porque o livro estava ali à mão, era longo e parecia um material tão bom para trabalhar como qualquer outro..
A escolha da voz (soprano) prendeu-se, segundo Maarten, com o conhecimento que então travou com uma sua colega de Conservatório (de que não nos fornece o nome) que era .simultaneamente dotada de uma atroz falta de beleza, em todos os sentidos possíveis, e de uma surpreendente e versátil voz, capaz das mais inverosímeis piruetas, mesmo enquanto se limitava a leccionar.. A propósito desta colega, o compositor acrescenta ainda que .por vezes, nos tempos livres, passeava-me pelo corredor, perto da sua classe, apenas para me deliciar com a sua voz, oculta que estava a figura por detrás da benevolente porta fechada..
Maarten acrescenta ainda que .esse ano [1965] foi de facto propício para conhecer mulheres extraordinárias, com cativantes atributos de índole diversa, que me marcariam para o resto da vida.. Voltaremos a esta temática.
Se atendermos às exigências vocais de algumas das peças deste primeiro cancioneiro, tendo em conta que as mesmas foram compostas por inspiração numa determinada voz, podemos concluir que, de facto, a colega de Arnon Maarten deveria ter sido efectivamente uma cantora dotada e versátil, se bem que não seja de excluir a possibilidade, dado o carácter irónico do autor, que tudo não passe de uma efabulação algo maldosa.
A primeira canção («Tarde morta») dá, de alguma forma, o tom que percorre a primeira parte do cancioneiro, transportando-nos para uma ambiente .grotescamente romântico, desusado e com cores campestres e bucólicas..
Trata-se de uma peça relativamente curta (nenhuma das 12 canções excede os 3 minutos de duração) em que o soprano vai evocando um crepúsculo num cemitério vazio, de forma profundamente melancólica, fazendo uso essencialmente do registo agudo, enquanto o piano .apenas deixa sair umas poucas notas, desprovidas de expressão e, quase, de ritmo, espaçadas e muito graves, não facilitando grandemente a tarefa da cantora de manter uma dada linha melódica..
Segue-se «A Floresta», que pode quase ser encarada como .o caminho que o ouvinte percorre ao sair do anterior cemitério, de regresso à civilização..
Nesta peça exige-se que o soprano transmita, na forma como vai cantando os versos, uma .sensação de arrepio provocada pela noite que começa, após o sol já não aquecer mais o ar.. A amplitude vocal e a velocidade com que se passa de um registo grave ao sobre-agudo, em tremulo, faz desta uma canção temível para a cantora.
Quanto ao piano, é interpretada uma frase .do tipo passos pela dita floresta., que se vai repetindo, de forma cada vez mais rápida, .como se quisesse fugir do soprano, que deverá manter sempre a mesma cadência lenta..
«Celebração» é, musicalmente, a .festarola de aldeia com que o ouvinte se depara no começo de noite, após ter percorrido a floresta no regresso do cemitério., se bem que, de facto, o poema de Henk Grunberg seja sobre os rituais esquecidos do solstício de Verão. Trata-se pois de uma peça irónica em que sobre versos louvando a transcendência do Sol e do seu poder se escuta uma melodia .roufenha. de festa de aldeia com raízes folclóricas.
«A Canção de amor» é isso mesmo, uma melodia simples e despretensiosa sobre um soneto de amor quase banal em que, uma vez mais, se exige ao soprano .muito mais trabalho do que ao pianista..
Seguem-se um conjunto de poemas que, na obra de Grunberg, recebem o título de Cnossos, obviamente baseados no mito do Minotauro. Assim, com «Labirinto e touro», «Labirinto e homem», «Touro e homem» e «Asas», Arnon Maarten conta uma história dentro do cancioneiro, após a historieta do cemitério já atrás descrita (note-se, no entanto, que na obra de Grunberg os poemas que servem de base às três primeiras peças deste cancioneiro não têm qualquer relação entre si, sendo inclusive de diferentes obras do poeta).
Estas quatro canções transmitem uma atmosfera trágica, sem qualquer momento celebratório (apesar de os haver no texto), em que o soprano .adopta uma postura vocal de heroína trágica, como quem está assistir a um espectáculo horripilante mas também arrebatador..
Segue-se uma peça simples («Canção da solidão») tal como já acontecera com a «Canção de amor», no fim do primeiro .ciclo. deste cancioneiro. Maarten definiria esta como a sua obra .mais schubertiana, naturalmente ao estilo «Viagem de Inverno»..
A décima peça deste cancioneiro, «Biológica», tem por base um dos melhores e mais conhecidos poemas de Grunberg, em que o autor tece uma complexa alegoria entre a decomposição de uma animal morto e o rumo que o mundo tomava na altura da Primeira Grande Guerra. Maarten consegue, no entanto, transformar esta temática numa alegre canção (a mais bem disposta do cancioneiro) de .celebração do bom trabalho dos fungos e bactérias..
Quanto a «Avenida», trata-se de um exercício de domínio do soprano do seu registo mais grave, sobre um poema muito outonal da Grunberg. É uma peça estranhamente muito bela, apesar de quase desconfortável para o ouvinte, dado o invulgar registo da voz que Maarten exige.
O primeiro cancioneiro termina com um poema de juventude de Grunberg («Onde?»), em que o autor se questionava sobre os anseios sexuais próprios da adolescência. Maarten trata este texto com enorme solenidade, principalmente ao nível do piano, que assume .um carácter quase pomposo., enquanto a voz deve .sussurrar timidamente e de forma envergonhada os versos do bom do Henk..
É pois um final desconcertante, típico de Maarten, para um conjunto muito díspar de canções que, no entanto, o autor sempre viu .como um todo, assim como uma família o é, apesar das diferenças entre os seus membros..

Publicado por José Mário Silva às 03:33 PM | Comentários (2)

janeiro 30, 2004

MAIS UM BLOGUISTA PARISIENSE

Vou até à École Polytéchnique de Paris verificar a composição dos gabinetes dos académicos. Ficarei por lá, e escreverei de lá nos próximos tempos. Como diria o outro, je suis très content. Até já.

Publicado por Filipe Moura às 08:52 PM | Comentários (3)

A OUTRA CIDADE

Paris. Lancho com o Filipe e falo-lhe de Paris. Mastigo a madalena (como o Proust) e lembro-me de Paris. O rio, as árvores, as pontes, tudo.
Podem ser tão cruéis, os reflexos da nostalgia.

Publicado por José Mário Silva às 07:28 PM | Comentários (1)

GENOCÍDIO?

Escrevo apenas para manifestar a minha estranheza com a declaração do Papa, na qual era denunciado o suposto genocídio feito pelas empresas farmacêuticas, por estas não descerem o preço dos medicamentos contra a SIDA.
Agora só queria comparar este "genocídio" com o genocídio feito pela igreja católica, e mais precisamente pelo seu líder máximo, ao condenar o uso de preservativo e ao pôr em causa a sua eficácia. O Papa, como líder de opinião que é, também está a falhar as suas responsabilidades e a ser cúmplice neste genocídio (como poderia ser feito tanto em África com o apoio da Igreja!).
Resta saber qual é mais culpado: o que recusa o tratamento ou o que recusa a prevenção.Talvez deva ficar à responsabilidade do tribunal de Haia decidir...
(Manuel Vasconcelos)

Publicado por José Mário Silva às 07:22 PM | Comentários (4)

PRESIDENTE DIXIT (POST SUGERIDO POR LEONOR BAETA NEVES)

«As leis são para cumprir, não são meras sugestões» . Jorge Sampaio.

Publicado por José Mário Silva às 05:27 PM | Comentários (4)

ACADÉMICOS SÃO IGUAIS EM TODA A PARTE

Uma descrição dos meus companheiros de gabinete no Instituto Superior Técnico não é muito diferente do que seria em Long Island, nos EUA, onde fiz o meu doutoramento.
Há um americano e um europeu de leste, sempre a discutirem política. O americano é esquerdista e eleitor do Partido Ecologista. O europeu de leste é religioso e fervoroso apoiante de Bush. Há uma chinesa que não fala com ninguém e está a trabalhar o tempo todo. E há um português que não faz nenhum e passa o tempo na internet.

Publicado por Filipe Moura às 05:24 PM | Comentários (3)

POST PROPOSITADAMENTE CRÍPTICO (2)

Sempre almocei no restaurante chinês. Em frente da porta, oito lanternas vermelhas (acreditem: eram mesmo oito). Oito lanternas vermelhas parecidas com as que se baloiçam sob telhados pontiagudos, nos filmes do Zhang Yimou.
À saída, porém, não começou a chover.

Publicado por José Mário Silva às 04:15 PM | Comentários (8)

POST PROPOSITADAMENTE CRÍPTICO

Hoje, como há oito meses, apetece-me almoçar num restaurante chinês.

Publicado por José Mário Silva às 10:51 AM | Comentários (11)

OUTROS MUNDOS

Há um flagrante paralelismo entre a demissão do Presidente da BBC (e agora também do Director-Geral) e a ausência de demissões no caso das verbas não entregues pelo Ministério da Justiça à Segurança Social. Chama-se responsabilidade. Alguém, cujo nome não recordo, dizia no último programa de Carlos Pinto Coelho, na TSF, que era impensável mentir no Parlamento inglês. Veja-se o que se passa no nosso, em que a mentira parece compulsiva.
Não há, neste caso, confusão entre alhos e bugalhos; nem o caso inglês é judicial e o português um mero erro de gestão administrativa. São ambos erros grosseiros. Só que em Inglaterra os altos titulares de cargos públicos sentem e assumem responsabilidades perante os cidadãos.
Este é um manifesto caso de cultura de responsabilidade, por um lado; e de falta dela, por outro. Ou a diferença entre 800 anos de história e 700 anos de vida parlamentar.
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 10:45 AM | Comentários (2)

CONSTITUIÇÃO EUROPEIA JUNTO À RIA

Esta noite (21h30), em Aveiro, a livraria O Navio de Espelhos promove um debate que vai (tentar) responder a uma pergunta: «Faz sentido discutir a Constituição Europeia?». Presenças confirmadas: Joana Amaral Dias, Nuno Ramos de Almeida e António Salavessa.

Publicado por José Mário Silva às 10:16 AM | Comentários (1)

PAR MÍNIMO

Ouvi mal mas soa bem: "Morreu de arte contemporânea."

Publicado por Francisco Frazão às 01:08 AM | Comentários (1)

janeiro 29, 2004

AS BURRICES DA POLÍTICA

Infelizmente, o "burro" Kerry não é assim muito esperto, pelo menos a avaliar pelas suas declarações reproduzidas aqui (que encontrei por sugestão do meu amigo Rui).
O que é deprimente é constatar que manter um discurso ambíguo sobre temas mais incómodos é necessário para ter sucesso numa eleição americana a nível nacional. Veja-se a decepcionante recepção que Dean tem tido... Infelizmente, Luís Delgado tem muitas vezes razão quando fala de política americana. Só que o que o deixa contente, a mim entristece-me.
Quanto a ter uma "portuguesa" como primeira-dama, a mim não me orgulha nada se esta for uma amiga da Cinha Jardim. Minha querida Hillary...

Publicado por Filipe Moura às 09:04 PM | Comentários (1)

ZOOLOGIA DA POLÍTICA AMERICANA

Se o símbolo dos democratas é um burro, o dos republicanos é um elefante.
A mim quer-me parecer que, a menos que a tendência de voto nas primárias democratas se inverta, a Casa Branca vai ser disputada entre um elefante burro e um burro trombudo.

Publicado por Filipe Moura às 08:50 PM | Comentários (1)

CUIDADO COM OS BURROS!

Zé Mário, o termo "burro" tem significados completamente diferentes em Portugal e na política nos EUA. Dado que é das eleições americanas que se fala, há que ter cuidado. Um americano que lesse o teu texto mas ignorasse a conotação de "burro" em português ia interpretar o teu texto de uma forma completamente distorcida.
O "outro" burro que querias referir era Bush, mas é que "burros" são os democratas! O símbolo do Partido Democrata é o burro!
Claramente, entre o Bush e o Kerry venha o Kerry, mas este não é o nosso "burro" (democrata) preferido, pois não? O meu, pelo menos, é o Dean (apesar de se calhar, infelizmente, não ser o melhor para derrotar o Bush, mas isto é discutível).

Publicado por Filipe Moura às 08:47 PM | Comentários (5)

O DIA SEGUINTE

Este Governo vai cair. Pode demorar dias, semanas, meses, anos. Mas vai cair. O que é preocupante é a situação social em que vai deixar o país. (JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 07:39 PM | Comentários (1)

121.151

Foram 121.151 as assinaturas entregues ontem, na Assembleia da República, a pedir o início dos mecanismos processuais que conduzam a um novo referendo sobre a descriminalização do aborto. Não foram duas, nem três, nem 10.000, nem 75.000. Foram 121.151 assinaturas. Vocês não podem ignorar tanta gente.

Publicado por José Mário Silva às 07:20 PM | Comentários (1)

EUFORISMO (2)

O pior que pode acontecer a um poeta pós-moderno é receber uma ameaça de mote.

Publicado por José Mário Silva às 06:36 PM | Comentários (3)

EUFORISMO

Um euforismo é um aforismo que provoca euforia (pelo menos ao seu autor).

Publicado por José Mário Silva às 06:34 PM | Comentários (0)

QUANTO AO PRÓXIMO PRESIDENTE DOS EUA...

... burro por burro, preferimos este:

Publicado por José Mário Silva às 06:11 PM | Comentários (2)

NUVENS (2)

Há tipos muito mais atentos a estes prodígios atmosféricos do que eu (e não me refiro a meteorologistas, mas a amadores que olham para o céu por razões estéticas). Por exemplo, este brasileiro que criou na internet um belíssimo catálogo de nuvens.

Publicado por José Mário Silva às 04:16 PM | Comentários (5)

NUVENS

Pelo correio, recebo nuvens. Muitas nuvens, dezenas delas, fotografadas no outro lado do mundo por uma amiga que conhece (e alimenta) este meu deslumbramento com as formas etéreas que se desenham no céu.
Vejo, revejo, volto a ver.
Admiro os contornos, os subtis cambiantes da cor, o contraste com o azul profundo do céu, os efeitos de luz, a delicadeza de uns cirrus fibratus . e também o portentoso voo de quatro condores sobre a cordilheira dos Andes.
São coisas destas que me iluminam os dias.

Publicado por José Mário Silva às 03:50 PM | Comentários (1)

POESIA PERFORMATIVA

Hoje, a partir das 18h30m, a programação do Festival W.A.Y., cujo tema este ano é o erotismo, promete. Trata-se de um fim de tarde com poesia performativa, e as performances e respectivos protagonistas são: “O Agitador e a Corrente” de António Poppe, Andrea Martha e Ricardo Jacinto, “Bar Mitzvah a Trois” de Carla Bolito e Vitor Rua e, especialmente, “Carta a uma Iniciante” de Alberto Pimenta. É no Lux, 3 € de entrada com direito à festa mais logo. Apareçam!
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 03:34 PM | Comentários (2)

LINHAS CRUZADAS

Marco o código pessoal seguido de asterisco. Por entre a cadência do comboio em marcha, tento ouvir as mensagens. Falha na rede, chamada descarrilada. De novo, os quatro números, o sinal. Interrompe-me uma chamada; atendo, respondo: do outro lado, silêncio. Silêncio, silêncio, sinal de mensagem. Desligo o telefonema fantasma; é preciso, agora, ouvir o último recado. De novo, os quatro números e o sinal. Do outro lado, a minha voz, sem resposta, e, onde estava o silêncio, o comboio em marcha. Desligo o telemóvel e regresso à leitura. Não acredito que seja só nos livros, o lugar das ficções.

Publicado por Margarida Ferra às 01:26 AM | Comentários (2)

janeiro 28, 2004

SOBRE DECÊNCIAS E TELEVISÕES

O Pedro Adão e o Zé Mário já elogiaram a decência do realizador Ricardo Espírito Santo da Sport TV. Julgo no entanto que omitiram um ponto que considero essencial. Tal atitude foi tomada por um profissional de uma estação de televisão cujo sinal é (muito bem) pago por quem dele usufrui.
Posso estar a ser demasiado céptico, mas será que o mesmo realizador, por muito boa que fosse a sua vontade, poderia ter essa atitude numa estação comercial de sinal aberto?
É evidente que ele também poderia não a ter tido mesmo na Sport TV. O elogio é merecido. Mas vale a pena pensar nisto.

Publicado por Filipe Moura às 05:51 PM | Comentários (17)

MUNDOS

Ele há mundos e mundos.

1) O Relatório Hutton é crítico em relação à BBC. Resultado: o respectivo presidente demite-se.
2) O Ministério da Justiça português é "apanhado" com a mão na massa da Segurança Social. Resultado: ninguém assume responsabilidades políticas.

A distância que vai de Lisboa a Londres é infinitamente maior que duas
horas e pouco, em avião. Sic transit gloria patriae!
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 04:30 PM | Comentários (4)

PARA LÁ DOS LIMITES

Ainda agora falava de decência nas TV's, não era?
Pois.
Saio à rua para comer qualquer coisa no café da esquina.
O televisor, sintonizado na TVI, mostra em directo o funeral de Fehér, lá longe, na sua cidade-natal.
Vemos as pessoas da terra, os adeptos do clube local, a família em lágrimas.
Porquê?
Repito: porquê?
Desculpem lá, mas isto ultrapassa tudo o que é admissível.
Estamos, depois de todos os exageros dos últimos dias, instalados no domínio da pura necrofilia.

Publicado por José Mário Silva às 03:54 PM | Comentários (5)

«QUERO TODA A GENTE FORA DA CARA!»

Ricardo Espírito Santo, o realizador da SportTV que estava na régie, quando as imagens da morte súbita de Miklos Fehér passaram em directo, podia ter explorado a tragédia para além dos limites do razoável. Podia ter mostrado, em grande plano, o rosto do jogador. Não o fez. «Fico pelo menos com essa satisfação, a 'prova' de que este clima de concorrência desenfreada não precisa de ser alimentado com a exploração gratuita da dor das pessoas».
Afinal ainda há decência, um mínimo de decência, no bárbaro mundo das televisões.

Publicado por José Mário Silva às 03:46 PM | Comentários (3)

O IRAQUE DEPOIS DO CHOQUE E DO ESPANTO

«Choque e Espanto? Eu diria antes chocante e espantoso. Não acha, Sargento? ... Sargento?»

Cartoon de Vince O'Farrell

Publicado por José Mário Silva às 03:19 PM | Comentários (2)

«É A CULTURA, ESTÚPIDO!»

Mais logo, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, regressa o debate em jeito de tertúlia «É a Cultura, Estúpido!». A convidada principal será Maria Filomena Mónica, que conversará com Anabela Mota Ribeiro sobre Eça de Queiroz e outros temas.
Pedro Mexia e José Mário Silva falarão sobre um livro de poemas («Jardim das Amoreiras», João Miguel Fernandes Jorge, Relógio d'Água), um volume de ficção («Fotografia de grupo», antologia de contos de 15 autores lusófonos, Cotovia) e um livro de teatro («Terrorismo», dos irmãos Presniakov, edição Artistas Unidos), além da habitual rubrica sobre «o que não andam a ler». No campo do cinema, JMS abordará o filme «Être et Avoir», de Nicolas Philibert; e PM a comédia romântica «Lost in Translation», de Sofia Coppola.
João Miguel Tavares, logo depois, dirá de sua justiça sobre «Escrítica Pop», de Miguel Esteves Cardoso, sobre o primeiro volume de «Os Filmes da Minha Vida/Os Meus Filmes da Vida», de João Bénard da Costa (ambos da Assírio & Alvim); e sobre «Big Fish», o último filme de Tim Burton, que vai estrear no dia 5 de Fevereiro.
No campo musical, Nuno Costa Santos fará referência à banda sonora de «Lost in Translation», aos disco «Das Capital, The Songwriting Genius of Luke Haines And The Auters» e explicará «o que não deveria estar a ouvir».
Segue-se um debate entre Daniel Oliveira e Pedro Lomba, a partir da obra «O Quarto Equívoco, o Poder dos Media na Sociedade Contemporânea», de Mário Mesquita (MinervaCoimbra).
Finalmente, a fechar a sessão, teremos ainda a habitual stand up comedy sobre livros e literatura, por Ricardo de Araújo Pereira.
Apareçam.

Publicado por José Mário Silva às 02:27 PM | Comentários (6)

SUGESTÃO DE LEITURA

Muito se tem falado na blogosfera da segurança (ou da falta dela) e do papel da polícia.
É conveniente ler uns livros e ver uns filmes antes de falar sobre o assunto. E para livros de polícia (mais do que meros livros policiais) não conheço melhor autor do que Rubem Fonseca.
Peguemos em Agosto (1990), edição portuguesa da D. Quixote. A personagem principal é o comissário Mattos, verdadeiro alter-ego de Fonseca, que foi policial antes de ser escritor.
Algumas das teses de Mattos sobre o papel da polícia podem ser extraídas dos diálogos com os seus assessores. Por exemplo:

"«Prender um macumbeiro, um receptador, é uma estupidez. O sujeito preso custa um dinheirão à sociedade, cumpre algum tempo na cadeia e sai pior do que entrou. (...) Se o sujeito for um risco grande para a sociedade, um criminoso psicopata, coisa assim, aí o cara tem que ser tratado apenas.»
«E a família da vítima?»
«Foda-se a família da vítima. Você fala como se estivéssemos no século dezoito, antes de Feuerbach. A pena como vingança. Você devia ter estudado melhor esta merda na faculdade.»"

Não se julgue porém que o comissário Mattos menospreza o papel da polícia na sociedade, conforme se pode ver neste outro diálogo:

"«Marido e mulher? Você vai dar um flagrante no sujeito apenas porque ele deu uns sopapos na mulher?»
«Exactamente por isso. O facto de ser a mulher dele para mim é uma agravante.»
(...)«Eu olhei a mulher e não vi nenhuma marca de lesão. (...) Garanto que a mulher vai ficar contra nós. (...)
«Todo mundo é contra nós, sempre.» (...)
Autor, vítima, advogado e escrivão esperavam pelo comissário.
«Então, doutor? Tudo resolvido?»
«Tudo. Vamos continuar o flagrante.»
«Doutor, meu cliente foi impelido por relevante valor moral, logo em seguida à injusta provocação da vítima. (...) Ela está arrependida, sabe que errou, pediu desculpas, o senhor não ouviu? (...)»
«Esse crime é de acção pública, não me interessa a opinião da vítima. Vamos continuar o flagrante.»
«Doutor, ela chamou o meu cliente de broxa
[impotente]. Algum marido pode ouvir a própria esposa chamá-lo de broxa sem perder a cabeça? (...)»
«Ninguém mais autorizado a chamar um sujeito de broxa do que a própria mulher.» (...)
O flagrante foi lavrado, assinado (...). Mattos tirou um Pepsamar do bolso, enfiou na boca, mastigou, misturou com saliva e engoliu. Ele cumprira a lei. Tornara o mundo melhor?"

Leio o Rubem Fonseca e fico sem palavras. Eu nunca li O Caso Morel. Mais um bom motivo para comprar o Público hoje.

Publicado por Filipe Moura às 01:30 PM | Comentários (2)

REFORÇO DE INVERNO

O Filipe Moura começou por ser itálico no primeiro BdE. Depois, foi ser de esquerda (e muito bem) para outro lado. Agora, num momento em que faz cada vez mais sentido unir esforços, regressa a casa sem dramas, para um novo ciclo de vida na blogosfera.
Não, ele não é o filho pródigo. É só o amigo que gostamos de reencontrar ao nosso lado. E que se junta à equipa (confiram o cabeçalho), postando como os outros: com toda a liberdade e toda a autonomia.

Publicado por José Mário Silva às 11:45 AM | Comentários (1)

ATENÇÃO: A CAIXA DO CORREIO MUDOU

Esqueçam o velho endereço no Yahoo, já quase a rebentar pelas costuras e sempre atafulhado de spam. Como podem ler no cabeçalho, o nosso novíssimo endereço de correio electrónico é o seguinte: CORREIO@BDE.WEBLOG.COM.PT. A partir de hoje, é para aqui que devem passar a enviar todas as colaborações, críticas, ideias com piada, pequenas ou grandes raivas (contra nós, contra o governo, contra o mundo), elogios, ralhetes, correcções factuais, incentivos, emendas ortográficas, palmadinhas nas costas, o que quiserem.

Publicado por José Mário Silva às 11:35 AM | Comentários (4)

ENGANO

Estado e Governo nunca foram a mesma coisa.
Parece que continuam a não ser.
Consta, agora, que o Governo engana o Estado.
Não está mal pensado e ajuda a recompor a alma lusitana, depois daquele domingo difícil de esquecer.
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 12:23 AM | Comentários (0)

janeiro 27, 2004

FALANGE, FALANGINHA, FALANGETA

Num dos seus «vinte e cinco poemas para vinte e cinco estudos anatómicos de Vieira da Silva» («Jardim das Amoreiras», Relógio d'Água, 2003), João Miguel Fernandes Jorge escreve que os ossos dos dedos «têm nome de barco». E têm mesmo. Repitam baixinho: «falange, falanginha, falangeta». Flutuam as mãos, a caminho do mar alto.

Publicado por José Mário Silva às 11:24 PM | Comentários (0)

COALITION (SLOW RETURN)

Lembram-se do meu post coalition?
Eis um bom motivo para entrarem em acção as forças da coligação.

Começo por roubar um post da Maria nas "palavras da tribo":
"OFICINAS CAIS 2004
Durante todo o mês de Fevereiro, as palavras da tribo e um grupo de pessoas das mais diversas áreas que a si se juntaram, irão estar em Marvila, no futuro Centro de Dia da Revista Cais, a dar 14 oficinas dirigidas à comunidade sem-abrigo da cidade de Lisboa. Estamos a falar de oficinas de fotografia, leitura, códigos de linguagem, escrita, teatro, música, dança, yoga, internet (criação de um blog!), desenho, escultura, Kung-Fu flor-de-lótus.
Através desta iniciativa, a Cais estará a testar o funcionamento do Centro de Dia, onde pretende vir a acolher, orientar e dar formação a esta comunidade, complementando a actividade dos albergues nocturnos e dos demais centros de acolhimento da cidade.
Quem quiser colaborar connosco é bem-vindo, estamos a precisar de voluntários que possam estar no local durante o funcionamento dos oficinas a prestarem apoio e, no caso da oficina de internet (que funcionará todas as 6ªs feiras das 10:00 às 13:00), a dar formação "bloguistica".
(Horário das oficinas: 2ª a sábado, das 10:00 às 17:00). Para mais informações contactar a Cais: 21-8801010/19).
mp "

Como vêem, são precisos alguns voluntários, em particular na área técnica cujo objectivo é a criação de um blogue.
Está aí o número de telefone.
Deixo ainda o e-mail das palavras da tribo:
palavrasdatribo@hotmail.com

Publicado por tchernignobyl às 10:16 PM | Comentários (9)

QUALQUER DIA, QUALQUER DIA... (ZECA)

A ministra dialogou e cedeu à boa maneira guterriana.
Mais doze cêntimos de aumento para cada funcionário público.
Vale a pena fazer bem as continhas.
Eles vão abusando...

Publicado por tchernignobyl às 09:29 PM | Comentários (7)

TERRORISMO NO TABORDA

Hoje à noite, pelas 21h30, os Artistas Unidos levam à cena uma peça dos irmãos Presniakov: «Terrorismo». A encenação é de Jorge Silva Melo (assistido por João Meireles, Andreia Bento e Sérgio Grilo). Intérpretes: Américo Silva, Andreia Bento, António Filipe, António Simão, Cecília Guimarães, Carla Galvão, Glicínia Quartin, Isabel Muñoz Cardoso, Joana Bárcia, José Airosa, Nuno Melo, Paula Moura Lopes, Pedro Carraca, Pedro Marques, Sérgio Gomes e Teresa Sobral.

Os dois dramaturgos russos vão estar presentes nesta sessão especial que assinala o quarto aniversário da companhia. A entrada é gratuita.

Publicado por José Mário Silva às 07:20 PM | Comentários (2)

SCROLL DOWN

Há actualizações tardias lá para baixo (no domingo, por exemplo). Se tiverem paciência, verifiquem.

Publicado por José Mário Silva às 07:15 PM | Comentários (0)

N&S

Os benfiquistas mais metafísicos da blogosfera ainda não disseram nada sobre a morte de Miklos Fehér. Compreendo o silêncio. Respeito a tristeza. A dor. O luto. Mas fico sobretudo arrepiado por abrir o blogue e descobrir que o post mais recente, editado na sexta-feira (dia 23) pelo Nietzsche, foi este:

«Última Vontade. Morrer assim / como outrora o vi morrer . , / o amigo que lançou relâmpagos e olhares / divinos na minha escura juventude: / . malicioso e profundo, / um bailarino na batalha ., // entre guerreiros o mais jovial, / entre vencedores o mais grave, / um destino sobrepujando o seu destino, / duro, pensativo, clarividente .: // estremecendo porque vencia, / exultando porque morrendo vencia .: // ordenando, ao morrer, / . e ordenou o aniquilamento... // Morrer assim / como outrora o vi morrer / vencendo, aniquilando...»

Publicado por José Mário Silva às 05:59 PM | Comentários (0)

«MÃO-DE-OBRA BARATA» OU «DEPOIS DOS UCRANIANOS, OS MARCIANOS?»

Cartoon de Larry Wright («The Detroit News»)

Publicado por José Mário Silva às 05:12 PM | Comentários (2)

CARTAZES

Em trânsito entre o Camões e o Chiado, assobio e rio porque isso de fumar não sei nem gosto. Que belo passeio matinal, gente que passa e repassa, o quiosque a abarrotar de mirones a ver as gordas e eis que já estou à boca do metropolitano. Num relance, apercebo-me que a paisagem urbana sofreu uma pequena alteração, quase um detalhe de somenos importância... O Pessoa levantou-se e pediu uma Frize limão? O Chiado recolheu a mão direita e estendeu a esquerda em pedinchice canhota? Nada disso... O que se passa é que o cartaz do Bloco . da esquerda, bem entendido . acerca do aborto foi vandalizado. Algum mestre de obras dos movimentos pela vida tratou de encharcá-lo em tinta, a bem da tolerância democrática e do debate civilizado. Ao que sei, todos os outros espalhados pela cidade receberam a benção da tinta alva, pura e virginal. Esta rapaziada que gostava de dar personalidade jurídica ao feto ou quem sabe mesmo ao acto de concepção, acaba de criar um novo movimento . o Juntos Pela Trincha, contra os vermelhos ateus armados em parteiros. (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 02:12 PM | Comentários (3)

AU

Os Artistas Unidos, um dos projectos mais estimulantes da cultura portuguesa contemporânea, completam hoje quatro anos. Como prenda de aniversário, eles não queriam nada de especial. Apenas uma casa para morar, em vez de um poiso provisório. Mas de quem pode e deve resolver o assunto, só chega o mais profundo e teatral dos silêncios.

Publicado por José Mário Silva às 11:55 AM | Comentários (6)

CORRIDA AOS ARMAMENTOS

Para cumprir eficazmente a sua missão na "war on terror" e porque a soldado portuguesa é tão boa como as melhores, Portugal necessita urgentemente de armar-se.

Aqui fica a lembrança e a sugestão ao ministro Portas.

Publicado por tchernignobyl às 11:08 AM | Comentários (1)

DIRECTOR'S CUT CUT

Segundo uma notícia do Público, o filme «Ronin», exibido no passado sábado pela TVI (ver nota), foi cortado em seis minutos para não atrasar o inicio do telejornal da estação.
Quanto aos telespectadores habituais da TVI, não consta que tenham dado pela diferença.
Eu não dei.
É que evito o máximo possível ver a TVI.
E faço mal.
Os responsáveis da TVI andaram bem.
É bonito ver alguém interessar-se finalmente pela pontualidade.
No fundo não custa nada.
No caso da programação televisiva, não existem desculpas para os atrasos.

Os filmes cortam-se.
As "entidades" esperam o tempo que for preciso para "entrarem no ar".
Os "eventos" são programados em função da hora dos telejornais.
A "realidade", "informativa" ou ficcionada, é facilmente moldável e não tem obrigatoriamente de existir qualquer contradição entre o seu fluir controlado e os legítimos interesses comerciais de qualquer estação.
Os espectadores que mudarem de canal durante os intervalos publicitários serão no futuro penalizados por utilização abusiva dos "conteúdos".
Do ponto de vista da história dos audiovisuais, as vantagens são também grandes. Um novo estilo, o "Director's cut cut" pode florescer.
Podem criar-se Emmys para os cortes mais ambiciosos, remixes que integrem passagens de RAN com momentos da coreografia emocional que se desenrola "na casa".
No limite, a exibição de filmes tornar-se-á desinteressante e será substituída com vantagem pela sequência de trailers que permite manter mais altos os níveis de atenção, asseguram a "variedade" e cumprem mais cabalmente a função de "distrair".
E não necessitam de grandes subsídios para serem produzidos. Quando muito de alguma "sponsorização".
Não é o que se passa já com os canais "musicais"?

(Nota: estive para não pôr este link, aviso já que este site é daqueles seca, cheios de animação com morangos com açúcar e janelinhas para se fazer download de porcarias "para melhor visualização" até se entrar na página)

Publicado por tchernignobyl às 10:18 AM | Comentários (4)

DESTA É QUE FOI

Ontem, o BdE ultrapassou a barreira psicológica das mil visitas (1070), enquanto o famoso post da Anita cortava a linha dos cem comentários (104). Agradecemos a todos os nossos leitores, mais uma vez, tamanho empenho e participação.

Publicado por José Mário Silva às 09:58 AM | Comentários (3)

janeiro 26, 2004

UM LINK SOBRE O ATLÂNTICO

Entre o Rio de Janeiro e Pernambuco, quatro brasileiros (capitaneados pelo incansável Renato Motta, nosso correspondente electrónico) fazem um blogue que vale a pena visitar com regularidade: o Babilônia. Quem disse que as amizades bloguísticas não podem ultrapassar as fronteiras portuguesas? O link transatlântico vai ficar também, em permanência, na nossa lista de favoritos.

Publicado por José Mário Silva às 11:34 PM | Comentários (2)

A MORTE POR INSTANTES

Observar uma morte em directo deveria fazer-nos afastar e procurar um pouco de silêncio por nós e por quem partiu assim à nossa vista.
Não é todos os dias que somos lembrados com crueza que dez segundos bastam para nos transportar de um sorriso irónico ao fim absoluto.
E que apesar de tudo talvez seja um privilégio raro um homem poder sorrir de forma assim irónica e desafiadora para a vida na plenitude dos seus poderes, a dez segundos do seu fim.
O que se passou hoje nas televisões não é pois uma questão de .exagero..
Não temos de ter medo do .exagero. quando este é uma manifestação espontânea e genuína das nossas emoções.
Do que se trata aqui é de histeria.
Não faz sentido perante o que classificamos de chocante morte em directo do jogador.
Se a morte do jogador foi assim tão chocante, porquê repeti-la dissecá-la decompô-la nos seus movimentos desde o instante do ultimo sorriso o encurvar-se sobre si próprio até ao desmoronar final do corpo desamparado e de braços abertos, dezenas (centenas) de vezes, ao longo de todo o dia em várias televisões?
A mim pareceu-me intolerável, mas estou com certeza equivocado porque provavelmente não se trata aqui de .choque..
Trata-se de fascínio.
Ou nem isso.
Um homem entrevistado ontem à porta do hospital de Guimarães disse que assistira ao acidente no estádio e tinha ido ao hospital .por curiosidade..

Publicado por tchernignobyl às 10:46 PM | Comentários (10)

DISTÂNCIA DE SEGURANÇA

Contou a Jane Birkin antes de cantar, no final, "La Javanaise": uma vez, num concerto, esqueceu-se de como começava a letra; perguntou nos bastidores a um bombeiro que lá estava a fumar e este disse secamente "J'avoue/ J'en ai/ Bavé/ Pas vous/ Mon amour" antes de a) apagar o cigarro ou b) dar mais uma passa (aqui o meu francês perdeu-se).
Esta é a segunda história que ouço de bombeiros a fumar nos bastidores dos teatros: bem, na primeira ele pensava que estava nos bastidores mas estava de facto de costas para o público que o via por uma janela.
Partindo do princípio de que, em Portugal e em França, não era o mesmo bombeiro, é possível que os regulamentos anti-incêndio tenham acolhido a visão brechtiana que defende a distância crítica do espectador que fuma. Ao nível da interpretação, igual modernidade: a ausência de emoção ao dizer a letra de Gainsbourg; as costas viradas para o público contrariando a regra clássica.

Publicado por Francisco Frazão às 07:04 PM | Comentários (0)

EM DEFESA DA CAMARADA ANITA

Caríssimos,
Cabe-me denunciar os vossos preconceitos ultrapassados e ignorantes. Aqui declaro que a Anita é, hoje em dia, perfeitamente capaz de queimar o seu sutiã em público ou de pontapear um polícia de choque nos túbaros. Actualizem-se e acompanhem a evolução desta heroína dos nossos tempos. Eis um cliché de género a fomentar e acarinhar; um exemplo de virtudes revolucionárias a recomendar às filhas da burguesia!
(O Fantasma do Natal Passado)

Publicado por José Mário Silva às 01:57 PM | Comentários (6)

SÓ PARA CONTEXTUALIZAR

O post anterior chegou por e-mail há dez minutos. O post seguinte chegou na sexta-feira, o dia forte da polémica «Anita». As nossas desculpas ao Fantasma do Natal Passado pelo atraso. A verdade é que só agora aprendemos a colocar imagens originais na internet (mea culpa).

Publicado por José Mário Silva às 01:55 PM | Comentários (1)

HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA (SÉC. XXI EM PORTUGAL)

Uma história para se pensar um bocadinho: passou-se pelo Natal, mas serve para qualquer altura. As festas de aniversário, por exemplo.
"Então, Mariana, tiveste muitas prendas?" "Tive, até demais! Ainda nem tive tempo para brincar com todas."
Esta sensata Mariana tem 6 anos. Não queria ligar isto com o "post Anita", mas a tentação é grande, porque se trata de práticas educativas. Que modelo de sociedade queremos defender? Que valores? Que limites para as nossas crianças? Atenção, não pensem que venho com o discurso de "agora é mau, dantes era bom". Em todas as épocas há bom e mau. O que me preocupa é quando, por amor, estamos a retirar às nossas crianças o "direito a desejar". É bom saborear antecipadamente . quando as coisas nos caem do céu, esse gostinho é roubado. A mim não me parece bem, e a vocês?
(Leonor Baeta Neves)

Publicado por José Mário Silva às 01:53 PM | Comentários (4)

MORTE NO ESTÁDIO

Já vi muitas vezes (talvez demasiadas) as imagens em câmara lenta: o corpo caindo, desconjuntado, sobre a relva. Coisa terrível ver assim, olhos nos olhos, a morte invadindo um corpo.
E depois aquele sorriso. Um segundo antes do relâmpago, Miklos Fehér sorria.
Sorria ironicamente porque o árbitro o castigara, punindo esse péssimo hábito que alguns jogadores têm de perder tempo, à beira da vitória.
Sorria sem saber que tempo era justamente o que ele já não podia perder. E que a vitória não era vitória nenhuma; mas a derrota final dos seus 24 anos.

Publicado por José Mário Silva às 11:30 AM | Comentários (8)

MIKLOS FEHÉR (1979-2004)

Percebeste mal, Miklos. O árbitro mostrou-te só um amarelo. Aquilo não era nenhuma ordem de expulsão.

Publicado por José Mário Silva às 11:16 AM | Comentários (43)

MAIS UMA COLABORAÇÃO INTER-BLOGUÍSTICA

O Jorge, habitual comentador do BdE, enviou-nos o seu 264.º spamema (poema inspirado em mensagens de spam, recebidas por correio electrónico). Reza assim:


COMO VAI A FAMÍLIA?

Olá, querido amigo
como vai a família?
Por cá todos mal
como sempre
a avó morreu
de social-democracia
dizem que é doença
que ataca muito o fígado
o mais novo
anda em pomadas
o médico diz que tem
pedofilia
a senhora, coitada
anda com umas crises
nas partes baixas
ela pensava que era
hemorroidal
mas afinal
parece que é
currupção
e quanto a mim
como não tenho luvas
apanhei um desemprego
que não há meio de passar
mesmo a pão e água
é só cabeça e barriga
a doer
Enfim, tudo normal
e tu, como tens passado?
E como vai a família?
Abraços

(Jorge)

Publicado por José Mário Silva às 10:27 AM | Comentários (3)

ZAPPING

Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, diz que não confia nem nos números do governo (24%) nem nos dos sindicatos (80%) de adesão à greve, preferindo "nestas coisas" ficar pelo meio: 40%.
Marianne Faithfull fala na Dois da Ópera dos Três Vinténs e dos Sete Pecados Capitais de Kurt Weill, mas nas legendas lê-se "Kirk Vial".
Cecília Carmo, no Domingo Desportivo, fala do final do Vitória de Guimarães-Benfica como "um jogo impróprio para cardíacos".

Publicado por Francisco Frazão às 02:09 AM | Comentários (5)

janeiro 25, 2004

LEI DE NEWTON

Para ele, a força da gravidade não existia.

Publicado por José Mário Silva às 06:47 PM | Comentários (3)

FRACTAL BLOGOSPHERE

Eis um excelente artigo sobre blogues . onde se fala de escalas, níveis fractais e da melhor forma dos bloggers se posicionarem na complexa arquitectura da blogosfera. (Agradecemos a dica ao António Granado)

Publicado por José Mário Silva às 06:35 PM | Comentários (0)

LEVANTA-TE LÁZARO

E eu que pensava que os milagres vinham na Bíblia e que reabilitações surpreendentes só mesmo com o filho pródigo, queres ver que as aulas de Religião e Moral até ao 9.º foram verbo de encher?
Eis senão quando o coro dos tribunais . saudoso José Afonso que neles falaste em mão primeira . resolve inverter a marcha no IP da justiça e das autarquias e temos a Senhora Felgueiras a voltar formalmente ao seu cargo? É tempo de reparar os direitos a esta perseguida de saco azul e cor-de-burro-quando-foge, sobretudo quando se foge para o Brasil, com direito a Judite de Sousa, que a RTP não é avara em meios.
Há precedente, logo há mais figuras de imagem denegrida que urge desempoeirar. Voltará padre Frederico à sua diocese madeirense, terra de comunistas que inventam estórias de pedofilia e mimos infantis? Poderá alguma vez Zezé Beleza ser ministro da Saúde? Caldeira onde andas, desde que o teu nome arrefeceu? "Lázaro levanta-te e caminha", diziam eles. Isto é pátria Lusa, digo eu.
(Pedro Vieira)

Publicado por tchernignobyl às 05:07 PM | Comentários (2)

ERRO DE PARALAXE

Ao ler a primeira página do DN de hoje, ia-me equivocando com uma das manchetes. Onde está escrito «João Soares sente-se à direita do pai» percebi, biblicamente, «João Soares senta-se à direita do pai».

Publicado por José Mário Silva às 04:58 PM | Comentários (1)

POP(ULAR)OV

O Santana Lopes, cada vez mais gordo, foi a mais um jantar.
Desta vez em Famalicão.
Dois mil pêessedesses famalicences juntaram-se numa patuscada em sua homenagem. Merecida. Só mesmo Deus sabe o quanto Lopes traz Famalicão sempre sempre no seu coração.
Órfãos talvez de um Presidente de Câmara, mirones do namorado de senhoras colunáveis, inquietos com o futuro da Presidência, quiçá da nossa sobrevivência como Nação independente.
O Lopes não se fez rogado. Disse que está pronto para "tudo".
E "tudo" parece ser possível. Um comensal bacano com um casaco amarelo até já se lhe referiu como o "professor Santana Lopes" (vai ter nota fraca do outro professor) .
Uma loira engraçada disse que votará nele. Não disse mas pressupõe-se que o acha um animal. Político.
A parte intelectual chegou quando a imprensa chegada de Lisboa a mata cavalos o avisou dos outdoors (um coche fatelas) que o PS afixou na capital. A direcção do PS "não acerta uma" afirmou com desdém, numa das declarações políticas mais inteligentes que já proferiu nos últimos quarenta e tal anos. Os socialistas "normais", esses inspiram-lhe "respeito".
A esquerda pode andar com problemas com o candidato presidencial, mas olha que a direita...

Publicado por tchernignobyl às 03:34 PM | Comentários (3)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Ainda a propósito do espectáculo de ontem à noite, na Gulbenkian:

86.
interditar a memória.
Tornar a inteligência bela é voltar à não inteligência.
Só é belo o que não é inteligente; porque o inteligente é o não imediato: um passo atrás ou à frente, enquanto o belo é o instante, a superfície tão fina que frente igual a COSTAS, o início é o mesmo que o FIM.
interditar a memória.
a memória é ocupação do espaço.
a memória é o não imediato,
a memória é o inteligente.
O Corpo inteligente é inteligente mas não é corpo porque corpo é estar presente, agora, por completo, e o inteligente, repito o inteligente é o não-imediato, um passo atrás ou à Frente.
a dança não tem Memória.
A criatividade não tem Memória.
O Corpo começa agora no momento que acaba.
O Corpo começa no mesmo sítio que acaba.
O corpo é 1 sítio e 1 tempo e depois 1 outro sítio e 1 outro tempo que não recordam o sítio e o tempo anteriores.
CORPO AMNÉSICO.
Esqueceu porquê aqui e agora.
Aqui e agora e antes nada.
Aqui e agora e depois nada.
CORPO AMNÉSICO e sem projectos.
Cortar-lhe a cadeira dos velhos e o monte donde se vê o FUTURO dos NOVOS.
Um CORPO sem cadeira (não há cansaço porque antes não existiu) e UM CORPO sem VISÃO (o FUTURO é 1 espaço onde ainda não se chegou).
Sem visão não há nenhum lado onde se chegar, e sem cadeira não há sítio onde descansar, portanto só resta ao corpo ser todo aqui e agora e só resta ao corpo dançar.
(Corpo a quem cortaram a cadeira e os olhos).

Gonçalo M. Tavares, «O Livro da Dança», Assírio & Alvim (2001)

Publicado por José Mário Silva às 01:10 PM | Comentários (0)

DANÇAS VISÍVEIS

«White» . coreografia de Paulo Ribeiro para o Ballet Gulbenkian. Os homens vestidos de negro dançaram como se a alegria tivesse explodido dentro dos corpos, no mais fundo dos músculos. E a música dos acordeões (tocada em palco pelo grupo Danças Ocultas) pudemos quase vê-la, pairando sobre o palco como um catalizador de gestos e movimentos.

Publicado por José Mário Silva às 12:51 PM | Comentários (0)

ELE HÁ GENTE QUE NÃO SE CONFORMA

A Ana Sá Lopes, batalhadora como é, não desiste. Vai daí, junta a não sei quantas declarações de amor ao príncipe Filipe de Espanha, já publicadas anteriormente, uma última e comovente carta aberta, escrita num primoroso portunhol, em que se lança literalmente aos pés do futuro monarca e quase lhe exige: «Casa comigo».
A bem do futuro da península . ou, se quiserdes, dessa utópica Iberia com que muitos portugueses já sonham . eu se fosse ao castelhano ponderava. Já sabemos que a ASL é uma magnífica jornalista. Não duvidamos que seja, também, um excelente partido.

Publicado por José Mário Silva às 11:28 AM | Comentários (2)

janeiro 24, 2004

DURO DE LER

Este seria o blogue que eu mais gostaria de ver desaparecer ou mudar de nome e cores.
E é, simultaneamente, um dos mais importantes que conheço.
Ao longo do ano passado foi, muito longe de grandes retóricas e polémicas, um dos retratos mais duros e marcantes da situação do nosso país. Um compêndio e um serviço público que passou (e passa) quase desapercebido.
No entanto, a questão concreta é sempre esta:
Ninguém pode fazer nada para ajudar?
Sugestões precisam-se.

Publicado por tchernignobyl às 06:52 PM | Comentários (7)

SERÁ ESTE O RETRATO DO UMBIGUISMO NA BLOGOSFERA?

Publicado por José Mário Silva às 06:23 PM | Comentários (1)

SEIS DÉCIMAS MILÉSIMAS

Para discutir mais cuidadosamente a questão levantada pelo maradona, acerca da justificação dos números referidos no post 6.500, do zémário, convinha começar por perceber como é que o governo chegou ao numero de seis mil e quinhentos, enquanto quota para os estrangeiros que acha ser de legalizar em Portugal em 2004.
É que o número é ridículo se pensarmos que dez vezes mais do que isso espera o governo e o país que nos "invada" durante o Euro 2004 (maioritaria ou exclusivamente europeus, bem entendido).
Só trabalhadores intervenientes directa ou indirectamente no espectáculo, incluindo jogadores, staff técnico, dirigentes, agentes, fotógrafos, cameramen, jornalistas, cozinheiros, cabeleireiros, namoradas e call girls dos craques devem "comer" para aí metade da quota dos 6.500. Será esta a ideia?
E é ridículo por uma outra razão: é tão insignificante (cerca de 0,00059 da população existente em Portugal) que pressupõe uma análise tão "fina" das flutuações da população, do mercado e das condições económicas, que ninguém em geral nem o governo em particular (ainda por cima embalado num discurso "mobilizador") está ainda (felizmente?) em condições de prever.
Há ainda outra questão... Muita gente que quer "racionalizar" o "problema" da imigração avança com o medo de dar argumentos à "extrema-direita". Eu considero que devemos estar atentos a essas coisas e peço a essas pessoas que reportem casos concretos de ressurgimento, na vida política portuguesa, dessas posições de extrema-direita. Para nos podermos sintonizar.

Publicado por tchernignobyl às 05:44 PM | Comentários (0)

HOMENAGEM

Daqui a pouco (15h30), no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, será feita uma justíssima homenagem a uma melhores poetas portuguesa contemporâneas: Fiama Hasse Pais Brandão.
Maria Teresa Dias Furtado apresentará a obra. Seguir-se-á um recital com poemas de Fiama e de «poetas com os quais estabelece implícito e explícito diálogo». A fechar, está prevista a leitura de excertos do romance «Sob o Olhar de Medeia», por Maria Emília Correia, Teresa Lima e João Grosso.

Publicado por José Mário Silva às 02:27 PM | Comentários (1)

FELGUEIRAS

O acórdão do Tribunal Constitucional que tem como efeito o regresso de Fátima Felgueiras à condição de Presidente da Câmara é, no mínimo, lamentável. Para os senhores juízes, a justiça é cega; por mim, preferia que visse. E que fizesse justiça material, em vez de fazer justiça formal.
Assim, teremos uma foragida (perdão, exilada política) a presidir a uma autarquia, com direito aos correspondentes vencimentos e mordomias.
Esperar-se-ia, agora, que os autarcas renunciassem aos mandatos para provocar a necessidade de eleições intercalares e fazer o que o tribunal superior não foi capaz de alcançar . impedir o insulto que o acórdão consubstancia.
Para isso, era preciso que houvesse vergonha. No país e em Felgueiras. Mas algo me diz que não há.
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 02:23 PM | Comentários (4)

NASCIMENTO DE UM MITO

São fortes as probabilidades de se ter descoberto gelo em Marte, o que significa que muito em breve uma bactéria ou um vírus industrioso, depois de uma boleia clandestina nalgum dos múltiplos veículos espaciais enviados pelos terrestres, poderá refazer a sua vidinha no planeta vermelho.
Daqui a uns vinte milhões de anos, já a civilização inteligente na terra terá desaparecido no que será então o planeta cinzento-alcatrão (ou castanho-fuligem) e uns homenzinhos verdes especularão sobre as origens extra-marcianas da vida em Marte, sonhando com viagens interplanetárias ao planeta Terra, que imaginarão povoado por belas terráqueas vermelhas, desempenadas e dotadas de belas antenas.

Publicado por tchernignobyl às 02:16 PM | Comentários (2)

DIA TRIUNFAL

Ontem, o BdE II bateu vários máximos. De visitas: mesmo à beirinha das mil (992). De comentários a um mesmo post: 81. De referências noutros blogues. De telefonemas. De e-mails (a maioria dos quais enviados para a morada antiga). De mensagens SMS. O diabo a sete.
Queremos por isso agradecer a todos os nossos visitantes e leitores (mesmo os que sistematicamente nos atacam), a todos os amigos que nos enviam sinais de apoio e solidariedade, bem como à blogosfera em geral.
Será que me estou a esquecer de alguém?
Ora deixa cá ver...
Ups, estou, estou.
(pigarreio)
Agradecemos também, do fundo do coração, à Anita.
Claro.

Publicado por José Mário Silva às 02:12 PM | Comentários (5)

GREVE (3)

Quanto a sindicatos, apenas três notas, quase telegráficas.
Pela segunda vez desde que foi consagrado na lei o direito à greve . não esquecer que se trata de um direito fundamental, reconhecido em qualquer país democrático e civilizado . as frentes sindicais e sindicatos da função pública (CGTP, UGT e STE) estiveram na mesma acção de greve. Sendo que uma frente sindical é tida por afecta ao PCP, que a outra é tida por afecta ao PS e que o STE é considerada afecta ao PSD, esta participação na mesma greve tem um valor simbólico enorme e deveria dar que pensar. Fica claro que a greve não teve uma raiz de instrumentalização partidária, o que é muito importante. Agora, daqui para a frente, ver-se-á em que medida os sindicatos têm capacidade para representar trabalhadores e não partidos ou governos.
A guerra de números é indecorosa. Entre 25% (governo) e 80% (sindicatos), estará a verdade. Vistos com distanciamento, estes números significam que a greve foi maior do que o Governo gostaria de admitir (ou seja, foi suficientemente grande para não poderem menorizá-la mais) mas ficou aquém da paralização que os sindicatos quereriam.
(JCampos)

Valha a verdade, porém, que com a proliferação de contratos a termo, os trabalhadores têm medo de avançar; e isso é, seguramente, uma das razões que leva os governos (o outro, este e, seguramente, os próximos) a não querer resolver este indecente problema.
Com esta greve geral, os sindicatos terão dado o último tiro grevista. A partir de agora, terão de sair das suas barricadas burocráticas e conformistas e encontrar outras formas de intervir e protestar, para além de greves e manifestações. Adivinho que, para os trabalhadores da função pública, não há mais solas; e o dinheiro que perderam já foi muito sacrificado.
Imaginação, pois. Trinta anos depois do 25 de Abril, mudou muita coisa. Têm que mudar também as chamadas "formas de luta".

Publicado por José Mário Silva às 01:22 PM | Comentários (1)

BLACKOUT

Durante dez horas . da uma da manhã às 11h00 . foi impossível aceder a este blogue e a todos os outros que pertencem à plataforma weblog.com.pt. O que é que se passa, ó Paulo? Andam a querer sabotar a menina dos teus olhos? Será isto obra de hackers invejosos, a mando de quem domina o mercado? Não sei, não. Mas que cheira a esturro, cheira.

Publicado por José Mário Silva às 12:47 PM | Comentários (2)

janeiro 23, 2004

SLEEPLESS IN TOKYO

O muito aguardado segundo opus de Sofia Coppola . «Lost in Translation» . é uma comédia romântica simpática, bem filmada, com óptimos actores, um argumento subtil e alguns rasgos de inspiração. Infelizmente, sofre de uma síndrome que já assassinou muitas outras obras promissoras: o excesso de expectativas. Onde aguardávamos surpresas, só encontramos confirmações. E onde se exigia um golpe de asa, o filme deixa-se estar, muito contente, na sua elegância confortável. À saída, tudo aquilo nos sabe a pouco. Ou como diriam os críticos, a três estrelas.

PS: Convém deixar dito que só para ver Bill Murray (um portento de humor, versão underacting) a cantar, num karaoke japonês, uma versão neurasténica de «More Than This», dos Roxy Music, se justifica uma ida ao cinema.

PS2: Não há ironia mais deliciosa do que a involuntária. Por exemplo, a que levou alguém a traduzir «Lost in Translation» por «O Amor é um Lugar Estranho».

Publicado por José Mário Silva às 11:58 PM | Comentários (3)

COALITION

O blogue que descobri no post anterior faz referência a um outro que me parece um bom exemplo, uma "coligação" (passe a conotação negativa que a palavra ganhou nos últimos tempos) de sem-abrigo na forma de homeless blogs webring. É uma ideia que poderia estender-se a outros aspectos das lutas sociais no nosso país.
Talvez fosse bom, como diria o Mário, trocarmos umas ideias sobre o assunto. Estas bloggers estão a trabalhar com os sem-abrigo e a Cais num projecto muito interessante acerca do qual darei notícias mais detalhadas nos próximos dias . o que passará também por pedir voluntários para certas tarefas.
Estão a ver quando eu falei ali atrás em "mais porrada e menos barulho"?

Publicado por tchernignobyl às 11:54 PM | Comentários (0)

HOME LESS HOME

Atrás de uma sugestão da Maria, encontrei um outro mundo.

Publicado por tchernignobyl às 11:22 PM | Comentários (0)

GREVE (2)

Entre as muitas manifestações de sobranceria e ignorância que a greve de hoje suscitou, houve três aspectos que recorrentemente assomaram ao discurso da "inteligência": primeiro, a incompetência dos trabalhadores da função pública; depois, os privilégios dos funcionários públicos; e, por fim, a marcação da greve para uma sexta-feira.
Comecemos pela questão da sexta-feira. Àqueles que denunciam a sexta-feira como o dia ideal para um fim-de-semana prolongado, é preciso lembrar que um dia de greve é um dia sem salário; ora, ninguém . nem mesmo o tal "estúpido" funcionário público . prescinde do ordenado de um dia apenas para ter um dia de descanso; principalmente quando sabe . e todos os funcionários públicos sabem . que a greve é inútil. Inútil porque o Governo tem uma agenda (cada vez mais clara, aliás) e prossegue-a sem vacilar; inútil porque o Presidente da República não percebeu (estou a ser generoso) até onde a promulgação do regime de aposentação afrontava a dignidade da função pública; e inútil porque o Tribunal Constitucional tem uma composição que reflecte sempre, de alguma forma, a maioria conjuntural que governa o País. Por isso, a greve é acima de tudo uma afirmação de cidadania, de consciência cívica e política, merecedora de mais respeito do que aquele que esse "pessoal" lhe consagra. Se me assistisse um vago assomo de tentação totalitária . o que de todo não acontece . diria que um cidadão em greve é, regra geral, um voto qualificado na democracia das urnas.
(JCampos)

A segunda questão respeita à propalada incompetência dos funcionários, que trabalham pouco e mal, ganham bem, e têm apreciações de mérito exemplares. Disto, a única verdade é que todos têm mérito exemplar, o que é, de facto, manifestamente excessivo; há excelentes e péssimos, como acontece em tudo, incluindo no caso dos ministros e secretários de Estado. Mas, de quem é a culpa? Como e quem distingue o trigo do joio? E que papel desempenhou e desempenhará o cartão do partido? Que responsabilidades assacar aos trabalhadores? Não será tarefa dos responsáveis fazer a distinção e tirar dela as consequências? Porque razão, mais uma vez, não se traz à praça pública a experiência de 1980 e de 1984? Que medidas se adoptam para que a "tragédia" se não volte a repetir?
Quando se diz que, no sector privado, o sistema funciona, é verdade. Sou testemunha. Mas é feito à custa de capacidade dos responsáveis (que no sector público não existe), de transparência e objectividade (coisas a que os responsáveis têm, em regra, visceral horror) e de incentivos (que o sector público ignora). Até porque a classe política gasta os anos não eleitorais a propagandear a mediocridade do sector público.
Dos privilégios nem é bom falar. Vocifera-se que a função pública se aposenta(va) aos 60 anos, mas deve achar-se normal que a classe política tenha direito à reforma com 8 . oito! . anos de actividade parlamentar (até parece que há agora um caso recente para os lados de Oeiras, deve ser do microclima). Privilégios?
Ok, pronto, estou a ser demagógico.
Mas falta a «Greve (3)», porque dos sindicatos também há que se diga.

Publicado por José Mário Silva às 10:49 PM | Comentários (4)

A GLÓRIA

Quando o meu humilde livro de poemas foi publicado, em 2001, saíram textos críticos no Mil Folhas, no DN, no JL, etc. Foi bom. Melhor dizendo: foi muitíssimo bom; foi excelente. Acontece que ontem, meus amigos, o «Nuvens & Labirintos» mereceu uma recensão no «Jornal do Sporting» (obrigado, José do Carmo Francisco). Desculpem-me os mais intransigentes, mas isto é que é a verdadeira glória.

Publicado por José Mário Silva às 10:37 PM | Comentários (2)

RIGOR?

Não percebo o que pode levar uma pessoa a dizer a outra "o que é que queria que eu lhe dissesse?" Se uma pessoa se sente compelida a dizer a outra o que esta quer ouvir, por que é que tem de lhe dizer o que quer que seja?

Publicado por tchernignobyl às 10:26 PM | Comentários (3)

A ARTE DE ARLT

É um romance avassalador, torrencial, hipnótico: «Os sete loucos», de Roberto Arlt (Cavalo de Ferro). Com Erdosain, o protagonista, vamos mergulhando numa espiral de crimes, abandonos, ameaças, traições, delírios, amores, desesperos, projectos revolucionários, conspirações abomináveis, confrontos com a morte, loucura, podridão. Este é um livro de uma absoluta liberdade e de uma absoluta anarquia. Às vezes, temos vontade de o rasgar. Outras vezes, lamentamos não saber passagens de cor. Apetece louvá-lo e insultá-lo ao mesmo tempo. É um buraco negro, um atractor estranho, uma máquina de prodígios e inquietações.
Ainda sob a influência do seu magnetismo, tentei explicar por que se trata de uma obra-prima da literatura argentina do séc. XX. O resultado desse esforço pode ser lido aqui.

Publicado por José Mário Silva às 07:25 PM | Comentários (6)

GREVE

Hoje é dia de greve na função pública. Quem, pela manhã, sintonizou o Forum da TSF, teve oportunidade de ouvir alguns vómitos inqualificáveis . pela ligeireza, pela ignorância, pela arrogância, pelo desprezo; em suma, pela forma como interiorizaram a propaganda que vem sendo veiculada há longo tempo pelos políticos: os funcionários públicos são uns madraços, incompetentes e corruptos. Enfim, a escória de Portugal.
Prometo que, desta vez, voltarei a este assunto. Por isso, para começar, vou pegar na questão salarial. Vende-se hoje a pataco a ideia de que o salário médio da função pública é superior ao salário médio do sector privado; e até se invoca um estudo do Banco de Portugal.
Mas vejamos. Falamos de que função pública e de que sector privado? Concorrem para a função pública médicos, juízes, gestores, políticos? E concorrem para o sector privado os trabalhadores da pequena empresa, quase familiar, com cinco administrativos, um contabilista e um paquete?
É que a questão é esta: só é legítimo comparar realidades comparáveis. A Administração Pública é uma grande empresa (até o Código do Trabalho a considera como tal para os seus efeitos) e, portanto, só pode ser comparada com grandes empresas. Que resultados se obtêm nesta comparação? Concretizando: um economista do Estado, competente, muito competente, com 25 anos de experiência, ganha, na melhor das hipóteses, pouco mais de 2.600. (ilíquidos); quanto ganha o seu congénere no Banco de Portugal? Ou numa grande empresa, das que operam no País? Isso, ninguém sabe; é um segredo digno do mundo do futebol. Um administrativo, no fim da vida, à beira da reforma, se tiver tido vaga para aceder na carreira não ganha mil euros (ilíquidos). E os seus congéneres?
(JCampos)

Para além desta mistificação, recuemos no tempo para perceber o presente, coisa que nenhum comentador faz (a omissão é mentira ou mero lapso?). Qual era a situação dos vencimentos da função pública em 1974? E em 1989, em pleno governo Cavaco Silva? É ou não verdade que, em 1989, havia uma tabela salarial de letras (24) mais 2.000 escudos por cada 5 anos de serviço? E que isto se aplicava a médicos, enfermeiros, juízes, catedráticos, técnicos, administrativos, operários, etc? E que proliferavam sacos azuis nos ministérios ditos ricos, de onde saíam remunerações que ninguém controlava (impostos, alfândegas, justiça, etc)? E que a reforma salarial de 1989 visava a transparência interna e a competitividade externa? É ou não verdade que isto está escrito num Relatório de uma Comissão a que presidiu o Prof. Sousa Franco? E que Cavaco Silva, nas suas Memórias, inclui esta reforma entre as Reformas da Década? E que o PSD, que fez essa reforma em 1989 e agora a vê destruída e denegrida, se cala num lamentavelmente não misterioso silêncio?
Honestidade intelectual, precisa-se.
Por muito que custe ao Presidente da República, e tenho a certeza que custa, D. Carlos tinha razão: isto é uma piolheira.

Publicado por José Mário Silva às 07:14 PM | Comentários (9)

LEMBRETE

Para que o weblog.pt continue a ser a melhor plataforma de blogues made in Portugal, o Paulo Querido precisa de apoio financeiro. Até agora reuniu quase mil euros (o que é bastante razoável), mas as dívidas ainda não ficaram saldadas. Todos os contributos são bem-vindos, como ele explica aqui.

Publicado por José Mário Silva às 06:59 PM | Comentários (1)

DÉJÀ VU

Ontem à noite, zappei por alguns segundos num desses programas de televisão de uma qualquer estação em que um .painel., composto por representantes de vários partidos com assento na Assembleia da República, discute assuntos da .actualidade..
O apresentador passou o novo spot de promoção do Euro 2004, que foi recebido com entusiasmo pela generalidade dos presentes.
A mim, apenas causou alguns desconfortos...
O primeiro é a sensação de .déjà vu..
Parece que se está a assistir a um remake de um anúncio da Nike, com uma diferença: aqui, não são os .craques. a executar os malabarismos com a bola, a uma velocidade cada vez mais estonteante, mas sim personagens típicas do .povo português., do padeiro ao padre.
Feito o pequeno filme, vende-se o .gadget. ao pagode que agora repete o bailado à exaustão.
Tal como nas velhas placas de cartão das feiras, com um halterofilista pintado, em que qualquer um podia meter a cabeça num buraco e assumir a pose, de malabar anormalmente musculado, para oferecer à namorada, um dia destes qualquer pacato pode introduzir a sua fronha no anúncio e protagonizar as habilidades do Figo e do Beckham.
Como spot para promover um acontecimento com a dimensão do Euro 2004, é pouco original e torna-se mesmo maçador.

Depois vem a parte mais chata.
É que tudo se passa num cenário do Portugal .antigo. e .tradicional., que o país em peso se tem empenhado em destruir com fúria em nome do .progresso., mas que com total despudor pretende vampirizar quando se trata de .vender. uma imagem.
Bem mais adequado seria, sei lá, mostrarem a Expo, a pala do Siza como uma gigantesca baliza, mas não. É que, no fundo no fundo, o pessoal detesta os "pastiches" mas sabe perfeitamente que o que atrai em Portugal é, a par de alguns monumentos, a arquitectura tradicional anónima que se vai aguentando nalgumas .vilas museu..
É um reflexo estranho que percorre de norte a sul as "forças vivas" do país.
O presidente da Câmara de uma qualquer cidade de província pode ter destruído a sua cidade, de conluio com meia dúzia de arquitectos a precisar de pão para a boca e de empreiteiros em busca do progresso, mas ainda não tem a lata de apresentar as suas tristes realizações como ex-libris da sua região. Esse papel está reservado a um recanto "histórico" muito frequentemente votado ao abandono.
Os muitos .artistas. que há por aí a projectar, e não são poucos, parecem incapazes de criar um paradigma suficientemente apelativo que valha a deslocação e leve os estrangeiros (ou mesmo os nacionais) a sentirem-se bem num local com vida própria.
A pergunta é: por que terá de ser assim?
E por que não poderá ser de outra maneira?

Publicado por tchernignobyl às 04:29 PM | Comentários (5)

ANITA TEM UM BLOGUE

Vai ser uma das grandes novidades da blogosfera portuguesa em 2004: o Blogue da Anita (ainda sem link). Com bloggers recrutados na área de comentários deste post, todos eles membros fundadores da AAA (Associação dos Amigos da Anita), a nova página promete uma divulgação exaustiva das mais belas histórias da menina que gostava de andar a cavalo e de fazer a lida da casa. Lá mais para Maio, antes da Feira do Livro, a AAA pretende lançar no mercado uma edição completa deste clássico infantil (num só volume, em papel bíblia), para adultos alérgicos ao "politicamente correcto". O prefácio será assinado por João César das Neves.

Publicado por José Mário Silva às 11:20 AM | Comentários (12)

A TERCEIRA GRIPE

Chamem-lhe umbiguismo, chamem-lhe o que quiserem, mas a terceira gripe do ano em cima de mim não pode ser só obra do acaso.
Enquanto tento abafar a dor de cabeça com carradas de Cêgripe, valha-me a ajuda da formiga:

"a propósito, de um amigo de Portimão, aqui vão algumas colagens do chapapote. Uma vez aí dentro, escolhe CHAPAPOTE e tem paciência para as veres correr (várias no ecrã).
Tb dele recomendo:
http://membres.lycos.fr/brek3/flash/kosovar.html
http://membres.lycos.fr/brek3/flash/kosovar2.html
http://membres.lycos.fr/brek3/flash/kosovar3.html
baseado numa história real, quase quase, não muito diferente da nossa. abraços, v."

Se depois das colagens explorarem bem as aventuras do chapapote, deparar-se-ão com imagens fugidias de alguns dos cúmplices habituais da formiga.
O que o chapapote não revela, felizmente, embora ande perto, é o paradeiro da empregada de bar de praia mais bonita do planeta.
Esse é um tesouro do Verão para nos fazer sonhar no Inverno.

Publicado por tchernignobyl às 09:32 AM | Comentários (1)

janeiro 22, 2004

NÃO PERCAM - NÃO PERCAM - NÃO PERCAM

Estreia hoje «Ser e Ter», o documentário . belíssimo . de Nicolas Philibert, sobre a relação entre um professor do ensino primário e os seus poucos alunos, numa escola de província, algures no coração da França rural.
O filme é mesmo uma pérola, garanto-vos. Não o deixem escapar por nada deste mundo.

Publicado por José Mário Silva às 07:34 PM | Comentários (6)

DIÁLOGO

«. A si parecer-lhe-á estranho que lhe fale de sofrimentos nestas circunstâncias... mas assim é... os homens estão tão tristes que têm necessidade de ser humilhados por alguém.
. Eu não vejo tal coisa.
. Claro, o senhor com o seu salário... Quanto é que o senhor ganha? Quinhentos?...
. Mais ou menos.
. Claro, com esse salário é lógico...
. O que é que é lógico?
. Que não sinta a sua servidão.»
(in Os sete loucos, de Roberto Arlt, Cavalo de Ferro)

Publicado por José Mário Silva às 06:54 PM | Comentários (0)

VINTE ANOS É MUITO TEMPO

Comenta uma mãe, maravilhada, que os livros da Anita fazem as delícias da filha, como fizeram as dela. «São histórias intemporais», conclui, «pena tê-las deitado fora.» A minha pena não vai para o destino que aquela família deu aos livros, antes para o destino daquela filha que repetirá a história da mãe. E assim por aí adiante. O que queremos mudar, quando resistimos a mudar o cliché?

Publicado por Margarida Ferra às 10:14 AM | Comentários (106)

DUELO DE CEGOS

Batendo com as bengalas no chão, os dois cegos aproximaram-se. Muito devagar. A medo. Depois, quando a distância que os separava ficou reduzida a um metro, pararam. O silêncio era agora uma coisa física, palpável, concreta. Imóveis, os dois cegos exibiam a sua fragilidade. Cada um sentia a presença do outro, ali à frente, dentro da escuridão dos olhos.
Eu estava perto. Eu via tudo. A rigidez dos membros, os rostos abertos ao mínimo som, a energia da espera. Os dois cegos pareciam dois samurais, idealizando o combate final. Após uma última hesitação, porém, o impasse desfez-se. E as bengalas foram abrindo caminhos opostos.
Eu continuava perto. Eu vira tudo. Mas recusei o que era mais fácil: a parábola.

Publicado por José Mário Silva às 10:05 AM | Comentários (1)

janeiro 21, 2004

VLADIMIR

Morreu há 80 anos. E com ele a revolução dos sovietes.

Publicado por José Mário Silva às 07:52 PM | Comentários (12)

TOPO DE GAMA

Para fugir aos tons mais sérios dos particularismos franceses e às polémicas das torres, segui o rasto de feromona deixado por um certo insecto transviado e acabei a contribuir para o estado de extended silly season que caracteriza o presente panorama político português, com este post muito exclusivo destinado apenas a si, leitor de blogs exigente e apreciador de soluções de prestígio.

Publicado por tchernignobyl às 07:10 PM | Comentários (2)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Ele, o Francisco José Viegas, não escreve apenas textos poéticos sobre a noite e o que ela é. No último dos seus livros de poesia, para mim o melhor dos que assinou até hoje («O Puro e o Impuro», Quasi, 2003), juntou alguns magníficos «Sonetos irregulares sobre as coisas comuns de Janeiro». Agora que o primeiro mês de 2004 está quase a fechar-se, recordo três desses poemas, iluminados pela alegria inexplicável de ter nos braços uma filha recém-nascida.

2

Enquanto chove, miudinha e fria, a chuva de Janeiro,
seguro ao colo a minha filha. Ela olha vagamente a luz
esplêndida, arrebatada. Sente-se essa emoção, tão
pequena. O tempo passa e esquece, não o sente,

adormecida e encostada ao peito, um sopro seria agora
uma ventania inútil enquanto digo versos em silêncio,
grato pelo milagre de a ver perfeita. É outra coisa comum,
esta perfeição . os olhos, as mãos, a boca, um leve

perfume que há-de ficar na camisinha de flanela,
esvoaçando de Janeiro a Janeiro, afastando o medo
do Inverno (esse mal que vem entre as roseiras frias

e mais nuas do mês). Ninfinha que há-de rir, assim a vejo
em sonhos, trémula, a cabeça pousando sobre a mão,
inclinada sobre a tarde, desajeitada e tão agora nascida.

3

Repousa de novo, deitada junto da mãe; não sei como
sabe o que vem a seguir, mas há-de ser assim. Há flores
à volta, no pequeno quarto onde adormece. Sigo esse olhar
que vai da filha às flores, o da mãe . vejo ali um sinal

de orgulho, brevíssima paz antes de a vida no-la devolver.
Choraminga porque tem de ser; faltava-me o seu rosto
onde os versos abundavam para descrever esta geografia,
e esse rosto é todo vivo, se me afasto. Vejo agora como

estava incompleto de mim mesmo. Olho-a outra vez para
contemplar o que há-de vir. Faltar-me-á o tempo para viver
todos os seus dias, verdadeiramente hei-de estar velho

e escandalizado por ela existir para além de mim. Guardo
os seus olhares fulgurantes, o seu choro inocente, o seu rosto
vago de tranquilidade. Ela faltava-me, assim, desta maneira.


4

Só um ou dois dias depois te dás conta de que existe mesmo.
Preparas a casa como podes, acendes a lareira, a manhã
transporta-a consigo, uma e outra te completam. A tua vida
é já diferente mas só dois ou três dias depois começas a ter

saudades a todos os minutos. Gostará de Bach? Há um quarteto
de Mozart que prezas especialmente, mas nenhuma perfeição
é essencial diante do seu corpo tão precário. Sobreviverá
às vacinas, aos trabalhos escolares, a poesia deve falar disto,

precisamente, e mesmo assim seria pouco para descrever
o que acontece lá dentro, no coração. As palavras, claro, não te
faltam. Antes os nomes certos, isso sim . irás aprendê-los

de Janeiro para Janeiro, em passeios pela serra, aventuras
entre os pinhais, rente às cancelas das hortas, sob os pomares,
em alguns livros, se não te faltarem . como agora . as palavras.

Publicado por José Mário Silva às 12:23 PM | Comentários (20)

SAPATEADO NO CONGRESSO

Cartoon de Jeff Parker (Florida Today) sobre o discurso do «State of the Union», proferido por George W. Bush esta madrugada (hora portuguesa), diante do Congresso, em Washington

Publicado por José Mário Silva às 11:57 AM | Comentários (3)

ENERGIA

Dia de pompa. Também de circunstância, que uma não vive sem a outra ou vice-versa. Canetas mont blanc em riste, que aljubarrota já foi há muito, muito tempo e os lanceiros estão em desuso. Um católico conservador e um ex-maoísta transformam as duas electricidades numa só. Acende-se um televisor em madrid e uma gambiarra no bairro do fim do mundo. É tudo a mesma energia, positiva. Beijos e abraços, relações entre vizinhos "boas como nunca". O nosso primeiro refere-se ao senhor de bigode como o "José Maria". Acrimónias de irmãos desavindos postas de lado . TGV é tabu . que é tempo de falar aos jornalistas e eis senão quando... PLUF, a luz apagou-se. Deus é um tipo bestialmente irónico e oportuno. (Pedro Vieira)
PS: Tudo aponta para que Alexandra Solnado tenha queimado o fusível.

Publicado por José Mário Silva às 11:53 AM | Comentários (1)

SINAIS

Quase sempre surpreendente; mundano q.b. e muito bem fundamentado: ecoa nos meus ouvidos o resto do dia e deixa-me a pensar sobre o mundo. O primeiro post que ouço passa aqui antes das nove.

Publicado por Margarida Ferra às 09:05 AM | Comentários (1)

ESTE GAJO ATÉ MAL À SAÚDE FAZ!

Que Bush Jr. concede ao bem-estar dos indivíduos uma prioridade mui secundária face aos interesses do Big Business, já se tornou óbvio para quem lê jornais com, pelo menos, um olho aberto. Cortes de impostos para os escalões fiscais mais elevados, abertura do Alasca à exploração petrolífera, machadadas na assistência social, invasões . pagas com o sangue dos filhos dos outros . a países com reservas petrolíferas... Os exemplos não faltam. Se calhar, por cá até há quem ache graça: "Votaram nele, não foi? Agora, aguentem!" O pior é que o diabo da criatura está apostada em dar-nos cabo da saúde a todos: agora, decidiu boicotar os esforços da Organização Mundial de Saúde para combater a obesidade. Aqui, pode ler-se como os comparsas de Bush acusam o relatório da OMS de conter "ciência defeituosa", por não responsabilizar os indivíduos na sua escolha de dieta e de hábitos de vida. Posição muito neocon, não vos parece? (O Fantasma do Natal Passado)

Estranho, estranho, é que esta posição tão libertária ignore o peso dos 20 biliões de dólares de subsídios concedidos anualmente à agricultura americana. Estes subsídios são distribuídos de uma forma que inverte totalmente a conhecida e recomendada "pirâmide alimentar" . com fruta e vegetais na base e doces e junk food no topo. A fatia mais gorda de verba tão astronómica acaba por subsidiar guloseimas, snacks variados, carne, etc., sem apoiar de forma equilibrada a produção dos artigos mais saudáveis. Ou seja, Bush Jr. não se limita a financiar com biliões os seus MacFriends; torpedeia qualquer acção que possa pôr em causa as suas quotas de mercado e os seus lucros por esse mundo fora. Isto apesar de liderar uma nação com 65% de obesos...
Hoje em dia, nem vale a pena falar do condenado protocolo de Quioto, uma vez que os comentadores da praça já engoliram o
mantra do "ainda não se provou o aquecimento global" e tratam de o papaguear por todo o jornal que lhes empreste espaço.
Pode ser que agora as figurinhas tipo João Pereira Coutinho se dediquem ao
hit "não é cientificamente certo que a fast-food faça mal"...

Publicado por José Mário Silva às 08:44 AM | Comentários (7)

janeiro 20, 2004

WITTGENSTEIN E AS DROGAS LEVES

Folheava as fotocópias de um livro sobre o uso e abuso de drogas, à laia de conselhos para adolescentes, quando me lembrei do filósofo. A publicação, supostamente não moralista e informativa, definia o haxixe como uma droga que provoca leves alterações na percepção da realidade e uma «fome atroz». «Fome atroz», acredito, estaria ali no lugar de apetite voraz. Dizia Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus: sobre o que não se pode falar com rigor, cala-se.

Publicado por Margarida Ferra às 11:25 PM | Comentários (2)

COMENTÁRIO

Tinha começado a escrever um comentário ao post "Igualdade, já!" quando reparei que estava a ficar muito comprido e achei graça à pergunta sobre a falta de "colaboração itálica", de modo que alargo o que estava a dizer e envio para aqui.
Concordo inteiramente com o referido post, mas o pior é que a diferença não está na desigualdade da força física e sim na "formatação" das mentalidades. É claro que, biologicamente, uma mulher tem menos força do que um homem. Ponto final. Mas uma mulher armada de uma cadeira (por exemplo) pode enfrentar qualquer homem. Por que é que ela "aceita" ser batida? E, mesmo sem chegar ao extremo da cadeira em cima ou o tal pontapé em sítio que doa, por que é que fica na mesma casa e não se põe a andar sem olhar para trás? Por que é que os vizinhos que ouvem gritar dizem "entre marido e mulher não metas a colher"? Porque há anos e anos de resignação, e neste caso todas as religiões afinam pelo mesmo diapasão, já se sabe que a mulher é feita para obedecer, para comer e calar. Sempre assim foi, por que é que agora se vem com coisas!!? E há o peso da vergonha: em vez de ser o agressor que tem vergonha, é a agredida que se sente envergonhada. É como se a sociedade olhasse para ela a dizer . "alguma fizeste... não te portaste bem... se calhar é justo..." . como se se tratasse de uma criança (e mesmo às crianças por que é que se lhes há-de bater?).
(Leonor Baeta Neves)

Curiosamente, até a força económica com que se contava para esta mudança de mentalidades, anda a conta-gotas. Numa família actual, o salário da mulher conta praticamente tanto como o do marido, mas ela ainda se sente dependente. Um dos factores mais pesados é que a casa, a terrível CASA pela qual a mulher sacrifica quase tudo, em 90% dos casos está em nome do marido e ela sente-se completamente desprotegida. "Se saio de casa, nunca mais tenho um tecto, não posso fugir". Porque não um contrato em nome de um casal? Se calhar, no dia em que o agressor entendesse que era a agredida que o podia pôr na rua, talvez pensasse duas vezes antes de se embebedar, ou se controlasse antes de a espancar e aos filhos. Mas tudo isto anda muito, muito devagarinho...

Publicado por José Mário Silva às 11:20 PM | Comentários (2)

AINDA O PARTICULARISMO

As razões apresentadas pelas meninas islamitas, num braço de ferro que dura há anos, sobretudo desde o triunfo do fundamentalismo, não são bem da natureza do "porque lhes apetece"... .
Parece claro que isto nada tem a ver com uma "mania" ou uma "moda", é uma posição politica muito clara num momento em que na Argélia, em Marrocos, no Irão e no Afeganistão se discutem ou tentam discutir reformas tendentes a promover uma abertura que permita a um número significativo de mulheres, muito provavelmente a maioria, viverem fora de uma "tradição" que rejeitam e a que são obrigadas à força.
Parece-me errado analisar estas questões independentemente do que está em jogo em cada situação concreta. Há muitas lutas a travar, podemos recusar as explicações cómodas dadas pelos especialistas ao serviço do pensamento único, ao associarem o crescimento do fundamentalismo a causas puramente endógenas do mundo árabe, mas nada disso nos impele de certeza a apoiar uma luta de uma seita reaças e agressiva, só porque esta de forma oportunista aparece a reclamar o "respeito pelas tradições" ou a .liberdade. que não tolera quando se encontra no poder, escudada no apelo romântico das imagens telegénicas de "pureza" e "inocência" das jovens "noviças" protegidas da "corrupção" pelos seus véus.
Às meninas fundamentalistas prefiro as mulheres que lutaram por transformar a Argélia num estado independente e laico e se tornaram posteriormente alvo preferido dos fanáticos "defensores das tradições" na explosão dos anos 80 e 90.
As meninas fundamentalistas insistem que "ninguém as obriga" e isso parece bastar para fazer força de lei. Lembro apenas que há muitas vítimas de violência doméstica que sistematicamente protegem os seus agressores e não é isso que torna a violência doméstica uma questão aceitável, ou sequer discutível, em qualquer sociedade civilizada e democrática.

Publicado por tchernignobyl às 10:56 PM | Comentários (8)

12.000

São as assinaturas que faltam à petição para um novo referendo sobre a descriminalização do aborto até às dez semanas. Já foram recolhidas mais de 63.000; são necessárias 75.000 até Fevereiro. Aqui podem encontrar-se todas as informações relativas a este movimento cívico, notícias, documentos de debate, uma agenda de actividades e . mais importante do que tudo o resto . o texto da petição num ficheiro em PDF. É só fazer o download, imprimir, assinar e devolver para a morada indicada. De que é que estão à espera?

Publicado por José Mário Silva às 06:25 PM | Comentários (4)

6.500

É o número de estrangeiros que o governo acha razoável aceitar em Portugal, durante o ano de 2004. Mesmo à larga, não chegam para encher a bancada mais pequena do mais pequeno dos estádios construídos para o Europeu de Futebol. E isto, quanto a mim, diz tudo.

Publicado por José Mário Silva às 06:21 PM | Comentários (37)

WHY THE USA IS IN IRAQ

Correspondendo ao vosso apelo, aqui vai uma sugestão para uma visita a este site, que faz um resumo das intervenções de Bush e Companhia tentando justificar a invasão do Iraque. (JFS)

Publicado por José Mário Silva às 06:18 PM | Comentários (3)

LIVROS NA CULTURGEST

Regressa hoje à Culturgest (Pequeno Auditório, 18h30) o ciclo de debates «Os Livros em Volta». O crítico/blogger Pedro Mexia será o moderador de uma conversa sobre algumas das melhores obras de ficção portuguesa publicadas nos últimos meses: «Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo», de António Lobo Antunes (Dom Quixote); «Os Papéis de K.», de Manuel António Pina (Assírio & Alvim); «Um Homem: Klaus Klump», de Gonçalo M. Tavares (Caminho); e «Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina», de Mário de Carvalho (Caminho) . este último considerado por Mexia, no DN, o melhor romance editado no nosso país em 2003. Os autores estarão presentes, excepto o mais esquivo de todos (Lobo Antunes), representado pela sua fiel exegeta: Maria Alzira Seixo.

Publicado por José Mário Silva às 05:47 PM | Comentários (11)

ACORDA, MEU POVO, QUE NÃO É TARDE (POST PARTILHADO)

Era um Portugal cinzento, melancólico, dilacerado pela guerra e pela repressão da ditadura, nostálgico de um tempo que não vivera. Mas era um Portugal de futuro, também. Pela genialidade de alguns. Pela esperança de tantos. Pelo ardor torrencial de Ary dos Santos. Comunista, burguês, militante, amante daquele povo «genuíno» que por vezes só a poesia permite ver, da «tourada» e do fado progressista, «poeta não castrado», poeta das canções, poeta popular, poeta erudito. Declamava. Encantava. Incendiava plateias. Provocava: «Para dizer quem é basta o que disse/ é uma besta humana que rumina/ é um filho da puta é um burguês». Ouvi-lo esgotava o oxigénio. Vida boémia. Morreu cedo: 47 anos. Demasiado cedo. Os olhos lavados por aquela tristeza de partir, a crueza imbecil de irmos e tudo por cá. Lisboa, a sua Lisboa de Alfama, o Tejo, o povo, a revolução. Ary. Ary dos Santos. Morreu há 20 anos. E, «tudo raso de ausência tudo liso de espanto», nada ficou: «a não ser este silêncio tenso». Cedo demais. Cedo de partir e deixar ausência. (Tiago Barbosa Ribeiro)

Publicado por José Mário Silva às 04:58 PM | Comentários (2)

ONDE É QUE ANDAM OS ITÁLICOS?

Não sei se é por falta de assunto, preguiça ou pudor. O certo é que temos tido, ultimamente, pouca participação de itálicos (colaboradores livres que nos enviam textos por e-mail). É o template que vos assusta? A diversidade de escribas oficiais? Vá lá, deixem-se disso, não se acanhem. O BdE sem itálicos, não é o BdE. Podem enviar colaborações para o endereço que está lá em cima, no cabeçalho: blogue_de_esquerda@yahoo.com. E podem deixar também, é claro, os vossos protestos, elogios, sugestões & etc.

Publicado por José Mário Silva às 12:15 PM | Comentários (2)

EM AUDIÇÃO

Sim, sabemos que ele era um homem cruel, sanguíneo, torturado. Don Carlo Gesualdo, príncipe de Venosa, o aristocrata brutal que assassinou a mulher e o amante dela. Sabemos da sua vida inconstante e atravessada de sombras. E depois? O que fazer quando o mesmo homem, execrável criatura, se elevava aos céus em cada composição, em cada peça polifónica, em cada meia dúzia de compassos? Eu, pelo menos, nunca ouvi música com tantos abismos e tanta luz.
Nestes 19 motetes a cinco vozes, as suas Sacrae Cantiones, abundam os «miserere», as lágrimas, os «dolor meus», todas as marcas de uma arte que se quer reflexo da culpa e expressão do arrependimento, por entre cromatismos e efeitos bizarros que os ouvidos da época nem sempre souberam compreender.
«O vos omnes», «Laboravit in gemitu meo», «Illumina faciem tuam», «O Crux benedicta», «Tribulationem et dolorem»: é a isto que eu chamo aproximações ao sublime.

Publicado por José Mário Silva às 12:03 PM | Comentários (2)

MFM NO SÃO LUIZ

Ainda não é desta que assistiremos ao grande confronto MFM vs MFM (Maria Filomena Mónica vs Maria Filomena Molder), mas quase. Na próxima edição da tertúlia «É a Cultura, Estúpido!» (quarta-feira, dia 28, 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz), a convidada principal será a mais mediática das duas Marias Filomenas: a Mónica. Anabela Mota Ribeiro conversará com a ensaísta e professora universitária sobre os livros por ela escritos, ou organizados, em torno da figura de Eça de Queiroz, nomeadamente o mais recente de todos: «Eça de Queiroz Jornalista» (edição da Principia).
A questão do jornalismo estender-se-á depois ao habitual debate entre um representante da esquerda (Daniel Oliveira) e um representante da direita (Pedro Lomba), que escolheram como mote para a discussão um livro de Mário Mesquita: «O Quarto Equívoco . o Poder dos Media na Sociedade Contemporânea» (Minerva).
Haverá ainda, como sempre, sugestões literárias propostas por um painel de críticos e jornalistas residentes ­. Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos e José Mário Silva . além do sempre muito aguardado stand-up comedy final de Ricardo Araújo Pereira.

Publicado por José Mário Silva às 11:36 AM | Comentários (2)

IGUALDADE JÁ!

Fora da problemática dos véus, e ressalvando as minhas reservas relativamente ao desporto profissional, é incontornável o brilhantismo da miúda de 14 anos que compete de igual para igual nos campeonatos profissionais masculinos de golfe.
Este exemplo tem de generalizar-se.
Mais do que as medidas legislativas, é a efectiva igualdade da mulher que acabará de vez com a "unidirecionalidade" habitual da violência doméstica.
No dia em que qualquer valente perceber que tentar enviar a mulher ou a namorada para o hospital, tratar das costumeiras "escorregadelas em que se bate com o olho na mesa de cabeceira", pode ter como resposta um pontapé nos tomates que o põe a vomitar para o saguão, podemos ter a certeza que o número de agressões se reduz drasticamente.

Publicado por tchernignobyl às 09:58 AM | Comentários (0)

PARTICULARISMOS

No presente debate acerca dos véus das raparigas muçulmanas em França, ao criticarmos o governo francês em nome da liberdade individual, não podemos esquecer que não se trata aqui apenas de um caso de .cada um andar como entender.. Só por exagerada ingenuidade podemos dissociar o véu de uma tomada de posição política dos fundamentalistas islâmicos, precisamente contra os princípios de liberdade e universalidade que são a marca de um estado republicano e laico.
E sabemos o tipo de .escolhas. que os fanáticos religiosos em geral e os muçulmanos em particular permitem a quem vive em sociedades dominadas por eles.
Só por acaso a questão dos véus tem a ver com "crucifixos ao peito" ou "cabelos à punk", exemplos demagógicos em que se apoia para forçar uma brecha. É uma afirmação de poder político e força militante de uma ideologia profundamente retrógrada e reaccionária, o fundamentalismo islâmico, que não pode ser sequer confundida com a adesão e práticas normais da religião islâmica.
Ao encararmos como uma coisa .inocente. e enquadrável nas questões de .liberdade individual. esta luta dos islamitas, façamos também um pequeno exercício mental e imaginemos que certas seitas de católicos integristas começavam a querer impôr nas escolas critérios de salvaguarda da .decência. ou das "tradições cristãs".

Publicado por tchernignobyl às 09:28 AM | Comentários (6)

UM ELEFANTE QUE SE BALOUÇAVA

Várias pessoas (para aí... duas) me disseram que a única coisa de que não gostaram no Elephant de Gus Van Sant foi haver explicação para o massacre. Digo-lhes que não se apresenta explicação nenhuma e falam-me no documentário sobre os nazis que passa na televisão e no jogo de computador com tiros. Digo-lhes que, precisamente, isso são clichés de explicação que estão lá porque não explicam, que há uma série de outras personagens com semelhantes "motivos" (armas em casa, distúrbios alimentares, ser gozado pelos colegas) e que o tema do filme é que nenhuma das "explicações"/"motivos"/clichés é suficiente para saturar a função de causa. Voltam a dizer-me que, para elas, o documentário sobre os nazis e o jogo de computador não estão lá a fazer nada. E eu já não insisto que o filme desmonta a lógica da causalidade exactamente quando mostra todas estas pistas, que não são falsas nem verdadeiras, pistas que ficam aquém, como se houvesse um abismo entre elas e o que seria uma verdadeira causa, provavelmente inacessível (nem sequer psicológica, ou psicanalítica). E por isso talvez nos tenhamos de contentar com a aleatoriedade de tudo aquilo, o que não quer dizer que não haja causa mas sim que talvez não a possamos conhecer.
Também já não digo, porque escrevo agora aqui, que ao pôr em causa a causalidade o filme põe em causa o funcionamento habitual do cinema, da intriga às personagens, na montagem dentro dos e entre os planos (o funcionamento habitual do cinema rege-o a a causalidade, quer dizer, a narrativa). Não há campo-contracampo - o fenómeno e a reacção no rosto (ou vice-versa no suspense) - e sim o permanente travelling, o fluxo entorpecedor do tempo que atravessa os corredores sempre parecidos, ou que percorre as várias fases da revelação de uma fotografia ou da preparação de um tabuleiro no refeitório.
O paradoxo é que esta causalidade desconstruída é também ela fabricada: a câmara parece que não mas sabe para onde vai e a montagem sabe bem como reunir todos os fios no final. Há uma inteligência (a do realizador) que tem um plano, e esse plano é o mapa do liceu que nós não conseguimos desenhar enquanto passamos com as personagens pelos corredores, mas é um mapa que os assassinos desenharam. O filme parece querer trocar a causalidade pelo aleatório, mas todos sabemos que, no "andolitá" final jogado pelo assassino que resta com o casal que se escondeu na câmara frigorífica, não será a sorte a decidir quem vive: a resposta é "ninguém" (como em Dogville, mas de outra maneira).

Publicado por Francisco Frazão às 02:53 AM | Comentários (7)

janeiro 19, 2004

MUMBAI, INDIA

Por estes dias, o centro do mundo que nos interessa está aqui.

Publicado por José Mário Silva às 06:14 PM | Comentários (1)

INTERMITÊNCIAS

Ontem, o acesso a este blogue (e a todos os que pertencem à plataforma weblog.pt) esteve muito complicado. Com o sistema em baixo horas a fio, os textos ficaram perdidos numa espécie de bruma espessa, igual à que normalmente cerca as casas assombradas nos filmes de terror. Tudo se deveu, presumo, a «operações de manutenção» deste tipo.
Agora, passada a «turbulência», dissipado o nevoeiro, regressaram os textos e a vontade de blogar. Como se diz nos aeroportos: sorry for the delay.

Publicado por José Mário Silva às 12:27 PM | Comentários (5)

TROCADILHO SPORTINGUISTA (SÓ PARA ADEPTOS)

Com a vinda do novo reforço brasileiro, espero mudar os comentários que faço no fim dos jogos do SCP: dizer cada vez menos «Grande tanga!» e cada vez mais «Grande Tinga!».

Publicado por José Mário Silva às 11:29 AM | Comentários (0)

janeiro 18, 2004

SMELLY CAT GOES TO CARNAXIDE

Vi-os hoje à tarde, na SIC-Radical. E devo dizer que os Gatos Fedorentos, reis do humor blogosférico, continuam a ter muita, muita graça na sua passagem para o pequeno ecrã (veja-se o sketch antológico "Vamos Talvez Discutir a Questão do Coiso"). Infelizmente, o programa é de baixíssimo orçamento e isso nota-se: falta em meios técnicos o que sobra em imaginação. Há por ali um amadorismo que o talento dos autores não consegue disfarçar, além de piadas pouco polidas, problemas de ritmo, excesso de música e algumas insuficiências próprias de quem só agora se descobre actor.
Nada que não se resolva, claro. Porque o génio está lá. E a ironia inteligente, o delírio non-sense, também. Se juntarmos a tudo isso um décimo da qualidade de imagem das séries humorísticas da BBC, acredito que o Gato pode tornar-se o programa de culto que ainda não é . mas merece ser.

Publicado por José Mário Silva às 08:01 PM | Comentários (26)

O MEDO

O medo é um parasita de várias espécies como, por exemplo, a morte, a dor ou a solidão. Com a primeira faz uma dupla temível: se a primeira diz mata, o segundo diz treme.
Desloca-se com os seus hospedeiros para todo o lado e o efeito da sua picada pode suscitar as antagónicas reacções de paralisia ou de fuga pânica. Qualquer delas debilitante, se não mesmo fatal.
Parasita sendo de várias espécies, é na humana que os seus efeitos se revelam mais devastadores, pois o medo aprendeu a tirar proveito da nossa especial vulnerabilidade. Arma a sua tenda nas circunvoluções cerebrais e comporta-se em tudo como um colono: desloca-se a seu bel-prazer entre os membros inferiores e superiores, paralisa-os, desata-os; faz de nós o que bem quer; viaja, se lhe apraz, até ao sangue, intromete-se nos sonhos, danifica a percepção. Incontáveis são os males em que nos lança. E uma vez anichado nas nossas entranhas, torna-se quase impossível desalojá-lo.
(José Miguel Silva)

Publicado por José Mário Silva às 05:39 PM | Comentários (1)

O PRÍNCIPE E O CASTOR

Em Coimbra, assisto à peça de teatro do Citac baseada no casal Sartre-Beauvoir, o mito dos amantes livres. A comunhão intelectual entre eles, em que todos os actos de amor pareciam ser fruto de decisões teóricas, não deixa de ser comovente. Há um monólogo de Sartre que interessaria trazer para este blogue como espelho de um espírito que, acho, nos é comum a todos:

"Quando me empenhei de uma maneira ou de outra na política e fiz uma acção, nunca abandonei a ideia de liberdade; pelo contrário, cada vez que agia sentia-me livre. Nunca pertenci a um partido. Encontrei-me em ligação com grupos, sem lhes pertencer. Pediam-me actos; eu era livre de responder sim ou não e sentia-me sempre livre aceitando ou recusando. Eu sabia que a política também se escrevia; não se realizava simplesmente por eleições ou guerras, escrevia-se. Foi o que fiz toda a minha vida."
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 05:37 PM | Comentários (2)

janeiro 17, 2004

A MORTE

O mais feroz dos grandes predadores, o mais temido, é o grande inimigo da nossa espécie. Apesar do longuíssimo convívio com o homem, nunca se deixou domesticar. Ataca onde quer, ninguém lhe resiste durante muito tempo.
É um animal de comportamento totalmente imprevisível. Astuto e cruel, nenhum escrúpulo o domina, parece indiferente a qualquer súplica. É um resistente e tem razões para sentir-se totalmente invulnerável.
Os terríficos efeitos que provoca nas pessoas levam a que seja muito utilizado na indústria militar. Mas mesmo aqui se mostra um bicho insubordinável, e o mais natural é vê-lo atacar ambos os lados do conflito. Razão pela qual muitos humanistas defendem que este animal deixe de ser utilizado nos conflitos bélicos. Opinião que a maior parte dos investigadores considera um contra-senso.
A única defesa que temos contra os seus ataques é a resignação. No confronto com um bicho desta espécie, o homem acaba sempre por perder, ainda que por vezes consiga adiar
in extremis o desaire. E há quem chegue, em momentos de excessivo cansaço, a considerá-lo um amigo, um libertador.
A maioria dos zoólogos consideram-no um caso à parte no reino animal, um mistério da vida, já que não tem parentesco com nenhuma outra espécie, nem predadores.
Escapa igualmente a toda a descrição, pois a metamorfose é o seu elemento natural. Pode tomar o rosto de um amigo, pode chegar sem rosto, como facto consumado. Suscita os mais adversos sentimentos. É difícil ter sobre ele uma visão desapaixonada.
(José Miguel Silva)

Publicado por José Mário Silva às 03:51 PM | Comentários (3)

SERENA DISCUSSÃO

Como já disse, tenho admiração e respeito pela erudição musical do crítico, que tornou o seu blogue uma referência .de serviço público. e confio que assim continue.
Em função disso, pouco me aquece ou arrefece o conservadorismo veiculado em expressões do tipo .o artista eterno que Portugal deu ao mundo. e nas distinções subtis entre a .maioria. e a .turba. .conservadora no mau sentido da palavra. (pelo que será abusivo e .analfabeto. depreender que a maioria está contra as torres . estará?) e (uma minoria?) .o verdadeiro conservador..
Já me choca um bocado é vê-lo insistir com alguma arrogância despropositada numa argumentação simplória e maniqueísta que .recusa a discussão estética com base em pressupostos políticos. mas se limita a repetir o .pressuposto. que lhe preside: uma profunda necessidade de condenação .da esquerda., de .certa esquerda., da .esquerda cega., dos .rapazes da esquerda iluminada., sem hesitar sequer em ir buscar, a propósito de Alcântara, o Fidel e a Coreia do Norte (esta enquanto não contratar o Siza presumo).

Que o crítico esteja disposto a aceitar de barato que o .siza faça o que quer., é um problema dele, claramente anterior ao próprio acto de apresentação de um qualquer projecto, o que é o mesmo que conceder que nada tem a dizer sobre o assunto, o que é patente e temos de aceitar.
Que isso lhe sirva de pretexto para exprimir as suas antipatias políticas é também um direito que lhe assiste. Todos gostamos de exprimir as nossas opiniões pessoais, sejam elas mais ou menos fundamentadas.
Para já, a mim interessa-me apenas discutir o problema de Alcântara e não percebo a recusa em admitir que independentemente da .forma. como é apresentado o projecto, seja ou não uma .obra de arte., se insere numa zona que necessita urgentemente de uma profunda transformação urbanística e dificilmente pode ser avaliado apenas como um quadro, uma sinfonia, um filme ou uma instalação, pelas implicações que tem a longo prazo para todos os utentes do espaço complexo que é a cidade e não apenas do ponto de vista da fruição estética do .objecto.. Diga-se de passagem que a volumetria proposta (se é que para o crítico faz sentido discutirem-se índices urbanísticos desde que a proposta seja do siza...) é justificada pelos promotores por documento que teria sido emitido ao tempo da presidência camarária de Jorge Sampaio, documento esse que tanto quanto sei até há semanas atrás não foi ainda exibido publicamente.
Se para o crítico a discussão está encerrada, porque se é uma proposta do Siza, faça-se e não se discute, muito bem, já percebi a ideia, não vou entrar em ping pong com ele.
De resto, as opiniões críticas que tenho manifestado, com alguma cautela e penso eu com razoáveis distâncias de uma hipotética posição .definitiva. e .militante., se bem que na minha .perspectiva. sejam de esquerda, estão muito longe de ser exclusivas da esquerda e talvez mais ainda, longe de serem consensuais dentro da esquerda.
Por isso, aqui no blogue tudo continua em aberto, veja-se a diversidade dos comentários e opiniões aos posts sobre este assunto. Muitos desses comentários, aliás, na defesa do .partido das torres. e frequentemente num tom mais ou menos polémico, o que me parece bastante positivo, tal como alguns dos argumentos avançados, importantes para a discussão que pretendemos continuar, desagradem ou não ao crítico as manifestações .da turba..
As nossas janelas de comentários continuam pois abertas a todas as opiniões, inclusive às dele.

P.S. Só por uma questão de .bom nome., devo dizer que admito que no post inicial do crítico .nunca se disse que as Torres de 7rios eram de esquerda.. Isso estava apenas implícito, a confirmação é que só veio agora, preto no branco: .o João Soares deixou fazer os escarros de Sete Rios e vêm os senhores intelectuais de esquerda dizer: estão integradas no meio de outras porcarias do género., e mais à frente... (esta cai do céu nesta discussão mas é mais forte do que ele...) .(as torres de 7rios) talvez sejam de esquerda porque lembram a arquitectura da Coreia do Norte., etc... Desculpem lá a .má fé. .insidiosa. das minhas citações, mas eu ao menos ainda pus o ponto de interrogação...

Publicado por tchernignobyl às 03:48 PM | Comentários (0)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (8)

Aviso aos leitores: uma vez que o musicólogo António Correia Guerreiro se vai ausentar durante uns meses do nosso país, para concluir, na Universidade de Roterdão, a sua tese de doutoramento sobre Arnon Maarten, o ritmo desta rubrica passará a ser quinzenal.

Evocação da guerra n.º 3 [para violoncelo e piano] Op.7, de 1964 (1,5 min.)
Adágio

O Op. 7 corresponde a uma espécie de versão condensada das evocações de guerra Op. 5 e Op. 6.
Nesta versão para violoncelo e piano, Arnon Maarten mantém o carácter lento e escuro da peça, socorrendo-se, uma vez mais, da mesma melodia. No entanto, o compositor abdica da estrutura simétrica apresentada nas peças anteriores, bem como das variações na intensidade do som produzido pelos instrumentos.
Esta experiência do Op. 7 assenta numa curta exposição da melodia, sempre em
pianissimo, em que os dois instrumentos vão alternando os seus papéis. A peça começa com a exposição da melodia no violoncelo, que logo se silencia com a entrada do piano, que produz uma sensação de contínuo musical, apesar da mudança de instrumento. Segue-se um breve trecho em uníssono, após o qual apenas o piano permanece, com função exclusivamente rítmica, no que é seguido pelo violoncelo a solo e em pizzicato.

A peça termina com os dois instrumentos tocando novamente em conjunto, até que subitamente se interrompe a melodia, aparentemente a meio de uma frase, restando apenas um silêncio que se impõe de forma súbita, inesperada e brutal.
Ao contrário das duas primeiras evocações, em que o ouvinte é confrontado com uma experiência dolorosa, que parece muito mais prolongada do que a real duração da música, neste Op. 7 somos levados a pensar que Arnon Maarten pretende proporcionar uma sensação rápida e aterradora, semelhante a uma rajada de metralhadora, absolutamente letal, apesar da insuportável lentidão com que são disparadas as balas/notas e do quase silêncio em que tudo acontece.
No final desta peça, a imagem do cano fumegante de uma arma que acaba de cumprir o seu negro desígnio, permanece terrivelmente real na cabeça do ouvinte.

Publicado por José Mário Silva às 02:27 PM | Comentários (1)

janeiro 16, 2004

PROGRAMA ALTERNATIVO

Quem não quiser ouvir o Bénard a falar do Prévert, mais logo, pode optar por uma das «Noites de História e Antrolopogia» da Ler Devagar. À mesma hora (22h00), os antropólogos João Leal (FCSH) e António Medeiros (ISCTE) conversam sobre o livro «Imagined Communities . Reflections on the origin and spread of nationalism», de Benedict Anderson. Como dizia em tempos uma senhora que gosta muito de pontos de exclamação: «Agora escolham».

Publicado por José Mário Silva às 07:57 PM | Comentários (2)

O NOVO «MAL»

O Natureza do Mal, desde sempre um dos nossos blogues preferidos, mudou de template. Está ainda mais bonito, mais elegante e mais interactivo (os comentários agora chamam-se «maldades» e... funcionam). Além disso, o André Bonirre está de volta (boa, boa) e o Luís e a Sofia continuam a escrever maravilhosamente (apesar da gripe). Lá em cima, no cabeçalho, uma frase diferente: «O Mal faz-se sem esforço, de forma natural, por fatalidade. O Bem é sempre um produto da arte». Querem saber uma coisa que até parece mentira? Esta citação de Baudelaire foi-lhes sugerida por Enrique Vila-Matas (esse mesmo, o próprio). Se eles não fossem tão porreiros, era razão para ter inveja.

Publicado por José Mário Silva às 07:52 PM | Comentários (1)

ESPERANÇA AMERICANA

A derrota de George W. Bush, nas eleições presidenciais de Novembro, tem muitas sementes espalhadas por aqui. Esperemos que floresçam.

Publicado por José Mário Silva às 07:43 PM | Comentários (0)

O PRÉVERT DELE

Hoje à noite (22 horas), João Bénard da Costa participa no ciclo de conferências «O meu Prévert», incluído na grande e belíssima homenagem que a Abril em Maio está a fazer ao poeta francês. Por estes dias, todos os caminhos vão dar ao Regueirão dos Anjos.

Publicado por José Mário Silva às 07:38 PM | Comentários (0)

OBSERVAÇÕES NATURAIS . O CÍNICO

Animal de sangue frio, que vê mal ao perto, o cínico move-se no círculo dos seus interesses, utiliza a inteligência contra o coração, comunica entre si perfídia e sinceridade. É um animal que provoca muitas vezes desconforto a quem o observa.
Os seus movimentos desajeitados, ainda que rápidos, a pelagem cinzento-rato, o riso sardónico que já foi comparado ao das hienas, a sua total insociabilidade, fazem do cínico um animal pária, que nunca gozou de grande popularidade a não ser entre os intelectuais. Curiosamente, e não somos nós a afirmá-lo (estudos há que o provam), essa popularidade tem crescido exponencialmente nas últimas décadas.
Contra a opinião geralmente aceite, de que se trata de uma espécie inteiramente autónoma, Karlsson Berth veio recentemente defender, nessa linguagem desabrida a que habituou a comunidade científica, que o cínico «não passa de uma variedade de misantropo; um, se quisermos, misantropo de salão». Esta proposição, encarada inicialmente com descrédito, começa hoje a encontrar outros defensores.
Durante séculos pensou-se que o cínico era um animal inofensivo para o homem, mas as actas do colóquio
Cynicism and Violence (Edinburgh, 2001) vieram demonstrar em definitivo que essa suposição está muito longe de ser verdadeira.
J. P. Ranson, que passou os últimos vinte e cinco anos a estudar etologia do cínico e é talvez a maior autoridade mundial na matéria, chega a compará-lo a um vírus. Os ecos da polémica suscitada pela publicação do seu
paper na revista «Nature» em 1999 ainda hoje se não atenuaram de todo. Segundo este investigador, o cinismo é, ao contrário do que pensávamos, algo que se contrai, como uma doença. O cinismo ataca, assevera Ranson, o ser humano e fá-lo em todas as faixas etárias a partir do 15-20 anos. Mais difícil de determinar é o motivo pelo qual costuma preferir os indivíduos de sexo masculino. Depois de colonizada pelo cínico, a vítima apresenta «uma sintomatologia de ataques de riso espasmódico e uma sensação de leveza de espírito semelhante à produzida pela ingestão de uma pequena quantidade de álcool». A partir desse instante começam as artérias do infectado a perder elasticidade, tornando-se, com o tempo, mais e mais quebradiças. Nesse estádio de desenvolvimento da doença, qualquer comoção pode significar a ruptura das mesmas, o que inevitavelmente conduzirá o paciente a uma morte solitária.
Prejudicial como é para o ser humano, o cínico não deixa porém de ter valor comercial, sendo desde há muito utilizado pelas indústrias farmacêutica e de curtumes. O seu sangue é também utilizado por alguma indústria vinagreira, constituindo o principal ingrediente do mundialmente famoso «Vinagre de Cínico».
(José Miguel Silva)

Publicado por José Mário Silva às 10:13 AM | Comentários (6)

BARNABÉ ESTRATOSFÉRICO

Ontem foi um dia glorioso para o magnífico Barnabé: mais de 3.000 visitas, uma coisa nunca vista neste hemisfério da blogosfera. Os rapazes, estamos fartos de o dizer, merecem tudo e mais alguma coisa. Se andam lá por cima, a morder os calcanhares ao JPP e ao Pipi, não é por acaso. É porque são, simplesmente, os melhores. Parabéns, Barnabé!
(E agora chega de conversa. Venha de lá a fanfarra, mais o fogo-de-artifício.)

Publicado por José Mário Silva às 10:04 AM | Comentários (0)

janeiro 15, 2004

UMA FRASE PARA MÁRIO DE CARVALHO

Estava eu na fila que serpenteava até um minúsculo guichet, onde uma funcionária sonolenta aceitava os pagamentos da inspecção automóvel (é verdade: o Clio azul faz por estes dias quatro anos), quando ouvi a frase. À minha frente, um homem de meia-idade, cabelo grisalho, fato-macaco cheio de manchas de óleo, mãos rudes de quem conserta embraiagens e afina motores, gabava a longevidade do sogro, velho rijo de 94 anos que durante a vida toda fumou como uma chaminé e ainda hoje emborca, logo ao levantar, dois bagaços de seguida, acompanhados apenas por um naco de pão. «E olha que ele anda ali, todo fresco, mais saudável do que eu», dizia o homem para o amigo. Depois fez uma pausa e lançou a tal frase: «Sabes uma coisa, pá, tudo isto vai da construção de uma pessoa».
Ele não disse constituição (física), disse mesmo construção. Imaginei logo vigas e alicerces em vez de ossos, betão e alvenaria em vez de pele. O que temos de anatómico transformado em arquitectura. A língua portuguesa a estalar, abrindo caminho a novos cruzamentos semânticos, curto-circuitos, metamorfoses lógicas, transfigurações do sentido.
«Tudo isto vai da construção de uma pessoa». E tive pena que o Mário de Carvalho (escritor sem carta de condução, muito menos automóvel) não estivesse ali, de caderninho em punho, a tomar nota da preciosidade, para a usar num dos seus próximos romances.

Publicado por José Mário Silva às 11:43 PM | Comentários (1)

ATRÁS DO BALCÃO

. Tem a Floresta, de Sophia de Mello Breyner?
. Não... Mas ainda temos, da mesma autora, muitas Árvores.

Publicado por Margarida Ferra às 11:31 PM | Comentários (0)

ENDGAME/GAME OVER

OK, Frazão, agora percebo que preferisses não o fazer (a escrita no blogue, entenda-se). Vê se te curas bem da maldita gripe, ó excelso compagnon de route, para depois regressares em grande forma. O BdE e a blogosfera precisam de ti.

Publicado por José Mário Silva às 11:25 PM | Comentários (1)

BARTLEBY

[Voz Off (ou Over, como quiserem) da foto que está ali em baixo:
. Depois de ler o post e os comentários sobre o silêncio do Cage, o branco do Malevitch e o negro do César, Zé Mário, estava aqui a lembrar-me de ter lido que o Robert Walser, quando foi para o hospício, e ao contrário de muitos outros loucos menos sensatos, terá dito: "Não estou aqui para escrever, mas para ser maluco." E abandonou a escrita de vez. Ora, eu não estou aqui em casa para escrever para o blogue, mas para ter gripe.
Infelizmente, os sintomas começam a desaparecer e ter gripe é como jogar ao sisudo, não se consegue aguentar tempo suficiente. Por isso, até já...]

Publicado por Francisco Frazão às 08:35 PM | Comentários (7)

PEQUENO DIÁLOGO INTRA-BLOGUÍSTICO



. Frazão, pá, por onde é que tens andado?
. ...
. Não dizes nada, não escreves...
. ...
. Olha que a malta sente a falta, pá. A malta, quer dizer, os leitores.
. ...
. Não os podes habituar e depois desaparecer sem mais nem menos.
. ...
. Diz lá qualquer coisa. Vá. Sabes que não custa nada.
. ...
. E já agora, se vires o Manel, a Marta ou o Frederico, aperta com eles, pá. A ver se reagem.
. ...
. 'Tás a ouvir, Frazão?
. ...
. Frazão?
. ...
. Só tu para fazeres estes silêncios beckettianos. Ao menos olha para mim, caraças.

Publicado por José Mário Silva às 07:34 PM | Comentários (10)

VAMOS TODOS APOIAR O SERVIÇO PÚBLICO NA BLOGOSFERA?

Já aqui o dissemos várias vezes, mas nunca é demais repetir: a blogosfera portuguesa não teria a força que tem, hoje, se não existisse o Paulo Querido, pai e generoso deus ex-machina da plataforma weblog.pt, o melhor serviço de alojamento de blogues do nosso país. Ao longo dos últimos meses, o Paulo tem sido incansável tanto na faceta de blogger, sempre a reflectir sobre os limites e as possibilidades deste meio, como no papel de handyman que mantém a funcionar, sem falhas, cerca de 850 blogues.
É preciso que alguém o afirme alto e bom som: este homem merecia uma medalha, uma comenda, uma condecoração no 10 de Junho! Em vez disso, na melhor tradição dos carolas portugueses, anda para aqui sozinho a aguentar o barco, queimando as pestanas a resolver os problemas dos seus clientes (clientes salvo seja, que o serviço é gratuito) e a arcar com as pesadas contas mensais que o imenso tráfego do weblog.pt acarreta.
Agora, após um período de crescimento explosivo e inesperado, o Paulo começa a ficar aflito. Percebe-se. Ele é jornalista (mister mal pago por definição), tem família e não me parece encaixar-se no perfil do milionário que pode investir, a fundo perdido, nos seus caprichos. Pior: ele está a perder dinheiro todos os dias com um projecto que não é só dele . é de todos nós (entenda-se por nós os 850 blogues acima referidos).
Tudo isto para dizer que considero perfeitamente natural que o Paulo crie uma página de donativos, na tentativa de reduzir (ou saldar) as suas dívidas relacionadas com o projecto weblog.pt. Como o próprio explica de forma clara, quem quiser contribuir, contribui; quem não quiser, não contribui. Mas é óbvio que a generosidade dele merece ser retribuída.

Publicado por José Mário Silva às 07:21 PM | Comentários (3)

OBSERVAÇÕES NATURAIS . A MENTIRA

Terá sido um dos primeiros animais a ser domesticado pelo homem. Tímido mas arteiro, de plumagem colorida, é muito estimado como animal de companhia. A sua admirável capacidade de adaptação ao meio, aliada ao facto de quase não ter predadores naturais, fez desta prolífica espécie uma das mais populosas sobre a face da terra.
Tem por habitat preferido o coração humano e manifesta-se, principalmente, no discurso.
Prospera nas fábricas, nos conventos, nos hospícios, a sul e a norte do Equador; não teme as agruras hiperbóreas nem os infernos tropicais. Estádios, bungalows, tribunais, a mentira está um pouco por todo o lado. E onde dois homens se reúnem, ela está entre eles.
Apesar de ser uma espécie com a qual estamos há muito tempo familiarizados, nem por isso se pode dizer que a conheçamos bem: de facto, a sua morfologia e comportamento são bastante complexas e nem sempre previsíveis. Razão pela qual muitas das suas características ainda hoje dividem a comunidade científica.
Pode ser bastante sociável e conviver sem atritos com outros indivíduos da sua espécie; mas também o contrário. O que não parece suscitar controvérsia é o facto de esta espécie se alimentar sobretudo de sentimentos, tendo uma especial predilecção pelo medo e pelo desejo.
Um problema inadiável em relação à mentira prende-se com a necessidade de controlar o excesso da sua população, que tem sido alvo de repetidas explosões demográficas nos últimos duzentos anos. Teme-se inclusive que este fenómeno atinja, a breve trecho, proporções epidémicas. O que, a suceder, pode conduzir (como foi já observado em certas zonas do globo) esta espécie a manifestações de canibalismo generalizado. E uma vez que o contacto com mentiras em decomposição pode ser altamente nocivo para a saúde pública, cremos ser de todo inadequada a ligeireza com que as autoridades sanitárias têm, até ao momento, encarado esta questão.
(José Miguel Silva)

Publicado por José Mário Silva às 05:45 PM | Comentários (7)

SAI UMA PRÉ-PUBLICAÇÃO DE JOSÉ MIGUEL SILVA PARA A MESA DO FUNDO

O José Miguel Silva, excelente poeta e tradutor (confiram o catálogo da Relógio d'Água), foi uma das gratas descobertas pessoais que esta coisa dos blogues nos permitiu. Mesmo sem um único encontro no mundo real, temos trocado correspondência electrónica e o meu quase homónimo (como gosto de lhe chamar) já publicou no BdE vários poemas, sarcasmos e textos de reflexão que geraram sempre discussões acesas e profícuas.
Itálico de luxo, propõe agora um outro desafio: a publicação neste blogue de uns quantos «primeiros esboços» (inéditos) de um «livro futuro cujo título será "Observações Naturais"». O que é que nós haveríamos de lhe responder? Respondemos que sim, claro que sim. Meu caro José Miguel, venham de lá essas prosas. O prazer é todo nosso.

NOTA- A pré-publicação em fascículos, à moda antiga, começa hoje . já, já a seguir . e continuará nos próximos dias. Estejam atentos.

Publicado por José Mário Silva às 05:39 PM | Comentários (0)

janeiro 14, 2004

HOMENAGEM DO BDE A JOHN CAGE E AOS SEUS «4'33''»

Kasimir Malevich, «White on White» (1918)

Publicado por José Mário Silva às 08:00 PM | Comentários (13)

DROGAS DURAS

O Carlos Miguel Fernandes chamou a nossa atenção para este artigo, publicado no «Público» por Manuel Pinto Coelho, um médico que gosta de sublinhar que é «colaborador de Pedro Santana Lopes na Câmara de Lisboa». Fomos ler, cheios de ganas, a pena em riste, considerando a hipótese de uma boa polémica.
Acontece que ficámos desiludidos. A matéria é muito pobre, Carlos, os disparates são demasiado grosseiros. Conheces a expressão «Não vale a pena gastar cera com tão ruim defunto»? Pois é, aplica-se. Quando alguém se obstina em não ver o que é óbvio, mais vale passarmos à frente. Quem envereda por este tipo de cegueira hipócrita, droga dura das pesadas, raramente tem salvação.

Publicado por José Mário Silva às 07:58 PM | Comentários (4)

MARIANA POR MATISSE

Foi hoje inaugurada, em Lisboa, uma exposição das litografias que Henri Matisse criou depois de ler as «Lettres Portugaises», de Soror Mariana Alcoforado, a religiosa bejense do séc. XVII que se apaixonou perdidamente por um oficial francês, Marquês de Chamilly, para seu grande mal (mas para bem da literatura).

Retrato de Matisse, por Cartier-Bresson

Os desenhos de Matisse, retratos da freira e flores, são um prodígio de simplicidade e delicadeza. Podem ser vistos até 24 de Abril, no museu da Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva (Jardim das Amoreiras).

Publicado por José Mário Silva às 07:55 PM | Comentários (1)

ANDAIMES

Parado na rua, fico a ver o bulício de uns quantos operários que montam, no meio de um torvelinho de impropérios (entre eles) e galanteios (para as raparigas na paragem de autocarro), um andaime muito alto. Há por ali uma profusão de gestos, de parafusos, de chaves inglesas, de ordens gritadas, de força bruta, de suor e leis da física. Gabo a sabedoria acumulada que permitiu esta espantosa invenção: o andaime, estrutura leve, parede etérea encostada a outras paredes mais sólidas, trepadeira de metal.
Parado na rua, observo o andaime que cresce. Devagarinho. E recordo uma evidência secular. É tão mais fácil destruir do que construir.

Publicado por José Mário Silva às 02:20 PM | Comentários (8)

ONDE É QUE FICA O DESEMPREGO?

Trabalho numa povoação do nosso país profundo, sede de um concelho que, no total, possui cerca de 900 telefones na lista e outras pérolas assim de desenvolvimento local.
No edifício onde exerço as minhas funções (no rés-do-chão) funciona, entre outras estruturas, no primeiro andar, uma espécie de gabinete camarário onde são entregues os subsídios de desemprego, POC's e outros auxílios à população carenciada.
Hoje de manhã, bem cedo, assomou-se à porta um velhote, aparentando cerca de 80 anos, que perguntou na máxima ingenuidade: «o desemprego é lá em cima?». Após hesitar um segundo entre a resposta irónica («deve ser, porque aqui em baixo trabalha-se!») e a resposta amarga e mais realista («não, amigo, o desemprego é em todo o lado...»), lá acabei por dar a resposta . «sim, é lá em cima» . que o senhor pretendia.
Enfim, bela maneira de um biólogo iniciar o dia...
(João Almeida)

Publicado por José Mário Silva às 02:09 PM | Comentários (4)

PERSPECTIVAS E POSTULADOS

O crítico musical, que tantas alegrias nos tem dado com os seus posts iluminados sobre música e o luxo multimedia do seu blogue, contagiado por umas fotos tiradas dos ângulos apropriados, de maquetes limpas e sem ratazanas, alargou horizontes e iniciou-se num novo e nobre apostolado.
Os postulados deste apostolado são surpreendentemente simples e lineares, para quem está mal habituado ao primor e sofisticação habituais das análises do crítico:

1- As torres de Sete Rios (de esquerda?) são um escarro
2- Mas as de Alcântara (de direita? do centro?) são uma obra de arte e prontos
3- Dizer o contrário é pura demagogia
4- E quem é que diz o contrário quem é quem é? Adivinharam. Uma .certa. esquerda que por sua vez tem duas hipóteses:
a) ou é cega
b) ou não quer ver
5) Esta, ainda incapaz de digerir a velha questão dos cinco violinos (ver nota) abre uma guerra "proxy" contra Lopes, o "Kennedy português" que, frente ao muro degradado da antiga fábrica do açúcar, disse "Ich bin ein Alcantarense", atacando Siza, o artista intocável e de orientação política indefinível.

Temos bases para uma discussão séria.
Bonne chance! E cuidado com os ratos.

Nota: Esta observação é um bocadinho reducionista, quando se sabe que na altura também havia queixas por causa das meias brancas (vindas de uma .certa. esquerda ou, quem sabe, de uma .certa. direita).

Publicado por tchernignobyl às 12:02 PM | Comentários (19)

LEITURA OBRIGATÓRIA

Quando lemos por obrigação, perdem-se muitas coisas: o ritmo livre, as interrupções, o prazer de voltar atrás, de trair o livro com outros livros, ou mesmo o direito de saborear cinco vezes (dez vezes, 1000 vezes) o mesmo parágrafo perfeito. Quando temos um relógio a impor-nos metas, a leitura segue a direito, meticulosa e quase mecânica, desabrida como um comboio que chega à tabela. É uma sofreguidão que só termina na última página, uma espécie de escrita automática ao contrário: leitura automática, veloz, cega. Visto de fora, pode parecer um tormento, uma escravatura, uma violência física e intelectual. Mas não é. Sou incapaz de explicar porquê, mas não é. Só sei dizer que se aproxima perigosamente da vertigem . isto é, da volúpia . sem nunca cair no abismo.

Publicado por José Mário Silva às 10:55 AM | Comentários (0)

janeiro 13, 2004

O CAPITALISMO, JÁ SE SABE, CHEGA A TODO O LADO

Cartoon de Cam Cardow (The Ottawa Citizen)

Publicado por José Mário Silva às 07:57 PM | Comentários (2)

HÁ ORDENADAS MAIS ABCISSAS QUE AS OUTRAS

Um post do Zé Mário sobre o caso Parmalat originou uma troca de comentários em que, no habitual tom pedagógico, o João Miranda disse que se notava nesse post «uma enorme aversão ao risco» e «uma enorme dificuldade em entender os mecanismos do mercado».
Acorreu em seguida o maradona, largando por momentos as canelas ao "engenheiro", explicando que este e outros casos não ilustram o funcionamento inerentemente corrupto da bolsa, antes se tratando de «casos de polícia».
Porém, os abusos que certas pessoas cometem em matéria de absentismo, falsificação de documentos para obter de forma fraudulenta proventos da Segurança Social, ou do rendimento mínimo garantido, e fuga aos impostos, já não são apenas «casos de polícia», revelam toda a extensão do desastre que é para os mais desfavorecidos a existência de mecanismos colectivos mínimos de protecção social.
Não será isto, também, distorcer as proporções entre .as ordenadas e as abcissas.?

Publicado por tchernignobyl às 07:45 PM | Comentários (6)

DIÁLOGO OUVIDO NA RUA

. Eu gosto muito é daquele padre bonzinho.
. Qual padre?
. Aquele que ri muito. O... o... Messias, ou Mexias, ou lá o que é.
. O Melícias.
. Pois, esse.

Publicado por José Mário Silva às 05:46 PM | Comentários (5)

4.220.000.000 DE DÓLARES

Eu repito por extenso: quatro mil duzentos e vinte milhões de dólares. Foi esta a fortuna astronómica que se eclipsou, não se sabe bem como, das contas do governo angolano, entre 1997 e 2002. Está tudo explicado aqui e, ainda mais detalhadamente, aqui. O dinheiro proveniente das vendas de petróleo perdem-se nos labirintos da corrupção, em Luanda, enquanto o resto do país continua atolado na mais abjecta das misérias. E nem sequer existe, como até 2002, a desculpa da guerra civil. O que se passa em Angola não é um escândalo. É um crime. Um crime que está a destruir o futuro de uma das nações potencialmente mais ricas do mundo.

Publicado por José Mário Silva às 01:37 PM | Comentários (10)

MUNDO COLORIDO

E porque o mundo não é bem a preto e branco, eis a posição do influente neo-liberal Henri Lepage acerca da guerra no Iraque. Isto de facto faz lembrar o Justine.
Tudo se pode justificar a partir de tudo.

Publicado por tchernignobyl às 10:22 AM | Comentários (8)

janeiro 12, 2004

ESTÉTICA

Fazendo fé na imprensa de hoje, Edite Estrela integrará (ou poderá integrar) as listas do PS para o Parlamento Europeu. Por miúdos: uma cidadã condenada por crime, praticado no exercício de funções públicas, é candidata ao exercício de funções públicas! Falta de moral, falta de respeito pelo eleitor, falta de bom senso e, acima de tudo, falta de estética. Ferro continua a desiludir. É um PS a pique e outro em plena escalada. (JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 11:35 PM | Comentários (3)

(DES)ENCONTROS DE PRATELEIRA

Devolução da editora Paulinas. Uma, duas, ao fim de três voltas à loja ainda não consegui encontrar a «Alegria no Trabalho» nem o «Tempo de Brincar».

Publicado por Margarida Ferra às 11:31 PM | Comentários (6)

DÓS DE PEITO

Um estudo científico veio finalmente confirmar uma suspeita antiga: nenhum ouvido humano normal percebe patavina do que os cantores de ópera cantam. Fico muito mais descansado, acreditem. Julgava que o problema era só meu.

Publicado por José Mário Silva às 11:25 PM | Comentários (1)

PEQUENO CONTRAPONTO

O meu post «O seu a seu dono» não tem a pretensão de provar a .idiotia. generalizada do que escrevem os liberais. Tal pretensão estaria ao nível dos raciocínios lógico-dedutivos que levaram às .teorias. expressas por Lepage e de muitos dos militantes do neo-liberalismo, entre os quais se encontram alguns distintos bloggers cuja produção apesar de tudo respeito.
Independentemente do julgamento globalmente negativo que eu possa fazer destas teorias e dos interesses que financiam a sua produção, interessa-me aqui assinalar apenas os extremos de irracionalidade, para não dizer estupidez, a que o fanatismo no pensamento único como .teoria para tudo. conduz. E o pior é quando estes raciocínios não se limitam à segurança rodoviária.

Publicado por tchernignobyl às 08:39 PM | Comentários (1)

O SEU A SEU DONO

Um lamentável lapso provocou a justa indignação dos nossos leitores.
O meu post intitulado Capacetes de mota e cintos de segurança foi colocado on line sem referência à obra nele citada extensivamente.
No intuito de emendar essa lacuna, informo que grande parte do texto .Capacetes de mota.... é uma cópia directa do livro .Amanhã o Capitalismo., editada pelas Edições Europa-América e traduzida por Adelino Gomes dos Santos.
O título original é Demain Le Capitalisme, o autor é Henri Lepage e foi publicado em 1977.
Bem, este gajo é um demagogo, dirão alguns espíritos cartesianos. Foi buscar um excerto de um livro obscuro, escrito por um jornalista mal preparado, para atacar o liberalismo.
Para tranquilizá-los, informo que o autor é uma personalidade conceituada no campo liberal e já pertenceu, entre 1994 e 1998, ao Board of directors da Societé du Mont Pélerin, distinta instituição que teve Friedrich Hayek e Karl Popper entre os seus membros fundadores.
Não sei se, no período que decorreu entre a produção do livro e a actualidade, foi possível ao Henri aplicar o método, seguido nas brilhantes investigações descritas em 1977, a outros aspectos da segurança rodoviária como o airbag, o teste alcoólico, os telemóveis ao volante e as cadeiras de bebé, mas de certeza que não renegou o que escreveu em «Demain le Capitalisme», que continua a ser uma obra de referência na sua carreira.
Para os mais metódicos, junto na .continuação. abaixo, o texto completo desta passagem que integra o subcapítulo .As contraprodutividades das normas de segurança. nas páginas 228, 229 e 230 de «Amanhã o Capitalismo»:

Sam Peltzman não é apenas o .demolidor. da Food and Drug Administration, como vimos a propósito da legislação sobre a introdução de novos medicamentos; é também o autor de um outro estudo, mais recente mas igualmente interessante, dedicado aos efeitos dos cintos de segurança. (Sam Peltzman, .the effects os Automobile Safety Regulation., Journal of Political Economy).
Pergunta: que benefícios trouxe à sociedade a obrigação imposta aos utentes da estrada de colocarem o cinto de segurança? Utilizando um método análogo ao do seu trabalho anterior, Sam Peltzman procurou verificar que efeito tivera a introdução da legislação sobre segurança nas estatísticas de acidentes e na sua gravidade. "Nenhum", foi a resposta.
Sim, depois de posta em prática esta legislação, verificou-se efectivamente uma redução da gravidade dos ferimentos sofridos pelos passageiros.
Mas, acrescenta Peltzman, o número total de acidentes aumentou para além do que permitia prever uma simples extrapolação de tendências antes da entrada em vigor dos novos regulamentos.
Notou-se sobretudo um aumento bastante nítido do número e da gravidade relativa dos acidentes de peões e ciclistas.
A vantagem social relacionada com a diminuição da gravidade dos acidentes de automóvel é portanto compensada pelo maior custo que a sociedade suporta devido ao aumento do número e da gravidade dos acidentes que envolvem não automobilistas.
Tudo parece indicar que a maior segurança de que gozam os automobilistas pelo facto de usarem o cinto de segurança os leva a conduzir mais perigosamente, a prestar menos atenção à condução do que anteriormente e a incorrer noutros riscos que procuravam evitar quando não eram obrigados a usar o cinto de segurança.
A explicação é a seguinte: todo o indivíduo que conduz um veículo assume conscientemente um certo número de riscos. A "quantidade" de riscos assim assumida depende da forma como os outros condutores se comportam na estrada. Mas depende também do temperamento individual de cada automobilista.
Alguns indivíduos assumem mais riscos do que outros (os que gostam de conduzir depressa, por exemplo). Posto isto, o risco assumido por cada indivíduo não é um dado fixo e constante. É qualquer coisa que varia também em função do "preço" potencial em que o condutor incorre ao assumir os riscos associados à sua maneira de conduzir.
Esse preço individual é constituido por todos os inconvenientes que o condutor terá que suportar se sofrer um acidente que o leve ao hospital, lhe imponha lhe imponha despesas de tratamento imprevistas ou o incapacite para o trabalho durante mais ou menos tempo.
Quanto mais esse "custo potencial individual" é elevado, tanto mais o condutor se sente predisposto a reduzir o nível dos seus riscos e portanto a ser mais prudente (quando um preço aumenta a quantidade exigida diminui). Pelo contrário, se o preço potencial individual diminui há todas as probabilidades de o automobilista se mostrar menos prudente (quando um preço baixa, a quantidade exigida aumenta).
Vejamos agora o que significa a obrigação de usar o cinto de segurança .
Semelhante legislação reduz efectivamente o custo dos acidentes de automóvel para a sociedade. Mas reduz também o custo potencial individual dos riscos relacionados com a condução automóvel. Diminuindo esse custo, o cinto de segurança torna-se de facto um encorajamento a uma condução menos prudente. Baixando o preço individual do risco automóvel, a procura de risco aumenta. E quem suporta as consequências disso? Os utentes não automobilistas da vida pública.
Ora quem são estes utentes? Quase sempre pessoas que não possuem meios para circular de automóvel.
Não só se não atinge o objectivo desejado, que é o abaixamento do custo global dos acidentes da estrada, como também e ao mesmo tempo a medida utilizada conduz a um efeito social regressivo. Tudo, evidentemente, em nome do interesse geral...
Seria preferível se se quisesse realmente diminuir o custo social dos acidentes, excluir os automobilistas do benefício da assistência médica por parte da Segurança Social e obrigá-los a segurar-se individualmente no tocante à totalidade dos riscos automobilísticos.
Não é decerto por acaso que nos Estados Unidos têm, aliás, uma taxa de acidentes de automóvel inferior à dos restantes países europeus. Talvez a circunstância de não terem segurança social para todos influa nisso de algum modo.
Alguns discípulos de Sam Peltzman também discordam do uso obrigatório do capacete.
Uns discordam em nome da liberdade individual: "cada um" dizem, "é livre de atribuir à sua vida o valor que quiser, desde que a sua escolha não interfira na liberdade dos outros. Ninguém, nem mesmo o Estado tem o direito de proteger o indivíduo de si mesmo..
Outros porém, utilizam um raciocínio mais subtil. Em países onde a medicina está nacionalizada ou quase socializada, (caso da Segurança Social francesa, onde é o contribuinte que, em última análise, suporta as despesas de acidentes individuais em que é impossível implicar directamente um terceiro e portanto pôr em funcionamento os seguros), o uso obrigatório do capacete pode ser justificado pelos "custos sociais" que o indivíduo impõe à sociedade devido aos riscos pessoais que assume sem ter em conta o seu custo potencial para a colectividade (despesas de hospitalização, por exemplo). Se tem um acidente grave, será de facto o contribuinte que, através do sistema de solidariedade, arcará com os custos da assistência médica. A sociedade tem portanto um interesse directo em reduzir o grau de gravidade dos acidentes, mesmo quando estes não dizem respeito a um terceiro.
Mas não haverá outra forma muito mais eficaz de realizar tais economias? Se não existisse segurança social o motociclista teria de suportar a totalidade dos "custos potenciais" relacionadas com os riscos que assumisse. E isso pela via normal de um seguro. O alto coeficiente de risco ligado à condução de motocicletas faria com que os seguros contra acidentes dos motociclistas fossem muito mais caros do que os dos não amadores de motos. Das duas uma: ou os motociclistas seriam obrigados a mostrarem-se mais prudentes para terem prémios menos elevados ou muito simplesmente alguns deles renunciariam a esse meio de locomoção, que se lhes tornaria demasiado oneroso.
Não se pode proibir um indivíduo de incorrer nos riscos que lhe apeteça incorrer (de contrário, teríamos de proibir inúmeras actividades, como, por exemplo, as excursões na montanha). Mas cada indivíduo deve estar em condições de conhecer o preço exacto do risco em que incorrer. Só nestas condições a sociedade poderá reduzir ao mínimo os riscos que assume pelo facto de o risco ser uma actividade humana como qualquer outra. Ora aonde conduzem os nossos sistemas de saúde actuais? A uma situação muito diferente. A uma situação em que a intervenção da colectividade contribui para reduzir o preço individual do risco e fazer cobrir a diferença pela comunidade. Por outras palavras, a segurança social, a pretexto de assegurar a igualdade de todos perante os riscos de saúde, leva muito simplesmente a subvencionar aqueles que têm pelo risco um gosto superior à média dos seus concidadãos (e ao mesmo tempo subvencionar os construtores de motos japoneses...). Semelhante subvenção justificar-se-ia se cobrisse um custo socialmente útil, se fosse acompanhada de efeitos externos positivos, mas na ocorrência não é certamente esse o caso. Nem sequer existe o pretexto de dar trabalho aos operários franceses...

Publicado por tchernignobyl às 08:23 PM | Comentários (4)

FRANCESCA

Em cada fotografia de Francesca Woodman há sempre algo que me perturba, fascina, inquieta. Veja-se este «On being an angel #1», um dos seus muitos auto-retratos. Temos a sombra que lhe devora metade do rosto, a luz que vem de um lugar incerto (talvez o purgatório das almas impuras), o corpo suspenso num vazio alheio às leis da gravidade, a brancura da pele já pronta para a morte e aquele olhar que não sei se é de espanto, de medo ou de abandono. A fotografia fala sobre o que é isso de ser anjo, matéria volátil. E não podemos deixar de nos arrepiar, sabendo que Francesca se matou aos 22 anos, em Nova Iorque, atirando-se de uma janela.

Publicado por José Mário Silva às 08:13 PM | Comentários (1)

CRIATIVIDADE TOPONÍMICA

Leio as pequenas notas biográficas dos 15 autores reunidos numa antologia de contos da Cotovia («Fotografia de Grupo») e confirmo o que já suspeitava: não há como os brasileiros para inventarem nomes fabulosos, quer para pessoas quer para lugares. Dois exemplos: Raduan Nassar (nascido em Pindorama) e Adélia Prado (Divinópolis). Com cidades-natais destas, não admira que escrevam como escrevem.

Publicado por José Mário Silva às 04:47 PM | Comentários (3)

NÃO SAIAM DE CASA

Numa carta ao Público, uns leitores exigem ao governo que não nos protege dos incêndios, da corrupção, do atraso económico, e em cuja vigência caiu uma ponte pedonal que apenas motivou a demissão relutante de um funcionário, medidas e medidas "firmes" de protecção contra os... meteoritos.
Há quem queira viver na lua, mas estes parece-me que querem viver numa mina.
No lugar deles, eu passava a andar de chapéu.
Ou mudava-me para um condomínio fechado.
Ou contratava o siza para fazer uma pala sobre todo o nosso território.
Ou pedia ao Lopes que fizesse do túnel do Marquês uma rede de catacumbas.

Publicado por tchernignobyl às 09:29 AM | Comentários (5)

DANÇA DA FERTILIDADE

Agora é de vez! A retoma está marcada para Junho, mesmo a tempo do início do Verão, anunciaram-na no primeiro dia do ano alguns dos mais eminentes astrólogos, druídas, duendes e múmias do nosso país.
O pretexto foi agora o relatório do Banco de Portugal e é verdadeiramente um sinal dos tempos. Basta que os indicadores não sejam estritamente negativos, e que o .crescimento. previsto seja da ordem das décimas, coisa que há bem pouco tempo seria sinal de catástrofe, para sair o fumo branco do fim da crise. Oxalá alguma vez acertem.

Publicado por tchernignobyl às 09:27 AM | Comentários (5)

EM CASA ONDE ANDAM A GAMAR O PÃO

Provavelmente por pressão dos blogues, o governo, através do Ministério da Economia, mandou a Autoridade da Concorrência avaliar se se justificam os aumentos de 35% previstos para o pão, que a alguns parecem exagerados face a estimativas do impacto real da escassez de produção de cereais na determinação do preço do pão.
Segundo a Associação do Comércio e da Indústria da Panificação, citada num trabalho de Cátia Almeida, no DN-Negócios de sábado, dia 10 de Janeiro, «um aumento de 35% ou 40% na matéria-prima irá resultar num acréscimo de 10% no preço da farinha e apenas 3% no pão vendido ao consumidor».
Mas pelo sim pelo não, se eu fosse ao governo não faria nada. Os liberais ensinaram-nos que os mecanismos reguladores, como a Comissão de Concorrência, acabam sempre por se virar contra os mais desprotegidos e ainda acabamos por ter um aumento de 40 ou de 50%.

Publicado por tchernignobyl às 09:26 AM | Comentários (7)

janeiro 11, 2004

AS BUSCAS

Isto é quase embaraçoso. Leio os outros blogues e descubro, não sem um certo pasmo, que a maioria dos nossos camaradas da blogosfera recebe um número significativo de leitores tresmalhados . isto é, pobres iludidos que digitaram o Google à procura de «imagens da Fernanda Serrano nua» (ou da Alexandra Lencastre, tanto faz), «mamas de Pamela Anderson», «filmes pornográficos com pessoas idosas», «cabelo do David Beckham» (ou do Simão Sabrosa, tanto faz), «dupla penetração», «kamasutra ilustrado», «masturbação feminina», «gajas despidas à luta na lama», etc, etc, etc, e depois encontraram coisas muito diferentes dessas. A nós, pelo contrário, só chegam pesquisadores do Google em busca de «poetas portugueses contemporâneos», ou «sonho + Ilha dos Mortos + Böcklin», ou sobretudo, em 99% dos casos, «BdE», «Blogue de Esquerda» ou «blogue». O que as pessoas procuram é, rigorosamente, aquilo que encontram. Isso é bom. Evitam-se malícias mal direccionadas e grandes desilusões aos internautas que nas suas pesquisas aqui vêm dar. Por outro lado, há que dizê-lo, a consulta dos referrals não tem um décimo da piada. E perdemos o ensejo de fazer posts engraçados como este.

Publicado por José Mário Silva às 11:57 PM | Comentários (4)

DENTRO DO LABIRINTO, 12

«Apareceram quando matou o monstro. Vagueavam pelo labirinto, esfomeados, buscando há muitos anos a saída. Enquanto ele seguia o fio até à porta, lançaram-se sobre o monstro e despedaçaram-no, devorando a sua carne ainda quente.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (0)

DENTRO DO LABIRINTO, 9

«Saiu do labirinto com o fio numa mão e a cabeça do monstro na outra. Deu-a ao estrangeiro que prometera fugir com ela, e que lhe prometeu também que ninguém saberia de nada, e a felicitou pela sua coragem. O estrangeiro cumpriu a promessa: nunca souberam que foi ela.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 11:45 PM | Comentários (0)

ESTULTÍCIA

Levanto-me de manhã, escorropicho umas gotas de água sobre as pálpebras e saio para o emprego maldizendo a tragédia que é ter de trabalhar para sobreviver.
No caminho compro o jornal numa loja extra ou num quiosque e antes sequer da bica apanho logo com a ladaínha nas ventas, faça sol ou faça chuva: .trabalhar, trabalhar, trabalhar....
Todos os dias um ou dois cronistas, um editorialista e quatro cartas de leitores exercem fervorosamente a espécie de obsessão nacional que é mandar os outros trabalhar, incentivá-los a .serem dinâmicos. e a .inovar!..
Aparentemente vivemos rodeados de gente que ou trabalha ou está desempregada mas, na realidade, nada mais falso. Parece evidente que, exceptuando os pregoeiros, ninguém faz mais do que amparar as esquinas.
Tudo perdido?
Destinados ao fracasso?
Felizmente existe uma consciência moral da nação, uma espécie de maioria ruidosa dando o melhor das suas energias exortando, pela escrita, os outros a trabalhar, e exemplificando com o seu entusiasmo como é possível acompanharmos os melhores se explorarmos com talento as nossas vantagens competitivas, a começar pelo hábito, que nos ficou do passado evangelizador, de pregarmos sermões aos outros.
O pior é que parece muito trabalho para nada. Se fosse produtivo, revelador de competência integradora de conhecimentos avançados e tecnologia sofisticada, com tanta e tanta gente a fazê-lo, com tanto empenho, há muito que Portugal seria uma potência temível.

A blogosfera, valha-nos isso, parece a salvo desta obsessão. Pelo menos por enquanto. Existe demasiada consciência da estultícia desta actividade recreativa para que alguém tenha a lata de vir para aqui com exortações inflamadas, o que me permite sugerir à legião de stakanovistas mais ou menos encartados que fumem um charro e relaxem.
E depois criem um blogue.
E vão-nos explicando porque é que nos exortam a trabalhar e nos garantem que com trabalho (muito trabalho, claro) .tudo é possível., enquanto nos dizem que a nossa economia é pequena, aberta e estamos dependentes da retoma dos outros para sair da crise.

Publicado por tchernignobyl às 11:02 PM | Comentários (3)

SONS E IMAGENS DE GIACOMETTI

Michel Giacometti (1929-1990) era um corso aportuguesado, um homem sério e um etnógrafo excepcional. Entre outras coisas, devemos-lhe o facto de ter sido, provavelmente, a pessoa que mais contribuiu, no séc. XX, para a recolha, estudo e divulgação da música tradicional portuguesa. Uma exposição no Centro Cultural de Cascais («Michel Giacometti, caminho para um museu») mostra agora uma parte do vasto espólio que o investigador legou ao Museu da Música Portuguesa. A visita não é obrigatória, claro, mas quase me atrevo a sugerir que devia ser. Horário: de terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas.

Publicado por José Mário Silva às 10:45 PM | Comentários (2)

A MARÉ ESTÁ A PASSAR POR AQUI?

No Alentejo profundo, um casal de trabalhadores brasileiros em situação ilegal, a trabalhar há cerca de um ano na Morvifer Agro-Pecuária Lda., foi despedido sumariamente e expulso das instalações que ocupavam pela GNR, a pedido da administração da empresa, e encontra-se neste momento a viver num automóvel, segundo esta notícia da Rádio Pax de Beja.
No telejornal, um administrador da empresa, o sr. Gonçalo Andrade, talvez ofuscado pelo status luxuoso de que usufrui quem vive com a família de quatro pessoas (duas delas crianças) num carro, manifestava-se perplexo com o facto de, estando em situação ilegal, poderem estes imigrantes ter tantos conhecimentos dos apoios que podem obter.
É evidente que a desprotegida e cumpridora Morvifer desconhecia os direitos que, apesar de tudo, ainda assistem a trabalhadores, mesmo em situação ilegal, e por isso durante 2003 esqueceu-se de efectuar qualquer pagamento à Segurança Social.
É disto que se faz o progresso no nosso país, com muito mas muito trabalho.

Publicado por tchernignobyl às 10:39 PM | Comentários (3)

OS CONTOS, 7

«A princesa dormia envolta em orvalho, no coração do castelo encantado. Aproximou-se dela, ajoelhou-se e beijou suavemente os seus lábios. Ela não se moveu. Beijou-a de novo. Fora do castelo, manteve a criação de porcos. Há cinquenta e dois anos que tentava despertá-la, e algum dia, sabia-o, haveria de conseguir.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 10:34 AM | Comentários (2)

OS CONTOS, 4

«Comeu o coração que lhe trouxeram, tal e qual mandava a tradição, mas aquela noite passou-a em branco. Inquieta, ordenou que chamassem o caçador, que lhe assegurou que o coração era da princesa, e como prova mostrou-lhe também a respectiva cabeça. Apaziguada, a rainha sorriu. Detestava carne de veado.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 10:28 AM | Comentários (0)

MARCO É JÁ ALI

Um tipo é dono de uma terreola a norte, quer uma maior que não tenha igrejas do Siza, a dois anos de distância das eleições lança-se para a frente, que ainda a pátria do Amadeo espera por um salvador, em Fevereiro vai ter julgamento por corrupção mas o que não falta são impunes, a promessa eleitoral é a de fazer feriado municipal no dia de são gonçalo, padroeiro dos cravos vermelhos (ou vice-versa), o discurso de lançamento foi salpicado de água benta pelo padre car(v)alho e no discurso de intenções saiu-lhe que o desporto é bom para "apurar a raça". Será isto uma passagem do manifesto surrealista de 1924? Não, meus amigos... é só Avelino Ferreira Torres que deseja possuir Amarante. (Pedro Vieira)

Publicado por Manuel Deniz às 10:26 AM | Comentários (1)

O ESPELHO, 1

«Então seguiu-me, subiu as minhas escadas, entrou no meu quarto para ver se eu estava. E eu esperava-o no reflexo do espelho, radiante e clara como a recordação de melhores dias. Estendeu a sua mão para tocar-me; mas eu nunca tinha estado ali.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 10:19 AM | Comentários (0)

ARANHAS E BORBOLETAS, 7

«Foi muito triste ter que a deixar no canil durante o verão, mas era impossível levá-la em viagem. No regresso, ela abanou a cauda alegremente e deitou-se na sua cesta, tão carinhosa como sempre. Mas quando lhes esvaziaram a casa, nem sequer ladrou.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 10:05 AM | Comentários (0)

janeiro 10, 2004

AS VOZES, 6

«O palácio tinha sido abandonado à sua sorte, mas ela tocava piano, impassível, uma peça atrás da outra. Quando assaltaram o palácio, os soldados irromperam no salão em que se ouvia a música e descobriram o piano amarelado e carcomido que soava sozinho, tal e qual dizia a lenda.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 09:24 PM | Comentários (0)

ECOS DE ESTANTES ESCALADAS

O Vincent Bengelsdorff ia para me atacar, furiosamente, só que depois mudou de ideias. A diatribe transformou-se em vénia; a indignação deu lugar a um poema citado na íntegra.
Querem saber porque gosto tanto da blogosfera? É porque estamos sempre a meio caminho entre a inveja e a admiração sincera, a raiva e a dádiva, o ódio e a amizade, o comentário mauzinho e a correcção dos erros involuntários. E no fim apercebemo-nos que nada disto tem, afinal, assim tanta importância.
Obrigado, Vincent. Não pela vénia (deixa-te disso), ou sequer pelo elogio, mas pela franqueza e pela honestidade.

Publicado por José Mário Silva às 09:20 PM | Comentários (1)

O PREÇO DAS CASAS

Ora passem os olhos por este artigo. Serei o único a achar que quando os juros diminuiram abruptamente, em meados da década de 90, o crédito bonificado devia ter sido imediatamente eliminado? A mim parece-me é que o rendimento extra, disponível via crédito bonificado, serviu como pressão para o aumento brutal do preço das casas. Quer isto dizer que o dinheiro acabou, de facto, por ir parar aos bolsos de construtores e companhia. Isto é, o crédito bonificado passou a ser uma medida ASSOCIAL. Para não falar no caos paisagístico que a construção em massa gerou. É claro que não foi por estas razões que a Manelita acabou com ele. Mas ainda bem que acabou.
E agora pergunto: não seria mais inteligente a esquerda lutar, forte e feio, por medidas para desencorajar casas devolutas (cujos actuais proprietários estão à espera de "melhores" tempos para as venderem), forçando assim a descida dos preços e permitindo, talvez, que surja um verdadeiro mercado de arrendamento?
(Jean-Luc)

Publicado por José Mário Silva às 08:58 PM | Comentários (9)

ANJOS, 5

«Apareceu subitamente, caído não se sabe de onde, a meio do caminho. Os habitantes da zona levaram-no para casa, acreditando, ao ver as suas asas, que era um mensageiro do céu. A partir dessa altura, todas as noites, uma donzela foi encontrada morta com duas cicatrizes vermelhas no pescoço.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 08:45 PM | Comentários (0)

EM AUDIÇÃO

Mário Laginha + Bernardo Sassetti: quatro mãos, um só corpo.

Publicado por José Mário Silva às 08:22 PM | Comentários (0)

MULHERES E FILOSOFIA

Muitíssimo interessante, o texto de Umberto Eco publicado no DN deste sábado. Fala sobre a questão feminina na filosofia. Ou de como à mulher foi sempre negado, ou pelo menos desvalorizado, o direito de pensar: «Não é que as mulheres não tenham filosofado. A verdade é que os filósofos preferiram esquecê-las, depois de terem, talvez, surripiado as suas ideias».
Entre as poucas excepções à regra, numa História do Pensamento feita de esquecimentos e aversões misóginas, está o nome de Hipatia de Alexandria (370-415 DC), extraordinária mulher que ensinou filosofia platónica e matemática avançada, numa época em que tais matérias só estavam . supostamente . ao alcance dos cérebros masculinos. Além de se ter tornado um ícone dos movimentos feministas, Hipatia inspirou ainda um excelente blogue português.

Publicado por José Mário Silva às 08:19 PM | Comentários (1)

A ÁGUA, 12

«Encheu os bolsos de pedras para afogar-se sem retorno, e caminhou mar adentro. Imaginava que estaria cheio de afogados, e vozes, e sereias de cabelos enlouquecidos, e jovens suicidas com poemas nas mãos. Mas só encontrou obscuridade, solidão eterna e silêncio.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 08:11 PM | Comentários (2)

PARA MELÓMANOS

Se a «Goldberg» (revista sobre música antiga feita por nuestros hermanos) é uma pequena maravilha, o respectivo site não lhe fica atrás.

Publicado por José Mário Silva às 07:31 PM | Comentários (0)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (7)

O musicólogo António Correia Guerreiro prossegue o estudo da obra do compositor holandês Arnon Maarten (1933-1996):

Evocação da Guerra n.º 2 [para violoncelo e percussão] Op.6, de 1964 (8 min)
Adagio

Escrita em simultâneo com o Op. 5 e o Op. 7, esta «Evocação da Guerra n.º 2» partilha com a anterior a melodia e o ambiente.
Tal como já vimos, Arnon Maarten procurou a melhor forma de transmitir as emoções que a II Guerra Mundial lhe despertava, experimentando várias soluções instrumentais para a mesma melodia.
Efectivamente, o compositor ainda havia de voltar a esta temática oito anos depois, compondo uma versão orquestral destas evocações (o seu Op. 33), peça mais longa e elaborada, numa fase de maior domínio ao nível das ferramentas do seu .ofício..
Quanto ao Op. 6, trata-se de uma versão quase idêntica ao Op. 5, que mantém a mesma estrutura em vértice, em que as duas .encostas. musicais representam uma imagem no espelho uma da outra.
Nesta segunda evocação, a melodia começa por ser exposta na percussão, que desta vez é .varrida., dando uma imagem mais contínua da melodia, um pouco ao estilo tão frequentemente usado nalgumas peças mais lentas do jazz, ao nível da bateria.

A entrada do violoncelo (com uma função rítmica semelhante à que se observa para o piano no Op. 5) dá-se em pizzicato, que se mantém por toda a primeira metade da composição. Os dois instrumentos prosseguem em crescendo, culminando a primeira parte da peça num silêncio de dois compassos, tal como na evocação para piano e percussão.
A segunda metade corresponde então a um diminuendo em que o violoncelo assume o seu papel melódico (já não em pizzicato) e a percussão fica encarregue do ritmo, desta vez efectivamente percutido.
O Op. 6 termina com o violoncelo solo, no seu registo mais grave, com uma única nota que se prolonga lenta e indefinidamente até que se funde com o silêncio que, tal como na peça anterior, assume o papel de final ansiosamente aguardado pelo ouvinte, como paliativo para a experiência dolorosa que constitui a audição da evocação.
Como já se disse, Maarten quase nada deixou escrito sobre estas peças de guerra, pelo que é impossível sabermos se o compositor a elas voltou ao longo da sua vida e, caso tal tenha acontecido, quando e quantas vezes o terá feito. Apenas sabemos que esta temática voltou a impor-se a Arnon Maarten em 1972, quando compõe a sua quarta evocação da guerra. É possível que o compositor tenha nesta altura revisto as suas anteriores peças, mas também podemos especular que, dada a natureza dolorosa de que estas composições se revestiam para Maarten (o que é comprovado, não só pela própria música, como também pela ausência de considerações escritas), talvez o compositor tenha evitado voltar a trabalhar peças tão emocionalmente difíceis e perturbadoras. Nunca o saberemos com total certeza.

Publicado por José Mário Silva às 07:25 PM | Comentários (0)

ELE LÁ SABE

Paul O'Neill, antigo Secretário do Tesouro dos EUA, disse numa entrevista à CBS que o Presidente George W. Bush conduz as suas reuniões na Casa Branca «como se se tratasse de um cego no meio de surdos». Pois é, pois é. Isso explica muita coisa.

Publicado por José Mário Silva às 07:18 PM | Comentários (0)

TEM-TE NÃO CAIAS

George W. Bush esteve à beira de se estatelar ao comprido no chão, ontem, em Washington, conforme se pode ver na primeira página do DN.

Diga-se desde já que nós, mesmo detestando o homem e tudo o que ele representa, não lhe desejamos tombos destes, capazes de lhe provocar, no máximo, uma entorse ou umas quantas nódoas negras. A bem dizer, queremos vê-lo cair, sim, mas metaforicamente. Isto é, lá mais para Novembro.

Publicado por José Mário Silva às 07:14 PM | Comentários (1)

A ÁGUA, 5

«A chuva caía lá fora e a melancolia cá dentro. Empurrou o banquinho com os pés e enforcou-se. Então a melancolia deu lugar à água, a água entrou e encontraram-no flutuando no quarto cheio de chuva, tendo uma corda ao redor do pescoço como amarra.»
Espido Freire, Cuentos Malvados (2001) . tradução de JMS

Publicado por José Mário Silva às 07:06 PM | Comentários (1)

janeiro 09, 2004

WHEN ZAZIE MET TCHERNI

Não é só aqui (clicar no Livro de Visitas). Foi também na Confeitaria do Marquês, ali a dois passos do DN, há menos de meia hora. Eu testemunhei o encontro, meus amigos. Eu vi tudo. Tudinho. O espanto do primeiro cara-a-cara, as memórias quase comuns, as gargalhadas. Um verdadeiro choque de titãs, é o que vos digo.

Publicado por José Mário Silva às 07:03 PM | Comentários (15)

AINDA A PROPÓSITO DE NICK, RECORDEMOS O MAIS BELO DIÁLOGO DA HISTÓRIA DO CINEMA

Johnny . How many men have you forgotten?
Vienna . As many women as you've remembered.
Johnny . Don't go away.
Vienna . I haven't moved.
Johnny . Tell me something nice.
Vienna . Sure. What do you want to hear?
Johnny . Lie to me. Tell me all these years you've waited...
Vienna . All these years I've waited.
Johnny . Tell me you'd have died if I hadn't come back.
Vienna . I would have died if you hadn't come back.
Johnny . Tell me you still love me like I love you.
Vienna . I still love you like you love me.
Johnny . Thanks. Thanks a lot.

Filme: «Johnny Guitar» (1954). Realizador: Nicholas Ray. Actores: Sterling Hayden (Johnny Guitar); Joan Crawford (Vienna).

Publicado por José Mário Silva às 05:06 PM | Comentários (3)

NICHOLAS RAY NA CINEMATECA

Às 19h30, na Sala Luís de Pina (Cinemateca), é exibido o último filme de Nicholas Ray, que muitos consideram o seu requiem incompleto: «We Can' t Go Home Again» (1980), segunda versão de um filme de 1976, onde se misturam vários formatos . película de 35, 16 e 8 mm; super 8; vídeo . e que foi montado por Susan Ray, a mulher de Nick, após a sua morte.
Vemo-nos logo à tardinha na Barata Salgueiro?

Publicado por José Mário Silva às 04:33 PM | Comentários (5)

POEMA ESCRITO À MÃO

Ao pé de ti,
pequena estrela,
incêndio da tarde,
não há . nunca
haverá . lugar
para o medo.

Publicado por José Mário Silva às 04:05 PM | Comentários (4)

MAS AFINAL DO QUE É QUE ESTAMOS A FALAR?

A coisa passou-se há já alguns dias, mas parece-me demasiado importante para ficar em branco. Os presidentes dos congressos judaicos europeu e mundial escreveram um texto no Financial Times acusando a Comissão Europeia e o presidente Prodi de anti-semitismo. Vale a pena ler o texto e o tipo de argumentos avançados. A reacção de Prodi foi de justificada incompreensão, sobretudo porque estava em preparação um seminário organizado conjuntamente pela comissão e os dois congressos em questão, precisamente sobre o grave problema dos ataques às comunidades judaicas na Europa. Estas tomadas de posição dos mais altos representantes da comunidade judaica representam uma perigosa banalização do anti-semitismo, sobretudo quando se insinua que a Europa actual não fez nenhum trabalho de memória sobre a barbárie e sobre o holocausto. Cada vez menos se percebe do que é que se está a falar quando se fala de anti-semitismo, o que só faz o jogo dos ódios e provoca a eclosão de velhos fantasmas. Se, como parece, a ideia é fazer pairar uma sinistra suspeição sobre quem não está incondicionalmente com o governo de Israel, a operação demonstra uma deplorável cegueira histórica e uma perigosa paranóia política.

Publicado por Manuel Deniz às 12:58 PM | Comentários (15)

FILHOS DE ADÃO

Anotem, s.f.f.: este blogue é muito, muito bom.

Publicado por José Mário Silva às 10:20 AM | Comentários (1)

SLOGANS TAXISTAS

Os chóferes de praça podem ser tudo (aldrabões, palradores, mal-educados, xenófobos), mas há uma coisa que não são: ingratos. Por isso mesmo, muitos deles preparam-se para colar, junto ao farolim, um autocolante com um dos seguintes dizeres:

- Manela é fixe!
- Preto/verde ou creme, a malta o PEC não teme
- Viva a segunda fila; abaixo a segunda prestação
- Sou taxista mas não pago taxa
- MFL: o nosso ABS

Publicado por José Mário Silva às 09:51 AM | Comentários (3)

FOGAREIRA

A ministra das Finanças voltou a ceder aos interesses dos taxistas na questão do PEC (Pagamento Especial por Conta). Quer isto dizer que a dra. MFL até é sensível a protestos de manifestantes, mas só se os manifestantes forem ainda mais reaccionários do que ela.

Publicado por José Mário Silva às 09:34 AM | Comentários (0)

O ELO MAIS FRACO

De entre todos os modos de avaliar o problema da tabloidização da imprensa, tinha de se começar por propôr aquele que está mais à mão: criar restrições à liberdade de imprensa.

Publicado por tchernignobyl às 09:27 AM | Comentários (0)

SERÁ MESMO VERDADE?

Depois do espantoso regresso de Fausto, ouvi dizer que vem aí um novo disco de originais do Zé Mário Branco.

Que venha, então. E rápido. Nós mal podemos esperar.

Publicado por José Mário Silva às 08:37 AM | Comentários (7)

VERSOS QUE NOS VERDE

De Manuel Resende, não esqueço a extraordinária tradução do Coriolano, de Shakespeare, e este poema que encontrei pela primeira vez numa agenda da Abril em Maio e roubo para aqui (até tem umas coisas a dizer sobre política cultural).

NA PROVENÇA À PROCURA DA ORELHA DE VAN GOGH

Na Provença à procura da orelha de Van Gogh,
Essa orelha que nem o amor criterioso da honrada família
Conseguiu preservar do esquecimento,
Pobre orelha a que mais ninguém ligou
E que está se calhar esperando o seu dono
Que não volta,
Nessa Provença é que eu estou.
A verdade é que nem eu a encontrei,
Mas, também, como os outros, não perdi muito tempo a procurá-la.
Salvem-se os quadros, vendam-se os quadros
Guardados pela criteriosa família
E até por descuidados provençais é o essencial.
A orelha, que se lixe, não se pintam quadros com orelhas.
As orelhas são para os músicos, e mesmo esses,
Às vezes já só tocam música interior.

Vicente, meu velho, em verdade te digo,
Que por aqui as plantas andam a tentar imitar-te
E, tantos anos depois, ainda não conseguiram.
Elas bem se torcem, elas bem chamam o sol,
Que todo se estremece,
Elas bem se encostam ao céu,
Elas bem se verde, elas bem se azul, elas bem se amarelo.
Eu sei, eu sei, Vicente, muito te custou,
Talvez até o amor do teu irmão,
Um desses amores de que a gente não consegue livrar-se.
E as mulheres, Vicente, tão muros,
E o amor,
Esse amor de que a gente não consegue livrar-se!
Mas que queres? Ficou a tua obra.
És famoso e os teus quadros atingiram verdadeiras cotações.
Sofreste, pois sofreste: quem não sofre?
Também o Miguel Ângelo apanhou aquele jeito nas costas
E quantos poetas não têm agora tendinites no pulso?
Aguentasses, rapaz, aguentasses.
O mundo não está para os líricos
E desde já te digo:
Escusas de mandar mais orelhas.

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Bartolomeu de Las Casas, & etc.

Publicado por Francisco Frazão às 04:07 AM | Comentários (3)

BLOGUE CONTRATA POETA E TRADUTOR

Não, não foi o Graça Moura que entrou para o Abrupto, deus nos livre! Esta é uma boa notícia: Manuel Resende passou a fazer oficialmente parte do Quartzo, Feldspato & Mica e promete "escrever qualquer coisa de vez em quando, sempre no melhor estilo bloguístico, curto, incisivo e insignificante". Antes, no mesmo blogue, já tinha feito a mais interessante intervenção sobre as bolsas de criação literária. E ali tem publicado várias traduções inéditas: de Brecht, de Kafka, de poetas gregos contemporâneos (a mais recente: Katerina Angheláki-Rooke). Até agora, já tivemos direito, por exemplo, a um post sobre oscilações de relaxação típicas (acho que o Alexandre Andrade, se não leu, vai gostar) e a uma divertida discussão lacaniana. Alguém tem reclamações a fazer?

Publicado por Francisco Frazão às 04:01 AM | Comentários (2)

janeiro 08, 2004

CÁSPITE, ROUBARAM-ME UM SONHO

No passado domingo, dia 4, o jornal espanhol «El Mundo» publicou, na sua revista semanal («Magazine»), um artigo em que 101 figuras bastante mediáticas confessavam o seu «gran sueño para cumplir» no ano de 2004. Entre dezenas de comentários de uma banalidade previsível (ou açucaradamente optimista), encontrei este desejo do pintor Cristóbal Toral:

«Hacer realidad un viaje que soñé una noche: un barquero, procedente de La isla de los muertos, de Arnold Böcklin, me recogió con su balanceante góndola en un canal de Venecia. Paseamos durante siglos por canales oscuros, apenas iluminados por los reflejos de la luna, entre casas fantasmales con algunas ventanas iluminadas. Por fin, llegamos a un túnel que apenas dejaba espacio para que se deslizara la góndola, una especie de agujero iluminado, por donde nos metimos el barquero y yo. Después de recorrer todo el subsuelo de Venecia, llegamos a una inmensa antesala llena de equipajes de todas las épocas. Nada más sentarnos en unos bancos, se abrió una puerta y dos personajes nos invitaron a entrar. La estancia era laberíntica, con ambiente festivo, se oía de fondo una música maravillosa, mientras el bullicio de la gente se percibía por todas partes. Allí nos presentaron a Leonardo da Vinci, a Miguel Ángel, a los autores del Duomo de Florencia, a los arquitectos de la Catedral de San Marcos, a Giorgione, a Vasari. También pudimos ver a Dante, a Petrarca y a Giotto.»

O quadro de Böcklin é este:

Curiosamente, o artista suiço pintou-o para uma jovem viúva que lhe pediu «uma imagem que dê para sonhar». O título, com a sua densa conotação fúnebre, só foi dado mais tarde pelo galerista Fritz Gurlitt.
A partir desta imagem de uma serenidade inquietante, de facto propícia a toda a sorte de rêveries, Toral imaginou o seu sonho que cruza séculos e reúne alguns homens de génio. Mas ignora decerto que esse sonho era meu.

Publicado por José Mário Silva às 11:24 PM | Comentários (4)

IT'S RAINING AGAIN

Já me tinha esquecido da verdadeira cor do inverno.

Publicado por José Mário Silva às 07:08 PM | Comentários (3)

O SILÊNCIO

É uma coisa estranha. Parece que quanto mais o tempo passa mais tudo se nos afigura insensato e irrelevante. O medo de que depois do silêncio acumulado se espere uma qualquer revelação, uma justificação que anuncie uma escolha. Arma clássica das pessoas reservadas que quando falam são ouvidas com toda a atenção do mundo. Mas não. É simplesmente a hibernação de Inverno, ver os dias passar sem cair na tentação da partilha de acontecimentos, pensamentos, "drôleries". Há fases assim, em que faz confusão toda essa barulheira, o ruído polifónico das opiniões e efemérides; em que tudo nos parece inoportuno e desprezível. E ficamos fechados na nossa labuta interior, a observar a performance brilhante ou irritante dos outros. Por isso escolho o silêncio, que é também forma de agir. O silêncio é calar voluntariamente, diferente de emudecer. É apenas um entretanto.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 05:05 PM | Comentários (2)

O GRÃO NA ENGRENAGEM

A ATTAC já chegou à blogosfera e promete pôr um Grão de Areia tanto nas engrenagens do capitalismo selvagem como na lógica imperialista da chamada «guerra contra o terror». Sejam muito bem-vindos, rapazes. E partam a loiça que puderem.

PS: Entretanto, vamos já inserir o vosso link na nossa lista. Todos os blogues de esquerda que apareçam serão sempre poucos.

Publicado por José Mário Silva às 02:13 PM | Comentários (20)

UNCLE SAM NEEDS YOU...

O entusiasmo do director do Público pelo Robert D. Kaplan, um jornalista-soldado que em tudo o que escreve exprime um óbvio fascínio por um cenário fascizante e a mística do império, admirado por gente como o Kissinger e o Gingrich, já não surpreende ninguém. A única questão que se põe é saber quando o Fernandes vai substituir o dress code do "blazer/camisa às riscas" pelo traje camuflado, pelas pinturas de guerra e um posto no corpo redactorial da «Soldier of Fortune».

Publicado por tchernignobyl às 11:07 AM | Comentários (8)

LARANJA

Em tempos também ele foi vermelho, mas agora adaptou-se e passou a laranja. Os seus corcéis reformaram-se e agora puxam caleches para turistas.

Publicado por tchernignobyl às 09:07 AM | Comentários (0)

ORTODOXIAS

Telmo Correia pôs termo com autoridade ao despautério hetero dos restantes convidados. O presente défice americano "explica-se" com os gastos na Defesa.

Publicado por tchernignobyl às 09:01 AM | Comentários (2)

POST MINIMAL E LÍRICO

Confirmo: o amor pleno transcende-nos; é um estado de graça.

Publicado por José Mário Silva às 08:48 AM | Comentários (0)

ESTAREMOS LOUCOS?

O país parece ter ensandecido. Hoje fizeram-se descrições com algum pormenor dos corpos de Paulo Pedroso e Carlos Cruz (por mim, dispensava a informação). Soube-se que foram mostradas fotografias de Mário Soares, Mota Amaral e do Cardeal Patriarca. E ouviu-se Manuel Alegre a falar de conselheiros de Estado. E ouviu-se falar de tomar medidas, o que gera confusão, perplexidade e até mágoa.
Ninguém parece estar de cabeça fria. O que quer dizer que a liberdade pode começar a correr perigo ainda mais a sério.
(JCampos)

Publicado por Manuel Deniz às 12:06 AM | Comentários (1)

janeiro 07, 2004

SINAIS DIVINOS

Na caixa de e-mails antiga, encontro uma mensagem enviada por uma organização criptoreligiosa (The Messiah Comes) com o cândido título de «Signs from God» . uma baralhada acéfala que nos ameaça (a nós, Humanidade) com holocaustos, infernos, apocalipses e terríveis dias de condenação às penas eternas. Digo-vos uma coisa: mal por mal, prefiro o spam erótico. Sempre é mais imaginativo.

Publicado por José Mário Silva às 11:52 PM | Comentários (3)

O MISERÁVEL FALHANÇO

Experimentem ir ao Google à procura do que se encontra com as palavras "miserable failure". A primeira escolha, como poderão constatar, é certeira. Certeira, não; certeiríssima. E embora tudo não passe de uma partida (prank), preparada por uns quantos bloggers maquiavélicos, o certo é que a brincar, a brincar se diz a verdade.

Publicado por José Mário Silva às 10:29 PM | Comentários (0)

COMO SE NÓS AINDA NÃO TIVÉSSEMOS PERCEBIDO

Portugueses perdem poder de compra em 2003 e 2004.

Publicado por José Mário Silva às 10:23 PM | Comentários (5)

OUTRO NATAL

Os vizinhos russos . vivem na cave, mesmo por baixo de mim . festejaram ontem o seu natal (ortodoxo), à volta de umas brasas acesas no pátio das traseiras. Ao chegar a casa, encontrei dentro de um saco de plástico, pendurado na maçaneta da minha porta, toda a roupa que deixara estendida de manhã, mesmo por cima do buraco onde agora crepitava o lume e de onde crescia uma coluna de fumo. Lá de baixo, talvez saudosos do frio e da neve, eles pediram-me mais uma vez desculpa e continuaram a sua celebração. Lembro-me de pensar que não é só o natal que é diferente na Rússia e no nosso país. O civismo do cidadão comum também.

Publicado por José Mário Silva às 10:17 PM | Comentários (0)

HETERODOXIAS

Foi delicioso ouvir o Miguel Beleza classificar de irresponsável a política económica da administração Bush e o José Sócrates elogiar a "retoma" da economia americana, "apesar do déficit elevado".
Organizem-se, pá.

Publicado por tchernignobyl às 09:14 PM | Comentários (3)

CINEMA ALEMÃO

Com «O Gabinete do Dr. Caligari» (1919), de Robert Wiene, começa hoje o 1.º Festival de Cinema Alemão. O filme será exibido às 21h30, no Goethe Institut, e terá acompanhamento musical ao vivo.

O programa completo do festival pode ser consultado aqui.

Publicado por José Mário Silva às 07:40 PM | Comentários (0)

SOBRE O SUPOSTO DECLÍNIO DA BLOGOSFERA

Não sei se já repararam, mas há muito boa gente a anunciar, apocalipticamente, o fim próximo do "fenómeno dos blogues". Dizem que foi uma moda passageira, que as pessoas estão fartas de ler aquilo (e de escrever aquilo), que as visitas caíram a pique, que mesmo os blogues de referência se acomodaram, que a coisa já não tem força, deixou de dar pica, perdeu o gás.
É um discurso previsível. Depois dos exageros mediáticos do verão passado . e respectivo inflacionamento da real importância da nossa blogosfera . tinham que vir os exageros de sinal contrário. Ao primeiro indício de quebra, as hienas montaram o cerco em torno de um cadáver ainda por morrer. E partiram os dentes, as pobres hienas, de encontro ao chão duro da realidade. É que depois de uma "crise" episódica e conjuntural, relacionada com um período (as Festas, o Natal, o Ano Novo) em que a maioria dos leitores da internet desliga os computadores, o acesso à blogosfera está a voltar gradualmente aos seus melhores níveis. No caso da plataforma weblog.com.pt, como explica o Paulo Querido, até se alcançaram novos máximos no dia 5 e 6 de Janeiro.
Fica o aviso aos cépticos e aos amigos da onça: por muito que vos custe, a blogosfera . enquanto comunidade plural, heterodoxa, por vezes anárquica, mas sobretudo livre . não vai desaparecer assim tão depressa. Evoluirá, claro. Sofrerá metamorfoses e deixará para trás muitas peles (como as cobras). Mas não morrerá só porque alguém quis decretar o seu declínio. Se as hienas agora se riem de nós; no final seremos nós a rir das hienas.

Publicado por José Mário Silva às 07:35 PM | Comentários (8)

DESCULPEM LÁ, MAS O GAJO NÃO SE PODE IR EMBORA ASSIM, SEM MAIS NEM MENOS

Meu caro Luís Filipe Borges (o blogger mais blogger de Portugal): deixa-te de merdas, pá. Se estás cansado mete baixa, vai de férias, inventa uma pausa sabática, o que quiseres. Mas depois fazes o favor de te apresentar no teu local de trabalho, para mais um ano de posts à maneira. OK?

Publicado por José Mário Silva às 01:19 PM | Comentários (4)

ISTO QUE VEDES É MARTE

Olhem bem que vale a pena. Esta é a primeira imagem a cores da superfície de Marte, enviada pelo Spirit, o robô de exploração geológica da NASA. Nunca antes se conseguira uma imagem tão nítida (com tão alta resolução) de outro planeta. A câmara fotográfica do Spirit captou 12 frames contíguos que foram depois transformados num mosaico. E é assim que podemos contemplar, como se abríssemos uma janela, este mundo vazio e árido . por onde deambulei, há muitos anos, com as personagens de Ray Bradbury.

Publicado por José Mário Silva às 11:08 AM | Comentários (14)

ATRÁS DO BALCÃO

. Quanto custa o último livro da Margarida Pinto Correia?
. Margarida Rebelo Pinto?
. Isso. Margarida Rebelo Pinto Correia.

Publicado por Margarida Ferra às 12:33 AM | Comentários (2)

janeiro 06, 2004

EM AUDIÇÃO

Os Têtes Raides são um grupo de culto francês, nascido nos anos 80, algures na banlieue parisiense. De início mais "eléctricos" e próximos do movimento punk (os Clash eram a influência principal), foram-se suavizando com a chegada de novos músicos e instrumentos (piano, conjunto de metais, acordeão, contrabaixo, etc). A música que fazem agora é um hábil cruzamento do espírito da chanson française com todos os ritmos que fervilham nos subúrbios, a partir de textos engenhosos (oscilando entre o lúdico jogo de palavras e a denúncia engagée).
Em «Chamboultou» (Tot ou Tard, 1998), álbum equilibrado e de grafismo exemplar, há canções quase perfeitas: «Du Boulot», «Oublie cette chanson», «Le créditeur», «Dans la gueule du loup», «Guignol» ou «Écris-moi». Eu vou ouvindo, gostando cada vez mais e repetindo com Christian Olivier: «Ne laissons pas les chacals/ brouter nos idéals».

Publicado por José Mário Silva às 11:45 PM | Comentários (0)

REFORMA

A Administração Pública é pesada e burocrática. A Administração Pública é assim. A Administração Pública é assado. Assim vai o canal 1 da RTP. Enjoo a ouvir economistas, políticos e aprendizes transformados em especialistas da ignorância.
Há uma afirmação a fazer e uma pergunta a deixar: 1) a Administração Pública cumpre a lei (aqui d'el rei se o não fizesse, ao menos quando dá jeito); 2) quem faz a lei?
Voltaremos. Voltaremos até porque vem aí mais uma greve. Até lá, dormirei. Enjoado, mas dormirei.
(JCampos)

Publicado por Manuel Deniz às 11:08 PM | Comentários (0)

US AND THEM

Começou hoje a ser aplicado o programa «US VISIT», nos principais aeroportos e portos marítimos dos EUA. Ao recolher fotografias e impressões digitais dos passageiros que entram no país (só Portugal e mais 27 países ficam isentos do minucioso escrutínio), as autoridades americanas pretendem «fechar as fronteiras a terroristas», mas arriscam-se a fechar as fronteiras ao mundo.

Publicado por José Mário Silva às 10:51 PM | Comentários (4)

CUIDADINHO COM AS PROMESSAS

Não sei se lhe ensinaram isto em pequenino, caro primeiro-ministro, mas nunca devemos prometer aquilo que não temos a certeza de cumprir.

Publicado por José Mário Silva às 10:43 PM | Comentários (1)

FALSO ALARME (ATENÇÃO: POST SARCÁSTICO)

Acabo de ouvir a notícia de uma ameaça de bomba, hoje, em frente à embaixada de Israel em Lisboa. Chamada a intervir, a equipa das minas e armadilhas inspeccionou com mil cuidados um saco suspeito que foi deixado junto à porta. Após uma análise meticulosa, concluiu-se que lá dentro, em vez de explosivos, estava comida para cão. Aparentemente, alguém quis deixar uma merenda para Ariel Sharon e os diplomatas, ingratos, não só não aceitaram a oferta como ainda chamaram a polícia. É sempre desagradável quando se confunde generosidade com terrorismo.

Publicado por José Mário Silva às 10:40 PM | Comentários (4)

BELEZA, DIGNIDADE, ORDEM, PROPORÇÃO (OU O QUE SALVÁMOS DA LOUCURA)

«For a long time I stayed away from the Acropolis. It daunted me, that somber rock. I preferred to wander in the modern city, imperfect, blaring. The weight and moment of those worked stones promised to make the business of seeing them a complicated one. So much converges there. It's what we've rescued from the madness. Beauty, dignity, order, proportion. There are obligations attached to such a visit.»

Amanhã, no «Público», a Colecção Mil Folhas oferece-nos «Os Nomes», de Don DeLillo, o romance que abre com o magnífico parágrafo que citámos (a partir da edição inglesa, da Picador). Não percam. Não percam mesmo.

Publicado por José Mário Silva às 07:21 PM | Comentários (1)

RETRATOS SUBTERRÂNEOS

António Jorge Gonçalves é um dos melhores desenhadores portugueses, nomeadamente no campo da BD (veja-se, por exemplo, a magnífica trilogia de Filipe Seems, com argumento de Nuno Artur Silva, editada pela ASA). Mas, para além dos projectos mais ou menos oficiais, Gonçalves tem-se dedicado, nos últimos anos, a uma ideia fabulosa: retratar, em 10 cidades dos vários continentes, as pessoas que se sentam nas carruagens de metro. O resultado pode ser visto neste belíssimo site. Façam o favor de viajar pelas diversas linhas . de Estocolmo a Tóquio, do Cairo a Nova Iorque . e deslumbrem-se com a diversidade (ou a constância) dos rostos humanos, perdidos na imensa e gloriosa Babel que une, subterraneamente, as grandes cidades do mundo.

Publicado por José Mário Silva às 06:14 PM | Comentários (2)

SOB A ESTRELA DE BELÉM

Se os Reis Magos andassem à procura do menino Jesus, hoje, nunca mais o encontravam. Num checkpoint qualquer, junto ao muro da Cisjordânia, um soldado israelita haveria de cumprir as ordens de Ariel Sharon. E confiscava-lhes . a Belchior, Gaspar e Baltazar . o precioso roadmap.

Publicado por José Mário Silva às 06:00 PM | Comentários (3)

DANDYSMO E DINAMITE

Nas últimas semanas, os mais altos dirigentes da União Europeia têm andado a receber cartas armadilhadas, que lhes rebentam nas mãos sem provocar ferimentos. Ao que parece, foram todas enviadas de Bolonha. Não sei porquê, mas sempre me pareceu que estes rapazes não iam conseguir ficar quietos...

Publicado por Manuel Deniz às 02:55 PM | Comentários (1)

CARRIS

Quase pretas, as linhas debaixo do chão, no metro, diluem-se na escuridão do túnel. Entre estações terminais, o destino das linhas dos comboios é ocultado pelas curvas . ouve-se, antes de se ver; para-se, antes de tudo. Os carris parecem rectas, nenhum princípio e sem outro fim. É para eles que praguejam os loucos e os insatisfeitos: cada vez mais, cada vez mais cedo. Seguem juntos, o sonho e o queixume, até à próxima estação.

Publicado por Margarida Ferra às 12:48 PM | Comentários (2)

janeiro 05, 2004

O CARGO E A PESSOA

O Presidente Jorge Sampaio falou ao país do problema que continuo a considerar ser decisivo para o país. E desta vez falou bem, quase sem merecer reparos.
No entanto, levado pela emoção, pela indignação ou por um pecadilho de poder, não deixou de adjectivar de "insultuoso" o facto de o seu nome aparecer numa carta anónima.
Ora, quer-me parecer que a adjectivação é descabida. Descabida porque o Presidente da República não se pode colocar numa posição de insuspeitabilidade por natureza do cargo; descabida porque o Presidente da República é, antes de tudo, um cidadão como os outros.
O que torna a referência a Jorge Sampaio um absurdo não é o facto de ele ser Presidente da República, até porque um Presidente da República pode ser um malandro; o que torna a referência absurda é ser reportada a Jorge Sampaio, e a diferença é do tamanho do mundo. Ou seja, associar Jorge Sampaio ao processo é risível, porque se trata de Jorge Sampaio e, no imaginário da esmagadora maioria dos portugueses, o cidadão Sampaio não tem lugar naquela miséria.
(JCampos)

Visto noutra perspectiva, a questão leva-nos para outro terreno. Deixando de lado as estratégias que se jogam neste tabuleiro em que o país se transformou, à custa de anos a negar importância a problemas que de facto a tinham (entre os jogadores não esquecer de incluir as magistraturas, os arguidos e advogados, os que até agora escaparam e o Prof. Marcelo que, por deleite, ontem deu um baile delirante com o desafio ao Procurador-Geral da República para divulgar os nomes que alguns sabem), há três circunstâncias que, em meu entender, explicam o que está a acontecer. Primeiro, o espírito mesquinho deste povo, o mesmo que o leva a espreitar o cadáver estropiado, só para poder dizer que viu ou que adivinhava o que viu; depois, uma realidade comezinha tipo "o rei vai nu" e que é tão simples quanto isto: "o povo não acredita na dita justiça", habituado que está à condenação dos fracos e à pena suspensa dos poderosos (lembram-se de Fátima Felgueiras?); por isso, quando a justiça se não faz nos tribunais . e, de facto, raramente se faz . o povo quer fazê-la na rua. Final e principalmente, o povo não gosta dos políticos, detesta a classe que sente que o atraiçoou. É o povo que levou décadas de ditadura, que viu nestes senhores do poder a redenção de outra prática, de outra ética, de outro sentido de serviço público, que acreditou, acreditou e enganou-se. Esta é a realidade que a realidade não ilude; é a mãe da abstenção, do desprezo pelo parlamento, da má fama dos políticos, em suma, é esta realidade que não se quer enfrentar. Porque, quando se enfrentar, esta classe política está condenada.
Duas notas finais, uma importante e outra nem por isso. Primeiro, o Presidente da República falou de uma justiça que ultrapasse os pormenores formais, isto é, de uma justiça que procure e alcance a verdade material ainda que com sacrifício da justiça formal. Vindo de um advogado, não é mensagem de somenos.
Segundo, os partidos reagiram e logo à cabeça o maior partido da oposição. Tanta destreza seria decerto melhor apreciada no combate político do que na cavalgada de quem não deve servir para levar ninguém à arreata.

Publicado por José Mário Silva às 11:05 PM | Comentários (3)

O ADEUS E A DOIS:

Hoje à noite, pelas 21h00, é enterrada a velha RTP2. E logo a seguir, pelas 21h30, nasce a novíssima Dois:. Curiosamente, o início do novo canal será marcado pelo regresso de um trunfo de qualidade: a série dramática «Sete Palmos de Terra», uma produção da HBO que nos mergulha no seio de uma família de cangalheiros sentimentais.
Esperemos que não seja um (mau) sinal.

Publicado por José Mário Silva às 04:34 PM | Comentários (12)

MFM'S

A intelectualidade portuguesa divide-se em dois grupos: os que preferem Maria Filomena Molder a Maria Filomena Mónica e os que preferem Maria Filomena Mónica a Maria Filomena Molder. Nós pertencemos (se nos é permitida a auto-inclusão na nebulosa confraria da intelectualidade) ao primeiro grupo. Gostamos mais de Walter Benjamin e pensamento claro do que de presunção académica e biscoitinhos em Oxford.

Publicado por José Mário Silva às 04:26 PM | Comentários (11)

ATRASO NA ENTREGA

Indesculpavelmente fora de horas (mea culpa, mea maxima culpa), só agora ficaram disponíveis os posts que assinalam o primeiro aniversário do BdE. Espreitem lá "em baixo", no dia 1. Ou comecem por aqui. E desculpem, mais uma vez, o desfasamento.

Publicado por José Mário Silva às 11:27 AM | Comentários (0)

PROCURANDO O TRILHO

Quando é que será possível substituir a retórica passadista da nostalgia da "vida rural", quando se fala das zonas isoladas do interior do nosso país, pela procura da independência no desenvolvimento tecnológico e científico?
Por que será que se continuam a ignorar as potencialidades produtivas, de desenvolvimento de trabalho cooperativo e de redes de solidariedade permitidas pela tecnologia e pela ciência?
Uma modesta contribuição para combater o atraso económico e o isolamento, vinda do sul de Espanha.
Será assim tão difícil desenvolver iniciativas semelhantes no nosso país?

Publicado por tchernignobyl às 09:58 AM | Comentários (0)

CORTE INGLÉS

Na secção dos sapatos, os artigos de uma marca (posso dizer qual? posso mesmo?) ocupam uma parede que tem os dizeres: "Não corra, caminha". Pus de parte a hipótese de me estarem a mandar para a cama (não sei em que andar fica), mas suspeito que por detrás desta frase se esconde um complexo raciocínio de marketing. Ou então houve dois tradutores que dividiram a empreitada. De qualquer forma, abrandei o passo.

Publicado por Francisco Frazão às 04:16 AM | Comentários (6)

janeiro 04, 2004

1-3

Uma vitória por 3-1 com dois penaltys (um deles inventado e outro duvidoso) nunca pode ser uma vitória bonita. Mas quando o Sporting ganha na Luz, feito raro e por isso magnífico, devemos simplesmente prescindir da beleza.

Publicado por José Mário Silva às 11:22 PM | Comentários (14)

RECIPROCIDADE

Todos os americanos que aterram em S. Paulo, no Brasil, passaram a ser fotografados e a ser-lhes tiradas as impressões digitais. Esta medida visa, apenas, estabelecer (e bem) a reciprocidade com a actuação das autoridades norte-americanas em relação aos cidadãos brasileiros.
Se a moda pega, qualquer dia temos as mães de S. Paulo a protestarem na rua contra a presença de portuguesas na cidade.
(Pedro Farinha)

Publicado por José Mário Silva às 07:58 PM | Comentários (2)

janeiro 03, 2004

UM POETA A MENOS

Morreu Eduardo Guerra Carneiro, poeta quase secreto. Dele conheço um livro de poemas, textos soltos, umas quantas crónicas. Não o conheci pessoalmente, mas parecia-me um bom homem, atormentado pelo maior de todos os demónios: a vida. No seu blogue, o Francisco José Viegas despede-se com discrição e pudor, mas também com um nó na garganta. O título do post: «Adeus». Vale a pena ler.

Publicado por José Mário Silva às 05:14 PM | Comentários (0)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (6)

Como sempre ao sábado, publicamos hoje mais um capítulo da análise da obra do compositor Arnon Maarten (1933-1996), feita pelo musicólogo António Correia Guerreiro:

Evocação da guerra [para piano e percussão] Op. 5, de 1964 (8 min)
Adagio

Durante o ano de 1964, Arnon Maarten continuou essencialmente ocupado com as suas funções lectivas, devotando o autor pouco tempo e esforço às tarefas de composição.
O assinalar dos 20 anos sobre o fim da II Guerra Mundial na Europa, porém, não pôde deixar de merecer uma atenção especial por parte de Maarten. Assim, o autor dedicou cerca de três semanas a .trabalhar furiosamente uma melodia que parece não [o] deixar sossegar, trazendo à tona demasiados fantasmas e imagens horripilantes, trágicas, desmedidamente intensas para as expressar de outra forma que não a música..
Desta febril actividade resultaram três curtas peças (Op. 5 a 7), baseadas na mesma melodia e recorrendo a diferentes soluções instrumentais, .na busca da forma mais realista de retratar o inominável..

Efectivamente, Arnon Maarten experimentou, na Holanda, a experiência de ver o seu país invadido de forma brutal, com consequências suficientemente palpáveis para até uma criança (como era o futuro compositor) ficar marcada para o resto da vida.
O tema da Guerra viria a constituir uma espécie de eterno tabu do autor, sendo, segundo o seu filho Pieter, .talvez o único tema sobre o qual nunca lhe foi possível ironizar..
Desta forma, as referências e evocações da guerra, nos diários do compositor, são muitíssimo escassas, pelo que só socorrendo-nos do seu filho Pieter Maarten podemos compreender como viveu o autor a experiência terrível da Guerra.
Os pais de Arnon Maarten eram, como já se disse, professores de matemática em Roterdão. Viram por isso, nos anos da ocupação alemã, a sua profissão seriamente afectada, nomeadamente pela deserção de colegas e alunos de origem mais ou menos suspeita, de acordo com os critérios rácicos e ideológicos do nazismo.
O próprio Arnon, apesar de não ter assistido a perseguições no seio da sua unidade familiar mais próxima, foi confrontado com o desaparecimento súbito de alguns colegas e visitas frequentes de casa dos pais.
Segundo Pieter Maarten, .se bem que isto possa parecer algo estranho para uma criança tão nova, não foram as privações, racionamentos e faltas generalizadas de bens de primeira necessidade, nem sequer os combates ou as bombas que mais [o] marcaram. Foi antes a sensação de desagregação e colapso de tudo o que conhecia que mais aterrorizou a criança que nunca conseguiu ultrapassar esse medo das mudanças impostas à força..
O Op. 5 inicia-se então de uma forma lenta, que atravessa toda a peça, dando a sensação de que as notas custam a largar os instrumentos, tal a dor e terror que carregam. Ouve-se a percussão a solo marcando um ritmo claro, repetido e quase absurdo, de inumano e frio. Apesar destas características, consegue perceber-se a raiz melódica do tema, que se vai desenvolvendo à medida que entra o piano, em notas soltas, só ritmo, em pianíssimo.
Simultaneamente com a exposição do tema por parte da percussão, o piano vai acentuando o ritmo maquinal da guerra, num crescendo que, a cerca de metade da peça, se torna quase insuportável. Dá-se então uma pausa, um silêncio total de 2 compassos, após o qual se invertem os papéis dos instrumentos.
Na segunda metade da peça é a percussão que assume o seu tradicional papel rítmico, cabendo ao piano a exposição da melodia que primeiramente tinha sido apresentada pela percussão. Os dois instrumentos começam em fortíssimo, progredindo a música num diminuendo, que é a imagem no espelho do que já se ouviu anteriormente.
Perto do final da peça, começa por deixar de se ouvir o ritmo (constante, imutável e quase demencial) marcado pela percussão, permanecendo o piano um pouco mais a solo. Nesta fase, a melodia, que foi sempre lenta, vai-se tornando ainda mais lenta, as notas vão sendo cada vez mais graves e espaçadas, abrindo espaço a um silêncio que quase se deseja, mas teima em ser interrompido por sons ultra-graves e pesados, quase inaudíveis, que acabam, finalmente, por se extinguir.
No fim da audição da peça, que só dura cerca de oito minutos, a experiência é de tal forma aterradora e comovente, que o ouvinte (e talvez também os intérpretes) têm a sensação de ter viajado por um túnel escuro de absurdo e medo durante horas e horas, tal a intensidade da experiência que esta evocação da guerra transmite.
Temos pois um mundo pouco frequente em Arnon Maarten, compositor que quase sempre parece preferir o jogo intelectual e a ironia inteligente à nua exposição de sentimentos e ao jogo cru das emoções. Trata-se, claro está, de um mundo perturbador e terrível que é, no entanto, percebêmo-lo, absolutamente verdadeiro e real para o seu criador.

(NOTA: dada a ausência quase total de referências a estas evocações de guerra no diário de Arnon Maarten, não foi possível socorrermo-nos das habituais palavras do próprio compositor para ilustrar as descrições da música em análise. Assim, o autor deste texto tentou simular o estilo muito pessoal, tão rico em metáforas e outras imagens esclarecedoras, de Maarten. . António Correia Guerreiro)

Publicado por José Mário Silva às 04:25 PM | Comentários (4)

DE COSTAS VOLTADAS

Uma das coisas mais intrigantes que observei nestes meses de frequência da blogoesfera foi a relação distante que os blogues de esquerda têm com as lutas sociais, o que diz muito da forma como a comunidade se tem apropriado deste meio de comunicação, sobre nós como grupo social e o motivo porque acaba sendo natural um certo cerco que sofremos, por parte da direita, aqui no .mundo virtual. .
Entenda-se o que quero dizer com .relação distante..
Todos nós, esquerdistas, falamos de desemprego, crise e criticamos as políticas do governo, mas percebe-se como somos poucos e as nossas actividades profissionais decorrem em territórios distantes, fisicamente, dos .palcos. onde se passa essa luta e das pessoas nelas envolvidas.
O que se tem passado na sociedade portuguesa desde que este governo entrou em funções chega-nos de forma indirecta, através das esparsas notícias na imprensa ou na televisão, notícias que nos dão uma ideia mais do que pálida da situação real.
As nossas .bestas negras. não são os patrões, e os governantes que para eles trabalham, mas os cronistas mais ou menos assalariados que não passam de porta-vozes e raramente são protagonistas.
Os ecos da actuação catastrófica deste governo quase não passam por aqui, estando, como estão, abafados nas comunidades que dela têm sido as maiores vítimas.
É essa uma das razões pelas quais parecem .credíveis. alguns argumentos da direita, pois referem-se a um mundo abstracto e virtual.
Fala-se da diferença essencial entre .liberdade. e .igualdade. e isto parece natural porque se oculta, de uma penada, a existência real de desigualdades de tal forma brutais que conspurcam qualquer conceito de liberdade capaz de com elas coexistir e as achar .naturais.; despacham-se .ajustes de mecanismos de mercado., argumenta-se com a necessidade de .flexibilizar. e .agilizar. as leis do trabalho, sem ninguém ter a noção imediata das consequências trágicas dessas palavras polidas na vida de milhares de cidadãos.
O nosso blogue não é um partido ou sindicato e a sua capacidade de intervenção é diminuta. No entanto, gostaria de convidar todos os que têm conhecimento de situações concretas a divulgarem-nas aqui. Para que haja um pouco mais de porrada e menos barulho.

Publicado por tchernignobyl às 04:02 PM | Comentários (20)

janeiro 02, 2004

FRIO, FRIO, QUENTE...

Sabe-se hoje que alguns dos neoconservadores que constituem o núcleo duro da administração americana tiveram como .pai espiritual. um professor universitário a quem o termo .guerra fria. causava arrepios e advogava o recurso à .guerra quente. para aniquilar o .império do mal..
Felizmente que o Reagan não o ouviu.
Mas eles ouviram e andam por aí mais ou menos à solta.

Publicado por tchernignobyl às 03:59 PM | Comentários (1)

AGRADECIMENTO SINCERO (2)

A todos os bloggers e leitores que assinalaram, com um empenho que nos comove, o nosso primeiro aniversário. Obrigado, amigos.

Publicado por José Mário Silva às 03:57 PM | Comentários (0)

SOBREPOSIÇÃO DE PADRÕES

Independentemente do que possamos pensar da ideia de .progresso contínuo., como se a sequência de acontecimentos históricos fosse uma caminhada em linha mais ou menos recta, temos de reconhecer que o homem dispõe hoje de tecnologias capazes de operarem .milagres. impossíveis ainda há poucos decénios.
Do mesmo modo, a humanidade dispõe agora de um conjunto de meios, utilizados de forma cada vez mais .corrente., que lhe permitem auto-destruir-se mesmo sem recorrer à famosa .ameaça nuclear..
Face aos perigos potenciais, parece simplório esgrimir o argumento de que .tudo o que a humanidade descobre pode ser utilizado para o bem ou para o mal. como fórmula esconjuradora, porque desde sempre o homem procurou potenciar todas as tecnologias, mas nunca foi tão evidente o convívio estreito com mecanismos potencialmente aniquiladores, que uma vez libertados não necessitam da intervenção humana para varrerem a nossa espécie do mapa.
Alguns destes dispositivos, como os alimentos transgénicos, estão já disseminados pelo planeta de forma provavelmente irreversível; outros, como os .enxames. de nanomáquinas, farão parte do panorama a curto prazo.
E o problema é que os mecanismos .fora de controlo. são apenas a parte .benigna., e eventualmente .acidental., dos riscos que corremos.
O poder gerado por estas tecnologias permitiu o nascimento de uma espécie de fascismo tecnológico para o qual o .progresso não pode ser detido. e a .evolução não tem de parar na espécie humana. e encara seriamente a .ultrapassagem. da espécie, quer através da fusão com as máquinas, quer pura e simplesmente substituindo-a por estas.

Verificando-se ou não os piores receios, a proliferação de .chips. à nossa volta (pacemakers, próteses e dispositivos de telecomunicações que provavelmente, num futuro não muito longínquo, virão a integrar-se no nosso corpo, expandindo as capacidades dos nossos sentidos), a igualização tendencial das performances musculares de homens e mulheres, o desaparecimento progressivo das deficiências efectivas, a clonagem e a gestação artificial (com as respectivas implicações no que designamos como .família.), serão marcas inelutáveis da nossa .evolução pacífica. de homens para cyborgs e é nesse contexto, para nós hoje bizarro, que se desenvolverão as lutas sociais do futuro. Será possível hoje em dia esboçar uma antevisão de como tudo isso se passará?

Publicado por tchernignobyl às 03:52 PM | Comentários (1)

janeiro 01, 2004

ABERTOS PARA BALANÇO

Neste ano de vida (mas terá sido só um ano?), vimos de tudo na blogosfera. A explosão do fenómeno, os picos mediáticos, os êxtases e as crises, mais as diatribes entre blogues políticos (primeiro com superioridade numérica da direita; agora a pender mais para o nosso lado), sempre com a guerra do Iraque como pano de fundo e a noção de que as divergências ideológicas, tanto no plano estritamente político como no económico ou cultural, voltaram a fazer sentido.
Foram longos, estes 365 dias. Outros 366 nos esperam em 2004. Cá estaremos, em cada um deles, para continuarmos este ofício de Sísifo. Um Sísifo carregador de palavras, prisioneiro por gosto da espuma dos dias.
Digam-nos apenas, caros leitores, se tanto esforço vale a pena.

Publicado por José Mário Silva às 04:00 PM | Comentários (4)

O PRIMEIRO POST

Recuperamo-lo tal e qual como surgiu há 365 dias, sem mudar sequer uma vírgula:

O PRIMEIRO DIA. Hoje, 1 de Janeiro de 2003, nasce um novo espaço de pensamento e opinião . sobre política e cultura, mas não só . no ciberespaço português. Como é evidente, não pretendemos inventar a pólvora. Desejamos apenas aproveitar esta admirável ferramenta que a Internet nos oferece para chegarmos ao maior número de amigos e cúmplices, tanto no campo da discussão de ideias políticas como na partilha de entusiasmos (ou repugnâncias) intelectuais. Sobretudo, queremos dizer de nossa justiça, num momento histórico em que as direitas vão ganhando um peso cada vez maior, não apenas nos aparelhos do poder político e na esfera económico-financeira, mas também no plano da influência mediática e do combate ideológico.
Com uma guerra à porta e os efeitos securitários do 11 de Setembro a fazerem-se sentir cada vez mais, é imperioso separar as águas. É preciso apontar o dedo, desmascarar as mecânicas de um capitalismo que se alimenta das suas fraquezas e denunciar . sempre, sempre, sempre . as injustiças que os outros calam ou ignoram. Uma esquerda que não seja capaz de remar contra a fortíssima maré conservadora e neo-liberal, é uma esquerda que não vale a pena e que está condenada, a médio prazo, a desaparecer. Ou, o que é pior, a tornar-se um ornamento folclórico.
Aqui, no Blog de Esquerda, estamos disponíveis para todos os debates, todos os diálogos, todos os recomeços. Com uma certeza: ser de esquerda, a sério, é hoje mais importante do que nunca. E nós não vamos faltar à chamada.

Publicado por José Mário Silva às 03:40 PM | Comentários (1)

UM ANO DE VIDA

Foi há precisamente um ano. Vista da janela, Paris era uma cidade encolhida pelo frio, um frio que mordia a pele e que se transformaria, três dias depois, numa brancura tombando em flocos sobre as ruas, o Bois de Vincennes, os telhados do Louvre, as águas cinzentas do Sena. Num quarto cheio de livros, à volta de um computador portátil, eu e o Manel tentávamos compreender os segredos (poucos) e a lógica (fácil) do Blogger. Lentamente, conseguimos pôr a máquina a funcionar. Fizemos testes: «1, 2, 3, experiência». Enviámos mails a avisar a malta. Sentimos a emoção dos primeiros posts e a alegria de ter nas mãos, finalmente, uma arma para lutar contra a hegemonia direitista da Coluna Infame. No sexto andar de um prédio da Avenue Saint-Ouen, perto da Porte de Clichy, nascia o Blog de Esquerda, versão 1.0 deste BdE que é feito agora pelas mesmas vozes e por outras que se foram juntando pelo caminho. O resto são milhares de histórias e polémicas e comentários e poemas e indignações e lirismos e desabafos e partilhas e tudo aquilo que ficou guardado na memória (nos arquivos) deste espaço que já foi assim. E que será, daqui para a frente, o que soubermos ou pudermos fazer disto.

Publicado por José Mário Silva às 03:13 PM | Comentários (0)

AGRADECIMENTO SINCERO

Ao leitor do BdE (e cliente da Netcabo) que passou a meia-noite, de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, ligado a este blogue. Nem nós, autores da coisa, somos assim tão fiéis.

Publicado por José Mário Silva às 12:13 PM | Comentários (14)