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dezembro 31, 2003

NOITE BRANCA

A proposta chega de Aveiro, enviada pelos nossos amigos da livraria Navio de Espelhos: entrar em 2004 sem pregar olho e rodeado de livros por todos os lados. O Jorge e a Sónia prometem «música, poesia, stand-up comedy, dj's & cacau quente pela madrugada». Apareçam.

Publicado por José Mário Silva às 09:09 PM | Comentários (0)

VERSOS QUE NOS SALVAM

O livrinho chegou-me oferecido por mãos amigas (obrigado, Jussy). A autora, Alejandra Pizarnik, uma argentina aérea e triste, conhecia-a já de uns poemas lidos na revista do António Cabrita («Construções Portuárias») e também devido a um dado biográfico concreto (suicidou-se no ano em que nasci e isso, não sei porquê, impressionou-me). Agora, esta discreta «Antologia Poética» bilingue, editada no Porto pela Estratégias Criativas, trouxe-me versos escritos por Pizarnik ao longo da sua escassa obra, de «La Última Inocência» (1956) a «Textos de Sombra y Últimos Poemas» (publicação póstuma, em 1982). É uma poesia lacerada e rasa, de gritos murmurados, fúrias contidas, arrebatamentos que se diluem no silêncio do corpo.
Alguns exemplos:


LA CARENCIA

Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.


6

ella se desnuda en el paraíso
de su memoria
ella desconoce el feroz destino
de sus visiones
ella tiene miedo de no sabrer nombrar
lo que no existe


16

has construido tu casa
has emplumado tus pajáros
has golpeado al viento
con tus própios huesos

has terminado sola
lo que nadie comenzó


27

un golpe del alba en las flores
me abandona ebria de nada y de luz lila
ebria de inmovilidad y de certeza


EN TU ANIVERSARIO

Recibe este rostro mío, mudo, mendigo.
Recibe este amor que te pido.
Recibe lo que hay em mí que eres tú.


EL CORAZÓN DE LO QUE EXISTE

no me entregues
tristísima medianoche,
al impuro mediodía blanco


SOMBRA DE LOS DIAS A VENIR

A Ivonne A. Bordelois

Mañana
me vestirán con cenizas al alba,
me llenarán la boca de flores.
Aprenderé a dormir
en la memoria de un muro,
en la respiración
de un animal que sueña.

Publicado por José Mário Silva às 08:56 PM | Comentários (2)

TROCA POR TROCA

Da aplicação das teorias neo-liberais à sinistralidade rodoviária pode também concluir-se que uma sinalização ineficaz das estradas é, sobretudo quando complementada pela ausência de mecanismos adequados de Segurança Social, um factor dissuasor, muito positivo na prevenção de acidentes.
Céptico como sou, e por enquanto muito pouco convencido pelas teorias neo-liberais, que de resto me parecem particularmente estúpidas (sobretudo nas suas pretensões científicas), eu formularia um outro pedido muito mais pragmático:
Proponho que se importe a equipa que projecta a sinalização das estradas espanholas (seja essa equipa parte de um organismo público ou privado) na sua totalidade, de forma a que as estradas portuguesas passem a estar devidamente sinalizadas.
Aos funcionários portugueses a quem tem estado até agora adstrita esta função, proponho o seguinte:
1) se admitem que as estradas ainda não estão sinalizadas, é porque são supérfluos e devem ser despedidos;
2) se acham que as estradas portuguesas estão sinalizadas, que vão sinalizar estradas para a Ucrânia ou para o Mali.

Publicado por tchernignobyl às 01:26 PM | Comentários (3)

CAPACETES DE MOTA E CINTOS DE SEGURANÇA

Aplicações práticas (e ao alcance de todos) das teorias científicas neo-liberais a pequenos assuntos do dia a dia

Pergunta:
Que benefícios trouxe à sociedade a imposição dos cintos de segurança aos utentes da estrada?
Resposta: Nenhuns

Sim, notou-se uma redução da gravidade dos ferimentos sofrida pelos passageiros mas verificou-se um aumento desproporcionado de acidentes envolvendo peões e ciclistas.
A vantagem social relacionada com a diminuição de gravidade dos acidentes foi compensada pelo maior custo que a sociedade suporta devido ao aumento do número e da gravidade dos acidentes que envolvem não automobilistas.
Tudo parece indicar que a maior segurança de que gozam os automobilistas pelo facto de usarem o cinto de segurança os leva a conduzir mais perigosamente, a prestar menos atenção à condução do que anteriormente e a incorrer noutros riscos que procuravam evitar quando não eram obrigados a usar o cinto de segurança.
A explicação é a seguinte: todo o indivíduo que conduz um veículo assume conscientemente um certo número de riscos. A "quantidade" de riscos assim assumida depende da forma como os outros condutores se comportam na estrada. Mas depende também do temperamento individual de cada automobilista.
Alguns indivíduos assumem mais riscos do que outros (os que gostam de conduzir depressa, por exemplo). Posto isto, o risco assumido por cada indivíduo não é um dado fixo e constante. É qualquer coisa que varia também em função do "preço" potencial em que o condutor incorre ao assumir os riscos associados à sua maneira de conduzir.

Esse preço individual é constituído por todos os inconvenientes que o condutor terá que suportar se sofrer um acidente que o leve ao hospital, lhe imponha despesas de tratamento imprevistas ou o incapacite para o trabalho durante mais ou menos tempo.
Quanto mais esse "custo potencial individual" é elevado, tanto mais o condutor se sente predisposto a reduzir o nível dos seus riscos e portanto a ser mais prudente (quando um preço aumenta, a quantidade exigida diminui). Pelo contrário, se o preço potencial individual diminui há todas as probabilidades de o automobilista se mostrar menos prudente (quando um preço baixa, a quantidade exigida aumenta).
Esta legislação reduz efectivamente o custo dos acidentes de automóvel para a sociedade. Mas reduz também o custo potencial individual dos riscos relacionados com a condução automóvel. Diminuindo esse custo, o cinto de segurança torna-se de facto um encorajamento a uma condução menos prudente. Baixando o preço individual do risco automóvel, a procura de risco aumenta. E quem suporta as consequências disso? Os utentes não automobilistas da via pública.
Ora quem são estes utentes? Quase sempre pessoas que não possuem meios para circular de automóvel.
Não só não se atinge o objectivo desejado, que é o abaixamento do custo global dos acidentes da estrada, como também, e ao mesmo tempo, a medida utilizada conduz a um efeito social regressivo. Tudo, evidentemente, em nome do interesse geral...
Seria preferível, se se quisesse realmente diminuir o custo social dos acidentes, excluir os automobilistas do benefício da assistência médica por parte da Segurança Social e obrigá-los a segurar-se individualmente no tocante à totalidade dos riscos automobilísticos.
O mesmo raciocínio se poderia aplicar com facilidade a outros dispositivos de segurança quer nos automóveis quer nas estradas.
De cada vez que o Estado .intervém. com medidas aparentemente destinadas a reduzir a insegurança na estrada, quer obrigando à utilização de capacetes nas motas quer obrigando às inspecções periódicas dos veículos, há sempre alguém a pagar a factura.

Publicado por tchernignobyl às 11:18 AM | Comentários (12)

dezembro 30, 2003

MARCELICES (2)

Para ser feliz . na ânsia hiper-activa de estar em todo o lado, comentando o que acontece e o que devia ter acontecido . a Marcelo Rebelo de Sousa só lhe faltava ser ubíquo. Pelo que leio nos jornais, no domingo passado, em sessões contínuas e simultâneas (quer na SIC, quer na TVI), o Professor alcançou por fim esse raríssimo estado só ao alcance de figuras verdadeiramente importantes, como ele próprio e o Deus Nosso Senhor da Bíblia.

Publicado por José Mário Silva às 11:38 PM | Comentários (11)

MARCELICES (1)

Há uns dias, o inefável Prof. Marcelo Rebelo de Sousa inaugurou, em Celorico de Basto, uma biblioteca com o seu nome, à qual doou 30.000 volumes. Aos seus conterrâneos, terá dito: «Mal ou bem, com gozos e ironias à mistura, eu tenho a fama de ter lido esta livralhada toda. Fiquem ao menos vocês com o proveito».

Publicado por José Mário Silva às 11:26 PM | Comentários (2)

HISTÓRIA (RE)CRIATIVA

À venda na Fnac, um livro com 366 fotografias lindíssimas tiradas de balão , uma por cada dia do ano (sobra uma mas deve haver uma explicação lógica, talvez seja um ano bissexto) publicado em duas versões, uma inglesa e uma francesa.
Na página relativa ao dia 15 de Maio, uma fotografia do Cristo Rei com Lisboa ao fundo. Excerto da versão francesa, 366 jours pour réfléchir à notre Terre: «Monument du Christo Roi, 38º43'N - 9º 08' O (...). Il a fallu une dizaine d'années à Francisco Franco pour realiser ce Christ monumental de 28 m de haut».
Li isto na passada semana e fiquei a pensar: estes gajos confundem completamente a geografia, é sempre a mesma história, pensam que portugal faz parte da espanha. Hoje resolvi espreitar a versão inglesa, The earth from the air 366 days. Eis um extracto: «(...) The artist Francisco Franco took a decade to make this monumental Christ which is 95 feet (29 meters) tall. Standing 269 feet (82 meters) above the ground on a concrete pedestal on the banks of the Tagus estuary, it bears witness to the religious fervor of the Iberian peoples. Portugal was freed 50 years before its neighbour, Spain, from Moorish domination, and in that half century it took the lead in the exploration and conquest of the new world(...)».
É recreativo sem dúvida, o pior é que uma pessoa fica sem saber em que acreditar quando lê na imprensa internacional referências à história da Finlância, do Burundi, do Irão, da Tailândia...
Que tal escrever para lá a propôr uma nova versão? «Portugal was freed in the 25th of April 74, after 50 years of Moorish domination...» Aceitam-se sugestões.

Publicado por tchernignobyl às 11:01 PM | Comentários (6)

TOMEM LÁ UMA EXCELENTE NOTÍCIA

Aleluia, aleluia, aleluia! O primeiro DVD da melhor comédia televisiva de todos os tempos («Seinfeld», claro) vai ser lançado no próximo Natal. Já não era sem tempo, Jerry.

Publicado por José Mário Silva às 05:11 PM | Comentários (16)

VACAS MAGRAS

A falência da Parmalat, um colosso industrial italiano, não é só dramática para quem vai sofrer na pele as consequências (os trabalhadores) e um exemplo paradigmático dos abusos e distorções que o mercado permite. Depois do que aconteceu com a Enron, o desmoronar do ilusório castelo de cartas em que estava transformada a mega-empresa de lactícinios (sobrevalorizada na bolsa de valores, à custa de esquemas sujos) é um sério aviso à navegação e às certezas ingénuas dos liberais. Resta saber se alguém está disposto a ouvir uma tão incómoda sirene.

Publicado por José Mário Silva às 05:08 PM | Comentários (7)

ACHAS PARA A FOGUEIRA

A propósito de uma das mais animadas discussões em curso aqui no blogue, sobre as políticas culturais, recomendo a leitura deste artigo do «Público» (já tem uns dias mas não perdeu actualidade).

Publicado por tchernignobyl às 05:04 PM | Comentários (0)

O TOM QUE FICA SEMPRE BEM

De repente, todos os jornais e suplementos de economia estão a adoptar a cor da moda: salmão, como o «Financial Times». Faz sentido. Nestes tempos ingratos para a máquina capitalista, é preciso haver quem nade contra a corrente da realidade económica, essa coisa maliciosa que teima em adiar, mês após mês, a tão proclamada retoma.

Publicado por José Mário Silva às 05:02 PM | Comentários (0)

NO CHIADO, À TARDINHA, HOJE

A tertúlia «É a Cultura, Estúpido!» despede-se de 2003 esta tarde (excepcionalmente à terça-feira), pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. Durante cerca de duas horas, será passado em revista o ano literário e político, na visão pessoalíssima dos críticos e jornalistas residentes: Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos e José Mário Silva. Para além dos melhores e piores livros do ano, serão comentadas as melhores e piores capas, os títulos mais comerciais, mais improváveis, mais infelizes, etc. Os colunistas/bloggers Daniel Oliveira e Pedro Lomba discutirão, depois, os factos políticos mais importantes de 2003.
O convidado desta sessão é Mário de Carvalho, autor de «Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina» (Caminho), eleito melhor romance português do ano pela equipa do «É a Cultura...». A moderação do debate estará a cargo de Nuno Artur Silva (que substitui Anabela Mota Ribeiro) e a cereja em cima do bolo, as usual, será a stand-up comedy final de Ricardo Araújo Pereira.

Os encontros "É a Cultura, Estúpido!., organizados pelas Produções Fictícias, continuarão a realizar-se até Junho de 2004, nas últimas quartas-feiras de cada mês, no Teatro Municipal São Luiz.

Publicado por José Mário Silva às 02:54 PM | Comentários (0)

ALVO ERRADO

O desnorte é grande e não falta quem quase pretenda associar o .eixo. franco-alemão a uma esquerda passadista, em contraponto com a américa campeã do progresso, o que de resto encontra eco nalgumas opiniões à esquerda que subitamente passaram a considerar a França como um país .amigo., esquecendo as lutas sociais bastante duras que decorreram este ano nesse país e que o Manel referenciou por várias vezes aqui no blog.
De resto, se é certo que a esquerda tomou em geral uma posição acerca da Guerra do Golfo II, coincidente com a expressa por países como a França e a Alemanha, não podemos deixar de congratular-nos com alguns dos equívocos a que essa convergência deu origem, porque se criou um ambiente de zanga de comadres em que as várias .sensibilidades. da direita acabaram por reconhecer o que noutras circunstâncias jurariam a pés juntos, e pela própria mãezinha, serem atoardas de comunistas a soldo da Coreia do Norte: que todos os governos ocidentais traficaram e traficarão com os saddams e todos os outros ditadores, sempre que lhes dê jeito e independentemente das retóricas .humanistas..

Publicado por tchernignobyl às 02:50 PM | Comentários (2)

PELA BOCA MORRE O PEIXE

Na ausência de um eixo do mal que inclua algum país que possa ser hoje associado de forma credível à esquerda, o fel dos conservadores liberta-se pela .fractura. entre a actual administração dos states e o .eixo franco-alemão., também designado por .velha europa..
Assistimos assim a um estranho espectáculo: os mesmos hipnotizados pela audácia imperial dos states . quando estes determinam as suas actividades bélicas à margem dos consensos internacionais e recusam ver os seus interesses de nação mais poderosa do globo condicionados por pigmeus . criticam o .eixo. por impôr uma Europa .a duas velocidades., pretendendo achar natural que no ambiente de .lei do mais forte., criado pelos neoconservadores, um colosso como a Alemanha se submeta tranquilamente aos caprichos de humor de países com expressão demográfica e, pior ainda, económica do género de Portugal ou mesmo da Espanha .
A mim, só me parece que os alemães até têm sido bem pacíficos.
Queria ver como teria reagido a administração Bush caso a falta de tacto exibida pelo ex-ministro Martins da Cruz se tivesse manifestado contra ela.

Publicado por tchernignobyl às 02:31 PM | Comentários (3)

CINCO PARA AS NOVE

Na montra da leitaria, as miniaturas de bolo-rei são do tamanho dos queques gigantes. Ainda não acordei e a Alice há-de passar para um café . o sabor é estranho. O coelho não nos vê: desce a passos curtos a Avenida e suspira, aflito, enquanto se desvia, em pequenos saltos, da maré de gente que sai do metro.

Publicado por Margarida Ferra às 11:57 AM | Comentários (0)

DIA HISTÓRICO (POST DEDICADO AO NOSSO AMIGO DANIEL OLIVEIRA, O "RANGEL DA BLOGOSFERA")

Ontem, dia 29 de Dezembro, o BdE alcançou o 1.º lugar do Top 25 dos blogues mais visitados da plataforma Weblog em Portugal, desalojando da liderança o magnífico e em princípio inalcançável Barnabé. Nós damos a estas coisas a pouca importância que elas têm, mas seríamos tremendamente hipócritas se não rejubilássemos com o facto de os nossos leitores demonstrarem tamanha fidelidade, sobretudo numa altura em que as visitas à blogosfera estão em nítido decréscimo. Nós continuaremos a fazer tudo para merecer a vossa leitura crítica, o vosso empenho e a vossa participação. Mesmo quando o Top voltar ao normal e o Barnabé estiver novamente no lugar que lhe compete.

Publicado por José Mário Silva às 11:37 AM | Comentários (5)

HERÉTICOS

O Atlas da Globalização do Le Monde Diplomatique.
Uma obra de propaganda da esquerda mais troglodita ao serviço do pensamento Zuque do grande líder coreano.
Cheio de gráficos manipuladores e tendenciosos que contribuem para traçar um quadro da situação do planeta ao serviço das forças de bloqueio.
Leiamos e aprendamos.

Publicado por tchernignobyl às 10:07 AM | Comentários (6)

REZEM MUITO POR MIM QUE PASSA

O Santo Padre em Roma decidiu recentemente, e em boa hora, beatificar Carlos I, o último Imperador do Império Austro-Húngaro.
Um bom homem sob cujo governo o Império participou na Iª Guerra Mundial que ocasionou, por acidente, a morte a vários milhões de pessoas.
Desaparecido o Império no final da guerra, o Imperador retirou-se, vindo a morrer na Madeira, pobre, provavelmente por nunca se ter insinuado no círculo dourado dos apoiantes do doutor Jardim.
Porém, tranquilizem-se os crentes, a beatificação nada tem a ver com envolvimentos espúrios da Santa Sé em políticas. Ainda não chegámos à Madeira.
O que acontece é que foi dado como provado um milagre operado pelo Imperador, ao que parece até sem o seu consentimento ou mesmo conhecimento.
Uma freira de um convento brasileiro que sofria de uma doença grave e incurável foi milagrosamente curada quando rezou com muita força para que Carlos fosse beatificado.
Aqui vos deixo pois o meu conselho.
Rezem muito pela minha beatificação porque todos ganhamos.
Vocês curam-se e eu, com a insistência, acabo por arranjar lugar no céu.

Publicado por tchernignobyl às 09:28 AM | Comentários (0)

dezembro 29, 2003

PATRIOTISMO TRÁGICO

É tempo de vos confessar, caros amigos, um dos meus mais inconfessáveis guilty pleasures. Sempre que me aproximo de uma banca de jornais, para além de espreitar as capas dos desportivos e as manchetes surrealistas das revistas cor-de-rosa, o que os meus olhos mais avidamente procuram é a primeira página dessa verdadeira instituição do mau jornalismo reaccionário que ainda se vai chamando, apesar de só vender meia dúzia de exemplares a velhinhos salazarentos, «O DIA». Manhã sem uma espreitadela ao editorial de Antero Silva Resende, aquela mancha de texto opulenta que vergasta com requintes de retórica a "podridão" do sistema democrático "abrilino", não é manhã que se preze. Aquelas prosas são a cafeína da minha indignação ideológica, o prozac que me afasta do conformismo. Depois de ler este Antero sebento, conservado em naftalina e abafos de Santa Comba, é só darem-me uma espingarda e ofereço-me logo para a revolução.
Pois bem, esta manhã lá tive o secreto prazer de espreitar a pesporrência aleivosa do facho, como sempre embrulhada numa sintaxe impecável, capaz de trazer um brilho ao olhar dos mais exigentes professores de Coimbra. E que anunciava o vate? Ora, queixava-se da ignorância de um pivot televisivo, mero papagaio dos cientistas americanos, que se atreveu a afirmar que o sismo no Irão foi o maior de sempre. O maior de sempre nem pensar, indignou-se Antero. Toda a gente sabe que o maior tremor de terra que olhos humanos alguma vez viram foi o nosso, o de 1755, aquela tragédia por antonomásia que chocou o mundo (leia-se o que escreveu Voltaire em «Candide») e trouxe a glória, por recônditas vias, ao Marquês de Pombal. Patriota dos antigos, dos puros, dos verdadeiros, Silva Resende repôs a ordem e a verdade. Ninguém nos pode roubar, sem mais nem menos, a grandeza. Nem que essa grandeza seja medida pela escala de Richter.
Felizmente, o director de «O Dia» vela por nós. Se algum país anunciar que tem mais mortos na estrada do que esta nossa ditosa pátria, ele insurge-se. Se algum povo vier assumir derrota histórica mais vergonhosa do que a dos portugueses em Alcácer-Quibir, ele vitupera. Luminoso ou trágico, o patriotismo de Silva Resende é de aço (um aço de fina têmpera). Podemos dormir descansados.

Publicado por José Mário Silva às 10:53 PM | Comentários (2)

TEMPESTADE EM SHANGRILA

A Madeira é reconhecidamente um paraíso florido no meio do Atlântico que tem beneficiado nas últimas décadas de uma estabilidade política ímpar.
Quase foi poupada aos sobressaltos do PREC, para alguns ainda a causa de um atraso persistente do nosso país.
Há décadas que é governada em regime de maioria absoluta por Alberto João Jardim, Prospero benevolente que tem promovido um titânico programa de desenvolvimento da região ao abrigo do Caliban cubano praticamente sem empecilhos.
Fale-se com algum elemento daquela pasta social composta por profissionais liberais de áreas diversas, comerciantes e empreiteiros da construção civil comummente designada por .classe média. e em geral a sua preocupação é tranquilizar-nos acerca dos exageros de algumas críticas dirigidas ao carnavalesco governante.
Segundo estes cidadãos médios, a linguagem mais colorida de Prospero é meramente o resultado de qualidades histriónicas ímpares, potenciadas por refeições generosamente regadas com o precioso néctar, e não perigoso sintoma de desarranjo mental ou, ainda pior, o soltar a língua de um indivíduo boçal que por artes de incompreensível chantagem intimidasse sucessivos governos e presidentes da república.
Recentemente surgiram até vozes insuspeitas a elogiar-lhe o nível cultural (les bons esprits...).
Foi pois com enorme surpresa que li na Visão um texto sobre os níveis de desigualdade e pobreza por regiões do nosso país (já de si, e para variar, um dos piores classificados na Europa) e lá aparece a Madeira em penúltimo lugar.
Dez por cento pior que o Alentejo arruinado pelas destruições causadas por uma Reforma Agrária de costas muito largas, cerca de trinta e dois por cento dos madeirenses vivem com rendimentos mensais abaixo dos sessenta por cento da média nacional (363 euros no caso de Portugal) .
É caso para perguntar: se não fosse o doutor Jardim a produzir durante tanto tempo tanta riqueza e a distribui-la por tantos madeirenses, seria a Madeira ainda hoje habitada? Flutuaria ainda?

Publicado por tchernignobyl às 10:00 PM | Comentários (8)

ORA NEM MAIS, SR. PROFESSOR

«Portugal ainda espera muito que as soluções caiam do céu» . Eduardo Lourenço, em entrevista ao DN.

Publicado por José Mário Silva às 09:53 PM | Comentários (0)

POSH KYLIE E CARLOS RIBEIRO

Sequências intermináveis de telediscos entopem os canais "musicais".
Em cenários fantásticos proporcionados pelos avanços técnicos do digital e do virtual, repetem-se obsessivamente os mesmos maneirismos vendidos às crianças e ao povo como chave milagrosa de todas as "operações triunfo".
Gorjeios das girlbands compostas por rapariguinhas maioritariamente de cor, asfixiadas em latex, base e lipstick.
Harmonias de boysbands insuportavelmente açucaradas, em registo de balido lamecha de ovelhas diabéticas injectadas de testosterona.
Compêndios de sabedoria erótica de rua.
Com Kylie Minogue assiste-se à proliferação de um currículo de novas artes performativas onde a banda sonora é já apenas um ruído de fundo cada vez mais acessório: o menear de ancas, o trocar e destrocar das pernas em posição mais ou menos horizontal, o gesto de atirar a cabeça para trás, para tirar o cabelo dos olhos, e o esgar desafiante da boca acentuada pelo baton e distorcida pela objectiva grande angular, acompanhado de um olhar oblíquo.
A voz ciciada podia ser a da minha avó, a de um vendedor de peixe no mercado de Olhão ou a de uma máquina de flippers na feira popular.
Novas e belas "artes", uma apoteose do kitsch e do pimba que vende milhões.
Um dia virá em que talvez o franzir de testa de Carlos Ribeiro, sublinhando o esforço intelectual requerido para apresentar o ultimo êxito da Mónica Sintra, se torne num clássico da categoria.
Talvez tenhamos de vir a "preservar" os grunhidos rudes e ásperos do quim barreiros como artefactos da arqueologia industrial dos tiques audiovisuais.

Publicado por tchernignobyl às 09:39 PM | Comentários (1)

MAIS ACTUALIZAÇÕES

Regressado da hibernação pós-natalícia, recomeço novamente o trabalho de actualização retrospectiva (não se vá pensar que o nosso querido tchernignobyl tomou de assalto o BdE, transformando-o num blogue unipessoal). Para os mais ávidos, já está disponível o Maarten que devia ter aparecido no último sábado. E há outros posts adiados a caminho. Continuem a fazer scroll de vez em quando, s.f.f.

Publicado por José Mário Silva às 08:13 PM | Comentários (0)

AS TORRES DO MAL

«Lord of the rings», ainda a torre como símbolo do mal, a sua derrocada como o anúncio do fim das trevas.
Peter Jackson cúmplice moral da Al Qaeda?

Publicado por tchernignobyl às 10:22 AM | Comentários (6)

ESQUEÇAM-SE DIVERGÊNCIAS PASSADAS

As notícias recentes sobre o elevado consumo de estupefacientes, entre os militares portugueses, permitem finalmente colocar na ordem do dia o fim de uma querela que há quase quarenta anos opõe dois slogans até aqui considerados como bandeiras de dois campos políticos opostos: droga-loucura-morte é agora equivalente a tropa-loucura-morte.

Publicado por tchernignobyl às 10:21 AM | Comentários (9)

CIÊNCIAS OCULTAS

O mais recente astrólogo a prever a retoma económica para 2004 é o doutor durão.
Podemos estar tranquilos?
Talvez.
Uma das vantagens da actividade dos astrólogos é a de raramente serem confrontados com as suas taxas de previsão, porque no fundo todos sabemos como errar é humano.
Se nos lembrarmos que a inflação prevista pelo governo que o conhecido vidente dirige é de cerca de 1,5% para 2004 e a percentagem prevista para o aumento do preço do pão (só para dar um exemplo) é de 35%, podemos desde já alegrar-nos porque temos um primeiro-ministro humano.
Mesmo muito humano.

Publicado por tchernignobyl às 10:20 AM | Comentários (5)

dezembro 28, 2003

RELAX

Para relaxar os músculos e massajar os neurónios dos ardores da luta de classes, proponho a página do Rudy Rucker, matemático e escritor de ficção científica da onda William Gibson-Bruce Sterling.
Mas o mais interessante dos escritos de Rudy está a meu ver nas obras de divulgação científica, em particular o livro The Fourth Dimension, em que consegue produzir a interpretação mais "visualizável" que conheço da quarta dimensão.

Publicado por tchernignobyl às 07:41 PM | Comentários (8)

QUANDO A TERRA TREME

O que se passou em Bam, a cidade iraniana arrasada por um sismo que matou mais de 20.000 pessoas, pertence ao domínio do inimaginável, do puro terror que a natureza ainda nos provoca. Ao ler os despachos das agências e ao ver as imagens das ruínas, lembrei-me de um conto de Juan Rulfo, sobre um tremor de terra no México dos anos 20. Chama-se «O Dia do Desmoronamento» e consta do volume «A planície em chamas» (Cavalo de Ferro), já aqui referido. Às tantas, uma das personagens refere-se à tragédia deste modo:

«. Eu por esses dias andava em Tuxcacuesco. Até vi quando se desmoronavam as casas como se fossem feitas de mel, simplesmente, retorciam-se assim, fazendo trejeitos, e vinham as paredes inteiras para o chão. (...) Foi lá, nem mais nem menos, que me agarrou esse tremor de terra que vos digo, e quando a terra se bandeava todinha como se por dentro a estivessem a ferver».

Em Bam, a terra também ferveu por dentro. E as casas, património histórico da humanidade, também tombaram como se fossem feitas de mel.

Publicado por José Mário Silva às 07:33 PM | Comentários (0)

É POR ESTAS E POR OUTRAS...

Não há dúvidas de que a direita dispõe de uma vantagem fundamental no confronto com as .forças de esquerda..
Quando chega ao poder, USA-O doa a quem doer.
Em comparação com isto, a inépcia da esquerda choca.
Um bom exemplo é a questão do aborto.
Ainda hoje parece incrível como das relações de forças existentes na sociedade portuguesa durante a segunda metade dos anos 90, e em particular da percepção pública que existia e existe no nosso país, desde há muito mais tempo, sobre este problema, se conseguiu fazer o mais difícil e permitir até hoje a sobrevivência e prevalência das posições dos taliban anti-despenalização.
Agora, finalmente um sinal. O sampaio, ignorando as recomendações negativas da ministra da justiça celeste, indultou a enfermeira detida preventivamente em 2000 e condenada em 2002 a sete-anos-sete de prisão por prática de aborto, e reduziu-lhe a pena para metade, motivo pela qual poderá ser libertada em Fevereiro próximo.
Por vezes o óptimo é inimigo do bom.
Este indulto foi positivo mas será que o presidente sampaio não tem poderes de indulto que permitam mandar libertar a enfermeira IMEDIATAMENTE?

Nota:
A forma como as agências referem a condenação por .vários crimes entre os quais o da prática do aborto. levaria qualquer distraído a crer que a condenação a sete anos se deveu a uma série de desfalques e vigarices tipo caso Moderna, perpetrados pela condenada, ficando a prática dos abortos para desenjôo no intervalo da bica.

Publicado por tchernignobyl às 07:25 PM | Comentários (13)

dezembro 27, 2003

ESQUECIMENTOS

O suplemento DNMais desta semana traz o balanço do ano musical, aquém e além fronteiras. Como sempre, há escolhas que partilho, outras que nem por isso. Mas escandaloso mesmo é não encontrar, em nenhuma das listas, uma menção que seja aos dois melhores discos de música popular que pude ouvir este ano: «Ópera Mágica do Cantor Maldito», do Fausto; e «The Living Road», da Lhasa. 'Tá mal, muito mal mesmo, ó Galopim.

Publicado por José Mário Silva às 11:54 PM | Comentários (1)

NADA MAL LEMBRADO

o manuel vasconcelos chama-nos à pedra e com razão.

Só queria dar-vos os parabéns pelo excelente blog que têm vindo a manter (apenas gostaria que ainda tivesse mais artigos) e para manifestar a minha estranheza pelo facto de não vir nenhum comentário à ida do nosso primeiro-ministro (ainda que a título privado, se é que a sua função permite isso..) ao casamento da filha de um dos maiores criminosos de guerra ainda em actividade... Basta dizer que é uma das grandes fortunas mundiais, e que o seu povo está como se vê...

o durão, e outros, agora não querem misturas com o saddam por causa dos piolhos e porque o seu cheiro se tornou incómodo mas não têm pejo de ir às festarolas do sr. engenheiro.
curiosamente as mesmas almas que se indignaram pelo facto da líbia ficar com o pelouro dos direitos humanos, pelos critérios de rotatividade da ONU, no timing certo para despoletar a indignação mundial com a "inépcia" das Nações Unidas (1), nada têm a opôr a que o sr. santos nomeie um conhecido traficante de armas para a Unesco, oferecendo de mão beijada a esse reconhecido benemérito a imunidade indispensável para não ir de cana, um escândalo que motivou a demissão da Catherine Deneuve (a verdadeira, claro) como protesto.
tudo estará bem com o sr. santos enquanto os interesses das companhias petrolíferas americanas em Angola não forem beliscados. se surgirem problemas, então sim trata-se logo dos direitos humanos e surgirão magotes de "institutos" com investigadores credenciados a provar que os USA (e os outros bem entendido...) nunca tiveram nada a ver com Angola.

(1) Isto não é mania da conspiração mas de repente lembrei-me desta súbita "(re)conversão" do kadafi e pensei... será que todas estas coisas acontecem por acaso?

Publicado por tchernignobyl às 11:47 PM | Comentários (3)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (5)

António Correia Guerreiro, musicólogo convidado do BdE, apresenta hoje mais uma das obras da primeira fase do compositor Arnon Maarten (1933-1996):

Oito peças soltas [para piano] Op. 4, de 1963 (26 min)
I . Allegro; II . Vivace; III . Moderato; IV . Andante ma non troppo; V . Sarabande; VI . Valse; VII . Mazurca; VIII . Minuete

Este conjunto de pequenas peças para piano, de natureza essencialmente didáctica, foi usado pelo compositor ao longo da sua vida lectiva, tal como aconteceu com a primeira sonata para piano. Assim, também estas miniaturas foram sendo alteradas e revistas por Maarten, devendo a sua forma final ter sido fixada apenas em 1995.
Arnon Maarten considerava estas peças como .pequenos e simples divertimentos, destinados a mostrar aos alunos como algumas formas tradicionais podem ainda, nos nossos dias, ser encaradas por um compositor sem quaisquer temores..
Estas peças soltas compõem então um manifesto defendendo a possível modernidade e contemporaneidade das suites de danças, dado que, na prática, cada um dos oito .movimentos. revisita uma dança.
A este propósito, Maarten, no seu estilo algo desconcertante, escreve que .as oito peças soltas são mesmo isso: peças soltas. Podem ser interpretadas por qualquer ordem, em qualquer número (entre uma peça e as oito) e não deverão, em circunstância alguma, ser encaradas como uma peça em oito andamentos (apesar da numeração de I a VIII) a interpretar pela ordem estabelecida e na íntegra. Naturalmente que isto não impede que as oito peças soltas possam ser interpretadas de seguida e na ordem de I a VIII..

Sigamos, pois, a numeração fornecida pelo próprio Arnon Maarten, salientando que todas as peças têm durações muito similares, de pouco mais de três minutos.
A peça I é uma espécie de canção pop, de melodia muito simples, quase simplista, algo como uma piscadela de olho aos Beatles, uma vez que .se o que está na moda são melodias de imediato apelo, que todos possam assobiar na rua, não há motivo para que um compositor não experimente a sua criatividade nesta tipologia sonora.. Trata-se, nãoobstante, de uma peça inteligentemente construída e que revela algumas surpresas para os ouvidos mais atentos.
A peça II é, no fundo, uma jiga de aparência celta, com um ritmo absolutamente dançável marcado na mão esquerda de forma constante e complicadas construções na mão direita, sendo exploradas sonoridades peculiares do piano que chega a ser quase absurdamente percutido (indicação na pauta de .com violência.). Ainda assim, não parece perder-se nunca o aspecto de dança da peça, apesar de o ouvinte se .poder sentir algo extenuado no fim da interpretação, ainda que tenha estado sempre sentado confortavelmente..
A terceira peça (III) é de natureza bem mais calma e tranquila, remetendo para danças de roda de natureza popular. Maarten revela que pretendeu .que o piano soasse quase como um acordeão, esperando criar um ambiente de taberna, cheia de fumo e aldeões ligeiramente embriagados, dançando de forma pesada e certamente um pouco fora do tempo.. Lendo esta descrição percebe-se melhor esta peça quase programática, com frequentes dissonâncias de aspecto entre o cómico e o condescendente, alterações do ritmo a despropósito e uma melodia base de gosto pouco erudito. É talvez a peça com mais encanto e ingenuidade desta colecção.
Segue-se (IV) uma dança russa, em que os graves imitam o barulho das botas a bater no chão e os agudos vão fornecendo a melodia. Nesta peça tudo se passa .como que em progressiva câmara lenta., soando mais estranha uma melodia que a princípio se percebe claramente. Também nesta peça o compositor faz uso recorrente de acordes dissonantes e do piano enquanto instrumento de percussão, sendo perceptíveis, muito perto do final da peça, citações a Prokofiev («Romeu e Julieta») que contribuem para a sensação de desagregação que esta peça proporciona.
As quatro peças seguintes (V a VIII) são as que possuem elas próprias designações de danças, correspondendo cada uma delas a uma criação ao estilo de determinado compositor, parodiando determinados estilos e épocas.
Assim, a sarabande é uma divertida desconstrução da música de Lully e da corte de Luís XIV, plena de uma solenidade e opulência que rapidamente se convertem em .ridículas rendas, perucas e pó de talco, vazias de mensagem e sentido..
A valse é uma ácida paródia aos ambientes vienenses, com as notas .atropelando-se umas às outras enquanto mantêm um ritmo ternário insuportavelmente monótono.. A imagem sonora criada será a de um auditório que .não se apercebe da incrível chatice que é a música de que gostam, especialmente quando tocada de forma mecânica e não dando tempo a que uma nota termine para se ouvir já outra.. Esta é pois uma valsa demasiado rápida e monótona, nascida da mente mordaz de Arnon Maarten.
A mazurca vem quebrar este clima de algum escárnio, tratando-se de uma peça de muito difícil execução que serve para provar que .Chopin escrevia sempre notas a mais.. Desta forma, a peça começa com uma construção sonora verdadeiramente descomunal, que se vai progressivamente simplificando, tornando mais clara a melodia que encerrava desde o início. Esta é uma muito bela frase, que vai claramente beber inspiração a Chopin e que deve ser interpretada .de forma sincera e sem laivos de ironia, porque a beleza faz, hoje e sempre, sentido e merece o nosso respeito..
Para terminar, uma evocação de Mozart, com um espírito semelhante ao da valse, mas muito menos monótona, apesar de igualmente .maquinal.. É uma peça .ao gosto das crianças e das montras de Natal, simples, bonitinha, mas desprovida de personalidade, ou seja, todo o oposto de Mozart..
Como se vê, a ironia que viria a caracterizar algumas das peças mais bem conseguidas de Arnon Maarten dá aqui os primeiros passos, quer na música, quer na forma como o compositor vai apresentando as peças no seu .diário apenas íntimo porque ninguém o quer ler. (conjunto de cadernos . datados de 1979/81, 1986/87 e 1995/96; ou seja, os principais períodos em que Maarten procede à revisão da sua obra . que tem servido de base à globalidade das citações de Maarten que vão surgindo nestes textos).

Publicado por José Mário Silva às 08:04 PM | Comentários (0)

dezembro 26, 2003

DESPOJOS DO DIA

Força destruidora, o Natal. Depois de se empanturrarem de bacalhau, pinhões, bombons caros e sonhos fritos (triste destino de quase todos os sonhos), as pessoas andam agora meio aturdidas, às voltas com o Alka Seltzer e o Guronsan, ainda zonzas do estrépito das músicas natalícias e das luzes a piscar nas montras, ainda cansadas de tanto embrulho e de tanto lixo à porta (por recolher). As pessoas não querem saber de nada, a verdade é essa. E por isso passeiam na rua as roupas novas, ou põem o sono em dia, ou estupidificam a ver o «Música no Coração» pela enésima vez. As pessoas não ligam sequer os computadores. E os blogues agonizam, como se pode comprovar ici et ailleurs.
Mas, felizmente, Janeiro está quase aí, no outro lado da esquina. E vem a galope.

Publicado por José Mário Silva às 07:52 PM | Comentários (4)

MÓRBIDA CONTABILIDADE

Segundo um relatório da FIJ (Fedération Internationale des Journalistes), citado pelo site do nosso Sindicato, morreram este ano 83 jornalistas e profissionais dos media, mais 13 do que em 2002. Parte deste agravamento deve-se, como é óbvio, à guerra no Iraque (onde perderam a vida 18 repórteres), mas o panorama no resto do planeta continua pouco animador. O Vasco Pulido Valente costuma dizer que o mundo está perigoso. Eu diria que não está; ele é perigoso.

Publicado por José Mário Silva às 05:53 PM | Comentários (8)

dezembro 25, 2003

SUGESTÃO DE NATAL (FORA DE HORAS)

Ofereçam às pessoas de que mais gostam (pais, irmãos, namoradas, amigos) o melhor livro de Literatura . com L maiúsculo . publicado este ano em Portugal: «A planície em chamas», genial conjunto de 17 contos do escritor mexicano Juan Rulfo (o autor dessa outra obra-prima que é «Pedro Páramo»), traduzido por Ana Santos e editado pela Cavalo de Ferro.

Publicado por José Mário Silva às 01:08 PM | Comentários (5)

dezembro 24, 2003

SERÁ QUE DÁ?...

enquanto não entramos na semana de todos os balanços, de todos os votos e de todas as previsões, quer as do professor karamba quer as do luís delgado, quer as daquela brasileira gorda, quer aquelas baseadas nas modernas teorias científicas dos astrólogos neoliberais ou as baseadas no cristal do materialismo histórico, será que dá neste blog criptoesquerdista para falarmos um pouco do Natal?
muito pouco, aliás. apenas o suficiente para eu desejar um bom natal (afinal de contas é para isso e para estoirar o respectivo subsídio que o natal serve, não?) a todos os que me lêem, incluindo... (incrível!) o ralha.

Publicado por tchernignobyl às 03:33 PM | Comentários (9)

POST QUE NÃO É BEM UM POST

é só para me desculpar do meu baldanço dos últimos dias. ando desde o fim-de-semana com uma gripe irritante à perna, que me impele para a cama assim que transponho, ao final do dia, o limiar da minha humilde barraca.
apanho um momentinho livre e saltam-me em cima os compromissos sociais da "quadra". mas os energúmenos que se têm atrevido a polemizar comigo, aproveitando-se da minha fraqueza momentânea, não pensem que ficou tudo esquecido. respostas andam a ser congeminadas na sombra, sob os cobertores. esta história ainda não acabou.

Publicado por tchernignobyl às 02:58 PM | Comentários (3)

DUAS FRASES DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

«Tem o peso de uma nuvem. E a sua beleza.»

Ele podia dizê-las, a estas frases, para falar de Jesus Cristo, o "seu" menino-deus nascido faz amanhã 2003 anos. Mas escreveu-as antes, aqui, para falar de uma rapariguinha, filha de amigos, celebrada como «o maravilhoso aparecimento de uma pessoa». São incorrigíveis quando se aproximam da perfeição, os poetas.

Publicado por José Mário Silva às 01:30 PM | Comentários (1)

9 EUROS

Neste país cheio de arestas, país agreste e bicudo, nem os aumentos miseráveis do salário mínimo são redondos.

Publicado por José Mário Silva às 12:57 PM | Comentários (2)

PRESENTE ENVENENADO

Num gesto de pura maldade, pouco consentânea com a época, o Causa Liberal decidiu oferecer a alguns blogues esquerdistas (nós e o Barnabé) uma provocatória sugestão de prenda natalícia: o «action figure» do Presidente George W. Bush, vestido com a farda de piloto Top Gun que envergava quando declarou, no convés do porta-aviões U.S.S. Abraham Lincoln, o fim (?) da guerra no Iraque.

Como se percebe pela imagem, a réplica é bastante perfeita. Tão perfeita que imita nos mínimos detalhes a principal característica física de George W.: parecer um boneco. Mas o requinte vai mais longe. Embora pertença à linha Talking Presidents, o brinquedo não fala, o que protege as crianças do contacto precoce com os perniciosos «bushismos». Verdadeiramente genial.
Além do fato XPTO, com os bolsos todos e um capacete à maneira, este Action Man presidencial tem a seu favor um impressionante rigor estético. Se não vejamos este excerto do texto promocional: «The figure captures the good ol. boy essence of the original George, from his rugged Texas back country good looks and characteristic placid political face. Its resemblance to the 43rd President is amazing, duplicating his crystal blue eyes, engaging smile and chiseled features». Uau, estou impressionado. Só não sei lá muito bem o que é uma «placid political face». Alguém me explica?
Entretanto, escusado será dizer que encomendei logo meia dúzia de exemplares deste espantoso boneco . mais uma vez thanks, AAA, pela dica. Agora só me fica a faltar um livro instrutivo (como este) para levar até ao fim a brincadeira.

Publicado por José Mário Silva às 11:29 AM | Comentários (11)

D. MARIA II, S.A.

O Conselho de Ministros aprovou hoje um decreto-lei que transformará o Teatro Nacional D. Maria II em sociedade anónima de capitais públicos com uma nova estrutura orgânica e modelo de gestão. [...] Esta nova estrutura pretende harmonizar as "exigências artísticas com princípios de racionalidade de gestão e maximização de actividades conexas que exigem a forma comercial", justifica o texto da tutela.
A próxima produção, procurando divulgar, como sempre, o património teatral português, será Frei Luís de Sousa Reloaded, numa joint venture com o Nacional do Porto encenada por Ricardo Pais (C.E.O. do Teatro S. João). O texto, numa nova versão de Margarida Rebelo Pinto, terá como resposta ao famoso "Quem és tu?" um sonoro "Sei lá", não como sinal da crise contemporânea das identidades, mas por nenhuma razão em especial.

Publicado por Francisco Frazão às 12:17 AM | Comentários (2)

dezembro 23, 2003

NO COMBOIO

Colegas de escritório (?) a caminho de um jantar de Natal:
- O que é que disse a Andreusa?
- Estava em Algés, só tem comboio às 9.20.
- Então só chega a Cascais às 10...
- O que é que será o jantar? Espero que não seja bacalhau outra vez.
- É capaz de ser kitsch.
- Kitsch? O que é isso?
- É uma espécie de tartes salgadas.

Publicado por Francisco Frazão às 11:27 PM | Comentários (1)

PARA UMA AMIGA (NO «PIOR DIA» DA SUA VIDA)

A tristeza dos amigos é sempre uma violência. Atinge-nos como uma onda gigante; amolga-nos a couraça de metal com que enfrentamos o mundo; derruba-nos do alto das nossas certezas. Sofremos com eles e nem sequer conseguimos explicar-lhes como ou porquê. Ficamos em silêncio, numa espécie de pavor, temendo a palavra errada (aquela que reabre a ferida, em vez de a sarar). Ficamos em silêncio, buscando as impossíveis formas do consolo. E só nos resta, como salvação, a certeza de dias menos sombrios.

Publicado por José Mário Silva às 09:35 PM | Comentários (2)

DESACELERAÇÃO INVOLUNTÁRIA

Não tem só a ver com o Natal. Por motivos diversos, os escribas do BdE andam com pouco tempo disponível, pouca margem de manobra, pouco acesso à internet ou, talvez, apenas pouca inspiração e vontade de blogar. É certo que a colectiva tendência para o adormecimento da vida pública também não ajuda. Já para não falar das obrigações familiares para que somos empurrados nesta quadra, todas elas "very time consuming" . como dizem os ingleses. Ainda assim, entre as prendas e as rabanadas, não deixaremos de andar por aqui, menos infelizes (esperamos) do que o intratável Mr. Scrooge. E depois, em Janeiro, comemoraremos o primeiro ano de vida com o novo fôlego que se impõe.

Publicado por José Mário Silva às 07:19 PM | Comentários (1)

ACTUALIZAÇÕES TARDIAS

Para quem se sinta eventualmente defraudado com a escassa produção destes últimos dias, deixo um conselho: façam scroll e procurem lá mais para baixo. Problemas de gestão interna (chamemos-lhe assim) adiaram a publicação de posts que só faziam sentido em determinados dias. Por isso, estamos num processo de (re)actualização em curso, da última sexta-feira para cá. Entre outros, apareceram do nada um post sobre os insultos que se trocam no Parlamento e a habitual análise da obra de Arnon Maarten. Faltam ainda outras prosas "datadas", como a evocação de Hans Hotter, mas prometo ter tudo devidamente actualizado até amanhã. Entretanto, naveguem pelo blogue, se vos aprouver. E desculpem o incómodo.

Publicado por José Mário Silva às 06:58 PM | Comentários (0)

LIBERDADE CONDICIONADA

Há poucos minutos, no Primeiro Jornal da SIC, vi o João Baião a oferecer a saída do "estabelecimento prisional" a um grupo de reclusos, como se fosse uma viagem às Seychelles num qualquer concurso saltitante. Já no fim-de-semana passado tinha assistido, no Telejornal da RTP, a uma reportagem em que as câmaras captavam a alegria de três detidas, no momento do anúncio da sua libertação e nos seguintes, enquanto faziam as malas, se despediam das amigas e telefonavam à família.
Serei só eu a ver nisto um espectáculo grotesco e perverso? Uma contaminação do jornalismo pela lógica dos reality shows? Um abuso voyeurista feito à custa de quem, aturdido pelo júbilo da liberdade reencontrada, não tem meios para se defender?

Publicado por José Mário Silva às 02:26 PM | Comentários (14)

dezembro 22, 2003

FIGURA DO ANO

Para a revista «Time», a figura do ano é a carne para canhão que foi morrer "heroicamente" no outro lado do mundo, por causa de uma guerra injusta, orquestrada por uma Administração de falcões ávidos de vingança. Adivinharam: a figura de 2003, para a «Time», é o soldado americano, esse dúbio arquétipo militar dos tempos modernos.

Publicado por José Mário Silva às 02:12 PM | Comentários (24)

NOVO REFERENDO SOBRE O ABORTO

Ouve-se dizer que o país vai ser, de novo, referendado sobre o aborto. Ao que consegui apurar, a questão que será exposta aos cidadãos já está formulada e é aqui avançada em primeira mão. A saber: Qual a sua opinião sobre o aborto?

a) Tem sido um bom primeiro-ministro.
b) Tem sido um primeiro-ministro ineficaz.
c) Nem sequer tem sido primeiro-ministro.

(Tiago Barbosa Ribeiro)

Publicado por José Mário Silva às 10:44 AM | Comentários (7)

dezembro 21, 2003

EQUADOR

Mas a quem é que eu posso oferecer (no original, claro) o best-seller do ano?

Publicado por Francisco Frazão às 05:48 AM | Comentários (7)

PARABÉNS

Hoje teve lugar o jantar de aniversário dos 30 anos da LCI - PSR. Foi uma bonita festa! De assinalar o discurso comovente do Louçã sobre a amizade, lembrando os jovens fundadores de um partido que se demarca de forma inteligente na fraca oposição que temos, e todos os outros que por lá passaram e ficaram, a lutar militantemente para que esse partido das "campanhas originais" tenha crescido como inquestionável voz de referência. O reencontro de gente de várias linhas ideológicas e de diversas maneiras de estar na política. O grande bolo comemorativo do qual se atacou gulosamente a letra R de chocolate e framboesa. Restaram as letras PS para quem se atrasou na corrida à melhor fatia. Aproveito para deixar aqui os meus parabéns enquanto simpatizante.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 02:39 AM | Comentários (3)

dezembro 20, 2003

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (4)

Como todos os sábados, publicamos mais uma análise do musicólogo António Correia Guerreiro a uma das primeiras obras do compositor Arnon Maarten (1933-1996):

Sonata para piano nº 1 Op.3, de 1963 (14 min)
3 andamentos: I . Andante cantabile; II . Grave; III . Grave maestoso

Após a composição das suas duas primeiras obras no mesmo ano, Arnon Maarten passa os dois anos seguintes sem compor, mais ocupado que esteve com o processo de admissão ao lugar de professor de composição no Conservatório de Roterdão, cargo que ocuparia até à sua morte.
Aos 30 anos, o jovem professor encontrava-se profundamente empenhado nas suas novas funções, que, segundo o próprio, sempre procurou desempenhar .a tempo inteiro., pois, na sua opinião, .nada há de mais nobre do que ser professor e assim contribuir para a formação de jovens mentes que, amanhã, terão por missão tomar conta de nós e da nossa pátria, quer sejam políticos, canalizadores, médicos, advogados ou músicos.. Assim, Arnon Maarten via o ensino .claramente como uma gratificante forma de troca comercial em que, numa primeira etapa, o professor tem o futuro imediato do aluno nas suas mãos, que mais tarde terá, juntamente com o resto da sua geração, a responsabilidade de contribuir, de uma forma ou de outra, para assegurar o melhor futuro para o professor (já fora do activo, eventualmente) e os restantes concidadãos..
Estes primeiros três anos da carreira docente de Arnon Maarten tomaram então ao compositor a quase totalidade das suas energias, compondo apenas com objectivos didácticos e demonstrativos, levando ao extremo a afirmação que faria no fim da vida, de ter sido .essencialmente um professor que procurou, nos seus tempos livres, explorar um pouco mais o seu domínio de actividade, por prazer intelectual e estético e para ter um conhecimento real daquilo que ensina . a composição..

Esta afirmação, talvez bem intencionada e reveladora de uma certa forma de pensar do compositor (eventualmente daquilo que o próprio gostaria que tivesse sido o seu percurso), não pode deixar de ser encarada como algo contraditória, face ao volume de obras compostas, essencialmente até aos 45 anos do autor, e ao esforço e tempo dispendidos por Arnon Maarten no acto de compor.
Quanto à primeira sonata para piano de Arnon Maarten, trata-se de uma obra composta inicialmente em 1963, que deverá ter sofrido inúmeras revisões, a última das quais provavelmente em 1995, já que se tratava de uma peça que o compositor costumava apresentar como exemplo demonstrativo aos seus alunos, pelo que, em cada ano lectivo, Arnon Maarten voltava a esta partitura, tendo então, naturalmente, oportunidade para a reapreciar.
O primeiro andamento inicia-se com a transcrição para piano, efectuada pelo compositor, da sonata da cantata BWV 182 de J. S. Bach. Este exercício pretendia, segundo Maarten, .permitir perceber o próprio conceito primevo de sonata.. Após estes dois minutos e meio de pura beleza e encanto, segue-se a apresentação do segundo tema, desta vez composto de raiz por Arnon Maarten.
O segundo tema, apresentado durante outros dois minutos e meio, trata-se de um tema quase desprovido de melodia, dissonante e de linguagem dodecafónica, profundamente contrastante com o tema inicial, se bem que mantendo o mesmo ritmo, a mesma cadência e a mesma indicação Andante cantabile, apesar de se poder encarar o segundo adjectivo como uma ironia do compositor.
O segundo andamento, com uma duração de cerca de seis minutos, corresponde ao desenvolvimento dos dois temas expostos anteriormente, em que se assiste à progressiva .modernização. do tema de Bach, intercalada com uma subtil progressão do segundo tema .em direcção à melodia e à beleza, no seu sentido mais clássico e tradicional.. Todo este desenvolvimento é efectuado de forma muito lenta, à medida que o pianista .vai deixando saírem dos dedos as notas, quase uma de cada vez, como numa procissão pascal espanhola..
O exercício de composição, exposto de forma lenta, quase como se para ele olhássemos por uma lupa, deixa antever que esta obra foi sendo revista por Maarten ao longo da vida, apresentando este segundo andamento uma linguagem claramente madura, com laivos da ironia subtil e refinada, própria de uma fase muito posterior da criação do compositor.
O último andamento, que dura aproximadamente metade do anterior, apresenta primeiro o tema de Maarten, tocado novamente de forma muito lenta e ainda mais solene, num crescendo sonoro de pianissimo a fortissimo em que, ao chegar .ao vértice de um triângulo sonoro imaginário., se funde no tema de Bach, que é então tocado com a mesma solenidade e lentidão, mas desta vez num diminuendo simétrico, que termina em pianissimo, por forma a que .o ouvinte, se não estiver a ver o pianista, não se consiga aperceber exactamente quando começou o andamento e quando deixou o intérprete de tocar nas teclas., tal a subtileza do som que deve ser produzido.
O último toque de ironia que Arnon Maarten dá a esta interessantíssima peça é a indicação, expressa na partitura, de que o pianista deverá produzir um ruidoso suspiro no fim da sua interpretação, para que os ouvintes percebam que a mesma se concluiu.
Diz-me Pieter Maarten que o pai interpretava anualmente esta sonata nº 1, Op. 3 para os seus alunos, normalmente com resultados muito positivos, sendo hábito terminar a interpretação entre aplausos e gargalhadas dos alunos que iam seguindo a partitura.
Apesar deste facto, Arnon Maarten nunca considerou que esta obra tenha sido estreada (durante a sua vida), já que o compositor se considerava .um pianista demasiado fraco para estrear seja o que for. e que peças .interpretadas para familiares, amigos ou alunos, não contam, porque estes públicos, devido a diferentes motivos, têm tendência a serem demasiado bajuladores para com o compositor na sua presença e inapelavelmente críticos em relação à obra nas costas do autor..

Publicado por José Mário Silva às 08:46 PM | Comentários (0)

NOVO COMBATE

Já está disponível on-line o número de Dezembro do Combate, onde se anuncia uma nova mudança de formato do jornal do PSR. De publicação mensal de intervenção vai passar a revista de reflexão política, publicada três a quatro vezes por ano. Terá mais páginas e mais colaboradores, aprofundando temas em artigos de fundo, mantendo no entanto o estilo irreverente e a qualidade gráfica a que nos habituou. Terá, sobretudo, mais espaço para participações internacionais, uma vez que o Combate se juntou à Rede Europeia de Revistas Marxistas, que junta publicações francesas, italianas, espanholas e inglesas. Passem pelo site e aproveitem para ler o artigo incisivo em que o Tiago Barbosa Ribeiro (itálico do BdE e autor dos murmúrios do silêncio) desmonta os artifícios retóricos da cronista Esther Mucznik. Um texto incisivo e necessário.

Publicado por Manuel Deniz às 07:55 PM | Comentários (1)

HISTÓRIAS DE DIREITOS E AUTORES (2)

O segundo artigo que queria destacar do dossier DVD dos Cahiers é uma carta de André S. Labarthe (crítico e co-fundador, com Janine Bazin, da série "Cinéastes de notre temps", mais tarde "Cinéma, de notre temps") à editora de DVD's Criterion. Chama-se "Criterion et le mépris". Nela conta como recusa a inclusão de um dos seus filmes curtos num DVD do Cercle Rouge de Melville, não por nenhuma questão de princípio mas por estar escaldado por duas experiências anteriores da mesma editora. É que nos DVD's de Bande à part e Le Mépris, ambos de Godard, foram incluídos sem a autorização de Labarthe excertos de filmes seus realizados para a série que fundou com Janine Bazin. A sua indignação é causada pelo facto de a editora considerar a série como um arquivo de material em bruto, passível de ser retalhado e remontado à vontade, em vez de ser constituído por filmes que são obras de pleno direito; outras críticas de Labarthe têm a ver com a amputação de genéricos, "esquecimento" na creditação de J. Bazin, desfiguração pelo acrescento de legendas inglesas em cima das francesas... todo um catálogo. Temos, então, um exemplo de como a legislação do direito de autor poderá (em princípio) permitir a este autor (Labarthe) reagir contra a grande empresa sem escrúpulos.
Pergunta: terá a Criterion, para os DVD's de Godard, agido sem qualquer autorização? A reposta é: não. Tratou "directamente com o INA [Instituto Nacional do Audiovisual] que, como é seu hábito, e em total cumplicidade com a SCAM (Sociedade Civil dos Autores Multimédia), se coibiu de informar os autores em causa". Quer dizer, neste caso, foram os próprios intermediários, que supostamente deviam agir no interesse dos autores, a privilegiarem os seus próprios interesses. Aparentemente, não se trata de uma novidade.

Este exemplo mostra como parece ser importante, por um lado, combater o domínio das grandes empresas de comunicação e dos intermediários (nomeadamente, as sociedades de autores); por outro lado, parece indicar que uma coisa como a integridade de uma obra merece ser defendida. É por isto que a história de Labarthe pode servir de introdução (problemática) a um texto que, precisamente, defende o fim do direito de autor quer na sua dimensão de exploração económica, quer na de direitos morais associados à ideia de integridade da obra. Trata-se de um texto publicado por Joost Smiers no Monde Diplomatique em Setembro de 2001. Tem uma história interessante: foi em cima da hora retirado, por motivos talvez inconfessáveis, da edição francesa em que era suposto sair e apareceu, por engano, na edição portuguesa; esse engano permitiu, por exemplo, que Smiers viesse à Abril em Maio apresentar as suas críticas e propostas. E este é, aliás, um dos aspectos mais interessantes do texto: não se limita a pôr em causa um estado de coisas, avança algumas hipóteses de solução. É, por isso, um texto ambicioso. E um texto radical, porque o que é proposto pressupõe uma real transformação da sociedade em que vivemos.
O artigo, talvez por causa do engano português, acabou por sair na edição francesa. Está aqui o link: chama-se "La propriété intellectuelle, c'est le vol!" Era óptimo que fosse discutido.

Publicado por Francisco Frazão às 05:08 AM | Comentários (3)

dezembro 19, 2003

A PROPÓSITO DOS INSULTOS QUE SE TROCAM NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Vêm de todas as bancadas. Voam para todas as bancadas. São balas perdidas de uma retórica quase sempre vulgar, verrinosa, mesquinha. É verdade que estas acusações gratuitas, estes pontapés e cotoveladas verbais, estas farpas sem chispa e sem génio não matam ninguém. Mas vão moendo. Vão triturando a paciência de quem espera da política outra profundidade e outra elevação. Sobretudo, oferecem razões a quem não tem razão nenhuma: aquelas vozes na rua que reclamam serem os políticos todos iguais, porque todos maus. Ao pé do que se ouve no hemiciclo, quase diariamente, as polémicas bloguísticas mais acesas não passam de birras inócuas entre meninos de coro.

Publicado por José Mário Silva às 10:39 PM | Comentários (0)

NOTAS À MARGEM DE UMA DISCUSSÃO QUE ME PASSA UM POUCO AO LADO

Vocês desculpem a minha perspectiva de outsider quanto aos problemas da criação e da edição literárias. A perspectiva de um gajo que, se não fosse a "pica" que dão os blogues, não se dignaria a escrever mais do que o nome no cheque da renda da casa.
Eu compreendo o problema dos editores. Eles precisam de vender, quer trabalhem por idealismo ou não, precisam de vender.
Pode achar-se uma estupidez a manada comprar a margarida rebelo pinto (uma funcionária honesta que diz logo que escreve para vender; um pouco como o camilo mas sem a mesma qualidade literária . dizemos nós...) e tem mérito porque embrulha suficientemente bem a treta que escreve para que o pessoal o compre mesmo. Não é bem como aqueles produtores musicais portugueses, geniais alarves que criaram o horrendo "estilo festivaleiro" para "ir à europa" e nunca passaram do último lugar (ou quase).
Enfim, disperso-me... O que quero dizer é que do ponto de vista de quem escreve, ressalvando certos textos que requerem um trabalho mais complicado de investigação . estou a lembrar-me deste livro do bernardo carvalho sobre a mongólia, mas mesmo esse... ., o que interessa isso? Que os editores publiquem ou não? Que os leitores comprem ou não?
Será fácil promover um walser? um cioran? um panaït istrati ou um mihail sebastien?
Não sei, mas sei que em vida foram marginalizados e hoje seriam desconhecidos, se não fosse uma rede quase underground de aficcionados, nós provavelmente, que fomos passando a palavra e permitimos que mesmo marginalmente os seus textos continuem a circular. Claro que nunca venderão tanto como um desses escribas que produzem a metro (olha, agora nem me lembro de nenhum mas são famosos todos, casados com loiras descapotáveis.). E isso será motivo de preocupação para alguém?
Para mim não é, fico satisfeito por deitar as manitas ao que vai aparecendo quando aparecer. E se um dia as condições se alterassem por uma flutuação aleatória do gosto da maioria? Por força, isso alteraria substancialmente as condições de funcionamento do "star system"? A fase "loira descapotável" não será inapelavelmente a morte do artista mas... o fim está próximo...
Aquilo que designamos como "lei do mercado" tolera-se desde que consigamos criar um espaço autónomo onde não tenhamos de nos cruzar (intelectualmente) com a margarida, com a rita, com a simone... é defender esse território que interessa.

(Por exemplo na televisão isso é já impossível, é território queimado por "the slime oozin' out / from your TV set ", não conseguimos zapar direito dois segundos sem nos chocarmos com a barragem do pimba total).
Considero que uma coisa é o estado ter a obrigação de promover a educação e a cultura (para além de muitas outras coisas) num sistema caracterizado por enormes desigualdades sociais que tendem a agravar-se, apesar das constatações "científicas" dos "liberais". Outra coisa completamente diferente é pretendermos "homogeneizar" os mecanismos próprios da produção da obra literária, que são a vida e as suas vicissitudes.
As editoras publicam "lixo". Façam-no, sejam livres de fazê-lo. Nada nos impede de fazermos uma edição de autor. Querem escritor mais "maldito" do que o luiz pacheco? Pois passem pela ler devagar e abasteçam-se. Querem vivência radical e marginal como a do sebastião alba? Pois vão lá à fnac. Querem saber mais? Há uma miúda tresloucada que me costuma abordar ali ao principe real e me obriga a comprar-lhe uns livros de poemas que ela tem fotocopiados, e recita-mos enquanto me escreve uma dedicatória no exemplar que me vai vender . o que aumenta imediatamente o seu preço de forma exponencial. Esta miúda é para mim, independentemente do que eu possa achar dos poemas, mais escritora sem dúvida do que a margarida rebelo pinto (até porque eu já li os poemas da miúda e nunca li nada da margarida) e se eu sei que ela é escritora foi porque ela me trouxe o que escreveu.
Pois, mas o jovem escritor (ou menos jovem) não se satisfaz com tocaias a transeuntes no principe real que podem até ser mal interpretadas, ele "quer chegar a todo o lado". Pois. Pá...
É assim. Nesta matéria, tirando os manuais escolares, não me parece que haja possibilidade de sobrevivência para a criatividade e o génio literários que não seja esta competição pela "atenção" entre pessoas que porventura nem se conhecem e que se estão nas tintas até para a atenção dos outros.
Digo isto e passei hoje pela buchholz e a fnac e saí de lá só com três livros e a agarrar-me ao cartão de crédito com os dentes para não arruinar a minha família por mais duas ou três gerações pelo menos.
E depois, em vez de estar a lê-los, estou aqui a maçar-vos.
Pronto, eu sei que isto é um pouco mais, ou mesmo muitissimo mais, complicado no caso de artes como a dança, o cinema, a música, o teatro, a ópera... mas na literatura... e olhem que isto não é qualquer menosprezo, apenas me parece que é uma forma de expressão demasiado livre de entraves materiais para ser dominada por contigências tão. mesquinhas.

Publicado por tchernignobyl às 04:56 PM | Comentários (8)

DESACTUALIZAÇÕES

Hoje de manhã, apercebi-me de que o corrector ortográfico não reconhecia a palavra mais utilizada pela imprensa portuguesa durante o ano de 2003: pedófilo. Primeiro estranhei a ignorância do processador de texto, mas depois compreendi o bug. A minha versão do Word é a que foi instalada com o vetusto Windows-98.

Publicado por José Mário Silva às 04:10 PM | Comentários (0)

QUERIDO BLOGUE DE ESQUERDA

Da Alexandra, autora do excelente seta despedida, recebemos esta correspondência que não resistimos a partilhar com os nossos leitores:

«Estou lisonjeada com tanta atenção!
O Francisco Frazão é um grande fã de Ezra Pound, não é?
Francisco, nem precisa de confessar que quando ele escreveu que "Literature is language charged with meaning to the utmost possible degree" o conquistou para sempre. O apaixonado comentário que teceu à frase de Bernardo Carvalho foi revelador.
Eu também gosto muito de Ezra Pound, principalmente porque nos ajuda a perceber que o texto literário pode ser objecto de inúmeras interpretações, sendo algumas delas acessíveis apenas aos leitores mais atentos.
E o Francisco, como o seu post indica, situa-se indubitavelmente nesta última categoria.
Lamentavelmente, não posso dizer o mesmo sobre mim. Sou muito distraída. Além disso, pertenço à classe dos desfavorecidos que não só não têm carro como também não frequentam o Bairro Alto. A sua interpretação ia escapar-me completamente!
Obrigada, Francisco, por me enriquecer como leitora e, enfim, como ser humano!
E que dizer ao José Mário Silva, que até tem um poema intitulado "Arte Poética" (Nuvens & Labirintos, p. 31) de que gosto tanto, e aproveita o post para mandar uma piada tão subtilmente política, embora, na realidade, não conheça a minha orientação nessa área?
Deixam-me sem palavras!
Cordialmente,
Alexandra»

Gratos pela (exagerada) gentileza, Alexandra. Mas olha que não queremos que as palavras te faltem...

Publicado por José Mário Silva às 03:36 PM | Comentários (1)

dezembro 18, 2003

INSTANTÂNEO URBANO

À esquina da rua, um contentor cheio de lixo . tijolos partidos, papéis, tábuas com pregos ferrugentos. Por mero acaso, atento no nome da empresa, escrito de lado. Gulotões do Entulho. Leram bem: Gulotões. Olho melhor para dentro do contentor. Entre os restos de uma qualquer obra de construção civil, esmigalhada, a língua portuguesa.

Publicado por José Mário Silva às 11:34 PM | Comentários (3)

CUMPRIMENTOS DA PRAXE

O BdE vem por este meio desejar à ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, um Feliz Natal e um próspero Ano Novo. Sobretudo um próspero Ano Novo.

PS: Será que o velho das barbas sempre lhe vai deixar o défice de 2,94% no sapatinho?

Publicado por José Mário Silva às 11:25 PM | Comentários (1)

O REGRESSO DO "ESPIGAS"

Após a morte súbita do seu blogue (um dos clássicos da blogosfera nacional), o Nuno Centeio não ficou parado. Felizmente. Agora passou a fazer parte da equipa do site C7nema.net, onde já escrevia regularmente críticas a filmes estreados ou por estrear. «A grande diferença é que agora passarei a escrever apenas uma coluna de opinião semanal (sempre com os olhos no cinema), à qual se juntarão outros colaboradores e mais secções. Podem confirmar este "renascimento" aqui
Nós confirmámos. E vimos o semi-retrato do Nuno (num ambiente Matrix). E a escrita informadíssima e escorreita a que já nos tinha habituado. Deste lado da internet, enviamos-lhe um grande abraço e desejamos-lhe toda a sorte do mundo nesta nova aventura.

Publicado por José Mário Silva às 11:17 PM | Comentários (0)

SERÁ PRECISO SER ZAROLHO MENTAL?

No Público de hoje, JPP escreve um artigo em que condena todos os «muitos articulistas, bloguistas, comentaristas» que, no seu entender, escrevem sobre o Iraque mais «motivados pela agenda do antiamericanismo, ou antibushismo, do que pela vontade de que venha a existir um regime mais moderado, pluralista e democrático no Iraque».
Ferreteando assim esses desalmados, JPP acrescenta: «Percebe-se isso, com toda a clareza, quando, num texto ou numa frase, ditas as proclamações rituais contra o ditador sanguinário, se passa de imediato para tirar conclusões que ou contenham uma nova linha de ataque contra os EUA, ou uma nova versão menorizadora do que aconteceu ».
Ora bem, Salmoura, que se congratulou com a captura de Saddam e escreveu, aqui, a 14 de Dezembro, que não poderia haver melhor epílogo para toda a história que tem a ver com a invasão e ocupação do Iraque, por americanos e ingleses, do que o reencontro da criatura (Saddam) com o seu criador (Estados Unidos), pede encarecidamente licença a JPP para abrir «uma nova linha de ataque contra os EUA» lembrando a JPP que no "cadastro" de Saddam há uns crimezinhos cometidos no passado contra o Irão, crimezinhos esses que Saddam deverá confessar em tribunal, lembrando ao mundo que só foram possíveis porque na guerra contra o Irão fora fortemente armado pelo seu amigo americano de então, que inclusive lhe fornecera informações obtidas por satélite sobre as tropas iranianas e lhe facultara "know how" necessário para o fabrico de armas químicas que o Iraque usou nessa guerra, então justa, e mais tarde contra os curdos.
Havendo memória das coisas, como é possível satisfazer o desejo de JPP, ficando-nos todos apenas pela condenação de Saddam e a fazer salamaleques aos americanos?
Será que para abordar a questão da invasão e ocupação do Iraque, por americanos e ingleses, teremos que usar agora apenas metade dos nossos neurónios como quisera Pires de Lima ter feito a JPP, quando este emitiu umas opiniões que não agradaram ao CDS? Será preciso ou obrigatório ser-se zarolho mental nesta questão da ocupação do Iraque?
(ASM, Salmoura)

Publicado por José Mário Silva às 08:52 PM | Comentários (2)

CORAÇÃO TÃO BRANCO (E VERDE)

O lendário defesa direito do F. C. Porto, João Pinto, oráculo da mais lapalaciana sabedoria futebolística, disse um dia que o seu coração só tinha uma cor: o azul e o branco. Eu sou como ele. O meu coração só tem uma cor: verde e branca. Com uma diferença importante em relação à maioria dos adeptos de futebol. É que o verde e o branco tanto podem estar na horizontal como na vertical. Simplificando a coisa, sou futebolisticamente bígamo. Não tenho um, mas dois clubes. O Vitória de Setúbal e o Sporting Clube de Portugal. Por razões mais afectivas do que ideológicas, sou do Vitória e do Sporting e não do Sporting e do Vitória. Entre os dois, prefiro sempre os rapazes de Setúbal (também porque são mais pequenos, mais fracos, etc), a não ser que o Sporting esteja à beira de ser campeão e o Vitória confortavelmente a meio da tabela.
Por tudo isto, ontem, estava à partida destroçado porque sabia que uma das minhas equipas ia ficar pelo caminho na Taça. Por tudo isto, fiquei ao mesmo tempo eufórico com a grande vitória do meu primeiro clube e triste com a derrota do meu segundo clube. Por tudo isto, não fiquei com a sensação de que o Sporting foi humilhado. É que não foi. Perdeu simplesmente com uma equipa muito equilibrada, que sabe jogar à bola como poucas em Portugal e que não merecia passar um ano de castigo na II Liga.
Agora, só espero ver o Jorginho a levantar o caneco no Jamor, lá para o fim da época, depois de ter eliminado o FCP ou o Benfica (melhor ainda: os dois). E nesse dia a minha metade sportinguista ficará um pouco menos infeliz, porque saberá que foi eliminada pela melhor equipa do torneio.

Publicado por José Mário Silva às 06:06 PM | Comentários (17)

IMAGENS QUE PENSAM

Daqui a nada (18h30), no Grande Auditório da Culturgest, prossegue o ciclo «Cinema e Pensamento», com dois filmes que me parecem imperdíveis: «Wittgenstein Tractatus», de Péter Forgács (sete breves ensaios sobre a opus magnum do sr. Ludwig) e «Chronique d'un Été», de Jean Rouch e Edgar Morin, «sobre a felicidade». Vemo-nos por lá.

Publicado por José Mário Silva às 05:52 PM | Comentários (0)

UM POEMA INÉDITO DE JOSÉ MIGUEL SILVA

Depois das polémicas, a bonança. Sublinhando em tom irónico que estamos a uma semana do Natal, «época tradicionalmente associada ao decoro, ao amor, à paz na guerra e à boa vontade», o José Miguel Silva enviou-nos um poema inédito. Um poema que publicamos, escusado será dizer, com muito gosto e uma pontinha de orgulho.


FEIOS, PORCOS E MAUS . ETTORE SCOLA (1976)

Compram aos catorze a primeira gravata
com as cores do partido que melhor lhes fica.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
das juventudes, seguem a caravana das bases,
aclamam ou apupam segundo o mandato
das chefias, empreendem o périplo das associações
de estudantes. Sempre voluntariosos, a postos,
sempre, para os trabalhos de limpeza após
o combate. São os longos anos de formação.
Aí aprendem a compor as maneiras, a interpretar
sinais, a meteorologia dos ventos, aprendem a mentir
honestamente, a ler memorandos, consultar dossiês,
a espumar de sorriso nos dentes, a escolher
whisky, o sim e o não mais oportunos. Aos vinte
já conhecem pelo faro o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos de Direito
ou de Economia. Começam, depois disso, a fazer
valer o cartão de sócio: estão à vista os primeiros cargos,
há trabalho de sapa pela frente, é preciso minar,
desminar, intrigar, reunir. Só os piores conseguem
ultrapassar essa etapa. Há então quem vá pelos municípios,
quem prefira os organismos públicos . tudo depende
do golpe de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é mais do que tempo de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar elegível,
pondo sempre a gravata à frente de tudo. A partir
do parlamento tudo pode acontecer: director
de empresa municipal, coordenador, assessor de
ministro, ministro, ministro plenipotenciário na unesco,
gestor público, director geral, comissário europeu,
presidente da TAP, da PT, da PQP, embaixador
nas Seychelles e, por fim, jubileu e corolário de uma bela
carreira, o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.

Publicado por José Mário Silva às 04:49 PM | Comentários (3)

ANTROPOLOGIA PSICOTRÓPICA

De leitura compulsiva, possivelmente por contaminação provocada pelos temas a que se refere, o livro recente do antropólogo Luís Almeida Vasconcelos: «Heroína - Lisboa como território psicotrópico nos anos noventa», da Imprensa das Ciências Sociais.
Eu coloco a seguinte hipótese: não será possível ver, nesta análise dos comportamentos e trajectos de uma série de toxicodependentes através da cidade, uma espécie de transposição para um acelerador de partículas do ciclo infernal "trabalho-consumo" do cidadão comum?

Publicado por tchernignobyl às 10:26 AM | Comentários (1)

LUGAR LUGARES

O Seta Despedida cita esta bonita frase de Bernardo Carvalho (Mongólia): "Estava obcecado por um lugar, mas não sabia onde ficava." Não sei porquê, lembra-me alguém a tentar estacionar no Bairro Alto.

Publicado por Francisco Frazão às 04:52 AM | Comentários (6)

dezembro 17, 2003

VERSOS QUE NOS SALVAM

Soube-se hoje que o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava foi atribuído a «Lições de Trevas», de Fernando Guimarães, editado pela Quasi. Conhecendo a obra e o autor, homem gentil e verdadeiro amante das palavras, digo apenas que me parece inteiramente justa a escolha feita pelo júri (Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Manuel Gusmão). Apreciem, por exemplo, este soneto do livro premiado:


LUZ

A noite é que retira lentamente
de algum lugar a sombra para a termos
à nossa volta como se nos desse
um abrigo indeciso e tão sereno

que nele vemos qual era o contorno
do que pode existir e se resume
a uma evidência pura que há num rosto
ao repararmos nele. É o que nos une

a esta imagem secreta, porque vinha
na mesma direcção, como se fosse
tudo o que se recebe nesta súbita

distância a percorrer enquanto ao longe
se vê que é como a sombra a nossa vida,
agora iluminada pela morte.

Publicado por José Mário Silva às 11:33 PM | Comentários (0)

O MARADONA (COM M MINÚSCULO)

Conheci-o, at last. Ao fim da tarde, no metro, aproximou-se e tocou-me no braço: «Olá, sou o maradona». Apeteceu-me gritar-lhe um palavrão dos dele: «Só agora, ó meu c.....». Mas depois olhei-o de alto a baixo e confirmei o que suspeitava. Além de ser um moço bem apessoado, é de uma simpatia que parece antecipar-se aos próprios gestos e palavras. Na área dos comentários, tanto no velho BdE como neste acabadinho de estrear, o maradona partiu sempre a loiça e raramente concordou comigo. Ainda assim, no meio daquela fúria toda, sempre me pareceu que embora se apresentasse como um lutador de boxe hiper-activo, a esmurrar de todos os ângulos possíveis, as suas luvas eram de seda. O rapaz até pode ser bruto, às vezes violento, mas não quer magoar. E não magoa.
Falámos três minutos, nem tanto, que o comboio já lá vinha. E depois seguimos direcções diferentes, como na política.

Publicado por José Mário Silva às 10:54 PM | Comentários (7)

PRÉMIO TATUAGEM FARFALHUDA

Está de regresso ao BdE o prémio que distingue os maiores excessos retóricos publicados na imprensa portuguesa. E na primeira semana ele é atribuído, por unanimidade e com uma salva de palmas, ao seu preclaro mentor, o inconfundível cronista-político-mais-laranja-do-que-as-laranjas-da-baía Vasco Graça Moura. Ora saboreiem este delicioso "naco de prosa" anti-esquerdista:

«A Espanha e a França não vão a lado nenhum porque não têm governos de esquerda. Não sabem que tudo está na criação da expectativa, que é o remake da promessa, que é a contribuição original da esquerda para as sociedades modernas. A promessa não precisa de consistência. Só precisa de uns palmípedes amorfos que engulam a patranha. Basta-lhe existir e da sua existência desmultiplicada resulta a felicidade colectiva.»

«Foi assim que o PS governou o País com o excelente resultado que se viu. Quando o Programa Operacional da Cultura foi anunciado com charangas triunfais, poucos dias depois o ministro responsável demitia-se como um foguete murcho a apagar-se no nevoeiro. Havia expectativas para a pasta, mas não havia pasta para as expectativas. No mais, tudo corria pelo melhor, salvo esse insignificante grão de areia na engrenagem».

Caso não tenham compreendido, VGM vitupera a política cultural do governo anterior, por não cumprir as expectativas que criou. E é forçoso dar-lhe razão porque nesse aspecto, de facto, o inexistente ministro Roseta foi mais honesto: como já sabia que o seu destino era gerir o vazio, não criou expectativas algumas. Ninguém se sente verdadeiramente defraudado, porque ninguém chegou a esperar nada, no plano cultural, deste governo.

Publicado por José Mário Silva às 10:42 PM | Comentários (0)

RITTO

O Senhor Embaixador Jorge Ritto, cujo curriculum é tão vasto e brilhante que chegou à China, foi libertado.
Eu já disse aqui que a pedofilia é o mais importante problema com que o país se confronta.
Confirma-se.
A justiça funcionará, mas o cidadão comum tem razões mais do que suficientes para estar alarmado.
Por mim, não estou surpreso, mas muito desolado. E com muita pena de todos aqueles que acreditaram que desta vez é que era.
Não é. E não vai ser.
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 10:40 PM | Comentários (2)

QUEM SAI AOS SEUS...

Bom, para acabar com a China... uma notícia em grande.
É sabido que o grande arquitecto Albert Speer tinha um projecto de um eixo central com a extensão de cinco quilómetros para a Berlim do III Reich, uma surpresa para o amado führer.
Insensíveis, os comunas e os aliados inviabilizaram esse belo plano em 1945.
Pois numa manifestação de persistência intergeracional do gene responsável pelo .eixo central., um tal Albert Speer júnior, arquitecto de sucesso, prepara actualmente para a câmara de Pequim (comunista) um eixo central de 24 (vinte e quatro) quilómetros, entre o Estádio Olímpico e a nova e faraónica Estação Ferroviária.
(Volta Ceaucescu estás perdoado).

Publicado por tchernignobyl às 08:41 PM | Comentários (3)

ENXURRADA

Segundo a Newsweek de final de Maio deste ano, se se mantiver a tendência actual do crescimento do turismo na China (não, não é esse, é o turismo dos chineses no estrangeiro) apenas atenuada pelo recente surto de pneumonia atípica, espera-se que no ano 2020 viagem para o estrangeiro 100 alegres milhões de sorridentes turistas chineses.
Olha que chatice se por uma razão qualquer (como visitar a terra de um avô longínquo, ex-compincha do fernão mendes pinto), Portugal vem a merecer a atenção de um por cento desta rapaziada?
Que tal começar já a avisar os serviços de estrangeiros e fronteiras para encomendar o muro, ó preocupados com a falta de espaço vital?

Publicado por tchernignobyl às 08:31 PM | Comentários (3)

HISTÓRIAS DE DIREITOS E AUTORES (1)

Os últimos Cahiers du Cinéma (nº 585, Dezembro 2003) trazem um dossier especial sobre o DVD. Houve dois artigos que me chamaram a atenção porque têm a ver com a discussão sobre os direitos de autor que se começou a fazer aqui . e que me parece importante continuar, quer pela sua complexidade, quer porque põe em causa uma série de "dados (ou direitos?) adquiridos" aceites tanto à direita como à esquerda.
O primeiro artigo é de Tag Gallagher, chama-se "Enfin la caméra-stylo du critique" e diz a certa altura o seguinte:
Se eu utilizar palavras, é considerado como "uso legítimo" (fair use) citar até 299 palavras sem procurar obter (ou pagar) a permissão. Mas não está estabelecido claramente se o "uso legítimo" permite ou não a reprodução de um fotograma de filme (um filme de duas horas contém 172 800 fotogramas).
Automaticamente, as sociedades que detêm os direitos dizem não. Durante toda a história do cinema, toda a história das licenças e do copyright, em toda e qualquer indústria, a prática corrente foi sempre a de invocar todas as zonas de sombra possíveis. [...]

A maior parte dos editores não tem em conta os detentores de direitos e reproduz fotos de cena ou fotogramas sem pagar. Mas nem todos. [...] A Harvard University Press pagou cerca de 5000 dólares à Paramount para reproduzir cem fotogramas em formato 5x7 num caso. A University of California Press não pagou nada a ninguém para reproduzir algumas centenas de fotogramas noutro caso. Muitos dos livros produzidos pelas editoras universitárias só vendem algumas centenas de exemplares, e é impossível utilizar ampliações de fotogramas sem dispor de apoios importantes se forem impostos os direitos de 5000 dólares. Por isso, a maior parte das publicações que contêm ampliações não pagou direitos.
Os arquivos agravaram a situação. Nos termos dos acordos que lhes confiam a guarda de importantes colecções de documentos, argumentos, fotos, servem de cobradores aos detentores de direitos. [...]
O que é preciso perceber é que tais pretensões e violações existem há décadas, e não tenho conhecimento de que quem quer que seja tenha sido perseguido judicialmente. Porquê? Porque os detentores de direitos poderiam perder. O "uso legítimo" poderia ser aplicado à crítica de cinema, e os detentores de direitos perderiam os rendimentos que obtêm actualmente. A legislação sobre o copyright é complexa. Não é, por exemplo, suficiente demonstrar porque é que um crítico sério não pode reproduzir um fotograma. Um detentor de direitos poderia ter de demonstrar que esta reprodução lhe desvaloriza a propriedade. Por outro lado, os críticos que utilizam ampliações de fotogramas tentam normalmente chamar a atenção para filmes de cuja existência toda a gente se esqueceu. Os advogados e quadros parecem não saber onde reside o seu próprio interesse. Mais de um empregado subalterno me disse: "Faça isso. Mas sobretudo não peça!"

Publicado por Francisco Frazão às 07:45 PM | Comentários (7)

SHOCK AND AWE

Segundo testemunhos vários, Pequim é uma cidade em estado de sítio que faria as delícias de muitos presidentes de câmara portugueses.
Bairros inteiros são arrasados para dar lugar a um gigantesco estaleiro, qual atoleiro onde medra como uma colónia de insectos um pesadelo de arranha-céus disformes, improvável mesmo para o visionário criador de .blade runner., alimentando-se do delírio mais húmido dos fornecedores de aço e cimento, vendedores de caixilharias de alumínios e fachadas em vidro (e provavelmente também os vendedores de aparelhos de ar condicionado).
Rem Koolhaas, um dos arquitectos ocidentais mais em voga, fala do que se passa neste momento em Pequim, sob o efeito do .shock and awe. que lhe provoca a explosão da supernova urbanística.
Segundo ele, a percepção que no ocidente se tem de .construir. nada tem a ver com o fenómeno que se verifica na China neste momento: ateliers de arquitectura produzem edifícios de 40 andares numa semana, disse ele numa palestra aos estudantes da universidade de Berkeley, relatada num artigo da Wired.
Em Pequim, disse ele à Prospect, o que está em causa é menos um gigantesco projecto de urbanismo do que .fazer-se história..
Arquitectos portugueses, querem construir em GRANDE?
Emigrai!
Por favor...

Publicado por tchernignobyl às 03:35 PM | Comentários (3)

12 SEGUNDOS

Há 100 anos, um amontoado relativamente tosco de madeira e tecido, construído pelos engenhosos irmãos Wright, levantou-se no ar sobre as dunas de Kitty Hawk (Carolina do Norte) e voou. V-O-O-U (sempre achei que se pode ouvir um bater de asas nesta palavra quase onomatopeia).
Foram 12 segundos. Apenas 12 segundos. Mas uma parte significativa do séc. XX começou naquela manhã.

Publicado por José Mário Silva às 03:30 PM | Comentários (16)

AINDA A EMERGÊNCIA E A AUTO-ORGANIZAÇÃO

Um bom exemplo de auto-organização e emergência relacionadas com as sociedades humanas, vi-o referenciado pela primeira vez no livro .Ubiquity. de Michael Chapman.
Na página 157 refere-se um estudo de Damian Zanette e Susanna Manrubia, do Fritz Haber Institute, feito em 1999, que concluiu que num determinado espaço geográfico, por cada cidade com determinado numero de habitantes, existem quatro com metade desse valor.
Se, por exemplo, uma cidade tiver um milhão de habitantes, no mesmo espaço geográfico deverão existir quatro cidades de quinhentos mil habitantes e dezasseis de duzentos e cinquenta mil habitantes.
Este estudo inclui a contabilização de localidades até ao mínimo de 10 mil habitantes e, segundo os autores, essa distribuição espacial é independente de factores sociais, políticos ou demográficos.
Por um motivo qualquer que terá a ver com os rios profundos e ainda inexplorados ou sequer suspeitados do comportamento colectivo da espécie humana, independentemente da situação política, das condições económicas e até das teorias do urbanismo, das necessidades individuais e decisões mais ou menos autónomas e conscientes que levam uma pessoa a optar fixar-se num determinado lugar, emerge um padrão fixo na distribuição das pessoas pelo território.
É este para mim o significado de .emergência. ou .auto-organização..
Atingir-se determinado estado de .organização. de uma forma .inconsciente.. Por isso é bom o exemplo das formigas. As formigas .constroem. o formigueiro independentemente das condições particulares da vida de cada formiga e sem recurso a qualquer estruturação hierárquica, sem debates sobre .a centralização. ou a .descentralização., a necessidade de uma .elite. ou as vantagens da ausência de um estado. O formigueiro pura e simplesmente acontece.

Uma coisa é tentar penetrar-se nos segredos das ciências da complexidade e procurar domínios de aplicação, outra coisa é pretender-se extrair do pouco que se sabe validações .científicas. quer do liberalismo, do neo liberalismo, do anarco-capitalismo ou da economia planificada.
À escala das interacções humanas o que significa .intervir. mais ou menos no mercado?
Se num determinado país, como Portugal, o sistema de transportes públicos da capital é .público., não é .intervir. decisivamente na economia pôr numa decisão consciente de um grupo restrito de cidadãos a privatização desses serviços? (repare-se que nesta discussão nem está sequer em causa o fundamento político, ideológico ou o que seja que essas pessoas encontrem para tomar essa decisão). Quantos "graus de liberdade" se... libertam com esse acto? É isso contabilizável ou é uma questão de fé?

Publicado por tchernignobyl às 10:12 AM | Comentários (4)

dezembro 16, 2003

TRÊS FACTOS CONCRETOS E UMA CONCLUSÃO

1) Hoje recomeçou, em Aveiro, o julgamento de 17 pessoas acusadas de "prática" ou "cumplicidade" no crime de aborto.

2) Em 2002, mais de 11.000 mulheres foram internadas devido a complicações após interrupções da gravidez feitas sem o devido acompanhamento médico. Cinco dessas mulheres morreram.

3) Nunca ninguém será condenado pela morte, perfeitamente evitável, das cinco mulheres . talvez porque o direito à vida, sobretudo para as associações que o defendem de forma intransigente, afinal é relativo.

Se esta realidade portuguesa me incomoda? Não, é muito pior do que isso. Envergonha-me. Ultraja-me. Dá-me asco.

Publicado por José Mário Silva às 10:12 PM | Comentários (6)

REACÇÃO ÀS REACÇÕES

A captura de Saddam gerou nos blogues de direita uma reacção contra os blogues de esquerda que me lembrou um post antigo do País Relativo. A MVS, pegando num post do Ivan, dizia:
O jogo do Sporting de ontem foi como nos piores dias da infância. A única diferença é que hoje, felizmente, não tenho de ir para a escola e estar uma manhã inteira numa sala cheia de benfiquistas risonhos.
Temos então a blogosfera feita sala de aula da primária e os bloggers pró-Bush transformados em "benfiquistas risonhos", trocando entre as suas carteiras papelinhos engraçados, enquanto respiram secretamente de alívio e acreditam que é desta que ganham o campeonato. A facilidade despreocupada de tudo isto é ligeiramente desconfortável. Mas a sabedoria oriental do Bartoon de hoje diz-me que, mesmo se they got him, they didn't get it.

Publicado por Francisco Frazão às 07:08 PM | Comentários (10)

MISSÃO E DESTINO

Um bom exemplo de como nos encontramos numa época de muitas questões e de poucas certezas, temo-lo no que se passa actualmente na China.
Um monstro que ainda não existia em nenhuma teoria económica, composto por um regime de partido único (por sinal, o comunista) permitindo reduzidas liberdades cívicas, e uma economia onde impera o liberalismo mais .livre., prepara-se para alterar a relação de forças entre as várias economias do planeta.
Segundo um estudo da Goldman Sachs, divulgado pelo Expresso de 25 de Outubro, a China será a maior economia mundial em 2050, tendo ultrapassado o PIB (não, não é .el pibe. outra vez) dos USA desde 2040 e da Alemanha em 2007.
Mais, em 2040, o bloco formado pelas quatro grandes economias .emergentes., também conhecido como o BRIC (Brasil, Russia, Índia, China) representará 50% do PIB das dez maiores economias do mundo (quer dizer metade do somatório das dez maiores economias do mundo, em 2040; e 60%, em 2060) .
Estas previsões são falíveis, claro.
Não sabemos como reagirá aquela que é actualmente a potência dominante do globo. Não sabemos até que ponto a situação política mundial evoluirá para o .império., no sentido de entidade controladora a nível mundial, de localização geográfica distribuída, tal como definido pelo Toni Negri. Ou se as particularidades nacionais vão afirmar-se e afrontar-se.
Que resultará da enorme desproporção entre o poderio económico da América . que pode estar numa fase decadente . em contraponto com o seu avassalador domínio no campo militar?
Talvez seja essa, afinal, a futura .especialização. destinada aos Estados Unidos na .divisão internacional do trabalho.. Serem .A. Potência Militarista. E não se pense que eu estou a dizer isto com optimismo.

Publicado por tchernignobyl às 03:58 PM | Comentários (5)

FALTAM QUANTOS DIAS?

E se o tempo, em vez de andar às voltas nos nossos relógios, fosse uma coisa linear? Seria mais ou menos assim.

Publicado por José Mário Silva às 03:46 PM | Comentários (0)

FALTAM 9 DIAS

Na esquina do costume, a variedade dos bonecos aumentou. Agora, para além de tocar guitarra e outros instrumentos improváveis, o Pai Natal também cavalga uma rena, saracoteia-se em cima de uma gôndola e joga ao diabolo. Ninguém me contou, amigos, eu vi. E temo o pior. À medida que nos aproximamos da data fatídica, a loucura de plástico (made in Taiwan) tende a agudizar-se.

Publicado por José Mário Silva às 03:41 PM | Comentários (0)

O DEUS-MERCADO E A EDIÇÃO

Quem vê no Mercado um Deus capaz de resolver todos os problemas da Terra e arredores, olha para o mercado editorial português e pensa coisas como "OK, toda aquela gente a publicar, e tantos deles tão maus, significa que só não publica quem é mesmo muito, muito mau" ou então, depois de pensar um bocadinho, que "OK, se calhar alguns dos que não publicam mereceriam publicar. Mas são apenas mais do mesmo".
Que a primeira frase está errada prova-se facilmente numa viagem pela blogosfera portuguesa. Nem é preciso ir ler detalhadamente os textos dos 2 mil (ou coisa que o valha) blogues portugueses; basta atentar na quantidade de vezes que um ou outro dos blogueiros mais mediaticamente ligados aos livros se manifestou entre o surpreendido e o estupefacto pela quantidade de perfeitos desconhecidos que publicam nos blogues textos bem melhores do que muita da porcaria que sai todos os anos em livro.
A segunda frase tem mais que se lhe diga. Mas inclui a ideia de que os bons que não publicam são só mais do mesmo, e esta ideia merece um comentário. Ou dois: um breve e outro mais longo.

O breve: nada mais errado.
O mais longo: a verdade é que o mercado tem horror às verdadeiras novidades. Consome tranquilamente doses maciças de histórias telenoveleiras à Margarida Rebelo Pinto, doses cavalares de Tolkien e imitadores (o Filipe Faria, dono de uma prosa que, pelo menos no primeiro, era pouco mais que indigente, já publicou três romances), doses mastodônticas de Harry Potter, mas torce o nariz assim que lhe aparece nas mãos uma coisa realmente diferente. O mercado tem tanto horror à novidade que o mais difícil na vida de um escritor é publicar pela primeira vez (especialmente se pretender um mínimo de visibilidade) pela simples razão de que um nome desconhecido é uma incógnita. Só ganhando um prémio literário é que um novo nome se consegue impôr, obtendo a visibilidade necessária para dar origem ao investimento da sua editora em marketing e para ser falado na crítica. É bem mais difícil, para não dizer impossível, para um desconhecido publicar um romance excelente do que para um conhecido, mesmo que medianamente, publicar uma terceira ou quarta obra medíocre e/ou mais do mesmo.
E isto é assim não porque as editoras portuguesas sejam incompetentes, que nem todas o serão, mas porque sabem que o Deus-Mercado está nas mãos do
consumidor, que é fundamentalmente conservador nas suas compras. É que, para o consumidor, comprar desconhecidos é um risco: não só não sabe se são bons, como não sabe se, mesmo que o sejam, ele irá gostar. Todos os leitores, por uma questão de gosto pessoal, rejeitam muita literatura de boa qualidade (ainda que muitos não se apercebam disso, e julguem o seu gosto como critério absoluto de qualidade). O consumidor talvez não fosse conservador se o dinheiro abundasse e pudesse desperdiçá-lo em riscos mal sucedidos. Mas o dinheiro não abunda, e os livros estão caros, logo o consumidor vira-se para aquilo que já conhece: mais do mesmo. E isto, esta preponderância absoluta do Nome, é o que vai afundando o mercado livreiro no mesmo tipo de lógica que gerou o lixo que é a nossa televisão actual. Por um lado, se sempre que um qualquer Deco manda escrever um livreco desinteressante que vende milhares de exemplares, as editoras investem em todos os Decos que lhes apareçam na frente, consequentemente desinvestindo nos outros; por outro lado, essa forma de editar sem correr riscos implica que não há renovação, e sem renovação não há futuro.
Eis a consequência de seguir a lógica do mercado: a ausência de futuro.
(Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 03:32 PM | Comentários (3)

EM CIMA DAS TORRES

Soube hoje que está previsto para o dia 18 de Dezembro (quinta-feira), às 21h00, um debate organizado pela Junta de Freguesia de Alcântara sobre "as torres" e para o qual foram convidadas várias "entidades".
O debate terá lugar no edifício da Junta de Freguesia de Alcântara, perto do Calvário, entre os pilares da ponte 25 de Abril, na Rua dos Lusíadas.
Entretanto, a Junta de Freguesia colocou uns cartazes a anunciar o "evento", ilustrados com uma montagem fotográfica bastante elucidativa que infelizmente ainda não está disponibilizada na internet.

Publicado por tchernignobyl às 12:02 PM | Comentários (12)

À PALA DA PONTE

O assunto das Torres de Siza não está esgotado aqui no blogue.
Esta é uma questão que tem a ver não só com o .gosto. e aquilo a que de forma mais estreita designamos como a .arquitectura.. Neste caso, as implicações .urbanas. são óbvias e com elas todo um conjunto de questões que têm a ver com a política, a ética e a estética. Por esses motivos gostaria de manter aqui aceso este debate.
Para ajudar à discussão, estou a tratar de fazer uma prévisualização do impacto das torres na zona envolvente, se possível até ao fim deste ano para que se possa discutir o assunto com imagens à frente. Volto a pedir a colaboração de quem tenha dados mais concretos sobre o projecto, em especial a implantação dos novos edifícios.
Entretanto, numa entrevista ao Expresso, o siza disse que a ponte «é uma estrutura potentíssima que aguenta perfeitamente as novas edificações. Estabelece uma escala naquele terreno que é compatível com a colocação das torres».
À partida compreendo e aceito esta opinião, aliás coincidente com a minha opinião no local, com a ressalva que eu fiz de essa .escala. ser observável para quem se encontra na Avenida da Índia, na zona das docas, e não tem desse local qualquer perspectiva da cidade para lá das torres.
Para além das ressalvas e das críticas que poderíamos fazer relativamente ao impacto das edificações previstas, esta argumentação seria justificável se estivéssemos a falar num mundo .razoável., e já se percebeu que para o presidente da Câmara o razoável é o possível.
As torres agora avançariam à pala da ponte.
No futuro outras torres avançarão à pala destas torres.

Que garantias há que os proprietários dos terrenos ao longo da 24 de Julho e da Avenida da Índia não quererão também .rentabilizar. os seus terrenos? E com que direito serão impedidos? Pelo PDM... responder-se-á. Mas se criaram "zonas de oportunidade" nuns sítios porque não há zonas de "oportunidade" para todos?
Este pode ser o primeiro passo e é isto que o lopes no seu discurso abrilhantinarizado .sonha. para lisboa.
Uma linha de arranha-céus ao longo do rio, até Pedrouços, a tapar as favelas por detrás, um pouco à semelhança do Rio de Janeiro.

Publicado por tchernignobyl às 12:20 AM | Comentários (3)

dezembro 15, 2003

O CHAMPANHE E O "MAS"

Era previsível. Ao defendermos as opiniões que defendemos ontem, caímos no mais típico dos impasses: o que nasce do maniqueísmo e da intransigência que são o pão nosso de cada dia na blogosfera (et ailleurs), tanto à esquerda como à direita. Se os gregos não nos perdoam a euforia perante um facto que dá força aos apoiantes da guerra; os troianos também se enxofram com as reservas que colocámos à indignidade do anúncio e à arrogância do vencedor. Uns queixam-se porque o Manel abriu, metaforicamente, uma garrafa de champanhe; outros atiram-nos à cara com a cansativa retórica do «mas...». Estão todos no seu direito, tal como nós estamos no nosso. Sim, vibrámos com a captura de um ditador sanguinário. E não, não pactuamos com os discursos demagógicos da Administração a que pertence Donald Rumsfeld (que alimentou o monstro quando lhe convinha). Sim, bebemos à saúde do povo iraquiano, por se ter livrado de uma sombra que lhe tolhia o futuro próximo. E não, não achamos que a história acabou e que Bagdad vai viver em paz, cheia de valores ocidentais e MacDonald's. Sabemos que é tudo bastante mais complicado e subtil do que os primeiros retratos podem dar a entender. Mas ontem dissemos o que achámos que era preciso ser dito. E não nos arrependemos.
O dia da captura de Saddam foi sobretudo simbólico, embora o seu simbolismo seja ambíguo e careça de uma análise mais funda. Seja como for, a verdade é esta: assistimos à queda definitiva de um tirano, de um homem que oprimiu o seu povo durante décadas. Se a esquerda não comemorar efusivamente um facto destes, não é digna de se chamar esquerda.

Publicado por José Mário Silva às 11:23 PM | Comentários (10)

AINDA SADDAM

Quando ontem se soube que Saddam Hussein tinha sido apanhado, logo pensei em Luís Delgado e na irresistível e sofredora tentação de o ler. Pelo caminho tive o meu calvário: intermináveis "horas" que a TVI ofereceu ao "rapazola", no dizer de Alfredo Barroso no Expresso de sábado.
Mas hoje senti-me recompensado: Luís Delgado voltou, ditosa Pátria que tal filho tem. Que diz?
«O mundo vive, desde ontem, uma mistura de alívio.»; «Saddam foi capturado vivo e. sem mácula do uso excessivo de força.»; um sinal de recomeço para os iraquianos após 35 anos; «a explosão de alegria em Bagdad.»; os iraquianos podem tomar em mãos o seu próprio destino; vitória incomensurável dos países que apoiaram a guerra, com destaque especial para. Portugal; que acreditaram que o bem venceria contra o mal; milhares de inocentes terão a paz dos que lutaram por uma causa justa.
Dando uma corrida, em pinceladas rápidas, pela coluna de Luís Delgado, fica-se perplexo. Que pensar disto?
Como qualificar esta alma que não viu uso excessivo de força na exposição grotesca de um pobre diabo, barbudo e provavelmente aterrado, depois de uma operação que envolveu 600 . seiscentos . lindos e gordos soldados americanos, seiscentos; que viu uma explosão de alegria em Bagdad, mas não viu nem ouviu a histórica e monumental vaia a Durão Barroso no Estádio da Luz; que adivinha os iraquianos a tomar conta do seu destino, apascentados por centenas de milhares de militares invasores; que vê Portugal glorificado na vitória de uma fotografia para mostrar aos netos, tirada algures na ilha Terceira (sempre é a primeira vitória depois de esmagar o Gungunhana!); que viu o infiel tombar aos pés do gládio do cristianíssimo Bush.
Os americanos permitem que milhares de inocentes mortos descansem em paz. São os filhos, ou netos dos mesmos americanos que pilharam o Chile e mataram, ou permitiram que se matassem milhares de chilenos. Estes, seguramente, não esperam pela Pax Americana; os mesmos americanos que há anos perseguem celeradamente o povo cubano. Ainda os mesmos que se encolhem prudentemente no Sudoeste Asiático.
Para remate, resta recordar a Luís Delgado que tudo, ou quase tudo, o que Luís Delgado atribui a Saddam foi permitido, facilitado, estimulado pelos americanos. Quando lhes deu jeito.
Ponto final. É demagógico e politicamente incorrecto. Pois é. Só é uma chatice ser verdade.
Entretanto, valha-nos que na «quarta reacção à captura de Saddam» o champanhe já perdeu o gás e se escreve com lucidez que «Seria um erro crasso esquecer, hoje, um facto simples: a justiça que finalmente se abate sobre Saddam não torna mais justa uma guerra injusta».
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 10:56 PM | Comentários (3)

REPEAT

O que tinha a dizer sobre a figura de Saddam, o déspota cobarde e indigno, já o disse ontem, a quente. Não tenho pena nem piedade de quem nunca teve pena nem piedade de ninguém. Ainda assim, não posso ficar indiferente às imagens que passam, em loop, nos telejornais. As imagens de Saddam acabado de sair do buraco, aspecto de mendigo, abrindo a boca à lâmpada de um médico com luvas de látex, exibido ao mundo como a fera anestesiada que dá sentido ao circo mediático desta guerra. Quanto mais as vejo, a estas imagens repetidas incessantemente (como a queda das torres, na ressaca do 11 de Setembro), mais me parecem indecentes, grosseiras, obscenas.

Publicado por José Mário Silva às 10:05 PM | Comentários (2)

ARQUITECTO EM GREVE DA FOME

Fomos informados por e-mail que se encontra em greve da fome desde há vários dias um arquitecto da Câmara Municipal de Castelo de Paiva, chamado Luís Teixeira Neves.
Os detalhes, incluindo o texto do Luís a explicar a situação, encontram-se aqui.
Não sei se os blogues têm direito a creditação como membros da imprensa mas talvez fosse bom começarmos por fazer algumas perguntas sobre situações deste tipo às entidades directa ou indirectamente envolvidas.
Neste caso concreto, aqui ficam os contactos de:
Provedor de Justiça
Câmara Municipal de Castelo de Paiva
Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local
Ordem dos Arquitectos - Secção Regional do Norte

Publicado por tchernignobyl às 09:49 PM | Comentários (3)

EM PRIMEIRA MÃO NO BLOGUE DE ESQUERDA

Chamou-me a atenção um panfleto que estava sobre um cavalete debaixo da mesa do meio no primeiro andar da Buchholz.
Na capa dizia:
Harold B. Johnson
"a question that jaime cortesão never dared to ask"
tucson, arizona 2002
e na folha de dentro:

MIGHT PRINCE HENRY 'the NAVIGATOR' HAVE BEEN GAY?

Porque me pareceu curiosa a forma como faz alusão ao significado diferente atribuído em diferentes épocas às diferentes práticas sexuais, resolvi transcrever para aqui a .Prefatory Note. do panfleto:


Prefatory Note

It should be understood that in asking the question whether or not Prince Henry was "gay" the author realizes that he is attempting to fit a fifteenth century figure into a modern category. It is likely that in fifteenth century Portugal, as in Italy during the same period (1), people were not categorized sexually so much on the basis of whether they were interested in men or women as they were by the continuing tradition of Roman attitudes. These regarded it as honorable and acceptable to be the "active" partner or penetrator, whether of women or men (or more likely youngsters), but, except in certain circumstances, not to be the "passive" or penetrated partner. Whether the active partner preferred women or men and boys was a secondary issue. In essence this was simply a reflection of the lower general status of women who were always perforce the penetrated. What was regarded as particularly dishonorable was for an older Roman male citizen to be passively used by a younger man or a social superior by an inferior (2).
Thus, in the case of Henry, what the following essay attempts to do above all else is to break through the heretofore impenetrable ring of "magic fire", so to speak, with which Portuguese historiography has attempted to surround the prince's reputation for "chastity" and "virginity", a reputation carefully crafted by Henry himself who vetted the principal surviving chronicle of his deeds written during his lifetime. In contrast, the author argues that it is difficult to believe that prince Henry never engaged in any kind of sexual activity at all during the sixty-six years that he lived, as most Portuguese historians would like us to think; and that if he did have a sex life, it was almost certainly with other males. The most likely objects for his libido would have been the plethora of teen-agers who pullulated about his court as the article indicates, and with whom Henry was in close daily contact. In short although Henry would be regarded by today's standards as "gay", even perhaps as a pedophile, at the time in which he lived his sexual behavior, such as it may have been, would most likely not have been viewed as scandalously abnormal. Nonetheless, given the fact that sodomy was officially regarded as punishable by death in the contemporary royal law code, he certainly would not have wanted any such activities to be mentioned in his biography or in the chronicle of his deeds and would have done all in his power to see that they were not.

(1) Michael Rocke, Forbidden friendships: homosexuality and male culture in Renaissance Florence (New York, 1996). See especially Chapter Three: " 'He Keeps Him like a Woman': Age and Gender in the Social Organization of Sodomy. Sexual Roles and Behavior. Boys and Men. Becoming a Man...
(2) See the discussion in John Boswell, " Christianity. Social Tolerance and Homosexuality (Chicago,1980, chapter 3, passim; and especially, 74.." A very strong bias appears to have existed against passive sexual behavior on the part of an adult male citizen. Noncitizen adults...could engage in such behavior without loss of status, as could Roman youths, provided the relationship was voluntary and nonmercenary. But if an adult citizen openly indulged in such behavior, he was view with scorn. Those who most commonly played the passive role in intercourse were boys, women, and slaves--all persons excluded from the power structure."

Como o panfleto é distribuído gratuitamente, quem tiver curiosidade em ler as alegações do autor acerca da vida sexual do Infante, passe pela Buchholz.

Publicado por tchernignobyl às 09:27 PM | Comentários (1)

PÓDIO

A oferta aumenta, há mais e melhores autores e títulos publicados, assim como se franquearam as portas da edição a muito "junk book", algo semelhante à "junk food" mas com um cheiro menos intenso.
No meio destas cogitações, olho para o top de dezembro da modesta casa livreira onde trabalho e constato:

1.º - "Guerra em Directo", de Carlos Fino
2.º - "Nunca ninguém sabe - a luta contra o cancro", de Simone de Oliveira
3.º - "Equador", de Miguel Sousa Tavares

Pergunto: o que é feito dos escritores?
(Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 10:07 AM | Comentários (17)

DOIS VERSOS ROUBADOS NUMA LIVRARIA

«Socorre-me, devolve-me a leveza
da tão primeira nuvem que avistares»
Daniel Faria

Publicado por José Mário Silva às 01:27 AM | Comentários (1)

dezembro 14, 2003

QUARTA REACÇÃO À CAPTURA DE SADDAM

Não é difícil imaginar o aproveitamento mediático e propagandístico que a Administração Bush vai fazer da queda definitiva de Saddam Hussein. Por muito importante que este dia histórico possa ser, para a pacificação progressiva do Iraque e o fim da instabilidade política no país, a verdade é que as razões invocadas para fazer esta guerra continuam por justificar. Os EUA encontraram finalmente uma «arma de destruição massiva» de forma humana, arma que massacrou durante demasiado tempo o seu próprio povo (além dos iranianos e dos curdos). Mas continuam a faltar as outras, aquelas de que Colin Powell falou nas Nações Unidas, as que supostamente ameaçavam o mundo ocidental e afinal parece que não existem.
Seria um erro crasso esquecer, hoje, um facto simples: a justiça que finalmente se abate sobre Saddam não torna mais justa uma guerra injusta.

Publicado por José Mário Silva às 11:58 PM | Comentários (5)

TERCEIRA REACÇÃO À CAPTURA DE SADDAM

Por muito que me tenha alegrado a detenção de Saddam Hussein, não gostei nada de ver os pulos de alegria e os gritos histéricos dos jornalistas (mesmo se iraquianos) e ainda menos o anúncio fanfarrão de Paul Bremer: «We got him!». A guerra não é um jogo de futebol e um adversário militar não é um troféu de caça. Se faltou dignidade ao vencido, ao menos que não falte dignidade ao vencedor.

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (9)

SEGUNDA REACÇÃO À CAPTURA DE SADDAM

Saddam Hussein, já o sabíamos, foi um ditador execrável. Pior do que isso: foi um traidor sanguinário da sua pátria e do seu povo, um monstro sádico, um realíssimo filho da puta. Agora, ficámos a saber que também é um cobarde. Apanhado num buraco, onde se escondia como se escondem os animais, não esboçou sequer um gesto de resistência. Rendeu-se de forma mansa, assustada, submissa. O "senhor de Bagdad" mais parecia um daqueles leões subnutridos dos circos decrépitos. No momento da derrota final, não se suicidou nem se deixou matar de AK-47 em punho. Teve uma última oportunidade de mostrar alguma grandeza, algum heroísmo a que os seus seguidores se pudessem agarrar, mas nem essa oportunidade aproveitou. O tirano sem tirania ficou nu: é um homem apenas, reduzido à sua miséria patética. E cercado pela memória do horror que ergueu ao longo de décadas. Quando o julgarem pelos crimes cometidos contra a Humanidade, uma coisa é certa: a pena que lhe aplicarem será sempre demasiado branda e incapaz de apagar as cicatrizes que deixou.

Publicado por José Mário Silva às 11:45 PM | Comentários (10)

REACÇÕES ITÁLICAS

Foi preso. Esperava-se. Espera-se também que não seja de plástico como o peru. Também se esperava a campanha triunfal da propaganda .ladies and gentlemen, we got him.. Agora espera-se a captura dos restantes líderes violadores da autodeterminação dos povos e dos direitos humanos, dos responsáveis de Guantanamo, dos responsáveis do criminoso cerco a Cuba, etc . com Bush na primeira linha!! (JCampos)

VICISSITUDES DA CRIAÇÃO. Sobre a captura de Saddam Hussein disse um psicólogo entrevistado pela CNN: «Saddam teve muito tempo para se suicidar, mas não teve coragem para cometer esse acto». Salmoura acrescenta: nem perante si próprio Saddam conseguiu ser digno cometendo o único acto que ainda lhe era generosamente concedido por todos: o suicídio. A coragem, quando existe, é uma característica de pessoas íntegras e bem formadas - não era o caso de Saddam, óbviamente. Com coragem costuma confundir-se o espírito aventureiro, a crueldade, o sadismo e o masoquismo - às vezes a pura inconsciência, até - mas a coragem nada tem a ver com isso. A coragem é a resistência ao medo; é o domínio do medo, e não a ignorância do medo. A coragem pressupõe identificação do medo, resistência e luta. A rendição sem condições e sem perspectivas de luta é o contrário de coragem: é cobardia. Tendo-se deixado dominar pelo instinto de sobrevivência, até ao limite de ter sido capturado (com cara de rato) como um rato numa toca imunda, Saddam Hussein deu ao mundo a verdadeira imagem dos ditadores: cruéis, fanfarrões, indignos e cobardes. Saddam teve um fim mais que merecido, talvez até, o fim mais merecido: ser confrontado, no Iraque, perante um tribunal iraquiano, com todo o rol de crimes cometidos pelo regime por si incarnado ao longo de duas décadas, sendo entregue a esse tribunal pelos seus ex-queridos amigos americanos que o amaram e armaram no passado, a quem ele pode agora, de viva voz, acusar como cúmplices dos crimes por si praticados na guerra contra o Irão. Esse poderá ser o epílogo mais coerente de toda esta história que culminou com a invasão do Iraque por americanos e ingleses: o reencontro da criatura com o criador a quem escapara. (ASM do Salmoura)

Saddam Hussein foi capturado. Fico contente com isso. Espero agora que ele tenha um julgamento justo, pois só assim existirá diferença entre ele e quem o capturou. No respeito pelo povo iraquiano, ainda não encontrei diferenças significativas. (Pedro Farinha)

Publicado por Manuel Deniz às 09:22 PM | Comentários (1)

PRIMEIRA REACÇÃO À CAPTURA DE SADDAM

Neste blogue abrimos uma garrafa de champanhe quando o regime de Saddam caiu. Agora abriríamos outra se a tivéssemos no frigorífico. Por aqui sempre separámos a contestação ao ataque imperialista dos EUA de qualquer tentação de simpatia pelo ditador sanguinário e sem escrúpulos que governou Bagdad durante décadas. Não é por contestarmos a administração Bush que os seus inimigos se tornam nossos amigos. A captura de Saddam é para nós uma excelente notícia. Esperemos que ele seja bem julgado, de preferência por instituições iraquianas legítimas, e que isso seja um primeiro passo para a reconstrução da consciência política no Iraque, enfim liberta do espectro de Saddam.

Publicado por Manuel Deniz às 03:29 PM | Comentários (13)

dezembro 13, 2003

OBRAS

À minha rua, chegaram homens que escavaram buracos, um fosso alastrando junto às paredes. Depois, outros homens saltaram lá para dentro, estendendo tubos de plástico preto. Perguntei do que se tratava. «É para a electricidade», respondeu um homem ofegante. Cá em cima, no que resta do passeio de calçada portuguesa, gritava um capataz gordo e de bigode farfalhudo: «O-AH! O-AH! O-AH!» Dentro do buraco, os homens estendiam mais canos e fios, os pés enfiados na terra húmida. O capataz gritava . cada vez mais áspero . e eles, em coordenação perfeita, repetiam gestos.
Do tempo das galés até à actualidade, sobreviveram poucas coisas. Mas o grito deste capataz é o mesmo, tenho a certeza. E o suor destes operários é igual ao dos antigos remadores.

Publicado por José Mário Silva às 11:36 PM | Comentários (0)

ELE SÓ NÃO TEM PORQUE NÃO QUER

O Pedro queixa-se, queixa-se, queixa-se. De que é feio, de que é gordo, de que não tem sex appeal, blá, blá, blá. Pois bem: tudo isso são tretas, lérias, 31 de boca. Por baixo daquele corpanzil, não se aloja um ego ferido, um Cyrano que escreve para esconder o seu nariz repugnante, mas antes um D. Juan encapotado, um Casanova com máscara de Carnaval veneziano. Querem provas? Basta conferirem a página 8 da «Grande Reportagem» de hoje, onde se pode ler o excerto de um e-mail, enviado por uma fã chamada Isabel Lopes, que não deixa margem para dúvidas: «O senhor Pedro Mexia vai escrever em todos os números? O senhor é loiro? Quer sair comigo?»
Digo-vos sinceramente: acho que nunca vi tamanho assédio em lugar público, quanto mais no correio dos leitores de uma revista de prestígio. Se o Pedro anda à míngua, para usar uma expressão das que ele aprecia, é porque cultiva uma aura de deserdado de Eros (pelos vistos, um truque de sedução infalível), a par com uma auto-ironia que se ajusta muito bem ao registo dos blogues e um ascetismo que tem as suas vantagens concretas (observe-se a brutal produção crítica, cronística e poética do rapaz nos últimos anos). Agora não é, certamente, por falta de oportunidades. Com o seu jeito desajeitado de rapaz rendido à beleza feminina, o Pedro levaria à certa muita moçoila. A prova, relembro, está na página 8 da «Grande Reportagem» deste sábado. And I rest my case.

Publicado por José Mário Silva às 10:36 PM | Comentários (1)

A EQUIPA TODA REUNIDA (FINALMENTE)

Com a estreia do Manel, aproveitando uma das pouquíssimas pausas da sua agitada vida parisiense, completa-se o elenco do novo BdE e afinam-se as linhas estratégicas do que desejamos, talvez utopicamente, que este blogue venha a ser no futuro próximo. Isto é, não apenas um divertimento (ou um lugar para exercitar a escrita, as amizades e as polémicas ideológicas), mas um espaço de reflexão mais séria sobre política, arte, cultura (sensu lato) e tudo o que vai acontecendo à nossa volta, numa sociedade que se confronta com um sem número de desafios e encruzilhadas. Não quer isto dizer que vamos abolir os desvarios, as brincadeiras, as diatribes bloguísticas, as provocações, os comentários cúmplices, as crónicas intimistas ou mesmo as private jokes. Nada disso. Ser sério não implica ser chato, aborrecido, cinzento. Daqui para a frente, seremos (espero bem) uma polifonia, em que cada voz é uma voz, com as suas idiossincrasias e a sua tessitura. Na melhor das hipóteses, criaremos em conjunto uma profícua torre de Babel, um saudável caos. Na pior das hipóteses, algum tempo perdido e uma terrível desafinação. Mas com tudo isto (o mau e o bom) podemos nós bem.

Publicado por José Mário Silva às 08:11 PM | Comentários (0)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (3)

Eis mais uma peça do compositor Arnon Maarten (1933-1996), analisada pelo musicólogo António Correia Guerreiro:

Trio para viola, contrabaixo e piano Op.2, de 1961 (17 min)
2 andamentos: I - Presto; II - Moderato

Esta obra de câmara, composta por Arnon Maarten quando tinha 28 anos, é marcadamente a "mais debussiana" das obras do compositor.
O primeiro andamento, relativamente curto e muito rápido, trata-se de uma "evocação impressionista de um porto cheio de canais e navios carregando e descarregando enormes volumes".
Torna-se assim relativamente tentador considerar este primeiro andamento como uma pintura do porto de Roterdão, cidade onde sempre viveu Arnon Maarten.
O contrabaixo, em registo muito grave e obsessivamente repetido, contribui de forma decisiva para um ambiente algo claustrofóbico e escuro, acompanhado por um piano emitindo "sons líquidos" e a viola tocando uma melodia "angustiada", como que "presa na garganta sem conseguir gritar". Trata-se assim de uma "paisagem húmida, urbana e cinzenta", pintada à "diabólica velocidade de mil homens a correrem debaixo de enormes fardos".
O segundo andamento é marcadamente contrastante com este primeiro, remetendo mais para a "serena visão de quem contempla uma cidade de dentro de um apartamento aquecido, através de uma janela embaciada".

Este andamento inicia-se com uma bela melodia despreocupada, "quase indulgente" tocada na viola (registo mais agudo). Esta mesma melodia, que facilmente capta a atenção do ouvinte, repete-se depois no piano e finalmente no contrabaixo, originando um canon de aparência perpétua e intrincada.
Rapidamente os três instrumento vão construindo uma "arquitectura complexa, que procura nunca perder o espírito leve com que se inicia o andamento".
Os quase quinze minutos de duração deste andamento sempre pareceram a Arnon Maarten "um franco exagero e um teste à resistência de hipotéticos intérpretes e ouvintes". No entanto, o compositor defende o facto de a obra ter permanecido com esta duração porque lhe "foi sempre impossível, ao longo dos anos, mexer demais num trabalho que [...] vale mais pelo prazer intelectual que deu a construir do que pelo resultado final". Arnon Maarten guardou pois "excelentes memórias dos momentos de fervor e entusiasmo" que viveu ao compor este andamento, pelo que nunca o alterou.
Em nossa opinião, se bem que se possa considerar que a existência de um único tema (não especialmente longo) que percorre todo o andamento, o pode tornar algo monótono, a própria beleza desse tema e as fascinantes sonoridades (principalmente nos registos mais graves) que o compositor extrai dos instrumentos, proporcionam um subtil prazer a que não será também alheia a discreta e crescente complexidade que, com pulso firme, o compositor nos vai revelando.
Este Op.2 termina em anti-climax, após um silêncio momentâneo, com o contrabaixo interpretando uma vez mais o tema do 2º andamento, desta vez em pizzicato à maneira do jazz, enquanto a viola evoca por instantes o tema "angustiado" do 1º andamento e o piano fornece uma inesperada (mas inteligente e "lógica") ligação entre os dois temas, que torna a peça coerente e gratificante.

Publicado por José Mário Silva às 07:12 PM | Comentários (0)

TRANSIÇÕES

Com o primeiro post do Frederico Ágoas e esta minha estreia no novo BdE, fica enfim completa a equipa que fará este blogue. Fecha-se assim a fase de instalação deste novo espaço habitável, de portas e janelas abertas (que não é uma propriedade privada, mas muito mais uma .casa ocupada. em conjunto). E esta fase já mostrou que as diferenças com o primeiro BdE são muitas. O blogue dos .manos Silva. estava ainda marcado por um estilo da .primeira blogosfera.. Um estilo muito próprio criado quando tudo isto ainda era um assunto meio secreto, entre amigos. Foi nessa altura que forjámos uma forma de intervenção que fez sentido nas animadas lutas ideológicas com a defunta Coluna Infame e depois contra todo o clã pró-americano durante a Guerra do Iraque. Mas entretanto a blogosfera mudou e o BdE foi-se transformando num objecto mais pessoal, assegurado sobretudo pelo Zé Mário. Um estilo de crónica que se adapta perfeitamente às novas possibilidades de comunicação dos blogues, mas que não que as esgota. Por isso mudámos e por isso esta renovação do BdE não foi, apenas, de cosmética. A saída do sistema .blogger. e o novo grafismo, mais atraente e legível, foram factores importantes nesta transformação. Mas o que mudou verdadeiramente foi a passagem a uma forma verdadeiramente colectiva de pensar e escrever neste blogue.
Como apontou o Zé Mário, no balanço das duas primeiras semanas, tem sido a variedade dos registos a fazer a novidade do BdE II. A par dos comentários de actualidade, das crónicas, das indignações e das polémicas com outros blogues, começa a abrir-se um espaço para textos mais longos, de reflexão. Ou seja, começamos a tentar romper com um dos perigos mais evidentes da blogosfera, o de ficar apenas à superfície. A capacidade virtualmente infinita de acumular textos que este meio nos dá, deve servir também para tentar aprofundar os temas que evocamos e que por vezes deixamos comodamente apenas aflorados. O desafio será concretizar as controvérsias e argumentar com fundamento sem perder o estilo solto e flexível que caracteriza a linguagem dos blogues. Se o conseguirmos, neste meio fragmentário e aberto, talvez cheguemos aquilo que um de nós chama .acumulação de reflexividade.. Nesse sentido, este novo BdE poderá vir a ser algo mais do que um simples blogue. Se o que formos escrevendo por aqui não for uma submissão involuntária a esta nova forma de exibição do eu, mas uma oportunidade de pensar e de transformar em conjunto o mundo que está lá fora.

Publicado por Manuel Deniz às 03:57 PM | Comentários (4)

EM AUDIÇÃO

No leitor de CD's do meu carro, gira sem parar mais uma pérola da editora Alpha: o disco com as «Suonata à violoncello solo del signor Vivaldi», interpretadas por Bruno Cocset e Les Basses Réunies.

Entre os floreados barrocos do violoncelo e a placidez retórica do baixo contínuo, há uma coesão absoluta, como se fossem duas expressões (a celeste e a terrena) da mesma matéria. Eu oiço uma e outra vez, atento aos mínimos detalhes: o fraseado cantabile de Cocset ou a dinâmica impetuosa do cravo, da teorba, do contrabaixo. E a luz desta manhã (tão clara) torna-se ainda mais perfeita, caindo a pique sobre Lisboa.

Publicado por José Mário Silva às 01:21 PM | Comentários (2)

dezembro 12, 2003

OBSESSÃO

O notável colunista Luís Delgado . o homem que anuncia a retoma com a mesma fé com que eu garanto a existência de Deus ., oferece ao povo português, no DN de hoje, a segunda obsessão conhecida no território político: Pacheco Pereira estará obcecado numa campanha isolada contra Pedro Santana Lopes. E Delgado não percebe porquê.
Primeiro comentário: não acredito que não perceba. Seriamente, não acredito mesmo. Já todos perceberam, e Luís Delgado conta, entre muitos e variados atributos, com o da inteligência! Portanto, também percebeu, mas não quer dizer que percebeu. Uma espécie de eu sei que você sabe que eu sei que você sabe.
Segundo: Pacheco Pereira não está . não estará . isolado.
Resta a Luís Delgado o peru de Bush. Em época de Natal, desejo-lhe que o seu (de Luís Delgado). pelo menos tenha carne.
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 11:54 PM | Comentários (1)

LEITURA OBRIGATÓRIA

Na edição on-line do «Le Monde Diplomatique», encontra-se um artigo de Serge Halimi (autor, por exemplo, de «Les Nouveaux Chiens de Garde»), perfeitamente arrasador para o livro-reportagem «Qui a tué Daniel Pearl?», de Bernard-Henri Lévy. Halimi chama-lhe romanquête (isto é, jornalismo romanceado) e analisa em detalhe os mecanismos do «sistema BHL», enquanto máquina de fixar perspectivas sobre certos acontecimentos. É um texto importante e polémico, essencialmente porque denuncia, sem meias palavras, um potentado mediático. E é um texto que gostávamos muito de ver discutido no hemisfério francófono da blogosfera portuguesa (mas não só).

Publicado por José Mário Silva às 11:48 PM | Comentários (1)

NÃO FALES POR MIM, PEDRO

Diz o Lomba em mais um post contra a esquerda que ataca . cheia de «verve acusadora» . a estratégia americana no Iraque: «Eu quero vê-los ir além disso. Vê-los apresentar ideias, soluções, alternativas; em síntese, tudo o que faz uma política. Mas talvez seja pedir de mais a quem usa e abusa de argumentos fáceis e estreitos. O Iraque pode bem ser um falhanço. Curiosamente, será um falhanço de todos.»
Em primeiro lugar, ó Pedro, é extraordinário que nos peças soluções e alternativas para um beco sem saída onde nunca quisemos entrar. E depois, a história da responsabilidade colectiva também já começa a ser cansativa. Há umas semanas, escreveste no DN que na questão iraquiana todos mentimos. Agora, garantes que o falhanço do plano Bush para o Iraque será «um falhanço de todos». Falhanço de todos? Calma lá, meu amigo, não nos queiras meter no mesmo saco. Falhanço de uns quantos, isso sim. E tu sabes muito bem quem eles são.

Publicado por José Mário Silva às 11:41 PM | Comentários (6)

SEXTA-FEIRA

A noite de sexta-feira é a zona cinzenta da semana. Dia bom para comer uma pizza, os miúdos em algazarra e a televisão a contribuir para o ruído. A ideia de .amanhã é sábado. é reconciliante com a vida.
Eis senão quando, no meio da confusão . apesar de tudo controlável sem violência ., aparece Ferro Rodrigues na TVI e, sem que se perceba de que fala, diz que Portugal não pode ser o país dos escândalos, primeiro a Moderna, depois a pedofilia, ainda a Lusíada.
De que falava não sei, nem creio que seja importante. Mas a pizza começou rapidamente a amargar quando me lembrei que de manhã, quando encostava o carro para tomar um café, se falava da controvérsia que rodeia os (dois, creio) novos submarinos. Falava-se de oitocentos milhões de euros. Repito: oitocentos milhões de euros!
Portugal recomeçou a doer. A doer muito. Tanto quanto doía certamente a Mário Soares quando, há dias, indicava António Damásio como personalidade nacional de 2003: um homem que ensina no estrangeiro, escreve em inglês e é lido pelo português comum em tradução.
Lembro-me de Ary dos Santos; dizia a certa altura, num dos seus versos .. e só faltava que este Abril se não cumprisse... Com submarinos, não vamos lá. Com comissões de inquérito ainda menos.
A história repete-se: primeiro como tragédia, depois como farsa.
Vale, ao menos, que hoje não chove!
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 10:12 PM | Comentários (0)

AGENDA

Anotem, por favor: hoje, 18h30, «O meu Prévert» por Vítor Silva Tavares, com lançamento de um livro do poeta francês («Cenas», & Etc), na Abril em Maio.

Publicado por José Mário Silva às 12:33 PM | Comentários (1)

JCM INTEGRAL

Começa hoje, com o pouco visto «Veredas», a exibição em cópias novas de todos os filmes de João César Monteiro. A extensa programação está aqui e inclui apresentações de cada uma das obras, por figuras como Fernando Lopes, Teresa Villaverde, Alberto Seixa Santos, Paulo Branco e João Bénard da Costa. O lugar do festim é o King, até 1 de Janeiro. Ao cinema, todos, já!

Publicado por José Mário Silva às 12:25 PM | Comentários (12)

dezembro 11, 2003

MUNDOS QUE CONSTROEM OLHARES

Um colega, fotógrafo, dizia-me, hoje, a brincar, que já não dava, que depois da quantidade de vezes que fora recentemente assistir a partidas de futebol ao estádio (por dever profissional, entenda-se), habituado que estava a viver as emoções do jogo ao vivo, perdera a disposição para assistir a uma partida do desporto-rei emitida pela televisão. As palavras exactas não as sei reproduzir, mas interessa para o caso a última das que compuseram a frase com que enjeitou o convite para que viesse em grupo ver o fim do Porto ao restaurante; essa sim estou certo que foi proferida: «perdi paciência para o futebol mediatizado».

Só quem nunca foi assistir a uma partida ao estádio poderá deixar de compreender o sentimento de vago desprezo por uma partida televisionada, da parte de quem tem vindo, à razão da semana, a presenciar ao vivo 4 jogos de futebol. Não me refiro a toda a dimensão humana que se perde ao ver o jogo em casa, mas meramente ao futebol, ao jogo, à forma de olhar para um recinto relvado onde correm, a propósito de uma bola, 22 homens. Apesar de já há muito não o fazer . em criança sobretudo, quando o meu avô me levava . recordo-me dessa sensação sempre renovada, de se tornar bem claro, logo à entrada, a cada ida ao estádio, bem antes ainda da partida ter início, quando ao fim do primeiro túnel de acesso se vislumbrava um primeiro plano recortado do relvado, enquadrado pela penumbra da arquibancada, em que o topo oposto compunha um distante segundo plano . de se tornar então bem claro que, desde a última visita, andava a perder parte importante do espectáculo; de como era desde logo manifesto como se perdia, na televisão, as conversas animadas e descontraídas entre jogadores antes da tensão do desafio, toda uma trama que tinha um princípio e um fim que se prolongava bem para lá de duas singelas apitadelas do árbitro; mas, sobretudo, a redescoberta da possibilidade de um olhar que se movia independentemente do movimento da bola, movimento que, no estádio, parecia sempre relativamente pouco interessante para que se justificasse a insistência com que o operador de câmara o perseguia e a infame cobertura que a regie dava a esta sua questionável opção. E a cada ida, também, lembrar-me, logo à entrada, de como, entretanto, desde a última visita, me esquecera, e depressa voltara a tomar a emissão televisiva pela realidade que aquela, só aparentemente, tão bem representava.

Estivéramos, em grupo, à conversa, antes do convite, com o fotógrafo, à volta de fotografias . o seu trabalho . de velhos estádios de antigos clubes operários, campos de futebol de pequenos clubes de bairro, encastrados em milagrosas paisagens industriais ou em desérticos contextos sub-urbanos, onde o desportivo local continua a disputar a sua divisão de honra, onde os miúdos da terra continuam a treinar na lama perseguindo a esperança de um dia chegarem a pisar outros palcos. Foram justamente essas fotografias por ele tiradas que me fizeram despertar estas lembranças, recordações de quando via esse outro algo no jogo de que, entretanto, perdido no meu fervor clubístico e no acompanhamento semanal das emissões televisivas, me voltara a esquecer. Foram elas também, essas fotografias de mundos fora do mundo, que fizeram que a palavra mediação, o motivo da recusa do convite (recusa que, diga-se, acabou por não ser consumada), me ficasse cravada na cabeça, como engano. Tão habituados que estamos a ver o jogo da mesma eterna forma que nos esquecemos, ou não nos lembramos, de que a construção desse olhar não é simplesmente o produto maléfico da televisão, dessa repetidora de imagens que injustamente parece carregar a culpa de todos os males do mundo. A imagem desses campos pelados e anacrónicos, reforçada pela contrastante memória fresca de uma dúzia de estádios recém-construídos, levou-me a responder à sua graciosa falta de vontade em nos acompanhar, sussurrando-lhe entredentes que não estivesse convencido de que o que presenciaria no estádio, ao vivo, seria apenas o jogo.

Já muito recentemente passei a jogar futebol com alguma regularidade, num grupo de amigos, a maior parte das vezes em recintos pequenos, como ocasionalmente fizera em criança. A grande novidade, porém, foi o futebol de onze, o futebol que desde sempre vira na televisão e que, quando chegámos a ser muitos, jogávamos. Lembrei-me, também, a propósito das fotografias, que, desde então, sempre que regressei a um estádio, e não foram mais do que três ou quatro vezes, pude sem dificuldade, por um certo acto deliberado de vontade, ver, na partida, à vez, jogos fundamentalmente distintos; ora olhar para o jogo com o olhar da criança que fora, que nunca tinha jogado futebol num campo grande, ora, com esse outro olhar, de quem durante umas quantas partidas foi ocupando regularmente uma posição no centro da defesa. Chego a ver, se quiser, como em miúdo, a mancha orgânica da equipa por que torço, unidade não-fraccionada por 11, o emblema em campo, movendo-se ao sabor de uma jogada que ninguém parece controlar, como se a bola estivesse destinada, a cada momento, ao seu triste (ou, mais raramente, alegre) fado; ou, em vez disso, como quem semicerra os olhos para vislumbrar a terceira dimensão de uma imagem bidimensional composta por uma inifinitude de pontos, distinguir os movimentos particulares de cada jogador, a penosa dificuldade em vencer a longa distância que separa cada dois pontos, esse já de si instável equilíbrio, que o adversário aposta em desfazer, e em que só um milagre parece poder conduzir a bola ao fundo de qualquer uma das balizas.

É com excessiva frequência que me esqueço que a televisão não é um meio de produção de imagens, que é um meio de as difundir. As imagens não são um conjunto de pixeis, são uma representação particular de algo, um modo de aceder às coisas, uma composição do mundo fundada na nossa experiência. A insistência com que se deplora uma excessiva mediatização do mundo, infernalmente levada a cabo por uma conspiração pós-moderna de uma clique mafiosa dos meios de comunicação social, oculta com demasiada frequência o facto de que aquilo que tomamos por real . a ida ao estádio, por exemplo ., ser, também construído, ou, se quisermos, na palavra do fotógrafo e pela força de um pleonasmo, de ser também por nós tomado mediante mediação. E que se é verdade que as televisões possuem um tremendo poder de difusão de determinadas imagens, de determinadas representações, um meio a cujo controlo acedemos de modos diferenciados, a construção de imagens ultrapassa claramente o fenómeno televisivo. Os modos de interpretação do mundo não se jogam apenas à hora dos noticiários.

Estará ainda por fazer uma crítica do que representam afinal esses novos estádios, uma crítica que passe por cima de comentários acerca da estética superficial de uns azulejos que a alguns sugerem casas de banho, e de uns arcos que apenas a megalomania parece poder justificar. Os estádios não são só bonitos ou feios. A arquitectura não é neutra, nem em relação ao jogo, tão pouco em relação à vida, e, a inegável integração dos estilos das diversas obras agora construídas, em forte contraste com a orgânica característica dos anteriores, revela o rigor com que se reproduziu, na realidade, uma determinada representação, uma imagem do que é, afinal, ou do que deve ser, o jogo (e a vida). Poderíamos falar da imagem de um futebol-dinheiro, tão bem delineada nos últimos anos pelas mais altas instâncias do jogo, imagem que colada aos nossos olhos faz com que no relvado sobressaia com insistência a vedeta da equipa, ou de um futebol-controlo, em que as novas câmaras de segurança tornam obsoletas vedações que nos faziam ver o futebol aos quadradinhos, nova imagem de imediatez, de proximidade à vida, orgulhosamente implantada sem que nos tenhamos apercebido daquilo que perdemos, afinal, ao levarem-nos os gradeamentos; ou ainda, de como o simples jogo é, ele próprio, uma representação, uma imagem cristalizada de histórias e guerras que já não sabemos contar. Mas este texto, apesar das aparências, não é sobre futebol. É apenas sobre a nossa estranha e lamentável pretensão à transparência do real, que nos autoriza a usufruir do jogo, como se fora pura e inocente diversão ou, da arquitectura, como se fosse mera obra-de-arte, traço livre no papel. Ou, se me permitirem, da ciência, como derradeira verdade.

A questão da realidade do real está bem para lá da crítica indignada da televisão e do ciber-mundo. Ou bem para cá, se preferirmos. Face a belas fotografias de outros futebóis que desconheço, volto-me a lembrar, como em pequeno, de como é afinal a realidade que não é real. Não lho digo a ele, ao meu colega fotógrafo, que tão bem sabe, afinal, que são os olhares que constroem o mundo; digo-o a mim, como mo dissera já, cada uma das vezes que em criança entrei num dos velhos estádios, agora destruídos. Mas desta vez escrevo-o, para me lembrar, e juro, como em miúdo, que não me volto a esquecer, de que também há mundos que constroem olhares.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:53 PM | Comentários (0)

DE ITÁLIA, COM FUROR

Vale a pena dar uma olhada ao manifesto que o Ricardo Noronha, ex-itálico, dedicou ao charme discreto da aristocracia intelectual. Não concordamos com tudo o que ele diz a propósito de Maria Filomena Mónica e Fátima Bonifácio, tendo como pano de fundo o sistema universitário português (mais as suas limitações, mesquinhices e constrangimentos), mas há por ali pistas importantes para uma discussão que se impõe: será a nossa inteligentsia académica estruturalmente conservadora e resistente às mudanças que vêm «de baixo»? Ou foi o Ricardo que tomou a nuvem por Juno, detendo-se na parte (os intelectuais mediáticos, tipo MFM) e esquecendo o todo que raramente sai da sombra?
Sejam quais forem as respostas, o certo é que há um rastilho aceso neste texto escrito em estado de revolta, no antro iconoclasta que é o Bologna Nihil. Com piada, os rapazes do blogue made in Italy descrevem-se assim: «Bologna entre o dandysmo e a dinamite. Pasta, Pesto e Posts...» Neste caso, convenhamos, é mais dinamite que outra coisa qualquer.

Publicado por José Mário Silva às 11:40 PM | Comentários (1)

O PERU METONÍMICO

Na sua crónica de hoje, Eduardo Prado Coelho reflecte sobre as implicações simbólicas da imagem de Bush com o peru de plástico, que o mais submisso dos cronistas pró-americanos (Luís Delgado, claro) tentou desesperadamente minimizar. Eis como termina o artigo:

«"Falar do peru", acha Luís Delgado, é "perder tempo". Contudo, penso que há uma componente retórica que Luís Delgado negligencia. Este peru não tem interesse em si mesmo, mas como realidade metonímica: é uma parte do peru pelo todo da intervenção norte-americana no Iraque. Por outras palavras, se o peru ganha tanto relevo é porque nele se consubstancia um estilo que a Administração americana promoveu: a realidade não basta em si mesma, é preciso produzi-la e encená-la.
Foi este o caso da mulher-soldado Jessica Lynch, transformada em heroína pelo Pentágono para poder fornecer um argumento para um filme. Tudo falso, como se veio a comprovar. E foi este o estatuto das famosas "armas de destruição maciça", que cada vez mais aparecem como um pretexto claramente encenado para convencer a opinião pública mundial. A questão está em sabermos até que ponto estes reincidentes falsificadores da realidade poderão ser os melhores defensores da verdade democrática.»

Bravo, caro EPC. Não podia estar mais de acordo.

Publicado por José Mário Silva às 06:12 PM | Comentários (5)

FRASES DO DIA (2)

«Deixem a Madeira em paz. Se quiserem ver-se livres de nós, com muito prazer, mas de uma vez por todas. Não me chateiem.»
Alberto João Jardim . reagindo às críticas da Associação Nacional dos Municípios, que acusou o governo de inviabilizar o endividamento das autarquias, ao mesmo tempo que permitia mais um empréstimo de 35 milhões de euros ao Governo Regional da Madeira.

Para ser franco, não sei o que é mais chocante (partindo do princípio de que alguma coisa dita por Jardim consegue ainda chocar alguém): se a desfaçatez ameaçadora, sempre com o fantasma separatista por trás, se a mais pura e simples ingratidão.

Publicado por José Mário Silva às 05:34 PM | Comentários (6)

FRASES DO DIA (1)

«Ficaríamos contentes se eles se rendessem. Mas se não o fazem, ficaremos felizes por matá-los.»
Donald Rumsfeld . discursando em Washington sobre os ataques "anti-terroristas" às forças rebeldes, no Afeganistão.

A expressão «felizes por matá-los» já era assustadora, mesmo se ouvida da boca de um líder militar. Agora, utilizá-la na semana em que 15 crianças afegãs foram mortas, em incursões militares americanas mal sucedidas, tem qualquer coisa de obsceno.

Publicado por José Mário Silva às 05:13 PM | Comentários (12)

BARBAS

Há homens que usam barba com uma intenção clara: parecerem mais velhos, mais maduros, logo mais credíveis. No caso de Morais Sarmento, porém, garanto-vos que a estratégia não resulta.

Publicado por José Mário Silva às 03:53 PM | Comentários (2)

DEPOIS DE LER O JORNAL DE ONTEM

Creio que o Ivan já o disse. E se o disse, eu subscrevo: é no Público que escrevem os dois melhores cronistas desportivos portugueses. À terça, de Madrid, Nuno Ribeiro fala das andanças do futebol espanhol (La Cancha). Às quartas, de Nova Iorque, Pedro Ribeiro envia-nos retratos dos heróis e demónios da NBA (De costa a costa). A um e a outro sobeja, em quantidades industriais, aquilo que falta à maioria dos jornalistas: conhecimento de causa, imaginação, rigor, ironia e uma escrita impecável. Os seus textos são pérolas perdidas numa secção utilitária, em que a maioria dos leitores só procura sinopses de jogos e os resultados da véspera. Terrível desperdício, até porque há dias em que as prosas deles são o melhor que o jornal tem para oferecer. Muito a sério: não percam os Ribeiros. Mesmo que não saibam o que é um hat trick ou uma falta técnica.

Publicado por José Mário Silva às 03:39 PM | Comentários (1)

dezembro 10, 2003

AUTO-RETRATOS

Há cerca de um ano, durante umas férias parisienses, descobri no Centro Pompidou a retrospectiva de um pintor fabuloso: Max Beckmann (1884-1950). Não pretendo falar aqui sobre as subtilezas da sua evolução artística, extremamente complexa, nem sobre a fuga da Alemanha hitleriana (onde foi acusado, com tantos outros, de praticar uma arte degenerada), nem sobre a forma como seguiu um caminho próprio (apesar das aproximações ao modernismo e ao expressionismo), nem sequer sobre os espantosos trípticos da última fase (o pós-guerra, vivido nos EUA).
A única coisa que vos quero mostrar é a forma como ele soube ver-se, irónico e desapiedado, nesse espelho ambíguo que é a tela. Não houve, desde o tempo de Rembrandt (com a possível excepção de Van Gogh), outro pintor que tenha feito tantos auto-retratos, nas diversas fases da vida. Só entre 1907 e 1927, foram mais de cem. E Beckmann continuou a figurar-se até aos últimos dias, já na década de 50.
Da imensa panóplia de imagens auto-referenciais, cada uma expressando de forma vigorosa o estado psicológico ou as crises existenciais do autor, escolhi duas. A primeira é de 1917, quando o pintor andava pelos 33 anos:

O enquadramento segue ainda os modelos clássicos, com o artista em pleno acto criativo, debruçado sobre o cavalete, mas já existe por ali um desequilíbrio inquietante, dado por uma espécie de compressão anatómica do corpo, pela brancura do peito em contraste com o vermelho do lenço, pela boca assimétrica e por aquele olhar oblíquo, ligeiramente estrábico, sem centro, em fuga não sabemos bem de quê.

Se tivesse que escolher o mais admirável dos auto-retratos de Beckmann, porém, escolheria este, de 1927:

Nesta altura, o pintor vivia dias áureos. Antes da fúria nazi, tudo eram rosas. Beckmann tinha fama, dinheiro e o respeito dos pares. Além disso, acabara de ser nomeado professor em Städel, o Instituto de Arte de Frankfurt. Este é o retrato de um homem no seu momento triunfal. A posição do braço direito (quase negligente), a forma de pegar no cigarro ou o fato aprumadíssimo (provável reflexo de festas mundanas) são sinais de quem chegou a um certo estatuto e se prepara para o gozar com uma descontracção a que não faltará soberba. Mas reparem no rosto: a luz batendo de lado, muito forte; as sombras. Há ali pathos. A tranquilidade é só aparente. O retrato de Beckmann em 1927 é o retrato da Europa em 1927. E reside aqui em grande medida, para mim, o génio do pintor, a sua grandeza.

Publicado por José Mário Silva às 11:54 PM | Comentários (2)

URGÊNCIAS PEDIÁTRICAS

Não resisto a enviar um comentário. Para além de todos os disparates que se vão ouvindo, esta manhã escutei na rádio uma ideia tão brilhante do "nosso" ministro da Saúde que me deixou aparvalhada: as faltas nas urgências pediátricas . e possivelmente não só... . têm uma solução fácil e barata. Juntam-se as urgências num único local e passa logo a haver montes de especialistas. Se havia 10, mais 10, mais 10, matematicamente passará a haver 30 e as crianças são atendidas num ápice! Como é que ainda não nos tínhamos lembrado desta? Para além de ser muito cómodo, numa cidade do tamanho de Lisboa, ir de um extremo ao outro com uma criança doente, o sr. ministro "esqueceu-se" de que multiplica os médicos e multiplica também os doentes... Não haverá 10 médicos para 500 crianças e sim 30 para 1.500! Além da confusão de ter esse triplo de doentes no mesmo local de atendimento. Isto podia ser uma anedota, se não fosse do humor mais negro. (MMLG)

Publicado por José Mário Silva às 11:48 PM | Comentários (4)

A PROPÓSITO

Agora que se falou do «funcionamento da literatura» a partir da «citação e plágio permanentes», numa espécie de «longa linhagem de cleptomaníacos literários» (referida por Sarah Kane, diz o Frazão, mas não inventada por ela), lembrei-me de um poema do Manuel António Pina. Está no último opus («Os Livros», Assírio & Alvim; já referido neste blogue) e parece que foi escrito de propósito para ilustrar a ideia do Francisco. Ora vejam lá:


EMET

Here we are for the last time face to face
thou and I, Book,

descansa agora em paz, e tu, leitor,
não peças mais ao seu cansado coração

do que ele pode dar-te, o que te rouba:
pequenos detalhes entre o espírito e a carne.
Porque a literatura é uma arte
escura de ladrões que roubam a ladrões.

Ouves a luz da sua boca, vozes
mortas eternamente repetidas
desprendendo-se de passadas vidas,
como a tua paradas, como a tua perdidas?

Ah sim, claro, o real. Pelos olhos dentro
e pelo coração dentro, tão perto e tão lento
que basta estar atento que decerto
algum sentido há-de fazer ou algum sentimento.

Eu sei, também tenho ido a bares e outros lugares
igualmente reais. E tenho tido
uma vida ou mais. Mas é tempo de falares
tu, livro. Eu tenho dito.

Principalmente por escrito mas
ninguém nem os conselheiros nas
assembleias nem os heróis sob o céu
sabe quem recebeu tal carga, se tu se eu.

Por isso eu, Yehuda Loew ben Bezaiel,
gravei na tua fronte os caracteres
da morte e da verdade. Protege-os bem;
e protege-te deles, se puderes.

Porque é de noite e estamos ambos sós,
leitura e escritura,
criador e criatura,
na mesma inumerável voz.

Publicado por José Mário Silva às 08:23 PM | Comentários (2)

ELOGIO DA FOTOCÓPIA

Cá vai uma teorização não-noctívaga. O Aviz publica um e-mail de Nuno Seabra Lopes, editor, sobre as bolsas de criação literária e outros aspectos do "mercado livreiro". Há duas frases que têm dois parágrafos pelo meio e me apetece aqui juntar:
1. Realmente o valor auferido pela venda de uma obra é muitas vezes irrisório e, de todo, poderá pagar o tempo ou trabalho lá despendido.
2. Os autores devem lutar por receber os valores devidos das cópias piratas (fotocópias e companhia) devem fomentar a venda dos vossos livros por intermédio de animações várias e constante esforço de promoção . também vos compete vender o fruto da vossa profissão.
Parece-me que está aqui bem explícita a contradição que se esconde por detrás da defesa dos "direitos de autor". Vejamos: o autor é pago através de uma percentagem mínima sobre as vendas; esse valor é insuficiente e não paga o trabalho que teve; há quem tire fotocópias dos livros, supostamente reduzindo as vendas; é o autor quem tem de "lutar" para receber os "valores devidos" sobre essas cópias, defendendo assim os seus direitos (de autor).
É evidente que não é o autor quem perde dinheiro, e sim os editores, distribuidores e livreiros (principalmente os dois últimos); é evidente que os "direitos de autor" são os direitos de exploração da obra que pertencem a editores, distribuidores e livreiros (principalmente aos dois últimos). O sistema convence o autor de que é um empresário capitalista que faz lucro com o seu trabalho (a tal percentagem "irrisória", 10%) e, no mesmo gesto, responsabiliza-o pelo combate às fugas ao sistema (ou, pelo menos, dissemina a ideia de que é o autor o grande penalizado, como se fosse mau ser lido, mesmo em fotocópia, por perigosos piratas-xerox).

Há um texto de Benjamin, de 1934, chamado "O Autor enquanto Produtor". Nele se diz mais ou menos isto: um livro não é revolucionário se falar sobre a revolução ou se mostrar simpatia pelo proletariado; "o lugar do intelectual na luta de classes só pode ser determinado, melhor ainda, escolhido, com base na sua posição no interior do processo de produção". Olhando para o tal "processo de produção", vemos como o autor está convencido de que é uma grande conquista emancipatória deixar de ser visto como produtor que vende a sua força de trabalho (à editora, à distribuidora, à livraria) e passar a receber à percentagem como um accionista da empresa.
Os valores em jogo desmentem esta conquista, mas há algo de mais grave: a ideologia de defesa dos "direitos de autor", ao tentar impedir por todos os meios a cópia da obra, põe em causa o próprio funcionamento da literatura, que é o da citação e plágio permanentes: "uma longa linhagem de cleptomaníacos literários", diz Sarah Kane e não foi ela a inventá-lo. A literatura faz-se contra os "direitos de autor" e reconhecer isto é começar a pôr em causa o sistema de produção vigente.

Publicado por Francisco Frazão às 08:19 PM | Comentários (8)

RETOQUES (2)

Confiram os links na coluna da direita. Há novidades. Acrescentámos uns 40 blogues e todos valem a pena (mesmo os que são reaças dos pés à cabeça).

Publicado por José Mário Silva às 07:30 PM | Comentários (4)

RETOQUES (1)

Aproveitando a pausa e o balanço das duas semanas, decidimos fazer uns retoques aqui na casa. O primeiro já é visível na área de comentários. A partir de agora, a ordem dos textos passa a ser ascendente; ou seja, começa no mais antigo e termina no mais recente. De início, isto pode causar alguma confusão, porque a ordem cronológica é a inversa da que rege os posts, mas com o hábito já não estranharemos. A principal vantagem, claríssima no caso das polémicas que têm surgido a propósito de certos textos do blogue, é a de não perdermos o fio à meada, lendo respostas a comentários que foram feitos muito "lá para baixo". Seja como for, se acharem que o sistema funcionava melhor da outra maneira, é só dizer e nós ponderaremos um regresso à forma antiga.

Publicado por José Mário Silva às 07:26 PM | Comentários (1)

PRIMEIRO BALANÇO

Ao fim de duas semanas, o BdE II começa a estabilizar. O ritmo dos posts mantém-se forte, as visitas vão crescendo de forma gradual (ontem atingimos um novo máximo: cerca de 700) e as polémicas, no espaço de comentários, sucedem-se. Curiosamente, temos atraído discussões sobretudo com leitores e blogues de direita . o que é sempre bom sinal. Se os provocamos e irritamos, ao ponto de reagirem, isso significa que estamos a colocar as questões certas, a tocar nos assuntos que incomodam. Também é essa, entre outras, a nossa função.
Depois, há a variedade de registos individuais, a juntar-se ao que já conheciam. Das teorizações noctívagas do Francisco Frazão às sagas heterodoxas do tchernignobyl, passando pelos instantâneos de Cabo Verde da Marta Lança e pelo empenho dos itálicos, tem havido muito por onde escolher. E isto é só o princípio. Quando os "ausentes" se juntarem ao resto da malta, nem sei se vos diga se vos conte.

Publicado por José Mário Silva às 01:26 PM | Comentários (13)

dezembro 09, 2003

THE DOORS (VERSÃO SÉC. XXI)

Não são a mesma coisa. Não podiam ser. E eu nem quero imaginar a cara do Jim Morrison com 60 anos.
Isto é tudo muito estranho.

People are strange when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when you're down
When you're strange
Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name
When you're strange

Publicado por José Mário Silva às 11:36 PM | Comentários (4)

LISTA NEGRA

Explica o Público que uma organização conservadora americana (a TVC, Traditional Values Coalition) elaborou uma "lista negra" de cientistas que trabalham em projectos considerados controversos, por envolverem estudos sobre o aborto, a homossexualidade, a prostituição ou a SIDA.
Não pensem que isto é a brincar, porque não é. Este lobby tem muito poder e já influenciou vários congressistas republicanos, no sentido de se fazerem cortes nos financiamentos científicos que não interessam à TVC ou aos interesses que ela representa.
Isto não vos faz lembrar nada? A mim, faz. Cerco à liberdade de criação e investigação, estrangulamento das ideias que põem em causa o status quo, policiamento dos bons costumes. Ponham os cientistas no lugar dos reds e temos um regresso ao passado, uma caça às bruxas em potência (embora mais subtil). Sobre Washington ainda paira, perversa, a sombra do senador McCarthy.

Publicado por José Mário Silva às 11:21 PM | Comentários (5)

CORREIOS

Hoje estive cerca de uma hora numa fila dos Correios. Ao fim de cinco minutos, percebi porquê. Além das infinitas encomendas e envios de Natal, havia muitos velhotes que esperavam ali, em pé, com a senha na mão, o momento de levantar as pensões. Observei bem as suas caras, os seus protestos abafados, a sua raiva surda. E lembrei-me de Paulo Portas. Gostava de ver o ministro que lhes prometeu aumentos durante a campanha eleitoral, mas nada fez para cumprir essa promessa, a esperar uma hora como eu. E a ouvir o que eu ouvi.

Publicado por José Mário Silva às 11:11 PM | Comentários (4)

CZAROCRACIA

Na Rússia, acaba de ser inventada uma forma revolucionária de democracia. Aquela que apenas confirma o poder absoluto de um pseudo-czar.

Publicado por José Mário Silva às 10:57 PM | Comentários (2)

SOBRE UM COMENTÁRIO LIDO NOUTRO BLOGUE

De Carlos Miguel Fernandes, recebemos uma mensagem destinada ao tchernignobyl, sobre o post «Blogalização Acelerada». Uma vez que o seu conteúdo é de interesse geral, ao desconstruir o suposto carácter científico das teses de Hayek, guru oficial dos liberais bloguísticos, decidimos publicar o esclarecedor e-mail (não sem antes agradecer a oportunidade do "aviso"):

Não sei se reparou, mas no blog Liberdade de Expressão, um dos muitos blogs liberais que infestam a nossa blogolândia, apareceu um comentário ao seu post de 5 de Dezembro. A desonestidade do autor leva-me a intervir. João Miranda, autor do blog referido, aconselha-o a ler um artigo que, segundo ele, mostra como na Universidade de Santa Fé se anda a redescobrir Hayek. Esqueceu-se de dizer que esse artigo foi-lhe sugerido por mim, numa acesa discussão noutro blog (Picuinhices, no blogspot, entrada "Há uma ortodoxia liberal?") sobre auto-organização. Nessa troca de palavras, eu defendia que os liberais, adeptos de Hayek e da Escola Austríaca, gostam muito de falar em auto-organização e ordem espontânea, mas não têm a menor noção do que é teoria da complexidade moderna, onde estes termos foram finalmente definidos com alguma precisão. Continuam a olhar para Hayek como um guru, um líder religioso do culto do liberalismo, e fecham os olhos a novos avanços e descobertas nesta área científica (leia os 23 comentários do blog Picuinhices para mais informação sobre a discussão entre mim e João Miranda) que possam pôr em causa as palavras do mestre. Hayek nunca teve uma abordagem cientificamente séria da questão, limitou-se a forçar a classificação e interpretação de certos fenómenos, de acordo com a sua ideologia e aversão ao socialismo. Se em certos aspectos acertou, noutros a sua cegueira ideológica levou-o a conclusões forçadas e desonestas.

A certa altura sugeri-lhe o artigo que ele agora refere sem indicar a fonte. Nunca chegou a devolver o repto e a comentar o artigo. Agora, acena-o como
bandeira do liberalismo. Aceite o seu desafio e leia o texto. Repare na última frase, à qual João Miranda não deve ter prestado muita atenção. Caso contrário repararia como essas palavras são destrutivas para o seu argumento.
Eu não fiz este comentário directamente no BdE porque deveria comentar
primeiro o post de João Miranda. Mas o seu blog não permite comentários
directos e visíveis para todos e eu não aceito intervir num espaço com essas
características. Por isso, se por alguma razão quiser responder a João
Miranda, não precisa de referir este comentário. Tudo o que está no blog
Picuinhas é suficiente para construir uma argumentação sólida.
(Carlos Miguel Fernandes)

Publicado por José Mário Silva às 10:22 PM | Comentários (20)

EM AUDIÇÃO

O regresso de Lhasa não defrauda as (enormes) expectativas de quem se rendeu à beleza estranha de «La Llorona». Cantado em três línguas (castelhano, francês e inglês), «The Living Road» tem lá dentro canções tristes, canções doces e canções desesperadas . além das que são tudo isto ao mesmo tempo. A voz continua uma coisa do outro mundo: mistura de fogo e ar, entre a lava e o basalto. Lhasa canta como quem já perdeu tudo na vida, menos a certeza de que o amor vale todos os sacrifícios: «tuve que quemarme/ pa'llegar hasta tu lado».
Mas nem só de paixão . e das respectivas cicatrizes . se faz o universo desta cantora, filha de pai mexicano e mãe americana. Lhasa de Sela também fala das fronteiras que separam as suas duas pátrias e de quem as atravessa. Leiam (e, já agora, oiçam):

LA FRONTERA

Hoy vuelvo a la frontera
otra vez he de atravesar
es el viento que me manda
que me empuja a la frontera
y que borra el camino
que detrás desaparece

Me arrastro bajo el cielo
y las nubes del invierno
es el viento que las manda
y no hay nadie que las pare
a veces combate despiadado
a veces baile
y a veces... nada

Hoy cruzo la frontera
bajo el cielo
bajo el cielo
es el viento que me manda
bajo el cielo de acero
soy el punto negro que anda
a las orillas de la suerte

Publicado por José Mário Silva às 07:04 PM | Comentários (7)

MAIS ITÁLICOS

O post anterior, brutal tanto no conteúdo como na forma, junta um novo nome ao cada vez mais vasto leque de itálicos do BdE: José Luiz Ferreira. Para nós, é uma alegria consultar o e-mail e descobrir, vinda nunca se sabe bem de onde, mais uma contribuição de um leitor desconhecido. Também é por isso que fazemos, às vezes com notórios sacrifícios de tempo, este blogue. É para ouvir . e dar a ouvir . as vozes deles. Chamem-lhe interactividade, partilha, o que quiserem, mas os itálicos serão sempre uma pedra-de-toque do BdE. E agora, ao melhor estilo dos anúncios televisivos da Força Aérea, fica o apelo: "Junta-te a nós, jovem; vem saltar connosco". O e-mail é o que está lá em cima, no cabeçalho: blogue_de_esquerda@yahoo.com. Apareçam.

Publicado por José Mário Silva às 01:46 PM | Comentários (0)

A DIREITA E OS SEUS "COMPAGNONS DE ROUTE"

Num ponto qualquer do planeta, um imigrante ilegal leva uma sova. Os agressores são compatriotas seus, e estão a sová-lo porque não receberam a percentagem do salário da vítima que tinham estipulado. Não querem saber de razões: o homem não paga o tributo exigido porque o patrão não lhe paga o ordenado. O patrão podia ter pago, mas não quis: montou o negócio precisamente para poder tirar partido da imigração ilegal, e não pagar faz parte da sua estratégia de empresa. É sub-empreiteiro dum sub-empreiteiro que por sua vez trabalha para uma empresa perfeitamente legal, com os impostos em ordem, a segurança social em dia, e sócios que são pilares da comunidade.

Noutro lugar, uma operária têxtil, ao fim de 14 horas de trabalho, tem a pouca sorte de bocejar . precisamente quando se encontra no edifício, numa das suas raras inspecções, um representante da multinacional para a qual a fábrica trabalha. O encarregado da secção impõe à operária uma multa equivalente a meio dia de salário por ter dado a entender que a firma a obriga a trabalhar demais.

A milhares de quilómetros de distância, o comandante dum navio que transporta mão-de-obra escrava é avisado pela rádio que as autoridades marítimas se preparam para enviar uma lancha da polícia ao seu encontro. Fecha os porões em que se encontra a mercadoria, abre as entradas de água para afundar o navio, mete-se num salva-vidas com a tripulação e umas semanas mais tarde divide com o armador a indemnização paga pelo seguro. Os afogados não têm sindicato.

Num gabinete com ar condicionado, um executivo lê numa revista a história dum adolescente africano que precisa duma prótese porque ficou mutilado por uma mina anti-pessoal. Comove-se. Envia um donativo. Com esse donativo e muitos outros, torna-se possível o rapaz deslocar-se à Europa, onde lhe é aplicado um dispositivo que é o último grito da técnica. Sem que este executivo o saiba, a mina foi produzida pela sua própria empresa. Entretanto, no país de onde o adolescente veio ficam milhares de outros, com mutilações iguais ou piores, que não tiveram a sorte de atrair as atenções da comunicação social.

Numa qualquer fronteira, uma mulher passa pelo balcão da alfândega com uma criança adormecida ao colo. Os guardas deixam-na passar: não querem acordar a criança. Mas a criança não está a dormir, está morta. Foi raptada por traficantes de droga, morta com uma injecção, as vísceras foram-lhe retiradas e o corpo recheado com sacos de cocaína. A operação foi preparada por um quadro intermédio duma enorme organização. No topo há gente que não sabe nem precisa de saber destes pormenores, gente que se isola do mundo com os seus jactos privados, aeroportos privados e exércitos privados, e só se dão com políticos e financeiros de primeiro plano.

No parque dum palacete, algures na Europa, um grupo de meninas e meninos são levados para um pavilhão discreto. As regras do jogo são-lhes explicadas: têm dez minutos para se despirem completamente e para se esconderem entre as árvores. A primeira criança a ser apanhada será morta, as outras serão apenas violadas.

Um pai e uma mãe procuram por toda a parte o filho desaparecido. Não sabem que já está morto, que o corpo foi bem escondido, que os rins, o fígado, as retinas, o coração, já estão congelados e a caminho das clínicas onde serão utilizados para transplantes, a peso de ouro.

Não, não vou dizer que é a direita quem comete estes horrores. As pessoas que os executam são demasiadamente profissionais, e as que lucram com eles demasiadamente pragmáticas, para terem posições políticas. E por outro lado, na sua enorme maioria, as pessoas de direita sentem perante eles a mesma revolta que qualquer outra pessoa sente. Mas as ideias têm consequências, as opções políticas têm consequências, as prioridades têm consequências.
É certo que uma coisa é cometer uma atrocidade, outra é criar as condições políticas para que outros as cometam. Mas as «causas» caras à direita . a defesa do segredo bancário, a preservação dos paraísos fiscais, os limites à migração legal, o proibicionismo em relação à droga, a desregulamentação das relações laborais, a liberalização dos movimentos de capitais, o desmantelamento do Estado . parecem constituir, no seu conjunto, um programa feito à medida do que mais interessa aos monstros. A tal ponto que poderia ter sido redigido por eles.
(José Luiz Ferreira)

Publicado por José Mário Silva às 12:32 PM | Comentários (29)

MINDELO

Regresso ao Mindelo para a despedida, depois de há duas semanas ter aqui passado uns dias muito culturais. As cidades portuárias têm a magia de parecermos viajantes em círculos, mas aqui seria um bom cais para ficar, nas intermináveis noites de morna, agora nostálgicas pela sôdade que já estou a sentir antecipadamente. Cidade de despedidas e reencontros. Com tanto potencial de coisas a fazer hei-de voltar em breve.

Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 11:11 AM | Comentários (0)

SE TIVER REALIZADO O CINEMAAMOR, É ELE

Boas notícias: o Jacinto (adivinho pelos fotogramas) Lucas
Pires é o novo Companheiro Secreto; e no mesmo blog, o Pedro traduz o poema do Montale de que o André Belo gostou no Abrupto. Parece-me muito bem.
Nota: a curta cinemaamor, Pedro, também tem uma parte no Metro... Isto está tudo linkado.

Publicado por Francisco Frazão às 04:39 AM | Comentários (0)

dezembro 08, 2003

CD NOSTALGIA

Após quinze anos de intervalo, regresso a um duplo álbum que preencheu muitas tardes da minha adolescência. E chego a algumas conclusões:

- a memória é uma paisagem confusa (sobretudo quando associada a certas músicas);
- as canções não envelheceram, se exceptuarmos um arranjo ou outro mais "datado";
- já me vai faltando a paciência, hoje, para os traumas, obsessões e delírios do Roger Waters;
- naquela altura, o David Gilmour ainda era apenas (ó benção dos céus) um grande guitarrista e não o líder pasteloso dos actuais PF;
- o grafismo do disco continua a parecer-me exemplar;
- a minha canção preferida já não é «Comfortably Numb» (muito por culpa do que lhe fizeram nas recentes gravações ao vivo) mas antes «One Of My Turns»;
- sim, sim, sim, admito que ainda sei (quase) todas as letras de cor

Publicado por José Mário Silva às 07:12 PM | Comentários (1)

PIOR DO QUE A DROGA

Não é necessário elaborar muito para qualquer pessoa minimamente atenta já ter percebido a perigosa hipocrisia que é para a saúde pública a persistência em enaltecer a indústria desportiva e os seus "ídolos".
Dos casos emblemáticos às estatísticas, é patente a corrupção moral e a degenerescência física que o desporto provoca quando praticado em excesso.
Faz pior do que o tabaco e a droga.
Para quando uma campanhazinha de sensibilização do dr. gentil?

Publicado por tchernignobyl às 03:30 PM | Comentários (6)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Nascido em Barcelona (1928), José Agustín Goytisolo foi, com Jaime Gil de Biedma, uma das principais figuras da chamada escola poética de Barcelona. Entre a ironia e o lirismo, Eros e a política, Goytisolo procurava sempre a «música interna» do poema. Alguns versos tornaram-se muito conhecidos («Palabras para Julia», por exemplo), mas o melhor da sua escrita está nos livros mais obscuros e nas estrofes em que se deixa tomar por uma espécie de tristeza luminosa. Traduziu Pavese, Pasolini e Quasimodo; introduziu em Espanha a poesia de Borges; destacou-se como crítico literário e antologiador. Morreu em 1999, após tombar de uma janela, em circunstâncias mal explicadas. Ou, como escreveu Arturo Montfort no seu In Memoriam, «mientras el viento doblaba las esquinas/ a las quatro de la tarde». Recupero aqui um poema do primeiro livro, «El Retorno» (1955).


CUANDO TODO SUCEDA

Digo: comience el sendero a serpear
delante de la casa. Vuelve el día
vivido a transportarme
lejano entre los chopos.

Allí te esperaré.

Me anunciará tu paso el breve salto
de un pájaro en ese instante fresco y huidizo
que determina el vuelo
y la hierba otra vez como una orilla
cederá poco a poco a tu presencia.

Te volveré a mirar a sonreír
desde el borde del agua.
Sé lo que me dirás. Conozco el soplo
de tus labios mojados:

tardabas en llegar. Y luego un beso
repetido en el río.

De nuevo en pie siguiendo tu figura
regresaré a la casa lentamente
cuando todo suceda.


Publicado por José Mário Silva às 02:48 PM | Comentários (0)

LINHAS DE TORRES

Um bocado chateado porque os meus posts estavam a dar a ideia de má vontade para com o siza, lá fui eu ontem de manhã apanhar com uma carga de água e inspeccionar a zona de Alcântara, ainda por cima despido, o mais despido de preconceitos possível, para aquele vento agreste e frio.
As minhas observações limitam-se a uma antevisão do impacto visual dos volumes que se anunciam e são as seguintes:
A zona de Alcântara está prestes a acabar tal como a conheceram as gerações presentes. Anuncia-se um terramoto e parte da .retoma. da construção civil vai forçosamente passar por aqui. O que não é necessariamente uma má notícia. A parte de Alcântara mais próxima do rio é hoje uma zona semi-abandonada, juncada de cadáveres do que foram as unidades fabris que deram à freguesia o seu cariz .operário.. Os edifícios abandonados, em decomposição ou em fase de demolição, vêem-se por todo o lado. Resistem uns restaurantes, umas boites e o Pingo Doce.

Nos terrenos de uma antiga fábrica, entre o Pingo Doce e o Largo de Alcântara, como ponta de lança da renovação da freguesia, temos um empreendimento de volumetria aceitável, com zonas ajardinadas e públicas (ou pelo menos de circulação pública), que ao contrário de outros, de configuração idêntica, não é um dos famigerados .condomínios privados..
Vista do lado do rio, não do meio do rio ou da outra margem, mas da zona das docas, a coisa até nem parece problemática. Não se tem a percepção da cidade por detrás das ruínas e a ponte dá-lhe .escala.. Tentei imaginar como ficariam as torres vistas dali e não me choquei especialmente, exceptuando o facto de taparem a vista de largo trecho da Avenida da Índia para o Palácio e jardim das Necessidades..
Estóico, já encharcado que nem um pinto (oops.. ia a dizer um peru... mas não era saudável) e arrostando pelo caminho com uma saraivada de granizo, dirigi-me ao alto de Santo Amaro, para observar o local de um ponto mais elevado.
A Capela fica num lugar alto mas ainda assim mais baixo do que o tabuleiro da ponte. Ora se o tabuleiro da ponte está a cerca de 60, 70 metros, julgo eu, se as torres chegam aos 105 metros, estão cerca de 30 a 40 metros ACIMA da ponte, na verdade pelo menos um terço acima da altura do tabuleiro da ponte.
Do terreiro da capela do Alto de Santo Amaro, olhei para os espaços entre os três pilares de betão, antes do rio, e visto dali, surge-nos a brutalidade da altura da parede que se vai levantar entre a zona do alto de Santo Amaro e da Ajuda e a zona ribeirinha e para Almada e o mar da Palha.
Para ter uma ideia mais concreta, vou tentar fazer uma pré-visualização do que serão as torres a partir do Alto de Santo Amaro e eventualmente de outros locais. Agradece-se a colaboração de quem tenha mais dados sobre este assunto, como plantas do local e da implantação do projecto, etc.

Publicado por tchernignobyl às 02:17 AM | Comentários (7)

FÁCIL DEMAIS

Uma borra de cronistas que voga à tona das páginas de opinião dos jornais de referência, bem como dos comentários televisivos, pretende tomar as rédeas da discussão sobre o .combate ao terrorismo., usando a expressão a torto e a direito como escudo para impedir qualquer discussão sobre a situação internacional.
Agora arranjaram um novo mantra, .o fundamentalismo nada tem a ver com pobreza, o Osama é muito rico, patati patata. e vão enquistar nessa mania de que a solução militar é a única solução e é possível uma solução militar. NÃO É. Já se percebeu que o fundamentalismo é uma coisa sinistra e que tem de ser combatida com medidas de segurança e eventualmente militares, mas a coisa não acaba aí e não se trata só de Osamas bin Ladens. Não são Osamas riquíssimos que transportam caixões dos filhos e dos irmãos pelas ruas poeirentas da Palestina.
É confortavelmente demagógico esse argumento dos .muçulmanos ricos. porque permite fugir à crítica de que a cupidez ocidental é também responsável pelo recrudescimento do fundamentalismo, ao mesmo tempo que se asseguram de que o debate continua nos terrenos mais académicos e reaccionários do .choque das civilizações..

Publicado por tchernignobyl às 01:22 AM | Comentários (2)

AFORISMO

O herói é um cobarde sem alternativas.

Publicado por José Mário Silva às 01:14 AM | Comentários (0)

OU VAI OU... RACHA

Do NYTimes, cito parte do artigo de Dexter Filkins, porque alguém que eventualmente me leia pode não estar registado no site do jornal (o que de resto é extremamente fácil).
"As the guerrilla war against Iraqi insurgents intensifies, American soldiers have begun wrapping entire villages in barbed wire.
In selective cases, American soldiers are demolishing buildings thought to be used by Iraqi attackers. They have begun imprisoning the relatives of suspected guerrillas, in hopes of pressing the insurgents to turn themselves in.
" (bolds meus)
Boa noção de "war on terrorism..."
Parece-me que deve ser já consensual: a esperança na euforia dos iraquianos pela chegada dos seus libertadores foi um flop grave, com que não contavam os mais pessimistas.
Não tendo sido recebidos com flores, condenados a andar clandestinos pelos cantos a comer peru impróprio para consumo, os americanos revelam a sua impreparação ou dependendo do ponto de vista, ao que vieram, ocupar o país, e como é lógico procedem como ocupantes.
Já parece que estamos nos territórios ocupados. Cercam-se povoações a arame farpado, e, mais incrível, prendem-se familiares de opositores que se usam como reféns, a pura e simples chantagem de gangster.
Daqui a pouco (até agora ainda não transpirou nada nesse sentido...), desatam a arrasar aldeias e regressamos aos tempos heróicos de Mylay ou da guerra da Argélia. (Hora de retirar das constituições referências anticolonialistas...)
Tudo isto, já sabemos por dezenas de anos de experiência na Palestina, onde leva:
A um estado de guerra interminável e implacável que implicará a "gazeificação" de partes significativas do Iraque, as mais populosas e pobres, enquanto a democracia vingará em zonas seleccionadas do território, para tranquilidade de consciência do pessoal que apoiou a intervenção que levaria a democracia à região do golfo. Para o conjunto do Iraque, a certeza da pilhagem dos recursos pelas potências ocidentais, a garantia da manutenção do atraso civilizacional, o agudizar do ressentimento e o aprofundar do fundamentalismo.
(já estou a ouvir os queixumes: a arrasar aldeias? nah foda-se pá isso é ressabiamento, enfim podem arrasar-se uma ou duas, mas era mesmo mesmo mesmo só para evitar a sov... er... talibanização do regime)

Publicado por tchernignobyl às 01:08 AM | Comentários (1)

NOTA SOBRE O CINEMA

Refere ainda o José Miguel Silva as "quase sempre risíveis realizações do cinema português", "sem falar das que nunca chegam a estrear, apesar de concluídas e subsidiadas". A primeira parte lembra-me uma citação do Godard que vi uma vez afixada numa parede e que continua a dar-me que pensar: "Se o filme que viste é mau, a culpa é tua. O que fizeste para que fosse melhor?" De qualquer modo, acho que as tais "risíveis realizações" (as minhas excepções não seriam exactamente essas) se tornaram de tal maneira um lugar-comum que das duas, uma: ou é mesmo verdade, ou já ninguém se dá ao trabalho de ir ver.
Isto leva-me ao artigo do Independente sobre os espectadores dos filmes subsidiados: é desonesto e demagógico fazer equivaler o financiamento obtido a um subsídio por espectador (embora ache bem que haja retorno se for caso disso). O que se pagou de facto foi o fabrico do filme e as pessoas que nele trabalharam. E não se aborda o problema fundamental do cinema português, que não é (até ver) a produção, é a distribuição e exibição, entregues ao monopólio do Paulo Branco e da Lusomundo. Um filme português que não tenha sido produzido pela Madragoa pode: a) negociar umas míseras duas semanas de exibição no King (que é onde o público procura este tipo de cinema), insuficientes e quase sem promoção; b) ir para o Corte Inglès ou as Amoreiras (onde se perde no meio dos blockbusters); c) ficar na gaveta. Como o subsídio é dado à produção, e como há um estrangulamento na distribuição, não faz sentido criticar as obras "que nunca chegam a estrear". Seja como for, parece-me uma atitude corporativa perguntar "quantas bolsas de criação literária vale o apoio a qualquer uma" das tais realizações cinematográficas. O risível é democrático e está em toda a parte.

Publicado por Francisco Frazão às 12:13 AM | Comentários (11)

dezembro 07, 2003

Ó TEMPO, VOLTA PARA TRÁS

Pois é a sina.
São desclassificados mais documentos dos arquivos de segurança nacional dos Estados Unidos e pronto; confirma-se aquilo que já se sabia e que os inocentes do costume ignoraram, desmentiram e classificaram de calúnias.
A ditadura argentina do videla (outro democrata... e dos grandes) teve luz verde do prémio nobel de 1973, henry kissinger, para actuar sem "problemas", isto é, assassinar e fazer desaparecer uns milhares de pessoas. Terroristas, claro, as vítimas são sempre terroristas.
Injustiças da história. À boa maneira da época do pacto germano-soviético, o bom Videla e a sua rapaziada impediam, à força de tortura e assassinato, uma hipotética "sovietização" da Argentina, enquanto estabeleciam acordos comerciais com os... soviéticos, e tanto bastou para que corresse o boato de que estavam mancomunados com eles. Felizmente, afinal não havia perigo de esquerdismos militares à peruana, os militares argentinos torturavam sim, mas com o beneplácito do mundo livre.
Vão fazendo backups dos blogues com posts e comentários sobre a questão do Iraque. E sobre as que se seguirem...
Daqui a dez ou vinte anos, quando forem desclassificados os documentos pertinentes relativos à tomada de decisão de se avançar com a guerra, voltaremos a discutir o assunto. Não é que não se tenha já percebido tudo, mas sempre ajuda ver as coisas escritas preto no branco.
O pior é que então, como sempre tem acontecido, já será tarde.
Tarde? Nem por isso. O que justifica o apoio de muita gente ao expansionismo militar da seita do Bush não é ignorância.
É a convicção de que os fins justificam os meios.
Contra todos os outros sistemas para os quais os fins justificam os meios.
O que é uma boa maneira de fazer voltar outra vez tudo à estaca zero.

Publicado por tchernignobyl às 11:44 PM | Comentários (5)

A CULTURA DA BATATA

Diz o José Miguel Silva: "a cultura não é uma batata." É verdade. Digamos que a recepção de um produto cultural e de uma batata funciona em temporalidades diferentes: enquanto as batatas apodrecem sem apelo nem agravo, as obras de arte têm um futuro mais complexo feito de leituras e releituras, esquecimentos e recuperações. Por isso o Miguel não tem razão quando, nos comentários a este post, depois de falar do "povo", diz: "Não faz parte do liberalismo alargar artificialmente o "leque de escolhas" nem impor, à sua custa, um determinado leque de escolhas que as pessoas (claramente) não desejam." Depois da falácia da "imposição" (como se alguém fosse obrigado a ver este ou aquele filme), eis a direita a propor a democracia directa, o referendo permanente a cada novo produto cultural... Mas não só há "pessoas" (chamo-lhes assim, se calhar faço mal) que desejam consumir produtos culturais que até foram subsidiados, como não é costume dizer-se de determinado leite (que tem tendência para azedar e é, ouvi dizer, subsidiado... mas disso não sei nada) que, à primeira vista, era pretensioso mas agora, dez anos passados, se revelou uma verdadeira obra-prima dos lacticínios. A função do Estado, ao apoiar a cultura, é abrir espaço a este desfasamento na recepção, permitir que se façam coisas que o puro comércio, que joga no lucro imediato, impossibilitaria. Trata-se de aceitar falhanços financeiros, esperando que não sejam falhanços artísticos: é uma aposta, falível, incerta, política. Antes, podem avaliar-se os projectos, com critérios objectivos e subjectivos; depois, os resultados, também com critérios objectivos e subjectivos . sempre de forma provisória, porque isto é mesmo assim. Como sou pessimista, acho que haverá mais mediocridade do que obras razoáveis, e muito poucas obras-primas. Mas reivindico o direito de "dizer mal" (de um livro, um filme, uma peça) sem com isso estar a pôr em causa a ideia de apoio cultural (o que seria chantagem).

Diz o José Miguel Silva: "a cultura não é uma batata." E é mentira. Sendo uma actividade humana, ao lidar com o mundo, com a matéria, a arte depende de condições de trabalho e de condições de produção. Por isso não tem razão o Miguel, nos comentários a este post, quando diz que "Quem quiser criar arte não-comercial poderá fazê-lo. Nenhum limite é imposto à criatividade." As obras de arte, para surgirem, precisam de esforço, dinheiro, trabalho; são, como as batatas, arrancadas à natureza (o mármore e a estátua, etc.). Nem a cultura, nem a agricultura, são "naturais"; nem sequer o mercado livre, mesmo que um bater de asas de uma borboleta na China provoque um crash em Wall Street; e ao contrário do que o Miguel possa pensar, quando diz que não cabe ao "liberalismo alargar artificialmente o 'leque de escolhas'". Eis o liberal apanhado na sua própria ratoeira, defendendo, em termos práticos, a redução da escolha cultural ao puro comércio e à boa vontade, isto é, àquilo que pode sobreviver no imediato só com o público e àquilo que pode sobreviver sem dinheiro (quase) nenhum. Faz como o Governo, ao passar para as universidades a (pois é) batata quente da definição do valor das propinas.
Tal como convém passar a ideia de que os estudantes gastam o dinheiro em copos e carros para esconder que as propinas compensam na exacta proporção o desinvestimento do Estado, também dá jeito o lugar-comum dos artistas como madraços "subsidiodependentes" deitados à espera da inspiração que não vem. Rasurando o trabalho, o apoio legítimo transforma-se em subsídio de desemprego. Acho, aliás, que os escritores devem ser pagos pelo trabalho de escrever livros e não com uma percentagem das vendas. Mas isto, que põe em causa a sagrada "protecção dos direitos de autor", é outra conversa.

Publicado por Francisco Frazão às 11:43 PM | Comentários (20)

DR. STRANGELOVE

Que o curriculum do sr kissinger é invejável, já todos sabíamos...
Todos? Enfim nem todos.
Há aí muita gente séria e honesta, amante da verdade e da justiça, que não embarca assim por dá cá aquela palha em acusações não devidamente provadas em tribunal.
Até ser considerado culpado, qualquer um é inocente.
E se alguém por qualquer motivo estiver fora da alçada de qualquer tribunal que poderia ter jurisdição para julgá-lo? Tanto pior... o que é como quem diz... tanto melhor.
Anda o juiz Garzón a emitir mandatos de captura contra ditadores celerados e torturadores, quando se sabe à partida que o mentor deles gozará de toda a impunidade à luz de um certo "direito internacional". Garantias de quem "trabalha" porventura sem olhar a meios (quem não tem cão, caça com o garrote, os choques eléctricos, a granada e a metralhadora) pela defesa da "land of the happy few free".

Publicado por tchernignobyl às 11:26 PM | Comentários (0)

FOGO

Supera todas as imagens que levava comigo. É uma imensidão de beleza, negra de lava, impossível de descrever. Lá em cima, na aldeia junto ao vulcão que dilacerou a terra pela última vez em 95, Chã das Caldeiras, sentimos que estamos num outro mundo, pela força da luz cuja intensidade faz arder nos olhos toda aquela negritude, as casas, a solidão e crueza que há em todos os lugares do fim do mundo. As crianças mulatas, com cabelos claros por causa dos antepassados franceses que vieram fixar-se nestas terras, brincam com uma imaginação profíqua. O nevoeiro cai ao fim da tarde e traz o frio dos lugares mais altos, contrastando com o calor de Cabo Verde. Mas ali o calor humano não escasseia e há códigos de honra muito específicos. A noite de quase lua cheia teve muito funana e morna, com violino, cavaquinho e viola e vozes roucas de grogue. Dançámos à luz de candeeiro a petróleo, não há electricidade e as pouquíssimas casas com gerador cobram 15 escudos para se assistir em grupo à novela brasileira. Depois, rodeados de montanhas, ouve-se o silêncio profundo da aldeia que dorme. E penso, no som dos meus passos na terra de lava solta, que este deserto negro, este chão bravo merece todo o amor.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 05:39 PM | Comentários (1)

PLÁSTICO

Folheia-se o Expresso com distância, porque até ali a leitura atenta já agonia.
Afinal, o peru era de plástico, fica a saber-se rápido na última página; os americanos encenaram uma operação em Bagdad, como quem filma os .Doze indomáveis patifes. ou .O Comboio apitou três vezes. ao melhor estilo de Hollywood, mas com menos cuidado nos adereços. Uma espécie de Pai Tirano à portuguesa, em que o telefone de cena é o verdadeiro, aparecem polícias e bombeiros e vai tudo para a esquadra com Vasco Santana e Beatriz Costa à cabeça, por debaixo de umas gordas letras brancas a dizer .FIM..
Neste caso, porém, para além do golpe, a tragédia continua, com episódios picarescos. O Presidente da República vai à Argélia e diz o que devia ter dito alto e bom som há muitos meses: aqui d.el-rei, o país bicéfalo não fala a uma só voz, e ainda por cima estão militares da GNR no terreno; para além do Dr. José Lamego.
Bom, quanto ao Dr. José Lamego, deixemos que a Dra. Ana Gomes trate do assunto e, por favor, deixem-na expressar livremente o pensamento.
O Presidente da República é uma desilusão há muito tempo; possivelmente esmagado pela situação do país . e faço-lhe a justiça de acreditar que tem mais informação que nós todos . deixou-se prender na teia do Governo e instrumentalizar a toda a hora; com Fuzeta da Ponte, foi o que se viu; com a invasão americana, um descalabro. Agora fala e a maioria parlamentar cai-lhe em cima, porque não tolera o contratempo; até Santana Lopes se dá ao luxo de zurzir um normal pronunciamento presidencial.

A GNR está no Iraque. Exigia-se, por isso, que, todos unidos, como irmãos, estivessem solidários com o Governo. Como golpe, não estava mal; mas o pessoal não é inteiramente burro e sabe que a solidariedade com os militares que é inabalável . seria interessante saber as razões que os levaram ao Iraque, apuradas em inquérito anónimo . não é extensível aos mandantes. Depois de se verem as provas, talvez; até lá, solidariedade zero, aconteça o que acontecer.
A GNR leva-nos para o caso da Brigada de Trânsito. Não há palavras para descrever o delírio. Falta que o advogado peça uma indemnização ao Estado! E que os tribunais reconhecessem o direito à indemnização! E que o Estado a pague!!
Assim vai o país de plástico. Mal?
Não de todo. Falta a edição especial de uma revista do jet-set com a fotografia oficial do Dr. Pedro Santana Lopes na Sala dos Espelhos do Palácio de Belém, e a legenda .Não serei só o Presidente de todos os veraneantes da Praia do Ancão.; e, já agora, uma chamada para as páginas interiores, com declarações em exclusivo de José Castelo Branco, sobre a nova moda em bijuteria masculina.
Marcello Rebelo de Sousa votava branco; eu preto.
Mas atenção, o golpe é muito mais profundo do que pode parecer. E é preciso que o Prof. Cavaco Silva, que não está do lado de lá, seja chamado de urgência para o lado de cá.
Uma palavra de tranquilidade para os Açores: calma! Se chegarem a prender duas ou três figuras de terceiro plano, não percam a cabeça. Em meia dúzia de meses estão todos (ou quase) cá fora. Basta que pague um.
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 05:12 PM | Comentários (0)

ALDEIA DA LUZ (3)

O coro canta. Alteia-se a voz do homem que ainda há cinco minutos, espreitando o relógio, dizia ter palha para dar às vacas. Presto agora atenção aos textos e compreendo um pouco melhor as contradições de quem abandonou, a contra-gosto, a velha aldeia. Enquanto uma canção se rende às virtudes de Alqueva (esse "grande lago" que há-de criar um mítico "Alentejo todo regado"), a seguinte lamenta a sorte dos luzenses, nostálgicos da "aldeia afogada", da "terra mais linda de Portugal", a "Luz do nosso coração". Tese e antítese . mas o tom da música, arrastado, melancólico, não varia.

Publicado por José Mário Silva às 12:55 PM | Comentários (0)

ALDEIA DA LUZ (2)

O edifício da Junta de Freguesia da Luz é moderníssimo (talvez moderno demais: o terraço inclinado, com gravilha, assusta visivelmente quem conhece o canto dos pássaros no campo, ou a cor da terra coberta de geada, mas nunca ouviu falar de Siza Vieira). Lá dentro, durante a apresentação do livro do Carlos Soares («Tempo Habitado», edição de autor), uma dúzia de homens reúne-se para cantar. Todos eles fazem parte do coro da aldeia e as suas vozes traem um amadorismo que, no caso do canto alentejano, apenas reforça a sua força, a sua emoção genuína. Mesmo partidas, ou ligeiramente desafinadas, as vozes deixam no ar, pairando, a sombra de uma tristeza imensa. O eco secreto da planície. Um arrepio.

Publicado por José Mário Silva às 12:25 PM | Comentários (0)

ALDEIA DA LUZ (1)

A poucos quilómetros de Mourão, ergue-se a nova Aldeia da Luz. A outra, a antiga, está no fundo da albufeira, um contorno de casas sob as águas, a ganhar o tom verde dos limos. Esta é alentejana na forma . casas baixas, caiadas, com barras de cor . mas não sei se é alentejana lá dentro. As pessoas, por enquanto, parecem estranhar. O Carlos Soares, fotógrafo que captou as últimas festas e procissões, antes da mudança, diz que as pessoas já não se sentam à porta, ao fim do dia, gozando o fresco e vendo quem passa. Os laços de vizinhança alteraram-se e, nalguns casos, perderam-se. Construir uma aldeia de raiz, com casas melhores e mais bem equipadas, leva alguns anos (e a EDIA fê-lo razoavelmente bem). Mas quantas gerações serão precisas para a habitar, no verdadeiro sentido da palavra?

Publicado por José Mário Silva às 12:13 PM | Comentários (2)

dezembro 06, 2003

COMENTÁRIOS

O imperdível avatares de um desejo sofreu uma deriva esquerdista e instalou um sistema de comentários. Boa, Bruno, assim mesmo é que é. Vemo-nos na próxima manif?

Publicado por José Mário Silva às 11:27 PM | Comentários (0)

BOLSAS

Desta vez na qualidade de itálico, José Miguel Silva responde a algumas questões da polémica levantada com a sua carta de sexta-feira:

Sobre a questão das Bolsas para a Criação Literária, e na impossibilidade de elaborar agora, por falta de tempo e paciência, um texto argumentativo, limitar-me-ei a alinhavar algumas proposições, aparentemente desconexas, que traduzem aquilo que penso acerca desta magna questão:

0. A questão das Bolsas de Criação Literária (B. C. L.) não é uma magna questão. No oceanário dos subsídios à cultura em Portugal, os dez tostões reservados a B. C. L. representam nem sequer uma sardinha, mas uma alga murcha, ou coisa que o valha. Para quê, então, tantas ondas? Alguém me sabe responder?
1. As B. C. L. não fazem escritores.
2. Quem precisa de escrever, fá-lo, com maior ou menor sacrifício. Nem que para isso tenha que abdicar de tudo o resto: família, saúde, conforto, viagens, vida social, etc., etc.
3. O desconforto adicional que tal renúncia implica vai ser acrescentado ao sofrimento comum que o escritor, como homem, partilha com todos os outros indivíduos da sua espécie.
4. Do sofrimento verbalmente organizado retirarão estético deleite os felizes vindouros, nós todos.
5. Aos autores que nos proporcionam tais delíquios restou em vida, muitas vezes, a miséria extrema, a humilhação, o cárcere, o desprezo.
6. Escritores que nada ganharam com a sua obra, conquistada a ferros, servirão depois de mortos para alimentar os pequenos dráculas da chamada indústria cultural: editores, livreiros, críticos literários, professores, animadores culturais, etc. etc. Vivem todos, uns bem, outros melhor, do defunto. E não digo que tenham culpa. Mas há pequenas insignificâncias que convém lembrar aos distraídos. A primazia no âmbito da produção cultural pertence ao criador.
7. «Mas as coisas são mesmo assim, ou não?» dizem todos. «Nem podia ser de outra maneira!» Não podia?
8. Alguns escritores não foram obrigados, felizmente, a passar pela miséria absoluta para escreverem a sua obra. Porque tiveram a sorte de nascer herdeiros, ou de achar um patrono aristocrata, ou de encontrar em vida público leitor em número suficiente para poderem viver de direitos de autor, ou uma alma caridosa que lhes providenciasse um qualquer emprego divertido e com isenção de horário.
9. As condições materiais para se escrever uma obra literária são, fundamentalmente, três: caneta, papel e tempo. As duas primeiras são baratíssimas. A terceira é muito dispendiosa. Uma B. C. L. destina-se essencialmente a providenciar esta última.
10. Uma B. C. L. não é uma sinecura. É um apoio específico, temporário, destinado a prover a uma necessidade imediata e tendo em vista a produção de algo (uma determinada obra literária) que mais ninguém pode produzir.

11. A criação literária, ao contrário do que pensam os que nada sabem dos assunto, é uma actividade altamente especializada, que requer uma competência técnica idêntica à de qualquer campo da investigação científica.
12. Os autores de «The Waste Land», «Fin de Partie», «Ordens Menores» ou «Pan Cogito» deviam ser considerados benfeitores da humanidade. As suas realizações são mais belas do que o binómio de Newton e permanecerão mais tempo na memória dos vivos do que as façanhas de qualquer Expo-98.
13. Ninguém acha que alguém possa ser arquitecto, ou futebolista do Real Madrid, ou investigador em ciência, em horário pós-laboral, depois de ter cumprido as suas oito horas atrás de um balcão ou de uma secretária.; se não tiver, em suma, dedicado a maior parte da sua vida a aperfeiçoar as competências e os conhecimentos nesse seu respectivo domínio.
14. Mas escritor, ao que parece, qualquer um é: basta ter à mão caneta e papel . . .
15. Se o sonho de alguns utopistas fosse realizável, poderíamos todos dedicar boa parte dos nossos dias ao ócio. Então, os predispostos ao estudo, escreveriam, os predispostos ao snowboard deslizariam, e a ninguém ocorreria o absurdo de requerer B. C. L.
16. Mas quem trabalha sabe como a vida profissional representa um contínuo esmagamento de potencialidades humanas. E não apenas nos domínios estéticos ou lúdicos. Para a maior parte dos portugueses, pura e simplesmente, não resta, após dez horas de lides laborais, outra possibilidade que não a de cair morto no sofá. E entre essa massa de condenados à indigência cultural encontram-se também pessoas que gostariam de não ser obrigados a sacrificar, sempre, mulher e filhos para fazerem aquilo que precisam de fazer: ler, escrever e pensar.
17. Em Portugal, por razões que se prendem com a demografia e o sempiterno atraso cultural, ninguém vende livros suficientes para poder viver disso. O mesmo se passa com outras actividades económicas, para as quais sempre se arranjaram medidas de carinhoso proteccionismo. É um erro, diz a doutrina liberal: o mercado deve ditar as suas leis e os mais fracos que cresçam ou então desapareçam. Talvez os liberais tenham razão quando se referem com essas teorias, à produção de batata. Mas a cultura não é uma batata. E deve ser protegida pelo seguinte: não podemos deixar na mão dos espanhóis ou dos alemães a produção da literatura nacional. Se outras razões não houvesse, bastaria esta: a esmagadora maioria dos alemães e dos espanhóis ignora o funcionamento da língua portuguesa. Nunca poderia substituir-se a, por exemplo, Armando Silva Carvalho e o seu .Lisboas. (obra escrita com o apoio de uma B. C. L.)
18. Em Portugal há organismos que atribuem bolsas para teses de doutoramento cuja inanidade intelectual é sobejamente conhecida. Alguém as contesta?
19. Quantas B. C. L. vale o apoio a qualquer uma (Oh céus! No que eu me vou meter!) das quase sempre risíveis realizações do cinema português? (E não estou a falar de João Botelho, Paulo Rocha, Pedro Costa e J. César Monteiro). Sem falar das que nunca chegam a estrear, apesar de concluídas e subsidiadas.
20. Mas ainda bem que há subsídios para o cinema português, que de outro modo não existiria. Quem diz cinema diz todas as demais actividades culturais sem viabilidade financeira. Se lamento a qualidade média do cinema português, só tenho a fazer uma coisa: não ir ver.
21. Também nunca utilizarei as facilidades da auto-estrada para o Algarve, ou do Euro-2004, e ajudei a pagar essas coisas. Paciência.
22. Argumentam alguns que devem ser os mecenas industriais, e não o Estado, a atribuir esse patrocínios. Mas de onde vem o dinheiro canalizado para tais mecenatos? Em última análise, do erário público. Também. Por isso, onde está a diferença? Uma caderneta de cromos do Sandokan para quem me der uma resposta cabal a esta pergunta.
23. E porque já estou cansado e esta pretensa celeuma é de uma chochice sem remédio, por aqui me fico. Good night, sweet ladies, good night.
(José Miguel Silva)

Publicado por José Mário Silva às 11:20 PM | Comentários (11)

O ÚLTIMO METRO

Caro Pedro, assim de repente, filmes portugueses com metropolitano dentro estou a lembrar-me do Corte de Cabelo de Joaquim Sapinho, do António, um Rapaz de Lisboa de Jorge Silva Melo e de uma curta de Sandro Aguilar, Estou Perto. De certeza que há muitos mais, e com autocarros, táxis e cacilheiros também. Claro que isto não prova nada, nem sobre o cinema português, nem sobre os transportes públicos.

Publicado por Francisco Frazão às 10:52 PM | Comentários (3)

ROTHKO


Hoje o céu tenta imitar as cores de uma tela de Mark Rothko, mas não consegue.

Publicado por José Mário Silva às 11:56 AM | Comentários (1)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (2)

Continuamos este sábado a publicação semanal de um texto inédito do musicólogo António Correia Guerreiro, sobre um compositor contemporâneo pouco conhecido: Arnon Maarten. Eis então a análise da primeira das 49 obras que Maarten nos deixou:

Peça para piano Op.1, de 1961 (8 min)
1 andamento: Allegro

Esta é a primeira composição que Arnon Maarten não eliminou durante a sua vida, sendo pois a primeira (cronologicamente) que o autor considerou "capaz de não [o] envergonhar".
Todas as obras que o compositor escreveu durante os seus tempos de estudante e os primeiros anos como professor foram eliminadas numa altura ou noutra, tendo esta pequena peça sobrevivido, apesar de mais tarde o próprio Arnon Maarten ter considerado que este seu Op. 1 continha "claramente notas a mais", o que o levou a rever profundamente a obra em 1971 (dez anos após a sua composição).
Apesar disto e contrariamente ao que o compositor optou por fazer tantas outras vezes (ou seja, alterar uma determinada obra, mantendo-lhe o número e a data inicial da sua composição), Arnon Maarten manteve o seu Op. 1, numerando a sua Revisão do Op.1, como Op. 28.
Nesta peça para piano nota-se aquilo que o próprio compositor designou como a "influência de uns pais matemáticos, viciados na lógica implacável desse conceito abstracto a que chamamos números". O Op. 1 é então uma "peça sem sentimentos nem emoções, toda ela produto cerebral frio e seco, transmitido a dedos mecanicamente capazes".
Apesar de podermos considerar as opiniões de Arnon Maarten demasiadamente duras (como já vimos o compositor manteve uma opinião algo dividida sobre esta peça, aparentando nunca ter conseguido chegar a uma completa aceitação ou negação da obra, pelo menos até à sua revisão, uma década após a composição inicial), é verdade que esta é uma peça de juventude (o compositor tinha à data da sua composição, recorde-se, 28 anos) com óbvias referências a um estilo Bach-Webern.

É, contudo, uma peça alegre e ligeira, uma fuga bem escrita do ponto de vista técnico e formal, sem recurso a soluções fáceis nem a virtuosismos gratuitos (é, de resto, uma peça de interpretação não especialmente difícil), mas sem demasiados rasgos criativos ou a manifestação de uma personalidade musical muito marcada (o que pode ser considerado normal para uma obra precoce). A partitura possui a indicação para ser tocada sem recurso a qualquer pedal, o que lhe dá um carácter "de pequenos saltos numa folha quadriculada, quase como se se tratassem de dados agrupados para formarem um gráfico de uma qualquer função lógica, com assimptota em mais infinito".
Pela relação que o compositor veio mais tarde a manifestar com esta peça para piano, Op. 1, parece que a mesma terá funcionado como uma semente fundadora, que estabeleceu um limiar mínimo, abaixo do qual Arnon Maarten "jamais transigiria em descer, não [...] sendo mais permitido fazer pior".
Esta noção de caminho para a perfeição foi, como se verá, muito marcada na primeira das três fases do compositor (entre 1961 e 1980), que decorrerá até Arnon Maarten considerar que "finalmente [encontrou] a minha voz pessoal e única". Esta primeira fase é não só a mais longa (quase 20 anos), como também a mais produtiva, com a criação de um total de 36 composições.
O Compositor diria do seu comportamento nesses anos que era "frenético, talvez em demasia, muito preocupado com a música e menos com as pessoas, apenas salvo devido à infinita bondade e inumana paciência da minha Nadine".
Esta fase inicial termina com a primeira grande e profunda revisão que o compositor faz da sua obra (nos anos 1979 e 1980), que lhe permitirá "começar a compor apenas bem e só o que for interessante".
Como veremos, a segunda fase de Arnon Maarten será a mais curta (4 anos e 5 obras), caracterizando-se por possuir 3 obras interpretadas em vida do compositor (o que é, proporcionalmente, muito mais do que acontece na primeira fase - 5 obras interpretadas em 36 compostas - e ainda mais na derradeira etapa, em que não dá a conhecer ao público nenhuma das suas composições). A segunda fase será pois a de um compositor confiante e ansioso por se dar a conhecer e impor, apesar de, aparentemente, esta necessidade se ter satisfeito muito rapidamente.

Publicado por José Mário Silva às 11:50 AM | Comentários (3)

RUMSFELD NÃO FICA ATRÁS DE BUSH

Se um diz mata, o outro diz esfola. Na Administração Bush, ninguém quer ficar atrás de ninguém. Vai daí, depois da heróica e muito secreta visita de George W. a Bagdad (tão secreta que nem sequer teve tempo de falar com os iraquianos libertados), Donald Rumsfeld também se meteu num aviãozinho e foi tomar o pequeno-almoço com as tropas americanas, em Kirkuk. Tendo em conta os precedentes, os magalas engoliram em seco quando viram as travessas cheias de donuts muito brilhantes e fotogénicos, embora só alguns se tenham queixado do sabor do poliuretano. Esta tarde, espera-se a chegada de Condoleezza Rice a Bassorá, em mais uma viagem-relâmpago, obviamente sem fins políticos. Num hangar cedido pelos ingleses, será organizado um tea party, com Coca-cola em vez de Earl Grey e Big Mac's em vez de scones. Big Mac's de plástico, claro está (se me é permitida a redundância).

Publicado por José Mário Silva às 11:43 AM | Comentários (7)

LANÇAMENTO DUPLO

O livro chama-se «Tempo Habitado» e reúne imagens que o fotógrafo Carlos Soares foi recolhendo, entre 1999 e 2003, na Aldeia da Luz, aquela pequena povoação submergida pelas águas da barragem do Alqueva. O lançamento, que tentarei não comprometer com as minhas breves palavras, será feito às 15h00, na nova aldeia construída de raiz (mais precisamente na Junta de Freguesia da Luz). Para os lisboetas, está marcada uma outra sessão, ainda hoje (21h30), na Ler Devagar, ao Bairro Alto.

Publicado por José Mário Silva às 11:28 AM | Comentários (0)

À PROCURA DE NEMO

Chegado há cinco minutos da sessão da meia-noite, deixo só uma primeira palavra: G-E-N-I-A-L.

Publicado por José Mário Silva às 02:40 AM | Comentários (7)

dezembro 05, 2003

EPIGRAMA

Cá vai então o epigrama do José Miguel Silva:


SUBSÍDIO NÃO, SINECURA SIM

O poeta ministeriável e o ex-intelectual
béu-béu vieram esta semana à banca de cena
defender o liberalismo cultural.
Porque estão fartos, dizem, de subsídios
atribuídos a gente sem talento nem
empresas e quem quiser fazer arte
que a sofra. Pois o Camões o Cervantes
o Van Gogh emagreceram da cal
que o regime amassou e foi
muito bom, deram óptimos cadáveres,
finos como puas; que enquanto o pau
vai e vem folgam as tintas as prosas os poemas
e a arte assim, dizem, é que tem mercado.

Após o que regressaram ambos
aos seus desconfortáveis gabinetes
europeus. Onde, nos longos intervalos
do bocejo político, aproveitam
para dar um novo lanço às respectivas
chefs d'oeuvre: mais um ciclo de sonetos
sobre a arte do soneto vagamente soporífero
ou o nono tomo de uma biografia política
que nem ao biografado interessa.

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (0)

UMA CARTA DO QUASE HOMÓNIMO

Do José Miguel Silva, excelente poeta e colaborador bissexto do BdE, recebemos uma carta privada que decidimos publicar, com a devida autorização, por contribuir para a discussão em curso, aqui e noutras paragens da blogosfera, sobre a questão dos subsídios aos escritores. Ei-la:

«Caro José Mário,
Envio-te mais um epigrama de nada, já antigo, mas ao qual acontecimentos recentes talvez confiram uma certa actualidade.
Uma das coisas que mais dá vontade de rir em certos apóstolos do liberalismo (económico) radical é a figura triste que fazem quando expressam a sua virtuosa indignação por essa abominável entidade que é o subsídio às actividades culturais. À maior parte deles nem vale a pena lembrar o apoio de que padeceram (ou não), sob a forma de patrocínio ou outra, os Mantegna, os Purcell, . poder-se-ia enumerar aqui toda, ou quase toda, a arte ocidental produzida entre o tempo de Cimabue e o de Mozart (pelo menos) . do nosso actual contentamento. Não vale a pena lembrar-lhes porque é uma gente, salvo as notórias excepções, profundamente ignorante e a quem a cultura mete medo. Não sabem para que serve, nem como funciona. Têm receio de não a saber desligar, ou que lhes devore o futuro, ou que lhes provoque uma doença triste.
Até aí, tudo bem. A cultura pode ser de facto perigosa. Não podemos deixar de dar uma certa razão aos seus timoratos pontos de vista. Quem nasceu para lagartixa, como diz o povo, nunca chega a jacaré (e as lagartixas também são necessárias, digo eu).
Não me irrita, pois, que eles afirmem ser contra os subsídios. O que me irrita é isso ser mentira. Porque eles não são contra os subsídios. São, sim, contra os subsídios à cultura. Se for para subsidiar uma cimenteira, uma universidade privada, uma fábrica de rolhas, uma empresa de telecomunicações (pior ainda, um "jovem desagricultor" ou um pescador em terra) . nihil obstat.
Mas escritores??? Cineastas??? Companhias de Teatro??? Horror!
Enfim,
um abraço, fica bem,
Miguel»

Publicado por José Mário Silva às 11:47 PM | Comentários (12)

BLOGALIZAÇÃO ACELERADA

Apraz registar a saudável disseminação de conhecimentos e influências através dos mais insuspeitos recantos do planeta bloguístico.
Então não é que na sua crónica de ontem no público, o pacheco fala "da economia no seu sentido da auto-organização do povo português"?
Como o resto do texto é a habitual charada injectada de duplicidade, fico com dúvidas se não será esta mais uma "buzzword", uma peça a juntar ao invejável puzzle umbiguista e megalómano do virulento deputado.
Mas que a expressão traz um cheirinho indelével da feromona da formiga, lá isso traz. E quem sabe, talvez com o tempo, aos bocadinhos, com o avolumar das iterações, assistamos à emergência de perpectivas menos direitistas lá para os confins mais agrestes da blogosfera.
Surpresa, surpresa da última hora: abro o abrupto para sacar o link e inserir no post de acordo com a praxe, e o que vejo no topo?... Um post com uma bonita imagem sob o título "passamos e agitamo-nos debalde", uma expressão com o mesmo sentido que o célebre palíndromo 'In girus imus nocte et consumimur igni' que é também o título de um livro e um filme de Guy Debord. Será tudo obra do acaso?
Atendendo à inesgotável vitalidade intelectual do autor do abrupto e alertado para a sua duplicidade encartada, vejo um outro sentido para o título do post: "Vocês, olhem, deixem isto, que isto não dá para nada, esta vida são dois dias para que se anda um gajo para aqui a chatear com a cadela da política?", enquanto vai fazendo pela vidinha e espalhando a sua mensagem aos crentes.

Publicado por tchernignobyl às 02:17 PM | Comentários (5)

ABRE-ME UMA JANELA NISSO, PÁ

No Porto, os problemas na Boavista são como as cebolas, vêm uns a seguir aos outros... O arquitecto Rem(brandt) Koolhas, habitualmente conhecido por lidar, actuar e em último caso propor cenários de catástrofes, encheu-se de brios e reclamou que lhe estavam a tapar as vistas, como qualquer normal cidadão que compra gato por lebre e lhe constroem um outro mamarracho à frente, tirando-lhe a vista para o mar.
O despautério foi tal que alguém chegou a propor que corressem com o arquitecto Ginestal Machado (que coitado, se limitou a projectar mais do habitual mesmo, um caixote com fachada envidraçada incluída, devolvendo ao Rem a fauce escancarada da casa da música) e CHAMASSEM O SIZA (ehehehehe).
Agora surge o corte inglés a querer fazer um edifício na mesma Rotunda da Boavista, com a mesma altura e o dobro da área de construção, o que segundo alguns vai "matar" o projecto de Koolhas.
Ainda se está no começo, e já a mania das excepções "de qualidade" mostra o caminho para o cenário que se prepara nas nossas cidades, às mãos de autarcas e promotores imobiliários irresponsáveis e oportunistas. No Porto, pelos vistos, ainda existe de momento a oposição de rui rio que, mal por mal, e por muito que se discorde da sua actuação noutras áreas, ainda consegue dar algumas no cravo. Mas o que se prepara para acontecer a Lisboa, às mãos do santana lopes?

Publicado por tchernignobyl às 01:46 PM | Comentários (6)

OPORTUNIDADES, CHEGA PARA TODOS

Vai ser uma das polémicas dos próximos tempos, a súbita reconversão do decano arquitecto siza à erecção de torres.
Alguns, como o domingos (a quem agradeço o comentário ao meu post Requalificar sim mas a todo o vapor), argumentam que o tamanho e a localização do edifício não importam, o que interessa é a sua "qualidade" estética e urbanística . assegurada à partida no caso vertente, e que isso prevalece sobre os instrumentos de planeamento.
A meu ver está por demonstrar a qualidade urbanística de qualquer projecto que proponha uma volumetria de pelo menos 150.000 metros quadrados de área de construção numa área de quatro hectares e meio (45.000 metros quadrados), ou seja idêntica à do Terreiro do Paço, seja essa volumetria em altura em largura ou em profundidade (mal por mal, ao menos que seja em profundidade), numa zona perto do centro de Lisboa, onde se configura um cenário de crescimento explosivo de novos empreendimentos (demolição de quarteirões na parte baixa, na zona da Rua Fradesso da Silveira; proposta de ambicioso plano de pormenor na zona mais alta) e junto a um acesso já de si bastante movimentado.

Façam as continhas e enumerem as áreas disponíveis para as zonas verdes que sobrarão (se é que serão realmente zonas verdes públicas), ou ainda, reflictam no preço a pagar pela cidade (sobretudo aquela zona da cidade e as colinas envolventes) para se poder ter, como diz o arquitecto siza, uma zona verde pública de 3,5ha (se é que vai ser verde e pública...).
Por um lado acho bom que o argumento da qualidade seja agora invocado, quando a prática corrente é a de se deixar construir qualquer coisa, independentemente do seu carácter inestético, desde que cumpra os regulamentos. Resta saber QUE estética? Espero algumas pistas de uma pessoa realista como o... Real, a quem agradeço também o comentário e a quem voltarei noutro post.
Por outro lado, regista-se que se mantém a norma vigente neste momento em Portugal: altera-se um instrumento de planeamento, neste caso o PDM da cidade, porque o seu presidente se afeiçoa a um projecto que o viola. Basta introduzir nas alterações previstas o conceito oportuno de "áreas de oportunidade", bela formulação.
Depois, há esta mania inventada pelo saudoso Abecassis, numa situação realmente de excepção, mas que com a insistência se começa a revelar como a bóia do chico esperto, que é a de se resolverem os problemas atirando para a frente com nomes sonantes. A esperteza saloia de santana lopes revela-se na ausência de qualquer critério. Entre o gehry e o autor do bonjour tristesse, é como escolher entre o pai natal e o frankenstein, ou vice-versa. Só lhe interessa o nome, desde que tenha garantias de que é um passaporte para a anuência acarneirada da "intelligentsia" da arquitectura.
Talvez isso justifique, aliás, à mistura com o "sentido de oportunidade", o odor agridoce a farisaísmo que se desprende de algumas das respostas dos arquitectos recentemente inquiridos pelo Público a este respeito.
Neste quadro de "excepção", como vai passar a ser determinado o critério de aprovação de projectos? Pelo nome dos arquitectos? Pelo peso comercial e político dos promotores? Um Valssassina já dá para ter torres? Em Lisboa ou no Cartaxo? e os irmãos Mateus? Põem-se os nomes dos nossos arquitectos preferidos, namoradas e namorados, amigos e família, e enviamos petições à ordem dos arquitectos e à Câmara? Ou abrimos caminho à maradona, de "daisy cluster" e cogumelo em punho? Pelo menos que os cogumelos sejam acompanhados de morcela assada, com tintol a condizer.
A mim, palpita-me já que vai haver aqui muito molho.

Publicado por tchernignobyl às 12:22 PM | Comentários (1)

POSTAL DA HOLANDA

O nosso amigo Jean-Luc, desterrado no país das túlipas, dos diques e das "laranjas mecânicas", enviou-nos uma curta mensagem por e-mail, apelando à leitura (acaso falássemos neerlandês) de um artigo publicado na secção económica do jornal Volkskrant. Felizmente, imaginando porventura a nossa incapacidade de perceber três palavras seguidas na língua de Slauerhoff, o J-L sintetizou, por tópicos, o que o texto explica em detalhe. Transcrevo:

«Resumindo, na Holanda:
1. O desemprego deverá subir a 7%
2. O défice será de 3% (o previsto era 2.7%)
3. Défice esperado para o ano: 3.25%
4. O PIB encolhe 0.75% (terceiro pior resultado desde a II Guerra Mundial)

A única boa notícia diz respeito à inflacção, que deve descer para menos de 2%.
Pois bem. Sabem qual foi o principal ponto de negociação para a formação do governo, ponto de honra mesmo, da actual coligação de direita no poder? Nem mais: o controlo do défice.
Aqui, como aí, os resultados foram desastrosos. Manuela e Gerrit, a mesma luta.»

Publicado por José Mário Silva às 12:20 PM | Comentários (1)

EXPOSIÇÃO

Esta tarde (18h00) é inaugurada a exposição «Pinturas Voronoi», de Leonel Moura, na Sala do Veado do Museu de História Natural (R. da Escola Politécnica, 58, Lisboa). As novas obras de LM podem ser vistas até 3 de Janeiro.

Publicado por José Mário Silva às 10:57 AM | Comentários (0)

HÁ SEMPRE ESPERANÇA

Sentes-te só? Não desanimes.
A solidão só existe na tua cabeça. Sim, és barrigudo, careca, feio e grunho, estás envelhecido, agarrado à bebida, teso e cansado?
Não desistas, tenta, tenta sempre, ATREVETE como dizem os espanhóis, existe sempre alguém, e alguém surpreendentemente atraente, que contra todo o desesperante bom senso semanalmente vomitado pela chamada "imprensa mundana" te vai achar o ser mais encantador e merecedor da sua atenção.
Nem mais, nem menos.
É uma questão de probabilidades.
Oh, provavelmente a julia roberts da amadora vai passar por ti sem te ver vezes sem conta, és invisível para ela e muitas outras, a cindy crawford do modelo da damaia não responderá nunca às lancinantes mensagens de sms.
Mas um dia qualquer, depois de teres perdido as ilusões mais de cem vezes, mais de duzentas (depende um pouco do teu grau de parolice e mau aspecto geral, é certo, lembra-te que é uma questão de probabilidades), até pode estar a chover, numa esquina da baixa, na bicha para a sessão do king ou ao balcão da zara, não interessa, ela irromperá pela tua vida.
Põe-me os olhos neste caso. Um caso patético, perdido, dir-se-ia. Pois não sei o que ELA viu nele, é a nossa reacção imediata, mas onde é que já se viu assim a mulher mais poderosa de um país desatar sem qualquer razão aparente a dar prendas muito caras?

Publicado por tchernignobyl às 10:47 AM | Comentários (3)

INCONFIDÊNCIA

Este rapaz está hoje de parabéns. E não é só pelo que escreve.

Publicado por José Mário Silva às 10:27 AM | Comentários (3)

FALTAM 20 DIAS

Na rua, vejo uma banca cheia de bonecos. São rídiculas imitações do Pai Natal, sucedâneos de plástico made in China. Em vários tamanhos, dobram-se, dançam, bamboleiam-se e tocam, em improváveis instrumentos (violinos, guitarras, saxofones), uma versão electrónica do Jingle Bells.
Confirmo: não há época mais deprimente do que esta.

Publicado por José Mário Silva às 10:23 AM | Comentários (2)

dezembro 04, 2003

VERSOS QUE NOS SALVAM

Manuel António Pina acaba de publicar, na Assírio & Alvim, um extraordinário volume de poesia («Os Livros»), sobre o qual teci algumas considerações num artigo publicado hoje pelo DN. O essencial, porém, tende a escapar entre as malhas largas do discurso crítico. Porque o essencial, em Manuel António Pina, está sempre nos versos e no que eles revelam (ou escondem).


SEPARAÇÃO DO CORPO

O corpo tem abóbadas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue e nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.

Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais . pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar .
do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.

A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.

Corpo, corpo, porque me abandonaste?
«Tomai, comei», pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras.

Publicado por José Mário Silva às 11:59 PM | Comentários (0)

PRÉMIO

Leopoldo de Luis é um homem simples, um poeta simples, um crítico literário simples. Simples no sentido de humilde. Durante a Guerra Civil espanhola, lutou contra as falanges franquistas. Foi corajoso, nos momentos em que a coragem é mais do que uma simples virtude. Escreveu sempre, mais para os outros (e sobre os outros) do que para si (e sobre si). Defendeu uma poesia social, preocupada com a condição humana. Na última terça-feira, ganhou malgré lui o Prémio Nacional de Letras, um dos mais importantes atribuídos em Espanha. E nós ficámos felizes, coisa rara nestes dias, ao ler a notícia no jornal.

Publicado por José Mário Silva às 11:56 PM | Comentários (0)

DISNEY POUCO COR-DE-ROSA

A crise voltou em força à Disney, a mega-empresa que explora a fauna (ratos e patos, sobretudo) em parques de diversões e clássicos filmes animados. O último herdeiro de Walt . um sobrinho, obviamente . demitiu-se do Conselho de Administração, esta semana, sem esconder a animosidade que sente em relação a Michael Eisner, o presidente da companhia, responsabilizado pelos maus resultados económicos da EuroDisney e projectos semelhantes. Consta que um grupo de accionistas influentes já se pôs a caminho de Patópolis, numa última e desesperada tentativa de contratar, para chairman, o lendário Tio Patinhas.

Publicado por José Mário Silva às 11:54 PM | Comentários (0)

DIREITO AO CINEMA (2)

Caro itálico Pedro Vieira,

Só duas adendas ao teu pertinente desabafo:

1) Por acaso nós reparámos que a Zero em Comportamento «acabou sem apelo nem agravo» e até fizemos um post a dar a má notícia.

2) É verdade que não chegámos a falar no filme-mosaico sobre o 11 de Setembro, mas até podíamos ter falado (mea culpa). Agora é tarde, eu sei, mas ainda assim, resumindo a minha opinião numa frase, digo-te isto: «11"09'01 . 11 perspectivas» é um filme simpático, sem dúvida, só que muito desequilibrado, com algumas "curtas" interessantes e outras apenas sofríveis. As minhas preferidas foram, por ordem crescente, a história de Idrissa Ouedraogo, que se passa no Burkina Faso (com um bando de miúdos atrás de um sósia de Bin Laden); o exercício de estilo do mexicano Alejandro González Iñárritu (o único que usa imagens das torres, numa montagem muito abstracta e próxima da hipnose); e o testemunho-denúncia de um chileno, vítima do outro 11 de Setembro, filmada com mestria por Ken Loach.

Publicado por José Mário Silva às 11:50 PM | Comentários (1)

DIREITO AO CINEMA

Alguém reparou que há duas semanas estreou o filme «11"09'01 . 11 perspectivas»? Alguém reparou que a distribuição deste filme/documento se cingiu a uma sala no Corte Inglés, e mesmo assim limitada ao horário da tarde (14h00 e 17h15)? Alguém reparou que o filme já nem se encontra em cartaz? Não haveria público interessado em assistir a este filme, apresentado no Festival de Veneza? Será que ninguém se interessa pelo que realizadores de outras paragens têm a dizer sobre um evento que marcou todo o mundo e não só a auto-proclamada civilização ocidental? Alguém reparou na falta de diversidade que nos assola, nomeadamente no audiovisual? Alguém reparou que a Zero em Comportamento acabou sem apelo nem agravo, sob o olhar inerte dos organismos oficiais de cultura, Câmara de Lisboa incluída? Temos o cinema que merecemos? Se calhar, sim. (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 07:33 PM | Comentários (2)

AMBÍGUAS BARBARIDADES

O anúncio que promove «As Invasões Bárbaras» . filme de Denys Arcand que estreia amanhã e sobre o qual Eduardo Prado Coelho escreveu hoje . é muito curioso. Nas costas de um homem nu, lêem-se as seguintes associações de palavras: «separatista debochado», «existencialista lascivo», «marxista libidinoso», «maoista animal» e «feminista perverso»; rematando-se a lista com um sonoro «AMEN», tipo carimbo, na nádega direita. Confesso que gostei particularmente do «maoista animal» (não confundir com o animal maoista) e daquele sugestivo «marxista libidinoso». Onde é que se compram os bilhetes?

Publicado por José Mário Silva às 07:30 PM | Comentários (0)

FRANK ZAPPA

Há dez anos, o mundo perdeu um génio provocador e um bigode carismático. Hoje, bigodes carismáticos ainda vai havendo; génios provocadores é que nem por isso.

Publicado por José Mário Silva às 06:32 PM | Comentários (4)

IRAQUE

Uma sondagem encomendada pela RTP e pelo Público (mas a que o Público, estranhamente, deu pouco relevo) veio confirmar uma outra, do Eurobarómetro, em que 67% dos portugueses se diziam contra a guerra no Iraque e os seus efeitos. Agora, a percentagem de descontentes subiu: 79% dos inquiridos considera que as consequências da ocupação do Iraque pela coligação foram más (22%) ou muito más (57%) e apenas 22% acham que foram boas (14%) ou muito boas (8%). No seu gabinete, Durão Barroso deve ter feito ouvidos de mercador, como sempre. E a seguir, desiludido com a falta de apoio e solidariedade dos compatriotas, pediu certamente uma ligação telefónica a Nassirya, para indagar sobre a moral dos nossos rapazes.

Publicado por José Mário Silva às 06:20 PM | Comentários (1)

ESQUERDA, DIREITA, JUDEUS, ANTI-SEMITAS E NAZIS

O conflito do médio-oriente é cada vez mais um conflito mundial que extrema posições, abre clivagens claras entre esquerda e direita (as tais noções que já não fazem sentido, dizia-se) e vitimiza não só os povos envolvidos como a própria inteligência de muita gente.
A direita e a extrema-direita israelita, coadjuvada pela direita e a extrema-direita mundial, têm tido, especialmente nos últimos anos, uma estratégia que acaba por ser o principal factor de disseminação do conflito: ao acusar todos os críticos da sua política, e por consequência, toda a esquerda, de anti-semitismo claro ou encapotado, a direita e a extrema-direita israelita e mundial pretendem colar aos seus críticos a imagem de monstruosidade que têm os mais notórios anti-semitas da História: os nazis. Pretendem desse modo os direitistas israelitas denegrir a imagem daqueles que recusam ser cúmplices dos seus crimes e afastar deles as atenções. Fulano critica os assassínios de civis palestinianos? É anti-semita. Beltrano diz que Sharon tem um passado de terrorista em tudo similar ao de Arafat? É anti-semita. Sicrano manifesta a opinião de que o conflito (logo, os atentados) só terminará quando o exército israelita regressar às fronteiras de Israel? É anti-semita. Os povos da Europa colocam Israel no topo dos estados que mais ameaçam a paz mundial? São anti-semitas. Ora, acontece que chamar a alguém anti-semita é tão insultuoso como chamar a alguém nazi, e como ninguém gosta de ser gratuitamente insultado dessa forma, a raiva, e por vezes o ódio, contra quem profere tais acusações só pode aumentar. E é assim que se vão cavando mais fundo as divisões e se vai perdendo cada vez mais de vista a possibilidade de paz.
Mas que vem a ser um anti-semita? O anti-semitismo não passa de uma forma de racismo, uma xenofobia virulenta dirigida contra uma mescla de povo e religião, o ódio os judeus. Reparem que não se trata de ódio a alguns judeus; é ódio indiscriminado a todos eles. Um anti-semita odeia um judeu como um racista odeia um negro, independentemente das suas qualidades e defeitos como ser humano, apenas por ser aquilo que a genética ou os acasos de nascimento e educação determinam que seja.
Além do anti-semitismo individual, existem algumas ideologias políticas e religiosas em que o anti-semitismo é parte fundamental. Existe, por exemplo, anti-semitismo no fundamentalismo cristão, quando os judeus são culpados como um todo pela morte de Cristo (dessa forma erguido acima do seu próprio povo), e é este o anti-semitismo endémico (e por vezes epidémico) na Europa desde há largas centenas de anos. Foi também claramente anti-semita a atitude nazi de resolver o .problema judeu. nas câmaras de gás, se bem que aqui possa ter sido um anti-semitismo de conveniência que se serviu do tal anti-semitismo endémico europeu: enquanto se culpavam os judeus por todos os problemas da Alemanha, e enquanto se projectava a imagem de estar a .resolver o problema., Hitler e os seus eram obrigados a lidar com menos contestação por parte do resto do povo alemão. A táctica é antiga, tem seguidores e dá resultados até hoje; vejam-se, precisamente, as acusações de anti-semitismo lançadas sobre a esquerda.

Acontece que a esquerda não é, nem pode ser, anti-semita. Os valores fundamentais da esquerda, expressos nos ideiais da revolução francesa (liberdade, igualdade e fraternidade, caso alguém se tenha esquecido) não são compatíveis com ideários que põem um povo acima de outros, ou que discriminam um povo relativamente a outros. É certo que há tendências atávicas em pessoas e movimentos de esquerda, que colidem com o ideário geral da esquerda, mas o combate constante pela progressão e pelo melhoramento da humanidade (logo, de cada um dos seus constituintes) é também parte da herança de esquerda: um homem de esquerda pode ter, por educação ou por qualquer outro motivo, atitudes e pensamentos racistas, mas são pensamentos que o envergonham e que tenta combater. Também é verdade que há aspectos do judeísmo que são repugnantes para os homens e mulheres de esquerda, particularmente a noção de .raça escolhida por Deus., que só não é idêntica à noção nazi dos übermensch arianos porque o judeísmo permite a entrada de um estranho nesse grupo de elite... .bastando. para tal que se converta; Mas qualquer judeu que repudie esses aspectos é acolhido pela esquerda, mesmo a que supostamente será mais .anti-semita., de braços abertos, sem sombra de ódio ou desconfiança. O exemplo mais paradigmático é o de Noam Chomsky.
Onde fica o anti-semitismo quando os supostos anti-semitas elegem judeus para seus ideólogos?
Obviamente, em lugar nenhum.
Entretanto, bem longe da direita e dos seus tiques totalitários, israelitas (logo, supõe-se, judeus) e palestinianos apertaram as mãos, concordando com um plano de paz finalmente justo para ambas as partes, que reconhece a existência dos dois estados lado a lado, partilhando em convivência que se pretende pacífica (e para que o seja de facto prevê a intervenção da comunidade internacional) a Palestina e a cidade que mais sangue fez derramar na História: Jerusalém. Arafat aplaudiu; Sharon condenou. A esquerda supostamente .anti-semita. aplaudiu; a direita que diz que não é totalitária afundou-se num silêncio ensurdecedor.
"Sic transit gloria mundi"...
(Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 10:23 AM | Comentários (25)

REQUALIFICAR SIM, MAS A TODO O VAPOR

E já agora sugiro para o projecto de requalificação da frente de rio Pedrouços.Cruz Quebrada, os arquitectos Siza Vieira nas torres . porque sim, porque isto é vida, porque isto é siza ., Frank Gehry nos bispos, conferindo dignidade tectónica à diagonalidade do movimento dessas sofisticadas peças do jogo, em contraponto com a habitualmente monótona verticalidade dos edifícios e com a ressalva de se impor no programa uma inovadora solução de revestimento, a folha de estanho em vez de titânio, para reduzir custos da obra e sobretudo do projecto, e (last but not the least...) o inevitável Rem Koolhas no cavalo de Tróia e respectivo estábulo-ilha artificial-aeroporto só para membros da .kinetic elite., assente sobre os restos decadentes e a carecer de urgente requalificação do Bugio, falhadas todas as tentativas de aí instalar uma unidade hoteleira de alto gabarito por manifesta e lamentável falta de cooperação das correntes marítimas.

Nota: A participação deste último está pendente da abertura de uma janela na serra de Sintra para que da ilha de Pedrouços-Bugio se possa observar, sem impedimentos artificiais, o belo pôr-do-sol do Oceano Atlântico, como se se estivera a tomar uma caipirinha na Praia Grande. Lamentavelmente ficou de fora Richard Rogers, mas para esse arranjar-se-á certamente um hospital ou uma escola para ele projectar no seu inconfundível estilo, se é que aquela cimenteira que se observa da via do Infante por alturas de Boliqueime e com Loulé ao fundo, não é já o centro de dia para a 3.ª idade de Benagil projectado pelo famoso arquitecto, e que foi depois, por simples motivos de racionalidade económica e dada a desertificação do interior algarvio, aproveitado pela prestigiada Cimpor.

Publicado por tchernignobyl às 12:32 AM | Comentários (7)

NADA A PERDER, NADA A GANHAR!

O n.º 1 da interessante revista .NADA. (anaur@vizzavi.pt) publica uma entrevista com o intelectual Silva Carvalho, escritor e poeta (o entrevistador informa-nos que nada tem a ver com o Armando, poeta com o mesmo apelido) autoproclamado inventor, entre outros .tour de force., do conceito de .poretica. e autor de livros como .New England., .A experiência americana ao vivo. e .Que estupidez!., nas edições Aquário (edicoes_aquario@hotmail.com).
Afirma Carvalho, a dado passo da entrevista concedida a João Urbano, que .do ponto de vista lexical quem renovou mais a língua portuguesa nos últimos trinta anos fui eu. Introduzi trezentos ou quatrocentos vocábulos que não existiam. E fi-lo não como os simbolistas, que procuravam apenas os vocábulos raros e poéticos. Introduzi vocábulos perdidos no dicionário que dizem coisas extraordinárias..
Admitido que é, em meios geralmente bem informados, que Vasco Graça Moura poderá ser, graças à sua produção, também e por coincidência dos últimos trinta anos, o maior criador de decassílabos em língua portuguesa, ultrapassando mesmo, pelo menos em quantidade, o próprio Luís de Camões, aqui fica a modesta sugestão... porque não unir esforços?
Trabalhando em equipa e organizado como uma verdadeira linha de montagem, um ao dicionário e outro no decassílabo, o consórcio Carvalho & Moura, Inovações Lexicais e Soluções em Decassílabos está em condições de inundar rapidamente as nossas vidas de poesia, fazendo-a transbordar através das fronteiras para Espanha e mesmo além Pirinéus, criando de passagem postos de trabalho na produção de dicionários especificamente destinados a leitores de poesia.
Tudo isto pensado a tempo e com método, poderá culminar na organização de uma Grande Regata Internacional da Poesia a realizar no Tejo em 2007, na zona de Pedrouços, que celebrará também a vasta requalificação da frente de rio que o nosso governo preparou a pensar na organização de um outro evento de natureza náutica: a sua brilhante prestação num insólito jogo de batalha naval em que se vem empenhando e que se apresta a vencer de forma definitiva.
A cada PUM PUM, correspondente a cada nova medida, parece que se ouvem já os gritos alegres de .País ao fundo!., ao som da marcha fúnebre dos King Crimson.

Publicado por tchernignobyl às 12:13 AM | Comentários (0)

dezembro 03, 2003

O MEU HITPARADE

Neste Verão seco e cálido calhou-me conduzir só, por centenas de quilómetros, num país a sul.
Tentei várias vezes afastar-me da estrada. Pela vegetação rasteira e contorcida pela seca, silvava já como uma névoa o fogo que lavraria aquelas doces colinas poucos dias depois.
Hostis como presságios, grandes pássaros espiavam de longe, fixos num rictus sarcástico apenas adivinhável sob os longos bicos acerados, brancos e imóveis, esperando.
Dos cerros mais longínquos uma raça de estranhos parasitas enlouquecidos pelo sol descia a caminho do mar babando pelo caminho aberto como uma chaga na paisagem uma gangrena empoeirada que repelia a esteva.
No rasto traçado, brilhavam como inchaços, malsãs tatuagens .for sale. e .luxury appartments..
Por mim passavam a cada instante como rastos de luz em fotografia nocturna da place concorde, dezenas de posts para blogs que eu não conhecia e que não conseguia reter na memória já ocupada pela ideia seguinte, pelas ideias seguintes, pelas que viriam mais adiante a caminho. Excesso de largura de banda.
Guillemette Laurens lembrou-mo várias vezes ao dia, todos os dias, quisera ter outros olhos:

Occhi belli ochi celesti
D.Amor nido ardor de cori
S.ai ferir sete fidesti
Deh mirate i miei dolori

Occhi vagghi ochi guerrieri
Che splendete in quel bel viso
Deh volgete i raggi altieri
Che han dal Petto il cor diviso

Dolci sguardi occhi sereni
Deh perche fiate si crudi
Se di gloria fiate pieni
Di pietá perche si nudi

Occhi chiari occhi lucenti
Piu del Sol che in voi s.accende
Ahi ch.Amor li strali ardenti
Pur begli occhi da voi prende

Deh cangiati amati lumi
In pietate i vostri sdegni
Ch.in Angelici costumi
Li spietati non son sdegni

dedicado às palavras da tribo

Publicado por tchernignobyl às 11:21 PM | Comentários (0)

VERSOS QUE NOS SALVAM

O poema de Fiama Hasse Pais Brandão a que Adriana Crespo se refere, o tal que responde «com simplicidade» à pergunta do sonho, está incluído no livro «Cantos do Canto» (Relógio d'Água, 1995). É belíssimo, como podem comprovar.


CANTO DA CHÁVENA DE CHÁ

Poisamos as mãos junto da chávena
sem saber que a porcelana e o osso
são formas próximas da mesma substância.
A minha mão e a chávena nacarada
. se eu temperar o lirismo com a ironia .
são, ainda, familiares dos pterossáurios.
A tranquila tarde enche as vidraças.
A água escorre da bica com ruído,
os melros espiam-me na latada seca.
É assim que muitas vezes o chá evoca:
a minha mão de pedra, tarde serena,
olhar dos melros, som leve da bica.
A Natureza copia esta pintura
do fim da tarde que para mim pintei,
retribui-me os poemas que eu lhe fiz
de novo dando-me os meus versos ao vivo.
Como se eu merecesse esta paisagem
a Natureza dá-me o que lhe dei.
No entanto algures, num poema, ouvi
rodarem as roldanas do cenário,
em que as palavras representavam
a cena da pintura da paisagem
num telão constantemente vário.
Só o chá me traz a minha tarde,
com a chávena e a minha mão que são
o mesmo pedaço de calcário.
Hoje a bica refresca a água do tanque,
os melros descem da latada para o chão,
e as vidraças devagar escurecem.
As palavras movem-se e repõem
no seu imóvel eixo de rotação
o espaço onde esta mesa de verga
gira nas grandes nebulosas.

15/11/93


Fiama

Publicado por José Mário Silva às 11:17 PM | Comentários (0)

ADRIANA (2)

O primeiro livro de Adriana Crespo é um livro-jogo, um livro-enigma. Com uma estrutura «em borboleta» (atravessada por correspondências internas e simetrias), apresenta-se como um diário de sonhos. Os sonhos de A. . personagem principal do complexo mosaico narrativo que Adriana começou a erguer com esta obra. O livro compõe-se, então, de «66 modelos para contos fragmentários e irreverentes», que também podem ser vistos como «uma lista de visões, sortes e infortúnios» ou «experiências de escrita minimal» ou ainda como o «ponto zero de uma escrita».
Deixo-vos, para acicatar a urgência da leitura, um dos sonhos. É o XXXVI, intitulado «sobre um eucalipto»:

A visão de um eucalipto era muito superior a um quadro, qualquer que ele fosse, um dos melhores. Do chão primaveril e dourado, o chão do meu sonho, cheio de palha dourada, vinha um eucalipto, um longo e frondoso eucalipto, poderoso e suave. Os ramos ondulavam e as folhas tremeluziam como reflexos aleatórios na superfície do mar, agitando-se com o vento e brilhando intermitentemente com a luz. Sem poda, os ramos rasavam o chão, e um perfume intenso vinha das folhas pontiagudas e da casca que se desfazia em lâminas de canela. Dourado e verde, sobre o azul, imóvel e suspirante, dançando invisivelmente, cantando inaudivelmente, ali estava o eucalipto. Mas porque não posso eu, como ele, simplesmente existir, não pensar, e estender-me no azul, abrindo, abrindo a minha copa, cada vez mais, enquanto tronco e raízes me sustentem?... Um poema de Fiama Hasse Pais Brandão, o Canto da Chávena de Chá, responde com simplicidade a esta pergunta.

Publicado por José Mário Silva às 11:10 PM | Comentários (0)

ADRIANA (1)

Foi lançado hoje, ao fim de uma tarde de chuva e trânsito impossíveis, no Museu da Cidade (Lisboa), o primeiro livro de Adriana Crespo . amiga dos velhos tempos do DNJovem e uma das principais revelações literárias de 2003. O título, quilométrico, é este: «O inaudito, fabuloso e incrível, nunca antes visto, DIVERTIMENTO DE A. ou a aventurosa vida e fabulosas obras de Orlando I, Maria do Mar, F. de Riverday, António Pizarro, Artur B. e Françoise M.» (Editora Indícios de Oiro). Trata-se realmente de um divertimento . quase no sentido musical do termo . assente numa construção narrativa muito engenhosa, cujos contornos arquitectónicos só conheceremos, na sua real dimensão, quando a autora concluir o seu megalómano projecto: um conjunto de 33 livros que as personagens acima nomeadas vão ao mesmo tempo escrever e/ou protagonizar. Um exagero? Uma utopia? Um delírio? Nada disso. Apenas a convincente entrada em cena de uma escritora com "e" maiúsculo. Comprem e leiam, sff.

Publicado por José Mário Silva às 11:00 PM | Comentários (0)

NOS CAMINHOS DE SANTIAGO

Nas carrinhas Hiace, Toyota, cabe sempre mais um. Já íamos bem apertadinhos, àquela velocidade impressionante, a atravessar montanhas pelo interior de Santiago, quando entra uma mulher com um galo pela asa, um filho ao colo, outro na mão e um terceiro na barriga. Pagou bilhete de um. É assim a harmonia das mães e o crescente da natalidade.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 05:43 PM | Comentários (0)

EM AUDIÇÃO

Oiço, oiço, oiço. E pasmo, pasmo, pasmo. O último disco do Fausto, «Ópera Mágica do Cantor Maldito», é uma obra-prima da música popular portuguesa (a verdadeira, entenda-se), com canções de arquitectura perfeita, letras inspiradíssimas e um nunca acabar de pérolas e achados. Mais: numa altura em que até os artistas rebeldes se tornaram "bem comportadinhos", este homem teve a coragem de assinar uma obra onde põe o dedo em muitas feridas e chama os bois pelos nomes. Coisa raríssima: além de ter excelente música, este é sobretudo um disco político. Voltarei a falar dele, claro. Por enquanto, estou ainda na fase da audição compulsiva.

PS: para mais detalhes e entusiasmos, leia-se o muito que se tem escrito sobre Fausto na deliciosa laranja amarga.

Publicado por José Mário Silva às 02:04 PM | Comentários (2)

DESCULPEM LÁ, MAS É PRECISO DIZER ISTO

Com as suas acções, omissões e moralismos bacocos, os autodenominados grupos pró-vida são, na realidade, grupos pró-sida. E se acham que exagero, atentem no que defendeu José Pedro Ramos Ascensão, presidente da Mais Família, no rescaldo do congresso «A linguagem corporal do amor numa visão integral do homem». E o que estes senhores proclamam é nem mais nem menos do que o repúdio pela utilização de métodos contraceptivos que não sejam naturais. Ou seja: preservativos e diafragmas, nicles. Depois admirem-se de ver Portugal no topo das tabelas europeias sobre novos casos de infecção por HIV.

Publicado por José Mário Silva às 01:41 PM | Comentários (2)

CATÓLICOS PRÓ-VIDA (POST PARTILHADO)

Para lá das declarações de circunstância, o dia mundial da luta contra a sida serviu como palco demagogo para as habituais movimentações conservadoras: anti-aborto, anti-contraceptivos, anti-escolha, anti-homossexuais, anti-divórcio. Tudo causas do flagelo moral do ocidente, como se sabe. Nas páginas dos jornais, estiveram particularmente activos aqueles sinistros personagens que dão pelo nome de «católicos pró-vida». Nada sabemos das suas movimentações. Desconhecemos paradigmas. Ignoramos perspectivas. Surgem e pronto. São apenas católicos. A favor da vida. São demasiado tudo e demasiado nada. Uma forma sem conteúdo. É um pouco como a «democracia-cristã»: ninguém a viu, mas todos acreditam nela. A fé tem fenómenos destes. (Tiago Barbosa Ribeiro)

Publicado por José Mário Silva às 01:39 PM | Comentários (1)

EVOCAÇÃO TRISTE E ALGO TARDIA

Morreu Jesus Correia. Violino, claro, talvez o mais afinado da orquestra de câmara com que o Sporting se aproximou, por uma vez, da noção de glória. Mas sobretudo um grande desportista. Entre o futebol e o hóquei, não era só o coração que balançava. Era o corpo todo.
Uma vez, numa entrevista que nunca viu a luz do dia, Jesus Correia falou-me dos treinos intensos, das loucuras juvenis, do pouco que comia, do quase nada que ganhava («hoje qualquer um recebe milhões e joga com fastio; enquanto nós recebíamos uns tostões e corríamos como loucos»). É verdade que o futebol era outra coisa naqueles tempos. Os avançados e os extremos tinham campo livre (mais ainda se fossem mestres na finta), as defesas eram frágeis, não havia tanto rigor táctico, nem tanto pressing, nem tantas marcações cerradas. Ainda era possível, imaginem, marcar seis golos ao Atlético de Madrid, no Vicente Calderón, em 45 minutos. Jesus Correia emocionou-se ao recordar esse jogo, junto às botas que calçou naquela noite. Lembro-me de pensar que essas botas estão hoje expostas numa vitrina do Museu do Sporting. Quando o entrevistei, Jesus Correia já era um homem todo feito de passado, uma figura de lenda, um nome quase perdido na memória colectiva de milhões de adeptos. Agora mora de vez nesse inconstante Olimpo e eu só tenho pena, muita pena, de nunca o ter visto jogar.

Publicado por José Mário Silva às 10:39 AM | Comentários (4)

AINDA SOBRE AS LUTAS ESTUDANTIS

Convém sabermos de quem estamos a falar quando falamos da "miríade de personagens supostamente vindas da esquerda e com um passado de lutas estudantis". Pode até nem ser o caso do Franciso José Viegas, mas na maioria das vezes estamos a falar de quem, no decurso da sua vida, sempre esteve do "lado certo da História". Em 74/75 defendiam "o caminho para o socialismo" com a mesma ortodoxia com que hoje defendem uma serôdia versão do liberalismo.
Basta vermos o fervor com que, contra todas as evidências, José Manuel Fernandes ou Luís Delgado falam das absolutas virtudes do Pacto de Estabilidade e Crescimento ou da guerra no Iraque para nos apercebermos da similitude com quem, muito depois de Budapeste e Praga, defendia a "bondade" do regime soviético.
O mercado precisa de novos mercados. Essa confiança basta-lhes para, com a veemência dos cristãos-novos, não vacilarem perante nada. Muito menos perante o país que somos. O mais pobre da UE, e um país onde os "danos colaterais" da privatização dos serviços sociais serão sempre superiores aos sofridos no Reino Unido ou na Holanda.
Numa coisa os defensores das propinas têm razão . elas são simbólicas. Não pelo seu valor (que é .apenas. um dos muitos e elevados custos de frequência do ensino superior), mas pelo que elas perspectivam para o futuro. Os estudantes têm que pagar propinas porque as gerações mais jovens . curiosamente caracterizadas como .rascas. . têm que se habituar a pagar pelos serviços públicos. Para que seja cada vez mais difícil, e pareça fora de tom, aparecer alguém que não se resigna à inevitabilidade das propinas, das taxas moderadoras, dos cortes na segurança social, dos seguros como complemento de reforma.
Se defender o estado-previdência e a democratização do acesso à educação e ao conhecimento não é uma .causa nobre., aceitam-se então sujestões de quem as tenha melhores.
(Pedro Sales)

Publicado por José Mário Silva às 10:11 AM | Comentários (0)

DO DIREITO DIVINO AO SUBSÍDIO

Começou no Abrupto uma conversa sobre subsídios aos escritores e já li intervenções no Aviz e no Quartzo, Feldspato & Mica. Podia servir só para uma sondagem por SMS (se é contra escreva 1, se é a favor escreva 3,1415926535897932). Mas suspeito que isto tenha mais que se lhe diga.
À partida, sou capaz de concordar que há coisas mais importantes (no campo do apoio à cultura) do que as bolsas para escritores. Não acho mal que haja, mas não vinha grande mal ao mundo se não houvesse. Posso pensar, por exemplo, no argumento do "papel e caneta": é uma actividade que, ao nível da criação, não exige de facto grande esforço financeiro (que se faz sentir ao nível da edição, para a qual há alguns - raros - apoios), o que se paga é o tempo para escrever.
O problema é que entre não achar as bolsas fundamentais e querer acabar com elas vai um passo (que foi dado); e entre acabar com as bolsas e dizer que para o cinema, a música, o teatro e a dança também não devia haver apoios vai outro passo (que também foi dado, no Aviz e nalguns comentários que li no Abrupto e no Quartzo). E lá se ouve outra vez falar nos "subsidiodependentes" e no seu suposto "direito divino" ao "dinheiro dos contribuintes".

A questão é esta: sem dinheiro, a literatura não acaba (há a internet, há fotocópias); o teatro não acaba (haverá quem se junte para dizer palavras num espaço, enquanto outros vêem e ouvem); o cinema não acaba (há câmaras de vídeo baratas). Mas isto, que pode ser genial, não chega. E dizer que chega é dizer que é isto ou o puro comércio.
Eu até posso defender um teatro pobre, mas não quero impô-lo a toda a gente. E é o Estado que tem de assegurar que exista o teatro, o cinema, a dança que, entregues à indústria, não teriam condições de existir (é muito engraçada, referindo-se a Portugal, a expressão de F. J. Viegas sobre "o pessoal do teatro e do cinema, ou seja, da indústria"). Aliás, só fica bem (e barato) ao Estado, que sabe disso mais do que ninguém, cumprir este papel.
Mais importante do que a "qualidade" (que depende exclusivamente dos pergaminhos do passado) é preciso apoiar o projecto futuro (com garantias, mas não de forma a impedir que surjam novos criadores). Permitir um falhanço comercial porque se encoraja o risco artístico. É esse o contrato: dinheiro que torne possível um projecto impossível de outro modo. As escolhas são subjectivas? Em parte sim (há dados de produção perfeitamente quantificáveis) e devem sê-lo assumidamente, para poderem ser objecto de crítica e debate (artísticos). De resto, não há surpresas: apoiou-se, produziu-se. Nada de direito divino, simples retribuição em géneros: quem apoiou não fez favor nenhum.
Voltando aos escritores: posso dizer, como o Rui Manuel Amaral (que é contra as bolsas), que "não acredito em escritores que preenchem formulários de candidatura para criar um livro de poemas". Mas não estarei a impor uma concepção de escrita romântica, o génio que escreve sem plano, de rajada, altas horas da noite numas águas-furtadas cheias de correntes de ar? Aplaudo o Manuel Resende, que é a favor das bolsas, quando diz "nunca tive subsídios, nem bolsas, porque não quero, mas por ferocidade contra uma sociedade que é inimiga da poesia; ela não quer nada de mim, eu não quero radicalmente nada dela, a não ser para lhe torcer o pescoço. Temo-nos dado bem os dois neste entendimento." Posso desconfiar da legitimação identitária (a "progressão na carreira") dada pelas bolsas. Mas gosto dos livros que o Armando Silva Carvalho e a Maria Velho da Costa escreveram com as bolsas do IPLB.
Que a arte não serve para nada e ao mesmo tempo dá muito jeito aos vários poderes já todos sabemos. Os mal-entendidos fazem parte do jogo e é esse desfasamento de expectativas entre quem paga e quem cria que faz com que não sejam todos artistas do regime. Graças a Deus.

Publicado por Francisco Frazão às 05:03 AM | Comentários (4)

dezembro 02, 2003

TARRAFAL

Fomos visitar a prisao. Correm criancas ao nosso encontro a pedir canetas. O sol ja' vai baixo e a memoria daquele horror todo difunde-se no ambiente do campo e do jogo de futebol dos adolescentes que gritam sporting. O guarda anda com um radio que solta sons africanos. O arame farpado desfez-se, o muro e' alto e ameacador, mas a zona dos trabalhos forçados esta' repleta de arvores. Isto aconteceu de facto ou foi so' um pesadelo dos combatentes? Ha' listas de presos politicos: a pena, a causa de morte, os que foram para a "frigideira". Fujo dali e descemos para a vila onde alguns marinheiros comem cachupa com cerveja gelada. O crioulo de Santiago e' incompreensivel e o computador deste bar nao conhece os acentos portugueses.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 08:52 PM | Comentários (4)

NOMENCLATURA

Com tantas avarias nos seus voos charter, a companhia Yes devia mudar o nome para Oh! No.

Publicado por José Mário Silva às 11:52 AM | Comentários (5)

BLACK OUT

Tento aceder a vários blogues que ainda estão do outro lado (com o blogspot preso ao nome) e não consigo. Pior: apetece-me voltar ao nosso velho endereço mas só encontro uma menção a um tal de Error 500 («We are sorry, but a temporary problem is preventing your request from being completed»). Pois é, pois é. Do que nós nos livrámos.

Publicado por José Mário Silva às 11:47 AM | Comentários (5)

O MEU IMPÉRIO FOI MELHOR DO QUE O TEU

Liberto da sombra ameaçadora do caso Moderna, Paulo Portas voltou ao seu velho estilo. Num discurso dirigido aos jovens do PP, propôs uma purga das menções ao anti-colonialismo na Constituição da República. Porquê? Essencialmente porque «os angolanos, os moçambicanos e os timorenses nunca sentiram o racismo que houve noutros impérios» (o sublinhado é nosso). Além da ideia ser falsa, sabemos muito bem onde vai dar este tipo de retórica. Não é a primeira vez que a ouvimos, nem a última. Desconfio que o pior da nova vaga direitista ainda está para vir.

Publicado por José Mário Silva às 11:41 AM | Comentários (4)

MEMÓRIA (RE)INVENTADA

Olha, olha, mais um excelente blogue a transferir-se aqui para o prédio. Agora o cosmopolita Memória Inventada, do ex-itálico Ivan, também é nosso vizinho. Já sei a quem é que vou pedir emprestada a edição de domingo do New York Times. Nem há cinco minutos, cruzei-me com ele no elevador e digo-vos uma coisa: apesar do jet lag, está com óptimo aspecto.

Publicado por José Mário Silva às 11:20 AM | Comentários (0)

É SEM T

Para ter piada não é preciso ter um erro ortográfico. Porque é que se vê escrito e dito por todo o lado (por exemplo, nas notas de divulgação do .É a Cultura, Estúpido!.) stand-up comediant? Pista: também não é sand-up comediant.

Publicado por Francisco Frazão às 12:21 AM | Comentários (1)

dezembro 01, 2003

AVEIRO (3)

Começaram por ir buscar o nome a um poema de Mário Cesariny: O Navio de Espelhos. Lembram-se? É aquele que começa assim:

O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Está no livro «A Cidade Queimada». E é uma imagem de força e de génio: um navio de espelhos, cavalgando mares imaginários numa «rota clara», com o porão cheio de «vozes e ar pesado».
À sombra desta imagem, a Sónia e o Jorge construiram, mais do que uma livraria, uma ideia de livraria. Um espaço onde os livros respiram. Onde não se encontram os best-sellers do costume, nem literatura light, e a mesa dos destaques está cheia de livros da Antígona, poesia, ensaios de George Steiner ou Walter Benjamin. Ali os livros compram-se, não se vendem.
Depois há os pormenores. As estantes de madeira escura, elegantes e espaçosas, onde os livros nunca se atropelam. A casa-de-banho para as crianças, pintada como uma fábula. As fotografias do Cesariny, espalhadas por todo o lado. O recanto onde se fazem leituras, sessões de vídeo, concertos, debates ou apresentações. Uma área musical . com discos escolhidos a dedo, sobretudo jazz e o melhor da MPB . e outra reservada ao Bookcrossing.
Mas o que torna única esta livraria é o factor humano. É a paixão que se pressente no olhar da Sónia e do Jorge, artífices de um sonho feito de letras e páginas de papel e lombadas e conversas sobre o que os livros trazem lá dentro, «do princípio do mundo/ até ao fim do mundo».

A livraria «O Navio de Espelhos» fica na Rua 31 de Janeiro, n.º 8 (colada ao Teatro Aveirense) e está aberta de terça a domingo, das 10 às 24 horas

Publicado por José Mário Silva às 11:45 PM | Comentários (1)

SAUDADES

Pergunto a uma portuguesa que vive aqui em Cabo Verde há 25 anos se não tem saudades de Portugal. Responde que de vez em quando sim, tem saudades de algumas coisas, do frio (os cobertores, o ar branco quando respiramos) e por exemplo de ver passar um «camião de tire». De resto, assim de repente não se lembrava de mais nada.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 08:14 PM | Comentários (2)

OUTRA COLHEITA VIRÁ

em visita de rotina pelos blogs favoritos, fui apanhado de surpresa pelo fim inesperado do espigas, um dos blogs que sempre gostei de visitar.
não o conheço pessoalmente mas aqui fica o meu aceno de simpatia e admiração pelo que o nuno centeio sabe e escreve sobre cinema e o desejo de relê-lo em breve, logo que lhe passe a fase de saturação bloguística.

Publicado por tchernignobyl às 06:57 PM | Comentários (0)

NOUVELLE CUISINE 2

Era de esperar. A imagem que uma gralha no último Y inventou afinal já existia e "não é uma imagem". Vê-se assim a máquina da literatura em movimento, a terrível combinatória a funcionar. Ou como os acasos da homofonia em português juntam textos que partilham um certo ar de família: na versão "cosida", Sade e Heiner Müller ("Dever-se-iam coser as mulheres, um mundo sem mães"); e na versão "cozida", e com acompanhamento, Antonin Artaud (em Van Gogh, le suicidé de la société):

On peut parler de la bonne santé mentale de van Gogh qui, dans toute sa vie, ne s'est fait cuire qu'une main et n'a pas fait plus, pour le reste, que de se trancher une fois l.oreille gauche,
dans un monde où on mange chaque jour du vagin cuit à la sauce verte ou du sexe de nouveau né flagellé et mis en rage,
tel que cueilli à sa sortie du sexe maternel.
Et ceci n'est pas une image, mais un fait abondamment et quotidiennement répété et cultivé à travers toute la terre.

Publicado por Francisco Frazão às 05:50 PM | Comentários (0)

AVEIRO (2)

No lançamento de «Um Homem: Klaus Klump», confirmei uma velha ideia: os livros não se devem apresentar, devem-se ler e ponto final (contra mim falo, que já apresentei alguns, em parte devido a uma notória incapacidade de dizer "não"). Ainda assim, a noite foi muito agradável. Entre o papel garatujado e o powerpoint algo tosco, um professor de matemática tentou explicar a obra (colocar ênfase na palavra "tentou"). Logo depois, o Gonçalo resumiu algumas das linhas de força do livro, num jeito tímido (como sempre) que é uma espécie de reverso da sua escrita brilhante. E houve também música, excelente música. Seis canções de Federico García Lorca, interpretadas galhardamente por uma jovem de voz clara e um guitarrista de dedos compridos. Mas a noite valeu sobretudo pela descoberta de um espaço onde paira, em todas as coisas, o amor pelos livros: a bela livraria Navio de Espelhos. Disso falarei no próximo post.

Publicado por José Mário Silva às 04:33 PM | Comentários (0)

LUTAS ESTUDANTIS

Andava a questão da luta dos estudantes um pouco arredada das preocupações dos media, quando deparei com uma passagem de um texto de Francisco José Viegas, na Grande Reportagem (destacada no Público de hoje), atacando o rosto visível da liderança dos estudantes de Coimbra, Vítor Hugo Salgado.
Choca-me que uma miríade de personagens supostamente vindas da esquerda e com um passado de lutas estudantis, desate a proferir discursos semelhantes logo que abandona os estudos e se insinua por confortáveis carreiras académicas ou políticas, temperadas aqui e ali com a respectiva perninha em qualquer croniqueta em jornal ou revista de referência.
O que chateia nisto é que este pessoal, em muitos casos da geração que hoje se encontra nos corredores do poder de um país em estado de coma, assolado por escândalos de todo o tipo e carcomido pela corrupção e a degenerescência económica, em parte o resultado da sua gestão, e que deve parte significativa da sua audiência aos galões conquistados num passado de lutas em que só pode ter participado por equívoco, se arrogue este discurso meio moralista, quer no que toca às suas "exigências" éticas e cívicas actuais, quer no que toca à mitificação que fazem do passado. Ouvindo-os, lendo-os, somos levados a crer que vêm de longe, de um olimpo de jovens hobbits lutando com a renitente ajuda dos elfos contra um inimigo tão omnipresente como Lord Sauron, numa saga pobre e maniqueísta ao estilo do Lord of the Rings.
Convém lembrar nestas alturas, que tal como agora, os estudantes de há quarenta ou trinta ou vinte anos, cometiam nas suas lutas excessos, actos susceptíveis de serem explorados pelo regime perante a carneirada anestesiada.
Tal como agora, os estudantes de há quarenta, trinta ou vinte anos não nasciam idealistas iluminados, muitas das grandes lutas estudantis do passado começaram por motivos perfeitamente secundários e egoístas que apenas se agudizaram e evoluiram para instâncias mais .elevadas. por factores que tiveram a ver com as circunstâncias políticas envolventes.
Tal como agora, era vulgar ver estudantes mais activos prolongarem os seus cursos universitários quer pelas .necessidades. da luta quer como sua .consequência. directa ou indirecta; facto aliás veementemente denunciado pelo escribas afectos ao regime do tempo e exactamente com o mesmo estilo e a mesma argumentação.
Tal como agora, e por motivos diversos, muitas das decisões fulcrais das lutas eram tomadas em assembleias abertas sim, mas em que participava uma percentagem reduzida da massa estudantil, o que com frequência incitava certos reitores mais empenhados a recorrerem à ilusão da .maioria silenciosa. perdendo-se em convocatórias de reuniões gerais de alunos "isentas" que geralmente confirmavam as decisões da .minoria..
As diferenças supérfluas na argumentação observáveis pelos inveterados defensores de governos de há quarenta anos para cá, não dependem da ausência de vontade em usar todos os argumentos disponíveis, resultam da alteração da situação política internacional com o fim da União Soviética e hoje, lamentavelmente para a riqueza dos seus floreados retóricos, já não é credível acusar um Vítor Hugo Salgado de ser .agente de Moscovo. e até ver soa demasiado ridículo promovê-lo a assalariado do bin Laden.

Outra diferença é que a intensidade militante de alguns dos estudantes de outrora, se transferiu com armas e bagagens para o campo do establishment, com os mesmos sujeitos, o mesmo fervor e as mesmas certezas, produzindo agora discursos que roçam a delação sem requebros de consciência por causa de uma merda de um cadeado porque o regime é democrático, quando convivem tranquilamente com a prática generalizada deste governo em cumprir as leis que altera quando o que pretende é ilegal .
Não conheço o vitor hugo salgado nem disponho de grandes pormenores sobre as suas opções políticas. Tenho por ele simpatia porque cada vez mais parece ter sido erigido como a .bête noire. a abater, não só enquanto líder estudantil mas até, como é patente no texto que referi no início, na intenção de atingir a sua vida pessoal enquanto estudante.
Só lhe peço uma coisa: que daqui a uns dez ou vinte anos não se veja a assinatura do Dr. Vitor Hugo Salgado sob uma qualquer crónica contra estudantes por fecharem uma faculdade a cadeado durante uma luta contra as propinas.

Publicado por tchernignobyl às 04:23 PM | Comentários (7)

AVEIRO (1)

Passámos duas vezes naquela esquina . uma esquina junto à ria e aos moliceiros com ditos obscenos desenhados na proa. Iamos a caminho de ruas desconhecidas (primeiro) e dos ovos moles (depois). Das duas vezes começou a chover desalmadamente, gotas grossas e inclinadas pelo vento frio, como se viesse aí o último dilúvio. Gosto destas coincidências.

Publicado por José Mário Silva às 04:12 PM | Comentários (0)

NOTAS DA VIAJANTE

As conversas baralham-se hoje, chegada à cidade da Praia, Santiago, Cabo Verde, depois do Sal, S.Vicente e Santo Antão. Já ouvi muita gente constatar os dramas, fragilidades e alegrias deste país. Há quem sinta que não estavam preparados para a independência. E outros que lutaram por ela e estiveram ao lado do PAIGC nos primeiros 15 anos, a criar algumas estruturas com o pouco que tinham, mergulhados na memória colonial . educação e saúde ., mas à mercê de uma economia periclitante. Erros democráticos: ausência de alternativa organizada, de participação e modelos de oposição. Depois da queda do Muro, o MpD aparece em grande com a cantiga da salvação, no entanto vende o país da pior forma, privatizando ao desbarato bens essenciais, propagando esquemas de corrupção e fazendo fraude nas segundas eleições. Em 2001, volta o PAICV. As fragilidades são mesmo muitas. Dizem-nos que os cabo-verdianos são demasiado tolerantes para tomarem o pulso ao rumo do país. Deixam-se usar, acordam em qualquer negócio, e muitos que vêm cá investir são exploradores, do tipo pós-colonialista disfarçado. Dependem muito, importam tudo. Resignados, não desconfiam do próximo, o que se em termos humanos é bom, em termos políticos é um grande defeito. Os estudantes vão tirar os cursos para o estrangeiro porque há falta de universidades cá, o que favorece essa ausência de massa crítica e contestatária. Ninguém sai à rua para se manifestar. A má-língua e a crítica social faz-se nos cafés e nos jornais discorre-se sobre marxismo e enchem-se páginas de acusações ordinárias às duas frentes. Há pirataria em barcos, corrupção e pedofilia veladas. A água ainda falta muito. É um país com população muito jovem. Os cabo-verdianos não têm, no entanto, problemas com a sua identidade cultural, apesar de toda a hibridez que os caracteriza: a miscigenação, África e a Europa, o português e o crioulo, mulatos e negros, mornas com mazurcas, nostalgia de fado, emigração imparável, diferenças entre as ilhas do Barlavento e do Sotavento, viandantes, cosmopolitismo, proximidade exagerada com Portugal. Parece que há uma essência profunda nesta aglutinação e mestiçagem, um traço forte de carácter e de costumes. Uma impressionante adaptação às contingências da História e da geografia. A luta pela sobrevivência nunca os fez esquecerem-se da dignidade: «as cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecer», dizia um poeta do movimento "claridade". As pessoas com quem me tenho cruzado são de uma generosidade e disponibilidade únicas. O tempo é uma coisa que se arranja sempre, nunca é dramático. Há tempo para estar e tempo próximo do tempo das histórias. A vida sustenta-se numa cultura do prazer que não é o da abundância mas sim o das coisas mais simples e belas que dão ordem ao mundo: beber, comer, fazer e ouvir música, namorar e dançar. Saudar a beleza das mulheres, de todos esses corpos que gingam. Faz-me reacordar uma ideia de vida que esquecemos nas nossas quezílias e cegueiras de auto-realização. Além de uma ideia de comunidade forte, em que a insularidade reafirma as relações humanas, nunca de forma mesquinha e provinciana, mas aberta ao mundo. Uma ideia de vida.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 02:24 PM | Comentários (2)

GRAND JACQUES

Também comprei os Cahiers du Cinéma com o novo filme de Jacques Rivette na capa e concordo com o que o Alexandre diz sobre a revista, desde a tal "concepção de cinema" que atravessa os textos ao anúncio da L'Oréal. Mas a leitura mais extensiva veio depois, feita ao longo de alguns dias: primeiro primeiro, com o café a arrefecer na chávena, foi a entrevista com Rivette, Emmanuelle Béart (a Marie de Histoire de Marie et Julien), Pascal Bonitzer e Christine Laurent (os argumentistas). É muito bonito ver o despique entre a cerebral cinefilia de Bonitzer e o instinto da Béart (que até faz um bocadinho género); e no meio Rivette, capaz de deslizar com incrível sensibilidade entre os dois campos, protegendo o mistério. Um exemplo: "O importante é o que eu vejo a partir do que um actor me dá, segundo um processo seu, que não me diz respeito. Quando a Emmanuelle me propõe alguma coisa não vem ter comigo antes a dizer: 'E se eu fizesse isto.' Ela faz. Depois eu vejo-a representar - não no visor da câmara (sei perfeitamente o que esta filma, conheço a sua posição e a sua óptica, que é quase sempre a mesma) - e posso reagir em relação ao real, a uma matéria que existe. Este real, esta 'matéria', é a Emmanuelle a representar. O Jerzy precisa às vezes de mais indicações, porque é fundamentalmente um actor de teatro."
Jerzy Radziwilowicz, o ausente da entrevista, é o Julien da Histoire. Pode haver quem o conheça do Coitado do Jorge (que é como se diz Jerzy em português) de Jorge Silva Melo; e pode haver quem passe a saber quem é se for, na próxima quinta, à Cinemateca: às 19h passa Secret Défense, o antepenúltimo Rivette, inédito em Portugal, com uma hitchcockiana Sandrine Bonnaire.

Publicado por Francisco Frazão às 01:38 AM | Comentários (2)

INIMIGO PÚBLICO

Não liguei muito quando li na capa do Público de sexta "Durão Barroso Diz Que Constituição de 1976 Não Foi Democrática". Afinal, na mesma página dizia-se "Michael Jackson avistado numa casa em Elvas"... Felizmente Mário Mesquita estava mais atento e responde hoje. Com as actas na mão.

Publicado por Francisco Frazão às 12:45 AM | Comentários (2)