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novembro 30, 2003

JERÓNIMO!

A notícia da capa do Independente desta semana ilustra alguns equívocos que se criaram ao longo dos últimos anos sobre as miragens do .alargamento a leste..
Políticos e espertalhaços têm feito a chantagem de que ou o pessoal aceita a vidinha de miséria proporcionada pelas restrições salariais e redução de direitos sociais que eles acham bem propor, ou os .capitais fogem. para os países de leste e as empresas deslocalizam-se à procura de largas massas assalariadas com elevada formação técnica, submissas e ansiosas pela chegada de labregos com dinheiro que as ponham a trabalhar com salários miseráveis, e onde os restantes intervenientes económicos aceitam com passividade a prática comum de as grandes empresas portuguesas imporem arbitrariamente aos seus fornecedores as regras que mais lhes convêm.
Enfim, o el dorado do chico esperto, a quadratura do círculo do vígaro.
Como chantagem não está mal pensado. Faz parte de qualquer negociação.
"O meu amigo aceite agora este preço especial que lhe faço porque já ali há mais pessoal interessado e até disposto a dar mais. A facturazinha? Já está na secretária do sr. director, mas o meu amigo sabe que nós pagamos a 90 dias, não se preocupe que depois nós telefonamos-lhe a informá-lo quando estiver a pagamento".
Esquecem-se que a capacidade de luta dos trabalhadores e dos sindicatos da Europa de leste, com destaque para o Solidariedade na Polónia, que se manifestou em condições de particular dificuldade contra os governos pró-soviéticos, não se extinguiu com esses governos apenas por uma qualquer empatia com outros exploradores.
Pelo contrário, o empresário avisado sabe que mau grado o apregoado baixo índice de formação (que é atirado como um insulto à cara de milhares de trabalhadores mas de que são co-responsáveis a generalidade dos governos e muitos empresários), será hoje difícil encontrar na Europa, e já agora em muitos países do chamado terceiro mundo, uma massa assalariada mais submissa e desarticulada do que em Portugal, onde começa a ser assombrosa a paz social podre que se vive quando temos cerca de meio milhão de desempregados, com o combate activo e praticamente sem oposição do governo a esses desempregados e todos os argumentos apresentados para justificar medidas anti-sociais a serem continuamente torpedeados pela revisão em baixa dos principais indicadores económicos.

Publicado por tchernignobyl às 06:20 PM | Comentários (3)

LEMBRANDO ASSIS PACHECO

Há precisamente oito anos, apagava-se Fernando Assis Pacheco. Um mestre da escrita, excelente poeta, homem que agarrou a vida pelos cornos e a viveu . inteira . até ao tutano. Por estes dias, a Assírio & Alvim teve a feliz ideia de editar o último livro de Assis, o opus final que estava a ser preparado, com a costumeira minúcia, naquele Novembro aziago. Havemos de falar sobre o precioso volume (organizado por Abel Barros Baptista), com outro tempo e detalhe. Por agora, deixamos apenas aqui, como um tributo, o poema que dá título à recolha: «Respiração Assistida». E ficamos em silêncio, comovidos, olhando para a fotografia em que o Assis, tão ao seu jeito, sorri para a objectiva, parado numa estrada campestre, apenas descido da bicicleta, e nos atira um daqueles manguitos à antiga portuguesa.


RESPIRAÇÃO ASSISTIDA

Eu vi a morte
de noite . névoa branca .
entre os frascos do soro
rondar a minha cama

era um trasgo
e como tal metera-se
pelas frinchas; noutra versão
coando-se através
dos nós da madeira
ou noutra ainda
imitando à perfeição
o gorgolejar da água
nos ralos: eu tremia
covardemente enquanto
ela raspava a parede
com unhas muito lentas

eu vi? ouvi a morte?
com toda a probabilidade
e por instantes
era ela . luz negra .
tentando cegar-me

Pardilhó, 7/9-VIII-94; Lisboa 27-XI-95

Publicado por José Mário Silva às 03:01 PM | Comentários (3)

UM HOMEM: GONÇALO M. TAVARES

Hoje à noite (round 21h30), em Aveiro, na livraria Navio de Espelhos (perto do Teatro Aveirense), é lançado o último livro de Gonçalo M. Tavares: «Um Homem: Klaus Klump». Alguns de nós . dois, para ser mais exacto . vão estar presentes. Talvez haja crónica do "evento", amanhã.

Publicado por José Mário Silva às 02:48 PM | Comentários (1)

SEIS MESES

Isto é: 184 dias, 4.416 horas, 264.960 minutos, 15.897.600 segundos.

Publicado por José Mário Silva às 02:42 PM | Comentários (3)

novembro 29, 2003

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (1)

Esta manhã, ao abrir correspondência avulsa e em atraso, encontrei a seguinte carta:

Caro Zé Mário,
Estive há uns dias longamente à conversa com um amigo, musicólogo em início de carreira, chamado António Correia Guerreiro, que me deu a conhecer, com inegável entusiasmo, a vida e obra de um compositor para mim desconhecido.
Chama-se este compositor Arnon Maarten. Suponho que também não o conheças, nem à sua música. Pois eu fiquei bastante curioso, quanto mais não seja pelo intenso brilho nos olhos do António ao falar deste personagem.
Quando o António me disse que tinha preparado recentemente uma pequena biografia de Arnon Maarten, incluindo uma análise de cada uma das suas 49 composições, eu pedi-lhe que me enviasse uma cópia do texto em formato digital.
Recebi ontem este documento e li-o de uma assentada. Não me pareceu mal.
Lembrei-me logo de ti e do teu blogue, onde se fala também de cultura e interroguei-me se poderia ter interesse ir publicando o trabalho do António Correia Guerreiro em .suaves prestações., por forma a partilhar com os teus leitores esta descoberta tão fresca.
Devo acrescentar que o António concorda com esta publicação on-line, caso a ti te pareça bem.
Para aperitivo envio-te a primeira parte do texto, por forma a teres oportunidade de ver se a consideras publicável. Diz-me qualquer coisa quando puderes.
Um abraço,
João Almeida

Apressei-me a telefonar ao João, meu velho amigo dos tempos da Faculdade (cursámos ambos Biologia, embora só ele exerça), pedindo-lhe para ver o inesperado material. E foi assim que tomei contacto com um criador tão espantoso como desconhecido, pelo menos para mim.
Não sem algumas hesitações, decidi partilhar a descoberta com os nossos leitores. E é assim que passaremos a publicar semanalmente (ou seja, todos os sábados) um capítulo da originalíssima análise levada a cabo por António Correia Guerreiro . a quem agradecemos desde já a cedência deste texto ainda inédito.
Para começar, deixo-vos a breve introdução do musicólogo à figura de Arnon Maarten:

O compositor holandês Arnon Maarten nasceu em Roterdão a 3 de Fevereiro de 1933, tendo falecido na mesma cidade no dia 9 de Julho de 1996.
Filho de dois professores de matemática, iniciou os seus estudos musicais aos cinco anos, tendo completado o curso de piano do Conservatório de Roterdão com vinte e quatro anos.
Nunca foi um pianista de relevo, tendo-se, desde a adolescência, interessado mais pela composição, curso que igualmente completou no mesmo Conservatório.
Findos os estudos, conseguiu um lugar como professor de composição na escola onde se formara, cargo que manteve até à sua morte, fruto de um ataque cardíaco, já perto de atingir a reforma.
Foi um homem extraordinariamente metódico e um compositor ferozmente autocrítico, alternando ao logo da vida períodos de intensa criatividade com outros de demorada análise e revisão da obra já feita.
Passou o penúltimo ano de vida a organizar a versão definitiva da sua obra, uma vez que decidira que o Requiem para violoncelo e piano Op. 49 (de 1994) seria a sua última composição.
Desta forma, no arquivo pessoal do compositor encontram-se as suas 49 obras, compostas entre 1961 e 1994, nas versões que o autor quis preservar, tendo o seu filho mais novo, Pieter Maarten (a quem devo o acesso a este arquivo, bem como aos diários do compositor), assegurado que o pai destruiu todas as obras que considerou .indignas., bem como versões entretanto alteradas das restantes obras, numa enorme fogueira, em Dezembro de 1995.
Assim, apesar de Arnon Maarten ter sido um compositor muito discreto, que apenas viu serem interpretadas em vida oito das suas obras (Op. 15, 18, 22, 26, 34, 37, 38 e 41 . a que acresce o Requiem Op. 49, interpretado no seu funeral), deixou-nos uma colecção definitiva das suas partituras, completamente ordenada e manuscrita em excelente caligrafia, sem emendas, que não deixa quaisquer margens para diferentes interpretações quanto às intenções finais do compositor.
Pieter Maarten confidenciou-me também que o pai, na noite de fim de ano de 1995, declarou solenemente à família que tinham cessado os seus trabalhos como compositor, indo então dedicar-se apenas a aguardar serenamente pela reforma e, posteriormente, pela morte.
Deverá pois ter sido um homem tranquilo, pelo menos do ponto de vista artístico, aquele que sucumbiu na própria cama, nos braços da sua amada Nadine, esposa de toda a vida, na madrugada de 9 de Julho de 1996.
Após a análise detalhada que pude fazer das partituras de Arnon Maarten, parece-me que conheço minimamente este homem, que teve uma vida regrada de professor, usando os tempos livres para nos deixar um interessantíssimo e original acervo, pontuado por memórias da segunda guerra mundial (vivida em criança enquanto pequeno espectador aterrado, num país invadido) e uma fina e corrosiva ironia, que se foi acentuando ao longo da vida, tornando-se particularmente notória a partir do momento em que o compositor entende que domina as formas e se pode então dar ao luxo de deixar a imaginação correr mais livre.
Pretendo de seguida fazer uma pequena análise a cada uma das composições de Arnon Maarten, descrevendo cada uma minimamente e tentando enquadrá-la com a ajuda dos preciosos diários do compositor.
Para cada obra indicarei obviamente o seu nome (na tradução em português), mas também a data de composição e a duração aproximada estimada pelo compositor para a sua interpretação, indicada entre parêntesis.
Começarei então pela Peça para piano Op. 1, de 1961 (8 min)

(continua no próximo sábado, dia 6 de Dezembro)

Publicado por José Mário Silva às 10:40 PM | Comentários (1)

BUSH EM BAGDAD

Foi num pé e veio no outro. Às escondidas. Em segredo absoluto. Com um boné de basebol enterrado na cabeça, supostamente para enganar os seus próprios guarda-costas. Metido num avião sem luzes e de vidros fumados, que aterrou durante a noite na capital iraquiana. E lado a lado com Condoleezza Rice, para "parecerem um casal". Depois, num refeitório militar cheio de soldadesca esfomeada, surgiu de surpresa com o peru do Thanksgiving, todo sorrisos, apenas o tempo suficiente para ser filmado e fotografado por repórteres escolhidos a dedo, antes de se enfiar novamente no avião presidencial e regressar ao conforto do seu rancho no Texas. Não acham que tudo isto cheira demasiado a Hollywood?
Eu posso responder: não cheira, tresanda. Mas os efeitos nas sondagens já se fazem sentir, essa é que é essa. E torna-se óbvio que o Iraque, depois de ter sido sujeito ao capricho vingador de George W., vai estar cada vez mais dependente das necessidades de protagonismo dos republicanos, em tempo de pré-campanha eleitoral.

Publicado por José Mário Silva às 10:21 PM | Comentários (2)

VERSOS QUE NOS SALVAM

É um dos poetas "novíssimos", como alguns críticos gostam de chamar a quem escreve versos e tem menos de 40 anos. Dentro dos "novíssimos", é dos que se sentem mais próximos do real (versão Joaquim Manuel Magalhães) do que de alguma abstracta forma do sublime. É, sobretudo, um autor atento ao mundo que lhe coube em sorte, às suas asperezas e cintilações. Chama-se Jorge Gomes Miranda. Na Colecção Forma, da Editorial Presença, acaba de publicar um volume intitulado «Postos de Escuta», de onde retirámos dois poemas (um político e um quase lírico):


ESTATÍSTICA

A soma do número de mortos
por acidente nas estradas,
mais a dos vitimados por
causas naturais,
a multiplicar pelos que sucumbem
por negligência nos hospitais,
e pelos «suicidados» nas esquadras
ou nas prisões,
dá como resultado um país?

A soma do número dos despedidos
por falência fraudulenta
das empresas,
mais a dos que o foram
por justa causa,
a multiplicar pelos que sobrevivem
do trabalho precário,
e pelos que andam ainda
à procura do primeiro emprego,
dá como resultado um país?

A soma do número...

PRIMEIROS SOCORROS

As novas técnicas de salvação:
salvação pelo riso,
salvação pelo medo,
salvação pela palavra,
salvação pelo amor e pela amizade,
salvação pelo risco.

De todas, nenhum sobrevivente.
Veneram-se, em episódios diários, os heróis;
os incompreendidos aumentam de número,
queixam-se da falta de dentes,

nascem prematuros os filhos
dos sonhos aos pesadelos,
qual de nós alguma vez regressa?

Com o tempo requeremos cuidados especiais.
Vejamos: o sentido para a fuga leva-nos
a desenvolver dotes inesperados:
a doce aprendizagem de como
abrir fechaduras,
roubar automóveis para ir ter com a namorada.

Chamam-se delírios as interrogações?
De todas as de seda
esta outra de ganga: poderemos amar sem ser vistos,
ansiando sem Platão que qualquer compromisso
se esboroe à nossa passagem,
assim um vento sem advertências:

é de ti que falo
há quanto tempo tentas resistir
e caminhas sozinha pela cidade?
Acaso ainda não descobriste ser o sangue
um código, uma profissão de fé
inexistente?

Publicado por José Mário Silva às 07:32 PM | Comentários (2)

BROTHERS IN ARMS

Já vai sendo tempo de agradecer aos blogues e bloggers que saudaram esta nova fase do BdE: obrigado a todos, do fundo do coração. Mas, se nos permitem, enviamos um abraço particularmente caloroso ao Daniel e ao Rui, do Barnabé. Porque se o blogue deles é um bocadinho nosso filho, também é de alguma maneira nosso pai.

Publicado por José Mário Silva às 06:49 PM | Comentários (0)

FLOR DE LARANJEIRA

A Charlotte, também conhecida por Bomba Inteligente, deu hoje o nó com um argentino a quem já chamava, há muito tempo, marido. Parabéns aos dois. Muitas felicidades, bebés, Planos de Poupança Reforma, etc. E uma vez que por aqui não temos grande apreço pelo casamento, enquanto instituição, louvamos também a vossa loucura. Quer dizer, a vossa coragem.

Publicado por José Mário Silva às 06:26 PM | Comentários (0)

JACQUES PRÉVERT NA ABRIL EM MAIO

Começa já para a semana e dura dois meses. Vai ser quase todas as sextas, sábados, domingos e segundas até 1 de Fevereiro (no Regueirão dos Anjos, 68, Metro Intendente, e noutros sítios também). É o ciclo Jacques Prévert / Grupo Outubro. O que foi o Grupo Outubro? Sabe-se já na primeira sessão, sábado 6 às 16h. O programa está todo aqui. Vai ser feito com gente de cá e gente que veio de propósito de lá. Vai haver uma exposição de colagens de Artmini, filmes em vídeo e em película, teatro amador e profissional, leituras, canções, edições (por exemplo, cenas, na &etc), oficinas (colagens, tradução, ilustração, escrita, para grandes e pequenos), apresentações sobre "O Meu Prévert" (por Vítor Silva Tavares, Glicínia Quartin, José Duarte, João Bénard da Costa, Maria Emília Correia e Eduarda Dionísio), debates a propósito (a escola, artes para crianças, artes e intervenção, o Front Populaire, amadores/profissionais). É um daqueles acontecimentos que não cabe nas agendas dos jornais (vai para onde? o cinema? o teatro? as exposições? as conferências?) e que temos por isso de pôr nas nossas, sejam moleskines, filofaxes ou as costas da mão. Como é que se diz? A não perder...

Publicado por Francisco Frazão às 05:47 PM | Comentários (3)

O SANGUE DA INTIFADA

Uma coisa que nunca pára de me espantar é o modo ligeiro como na direita internacional se disfarça mal o ódio ao árabe, mascarando-o de "repúdio pelos assassinos extremistas muçulmanos". E nunca pára de me espantar principalmente o modo ligeiro como se brandem números (ou noções numéricas) falsos, como se dizer que "os fulanos X são mais assassinos que os fulanos Y" desculpasse de algum modo os assassínios cometidos pelos fulanos Y.
A verdade é que a Intifada nasceu de uma revolta generalizada, nos territórios ocupados, contra as arbitrariedades, roubos e violências do estado e do povo israelitas (não todo, felizmente: há sectores em Israel que se opõem frontalmente à política de violência dos seus governos sucessivos; pena é que sejam uma pequena minoria) sobre os palestinianos.
Foi um movimento espontâneo, que de início fugiu por completo ao controlo dos líderes palestinianos e os apanhou de surpresa. E é essa raiva e essa revolta que se têm acentuado com os anos e com o avolumar do número
de mortos, que já se aproxima dos quatro mil. Cada um destes quatro mil assassínios foi consequência dos actos de um assassino, mas já que a direita anti-árabe descai com tanta frequência até à enormidade de fazer contabilidade com essas vítimas, é preciso lembrar que mais de dois terços dos quatro mil mortos da Intifada são palestinianos. E não nos querem convencer de que são todos suicidas, pois não?
Alguém que deseje ter alguma legitimidade para se considerar "equilibrado" na análise do conflito da Palestina não pode nunca condenar os atentados suicidas sem condenar com igual força (ou violência, se preferirem) a política que lhes dá origem e muito menos fazer demagogia com quem será mais ou menos "assassino" naquela terra.
E além de tudo o mais, os principais responsáveis pela violência nem são quem a comete: são quem a incentiva. Nomeadamente quem, em altura de negociações de paz e de cessar-fogo, se vai passear para território sagrado para o outro povo, como dono do sítio, numa provocação incendiária, num acto de autêntico terrorismo psicológico. O sangue dos mortos da Intifada está principalmente nas mãos de quem comete actos destes.
E isto, meus senhores, é equilíbrio.
(Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 05:11 PM | Comentários (0)

QUIZZ PARA TARDE FRIA DE NOVEMBRO...

.Is that you X?.
.Yes it is, you old devil, what do you want?.
.Three of my boys went missing near. and I want to find out what happened to them..
.I think they.re already dead..
.I.ve got one of their parents on to me about it, so can you tell me for certain that they.re gone?.
.Yep, certain. You have my word. By the way how.s the family?.
.They.re doing just fine, we.re managing pretty well..
.Glad to hear about it. By the way, now that I.ve got you on the line, we.ve got twenty bodys of yours near the front and they.ve been stripped bare. We slung them into a mass grave and they.re now stinking to high heaven. Any chance of you coming to pick them up because they really are becoming unbearable.?.

Realidade ou ficção? Quem é X? Aceitam-se sugestões para a origem deste diálogo. Aos que gostam de jogar na segurança dos prognósticos no fim, a resposta no final da tarde.

Publicado por tchernignobyl às 02:54 PM | Comentários (2)

PASSA POR MIM NA RIBEIRA

Acabei de saber que está a decorrer no Mercado da Ribeira em Lisboa uma venda de videos usados, organizada pela Amnistia Internacional.
O horário é: sábado 29 de Novembro e domingo 30, das dez da manhã à meia noite. Asseguram-me que há muitos títulos disponíveis (com a exclusão do porno hard-core) e em óptimo estado.
Ainda para mais, à Amnistia Internacional falta claramente vocação para acarretar com caixotes com o mesmo material anos a fio e por isso o preço reflecte uma política de "no nonsense": cada vídeo 1 euro.
Vemo-nos lá pelo mercado.
Livreiros, ponham aqui os olhos. Quando é que vamos deixar de ver livros publicados há mais de 10 anos, debaixo das persistentes tabuletas de 5 e 7,5 euros como é hábito neste tipo de feiras de livros "baratos"?

Publicado por tchernignobyl às 02:16 PM | Comentários (2)

MAIS VALE TARDE...

Tsss... Tsss... Já isto vai tão animado e o tchern nas covas, comentava o pessoal no café.
É que, rapazes, não há post mais difícil do que o primeiro. Isto é muito bonito, mas comentar, eu já tinha avisado, aliás eu já ME tinha avisado, é muito mais simples e fácil do que .postar.. O .comentador habitual. abre a página, pica sobre o post, desfere a sua bicada e volta para a sua vida, enquanto que o blogger não tem outro remédio que não seja arranjar assunto.
Este atraso tem a ver também com a urdidura... na sua forma mais tenaz, subreptícia e desgastante: o trabalho, o famigerado. Theias que a vida tece. E se as urdiduras limitam a capacidade de resposta da oposição ao governo, muito mais enfraquecem a pujança bloguística do assalariado que cai fora da categoria dos que usam a escrita diariamente como instrumento de trabalho.
Enfim... para ser franco, eu ainda não sei bem como se deu esta minha promoção a postador do BdE. Alguma dose de obstinação, inconsciência e irresponsabilidade do zé mário foi o que foi.
E também porque independentemente das especificidades da eventual "linha politica" de cada um, bastou-me observar a forma como este blog funcionou nos últimos cinco meses, desde que o descobri, para perceber que qualquer escrúpulo meu em participar nele só poderia advir da consciência das minhas próprias limitações. É um bom clube que eu sinto prazer que me aceite como sócio.
Aproveito ainda para informar que me mantenho um comentador viciado e que continuarei a comentar com incontinência por todo o lado onde veja janelas a jeito.
Obrigado a todos os que saudaram esta nova fase do BdE, em particular à zazie e ao antcolony. Espero que continuem a gostar.

Publicado por tchernignobyl às 01:42 PM | Comentários (8)

NOUVELLE CUISINE

A Joana Gorjão Henriques há-de desculpar-me, mas não resisto... No Y de hoje, no texto sobre a peça Cicatrizes (Stitching no original) de Anthony Neilson, diz o seguinte: "o dramaturgo quis escrever a peça depois de ver uma fotografia de uma vagina cozida [sic] numa sex shop, em Amsterdão." Não quero dizer mais nada, a imagem é tão surreal que fala por si (salvo seja).

Publicado por Francisco Frazão às 12:38 AM | Comentários (0)

novembro 28, 2003

SEM COMENTÁRIOS

Na passada terça-feira, o parlamento espanhol discutiu uma proposta apresentada por todos os partidos da oposição. Pretendia-se, tão simplesmente, reclamar do Governo o repúdio pelo assassinato de José Couso . um operador de câmara da Telecinco, morto há seis meses, em Bagdad, durante o ataque norte-americano ao Hotel Palestina . e o arranque dos trâmites diplomáticos e políticos que conduzam a uma investigação «verdadeira, formal e com garantias suficientes de independência». Era só isto: averiguar, apurar responsabilidades penais e possíveis indemnizações, além de reconhecer o trabalho dos jornalistas mortos no Iraque. Mas a moção foi rejeitada. Rejeitada apenas com os votos contra do Partido Popular, de José María Aznar . precisamente o primeiro-ministro que vergou a Espanha à vontade de Bush, na triste aventura iraquiana.

Publicado por José Mário Silva às 07:44 PM | Comentários (2)

TRIBAL

A propósito das lides futebolísticas da Lusitânia, ficámos a saber que o nosso primeiro-ministro mantém uma costela terra-a-terra e colectivista, com retoques de realismo mágico. Em visita ao estádio do dragão, enalteceu o carácter guerreiro e nómada dos masai, gentios da fronteira entre a Tanzânia e o Quénia que estão organizados em tribo. Vincou o facto de as suas indumentárias serem vermelhas (remember me, Arnaldo Matos?) e embrulhou a associação Portugal-FCPorto-Selva num registo semi-cabalístico. Efabulou como um Calvino. Reinventou o conceito de desporto-rei, aprofundando o seu carácter universal, sem fronteiras.
O registo em jeito de quimera faz todo o sentido; na linguagem simbólica a quimera era um ser híbrido, que possuía cauda de dragão e vomitava chamas. A quimera não podia ser enfrentada de frente. O Mourinho e seus rapazes também não. Nem sequer o défice público, não é Zé Manel?
(Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 06:41 PM | Comentários (0)

AINDA O PROBLEMA DA HABITAÇÃO

A metáfora da casa, na net que é feita de moradas, janelas e palavras-chave, é daquelas inevitáveis, como falar das costas da cadeira que não tem verdadeiramente costas. O problema é a frase do Filipe Moura que eu citei (dita num encontro de blogs - acho que foi no Dicionário que a encontrei), sobre os blogs como um big brother de intelectuais. Ficou-me na cabeça e acho que há nela uma verdade (um perigo) que é preciso minar... a partir de dentro. E é aqui que a casa deve ser libertada da tal ideologia do home, sweet home, que a fecha aos ventos que vêm de fora.
Não tenho dúvidas, Zé Mário, de que este vai ser esse lugar sem renda que se partilha e habita (ainda não te dei os parabéns pelas linhas e azuis do BdE II!) e que, mesmo com morada fixa, não se deixa agarrar: uma casa andante, uma casa-rua para passarmos pelos outros e por nós, feita de ficções e ocupações. Aqui ainda estamos no campo das metáforas. Hoje acordei com marteladas infernais no andar de baixo, estavam a escavacar uma parede. A cada martelada penso que é a última. Ainda não pararam. Vou sair.

P.S. para a Filipa: só comentas posts sobre casas? (parabéns!)
P.S.2 A pergunta do FM, recolhida na fonte, é: "serão os blogues uma alternativa intelectualizada ao Big Brother?"

Publicado por Francisco Frazão às 03:20 PM | Comentários (3)

O PROBLEMA DA HABITAÇÃO

Será que faz sentido comparar este blogue a uma casa, como temos feito desde o início (em parte inspirados pelo quadro do Caillebotte)? O Frazão torce o nariz e lá tem os seus motivos. Como ele, também me irrito com todas essas «metáforas ideologicamente pequeno-burguesas» do conforto, da família feliz, do lar doce lar e patetices do género. E se não nego que me interessa o jogo da intimidade semi-revelada, justamente enquanto «ficção feita de linguagem», posso garantir que o BdE nunca será o BB. Quanto a isso, fiquem descansados. Ao falar de "casa", pensei apenas num espaço onde se vive, num lugar que se partilha e habita. O nosso espaço, Frazão, o nosso lugar. Só isso.
Quanto ao resto, é evidente que nos viraremos muito mais para o exterior (para o mundo e para a "rua") do que para dentro. Ou se quisermos resumir tudo numa frase: cada um fará deste sítio o que muito bem quiser. A "casa" é só o ponto de encontro. A ideia comum que nos une. Ninguém é residente . até porque não há senhorio nem renda a pagar. Somos todos okupas.

Publicado por José Mário Silva às 11:17 AM | Comentários (1)

JULGAMENTO DO "CASO MODERNA" E OUTRAS DESGRAÇAS

A montanha pariu um rato. Esperava-se, aliás. Com a sentença do .caso Moderna. todos ficam satisfeitos: os réus porque se safam bem, os magistrados porque se descartam de um problema, os advogados porque se libertam de uma .chatice. e o país porque se sacode como quem enxota uma mosca incómoda.
Confesso que já não me lembro como o caso começou. Mas lembro-me de se falar de tráfico de droga, de armas, de branqueamento de capitais, etc, etc. Afinal não era nada. Apenas uma corrupçãozita com pena suspensa, nada que uma leitura penitenciada do .Evangelho Segundo Jesus Cristo. e meia dúzia de orações pela salvação de Saramago (Nobel, por inenarrável azar!) não resolvam.
Fica a sensação de que ficou quase tudo por fazer: pessoas por incriminar, crimes por investigar, teias por esclarecer, cumplicidades, conluios e tanto mais que me fenecem as palavras.
Por mim, não estou surpreendido. Nunca confiei na chamada justiça, e a prova está à vista. Alguém acredita que se fez justiça, isto é, que se condenaram os culpados (todos!) na adequada medida? Eu não.
Isto não é mais do que o pré-aviso. A pedofilia será a segunda parte destes anos de arrasador incómodo para a tranquilidade das instituições.
Resta uma dúvida: será que os réus condenados, ainda que agraciados com penas suspensas, podem ser considerados criminosos? Ou ainda gozam da presunção de inocência? Se calhar, alguém já se apressou a esclarecer o caso na televisão, mas um homem sempre tem direito a ver o seu Sporting eliminado por 3-0, que diabo!
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 10:23 AM | Comentários (6)

0-3

Alguém sabe quando é que chega o novo treinador do Sporting?

Publicado por José Mário Silva às 10:14 AM | Comentários (6)

AS HORAS

Será que estou condenado a postar neste turno? Espero de futuro ser menos previsível. Aproveito antes de desligar para agradecer as boas vindas nos comentários lá de baixo e as referências simpáticas que encontrei aqui e aqui; e para dizer olá à Marta e à Margarida...

Publicado por Francisco Frazão às 04:11 AM | Comentários (1)

25 DE NOVEMBRO

Tenho seguido com interesse a conversa no barnabé sobre o 25 de Novembro (por isso é que pus este título assim singelo e directo e não fui buscar outros mais originais como "O outro 25" e "vinte e cinco do onze").
Acho importante que o André Belo fale da data como um lugar onde ainda se "luta pela memória", luta essa que descende da dos contemporâneos; e que critique o anacronismo que é olhar para os acontecimentos passados como inevitáveis e totalmente previsíveis.
Sei pouco sobre o que se sabe que aconteceu nesses dias (pronto, vi o Gestos e Fragmentos do Seixas Santos e consultei umas cronologias de que não fixei quase nada). Mas vejo o 25 de Novembro como uma espécie de recalcado da revolução, uma data que não fica (não ficava?) bem comemorar a quem secretamente talvez o desejasse (excepção feita a alguma direita que, ao menos, é honesta), preferindo-se construir antes a imagem da revolução feita num só dia (o de Abril) e com uma única conquista (a liberdade). É esta a história recebida e hegemónica, parece-me.
Mais: o 25 de Novembro funciona como sinal estenográfico para muitos outros dias em que, por essa altura, acabaram coisas e começaram outras. Houve muitos mais vinte e cincos de novembro do que o do campo politico-militar. É sobre este nó temporal de acontecimentos que atravessam toda a sociedade que se joga a tal "luta pela memória", com a particularidade de que a posição dominante é a luta pelo esquecimento. Não há portanto dois campos que, "democraticamente", propõem visões antagónicas do que se passou.
Benjamin diz que é preciso combater de novo as batalhas do passado, sob pena de serem novamente perdidas: o passado é instável, e aceitar a sua imprevisibilidade de então implica aceitar a sua imprevisibilidade agora; as lutas de agora são também (têm de ser) lutas pela memória.

Publicado por Francisco Frazão às 04:01 AM | Comentários (8)

OH AS CASAS

Acho que não gosto da comparação entre blogs e casas. Irritam-me expressões que se usam por exemplo nas empresas e nas faculdades como "tem muitos anos de casa", ou "os estudantes desta casa", metáforas ideologicamente pequeno-burguesas que desenham a esfera pública à imagem e semelhança da privada porque esta é mais "familiar".
Os blogs jogam nesta fronteira, com todas as ficções de exposição da intimidade que isso permite ("Só as casas explicam que exista / uma palavra como intimidade": quererá isto dizer não a intimidade mesma mas a sua ficção feita de linguagem?). E espreita o perigo da casa-prisão-mas-aberta-aos-olhos-de-todos: quem foi que disse que os blogs eram um big brother para intelectuais?
Neste blog que, na outra encarnação, tanto defendeu a rua, menos sentido faz ficar fechado em casa... Não me obriguem.
Dialéctica síntese: ponha-se então "a rua dentro de casa", como diz o Manuel Gusmão; e, como se canta no T1 do José Maria Vieira Mendes, faça-se com que "our house" seja "a house that moves just like the ocean".

Publicado por Francisco Frazão às 03:17 AM | Comentários (1)

STAND-UP TRAGEDIES

Esta noite fui ao Teatro Maria Matos ver «Stand-Up Tragedy», brilhante one man show do Tiago Rodrigues (a partir de um texto de Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges, seus companheiros de blogue), sem imaginar que ali perto, à mesma hora, no Estádio Alvalade XXI, decorria outra . e muito mais cruel . "tragédia em pé".

Publicado por José Mário Silva às 12:23 AM | Comentários (0)

SEGUNDA CASA

Ouvi "de esquerda" quando ouvi pela primeira vez a palavra "blogue". Não foi o primeiro que li, tenho a certeza de que foi o segundo. Agora a leitora pôs-se a escrever. Chego assim, pela mão do Zé Mário, à versão aumentada do BdE. Não é o primeiro nem o único blogue onde escrevo: é o segundo. No outro canto, cabe tudo o que é verdade e o que não é sério; aqui talvez albergue episódios ficcionados e ideias mais estruturadas (poucas, muito poucas). Do mesmo lado do ecrã, com a chave de casa, espero não envergonhar os manos Silva. Vemo-nos, também, por aqui.

Publicado por Margarida Ferra às 12:23 AM | Comentários (0)

novembro 27, 2003

NOS BASTIDORES

Ai, ai, ai...
O meu primeiro post no BdE e o teclado gagueja.

Publicado por Margarida Ferra às 11:51 PM | Comentários (1)

LE SILENCE

No próximo domingo, Marcel Marceau, o mais famoso de todos os mimos, vai ao «Herman SIC». Coitado. Ninguém, mesmo no declínio da carreira, merece tamanha cruz. E daí, até pode ser que a passagem por aquele aluvião de imbecilidades e brejeirices tenha um carácter redentor. Bastaria que Marcel conseguisse explicar ao ex-humorista o valor extraordinário do seu material de trabalho: o silêncio onde cabem todos os gestos. Ilusão a minha, claro. Porque se a personagem de Marceau não sabe falar, a de Herman não sabe ouvir.

Publicado por José Mário Silva às 06:23 PM | Comentários (2)

MÁ NOTÍCIA

A Zero em Comportamento, uma das mais activas associações culturais lisboetas e animadora do vetusto Cine 222 (por onde têm passado muitos filmes que o circuito oficial ignora), vai fechar as portas durante os próximos tempos. Sem apoios logísticos que permitam um mínimo de «condições para trabalhar», os responsáveis da associação preferem congelar o projecto, à espera de «melhores dias». Quer isto dizer que se a diversidade da oferta cultural em Lisboa já era escassa, pelo menos no campo do cinema alternativo, agora será ainda menor. É uma pena (para não dizer que é uma vergonha).

Publicado por José Mário Silva às 05:55 PM | Comentários (7)

IDEIAS FILMADAS

No interessantíssimo ciclo «Cinema & Pensamento», organizado pela Culturgest, é exibido esta tarde o filme «The Hottentot Venus», de Zola Maseko (Pequeno Auditório, 18h30). A não perder, tal como o próximo . «La Sociologie est un sport de combat», de Pierre Carles, agendado para 11 de Dezembro . que nós já vimos e recomendamos.

Publicado por José Mário Silva às 05:38 PM | Comentários (1)

FOME ZERO

Como era previsível, a maior dificuldade de Luís Inácio Lula da Silva, enquanto Presidente da República, tem sido a problemática gestão das expectativas. Ao eleger o seu eterno candidato, a esquerda brasileira esperou uma vaga de mudanças e a resolução imediata dos mais graves problemas sociais. Só que as coisas não são assim tão fáceis e Lula acabou por se enredar nos labirintos do poder, numa lógica que conduz inevitavelmente a compromissos, impasses e cedências. Dentro do próprio PT (Partido dos Trabalhadores) não faltam vozes críticas que apontam o dedo ao excesso de "pragmatismo" económico do Presidente . capaz, no limite, de colocar em causa algumas das suas principais promessas. Mesmo admitindo que nem todas se podem cumprir, há pelo menos uma dessas promessas que não deve ser abandonada, haja o que houver. Refiro-me ao Programa Fome Zero, de luta contra a pobreza extrema e a fome (a fome verdadeira; não a metafórica). Mesmo que Lula falhe em tudo o resto, espero sinceramente que não falhe nesta iniciativa, que é a base e o alicerce de qualquer esforço de justiça social que se pretenda levar a cabo no Brasil. Sobre o tema, vale a pena ler o texto do Ministro Extraordinário da Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano da Silva, publicado hoje pelo DN.

Publicado por José Mário Silva às 05:31 PM | Comentários (0)

VENHAM A NÓS, ITÁLICOS

Depois do Pedro Farinha, que foi o primeiro itálico a estrear os novos aposentos do BdE (curiosamente com um texto enviado para o e-mail antigo, talvez devido à força do hábito), gostávamos de ver mais gente a participar nesta página com "colaborações externas". Sobretudo nesta fase de (re)arranque, em que a nova equipa ainda funciona a meio gás, todos os contributos serão bem-vindos.

Publicado por José Mário Silva às 02:28 PM | Comentários (5)

COLÔMBIA, 26/11/2003

Dolores já não sente os pés. O medo deu lugar ao cansaço, mas o orgulho e a vontade firme mantêm-se bem visíveis no seu rosto. À sua volta, na mesma marcha, muitas mulheres. Três mil, talvez. Embrenham-se pela zona de guerrilha em pleno coração da Colômbia, em locais onde a policía e os soldados não se atrevem a entrar.
Mas vêm sós. Sem escolta. Como única arma a voz atravessada na garganta e a vontade de dizer ao mundo: Basta! Dolores perdeu o marido e o filho. Assassinados. Mas Dolores não perdeu a dignidade e ainda acredita que três mil mulheres podem ensinar algo ao mundo.
Eu acredito nela, acredito nelas, e é também para poder divulgar este tipo de acções que vale a pena existirem blogues.
(Pedro Farinha)

Publicado por José Mário Silva às 02:14 PM | Comentários (0)

O LIVRO INÚTIL

No metro, aquela mulher devorava um livro de auto-ajuda. O título era «Como fazer amigos e influenciar pessoas» . ou qualquer coisa do género. Mas a mulher estava sozinha e ninguém lhe ligava.

Publicado por José Mário Silva às 11:22 AM | Comentários (9)

ORELHAS

As associações de ideias prestam-se a todo o tipo de equívocos. Por exemplo: hoje, ao ler a frase «Homem acusado de violar deficiente fica sem orelha», na primeira página de um jornal abjecto, só consegui pensar em Van Gogh.

Publicado por José Mário Silva às 11:10 AM | Comentários (0)

AND ON THE LEFT, MR. SHARON

Para resolver a crise israelo-palestiniana, os colonos sionistas não estão com meias medidas. De acordo com o seu plano, anunciado esta semana, o estado israelita deveria englobar a totalidade dos territórios ocupados desde 1967 (Cisjordânia e a Faixa de Gaza), numa divisão à maneira suiça, por cantões (10), sendo que apenas dois seriam atribuídos aos palestinianos. Os mesmos colonos manifestaram-se contra Ariel Sharon, apenas porque o falcão-mor pôs a hipótese de desmantelar alguns colonatos mais difíceis de defender. Curioso paradoxo: a extrema-direita israelita é tão linha dura que até faz com que Sharon, esse ídolo dos reaccionários musculados, pareça um inocente esquerdista.

Publicado por José Mário Silva às 10:59 AM | Comentários (7)

PACTO DE INSTABILIDADE

Quando o Ecofin permite às grandes nações, como a França e a Alemanha, o que não tolera aos países pequenos (ou seja, a ultrapassagem dos 3% do PIB, como limite do défice orçamental), só se pode concluir uma coisa: há algo de podre no reino da Eurolândia. Ou como diria o Orwell, na União Europeia somos todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros.

Publicado por José Mário Silva às 10:46 AM | Comentários (0)

novembro 26, 2003

AMERICA.S CUT

Habituados à fartura da Expo e do Euro 2004, julgávamos que a coisa estava no papo. As regatas da America's Cup tinham que vir para as nossas águas, tão azuis e cheias de História. Afinal, foi Valência a ficar com o bolo (e com o resto). Os nossos marinheiros de água doce, pedantes e cheios de vento, assobiam agora para o ar, tristonhos. E eu, com a pena que me dão, até lhes sugiro uma modinha. Pode ser «A Baía de Cascais», dos Delfins. Em ritmo de marcha fúnebre.

Publicado por José Mário Silva às 03:14 PM | Comentários (18)

A CRATERA

Em Lisboa, um autocarro afunda-se no asfalto. A cratera parece um olho gigante, aberto no meio da cidade. Há ameaças, pequenos pânicos, outras derrocadas em perspectiva, alguma histeria e o subsolo aparentemente roído como um queijo suíço. Cá por mim, desconfio que a culpa é da ministra Manuela Ferreira Leite. Obcecada com o défice, deixou o buraco das finanças públicas à solta pelo país.

Publicado por José Mário Silva às 03:01 PM | Comentários (3)

É A CULTURA, ESTÚPIDO!

Hoje à tarde, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, realiza-se mais um "É a Cultura, Estúpido!". Depois de António Mega Ferreira, o convidado deste encontro sobre livros é Gonçalo M. Tavares, um dos mais interessantes e produtivos escritores da nova geração, autor de, entre outros livros, "O Senhor Henri", "O Senhor Valéry" e o recém-editado "Um Homem: Klaus Klump" (todos da editorial Caminho). A equipa mantém-se . a jornalista Anabela Mota Ribeiro, os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, os colunistas Daniel Oliveira e Pedro Lomba e o stand-up comediant Ricardo de Araújo Pereira. Quem passar pelo Jardim de Inverno poderá, por exemplo, saber "O Que Não Andam a Ler" os críticos, conhecer as sugestões de "Baixa Cultura" dos jornalistas, ouvir a crónica humorística sobre a actualidade literária e assistir a um debate a partir do livro "O Inimigo Sem Rosto . Fraude e Corrupção em Portugal", de Maria José Morgado e José Vegar (Dom Quixote), que em princípio estarão presentes.
O "É a Cultura, Estúpido!", evento organizado pelas Produções Fictícias, continuará a realizar-se até Junho de 2004, nas últimas quartas-feiras do mês, no Teatro Municipal São Luiz.

PS: Por motivos de força maior, o Pedro Mexia não vai estar presente na sessão de hoje.

Publicado por José Mário Silva às 02:56 PM | Comentários (0)

EPC GOES BLOGGING

Há dias, numa das suas crónicas do Público, Eduardo Prado Coelho questionava-se: «Precisamos ainda de intelectuais? Claro, a resposta é sim. Mas como funcionam eles em tempo de blogues?» A esta pergunta, nós respondíamos com uma pequena provocação: o dever do intelectual, «em tempo de blogues», é justamente criar o seu espaço de opinião na blogosfera.
Bem dito, bem feito. Embora ainda não se tenha estreado oficialmente, já é seguro que EPC vai participar num verdadeiro dream team bloguístico, lado a lado com figuras de alto perfil mediático: Ana Gomes, Jorge Wemans, Luis Nazaré, Luis Osório, Vicente Jorge Silva ou Vital Moreira. O blogue chama-se Causa Nossa (título roubado ao restaurante onde os novíssimos bloggers mantêm uma tertúlia quinzenal) e fica aqui. Sejam bem-vindos.

Publicado por José Mário Silva às 12:17 PM | Comentários (0)

«DE ALGUMA MANEIRA O LEITOR ESCREVE PARA QUE SEJA POSSÍVEL»

Se não fizemos, a abrir esta nova fase do BdE, uma declaração de intenções, foi porque achamos que há sempre qualquer coisa de bacoco e solene nesse tipo de discurso. As linhas com que nos cosemos, já todos sabem quais são. Estamos à esquerda (uma esquerda plural) e gostamos de política, de ideias, de polémicas. Mas também havemos de abordar outros assuntos: pintura, cinema, livros, mais os "pequenos gestos" de que fala a Marta e até mesmo televisão, publicidade, desporto, além das notícias do dia-a-dia. Este é, essencialmente, um espaço de liberdade. Uma liberdade de que não abdicamos. E de que faz parte, desde o início, o diálogo com os leitores, seja através de e-mails, seja através dos comentários aos posts.
À falta de um livro de estilo ou de um caderno de encargos, é precisamente a todos os nossos leitores que dedicamos as seguintes palavras . belíssimas palavras . de Manuel Gusmão. Podem encontrá-las no fragmento n.º 12 de «As Posições do Leitor» (1971), incluído no volume «Dois Sóis, A Rosa - a arquitectura do mundo» (Caminho, 1990).

O leitor põe-se a escrever. Escreve para ti . coisa terrível; como se pode? Aceitemos mesmo que este saber se partilha e que o leitor avance. Já antes era assim que o leitor era: escrevia. Mas digamos que a partir de um determinado momento, por razões alheias à sua vontade, inerentes ao que de ti nele chama, o leitor diz: «o leitor põe-se a escrever».

Escreve para ti, que neste momento entras na sala e ficas por momentos encostada à ombreira da porta, do outro lado da luz, olhando-o. E tu que portanto não és estas letras, como que por dentro delas nasces como se nas conchas da espuma nascesses das águas, como se, ligeiramente inclinada, a custo, começasses a surgir do lado direito do écran, ou estivesses antes ao centro, em grande plano, com o olhar velado ou mesmo cega; de qualquer modo como se olhasses para onde não podes olhar. Não podes?

Voltemos à imagem das águas: o leitor escreve para ti, escreve como se fosse a ti que ele via ao mergulhar no mar, chamando com toda a dor do desejo pelo que seria então a memória do teu nome; ou, por exemplo, esse gesto que sobre a pele não seca, como se em todo o corpo se guardasse de longe, ardendo, as sílabas as línguas da tua saliva e do teu suor. O leitor tece um membro seu que se dispersa e perde pelo ininterrupto intervalo.

O leitor escreve de onde? o leitor escreve da esquerda para a direita? o leitor escreve quando? com quê? o leitor escreve para ti? Quem edita o leitor? o leitor edita-te, meu amor? como se premeditasses os nomes de depois da morte? porque tu morres, não?, meu amor, nestas páginas?

o leitor afasta-se um pouco e sabe que há algo que sempre lhe falta saber. Como então e porque desesperadamente escreve, tu cortas essas linhas alheias para te introduzires nelas, para de través nelas te insinuares, suspeita e fantasma, corpo incompleto. É que eu, diz o leitor, morri já por todos os séculos dos séculos e então será que esta morte assim continuamente viva és tu?

Se o leitor escreve, tu escreves, meu amor, meu amor, e então perguntar-te-ás como é que te podes erguer nestas frases, como é que tu própria, quer dizer, o teu corpo e o nome que tu usas e com que te usam, como é que esse teu corpo e esse teu nome podem ser furiosamente aqueles que esse tu designa e desdiz, se só assim te pode dizer. Que me inventes! que me inventes! O leitor abana a cabeça, sempre ferido desta dor e quem sabe se desta alegria. Como te há-de ter viva se logo tu já o morreste? Percebes quando o jogo é aqui só um alibi e é do outro lado que as coisas se lêem. E esse lado é o teu, nome vazio, escritor ao contrário, leitor ao contrário, tu que com o apagaras-me a voz tudo decides destas letras. Que as apagues também! Que me devores! que então correrei em ti, diz o leitor, como se diz, com o coração a sangrar um veneno sem remédio. O leitor escrevendo sabe que alguma coisa o risca como ele risca as frases por cima das quais escreve, que alguma coisa lhe embarga o nome, a voz, o corpo, o desejo, e que só enlouquecendo numa única letra, a tua, é que tudo pode entretanto irromper. Lê:

...................................................................................................................

De alguma maneira o leitor escreve para que seja possível...............................

Publicado por José Mário Silva às 11:54 AM | Comentários (1)

LINQUES

Na barra à direita, podem encontrar uma primeira lista de linques para blogues que nos interessam. Há de tudo: amigos, conhecidos, adversários políticos, camaradas, malta porreira, alguns cúmplices ou apenas tipos com talento e graça. A lista não está incompleta, está muitíssimo incompleta. Aos injustiçados, uma palavra: o vosso tempo chegará mais rápido do que supõem (ou temem). Estamos a pensar numa ordem, talvez mesmo com secções e categorias. Mas já lá vamos. Concedam-nos só uns dias para respirar. Ainda exaustos de subir a escada com a mobília às costas, seria penoso termos de colocar, logo de uma vez, todos os quadros e serigrafias nas paredes.

Publicado por José Mário Silva às 09:17 AM | Comentários (2)

PEQUENOS GESTOS

Colaboradora diletante, a vogar na espuma dos dias, quero registar aqui algumas fulgurações do instante, algumas indignações, alguns acasos de deslumbramento. Venho das letras. Não tenho grandes certezas sobre o que desejo para o mundo (sei melhor o que recusar). Gosto de escrever, mas sinto sempre que o mais interessante é aquilo que fica na cabeça, emaranhado na tentativa de um dia ser história: os pequenos gestos fundadores. Estarei por Cabo Verde durante três semanas. Se conseguir, darei sinais.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 09:03 AM | Comentários (0)

UM, DOIS...

Há um post antigo do Zé Mário que arrisca um perfil empírico do blogger típico. As condições eram as seguintes: .30 anos, solteiro (ou divorciado), classe média urbana, com acesso fácil à internet (cabo; ADSL) e uma profissão que exige hábitos de escrita diária (jornalista ou doutorando em vias de terminar a tese).. Reparei que na altura eu só preenchia duas das cinco condições; agora já conto três; um dia hei-de ser o perfeito blogger típico (desculpa, amor). Até lá vou ensaiando por aqui, contente por estar no segundo volume do blog que sempre li em primeiro lugar, não desde a sua primeira hora mas, vá lá, do primeiro mês.
Agora estava a ver se me lembrava de sequelas melhores do que os filmes originais: costuma-se falar do Padrinho II, deve haver mais mas talvez não valha a pena ir por aí. Até já.

Publicado por Francisco Frazão às 01:55 AM | Comentários (6)

novembro 25, 2003

NOVA CASA

Esta é a nova morada do BdE. Quem se habituou a visitar-nos ali, vai encontrar a mesma lógica e os mesmos princípios aqui. Nos primeiros dias, ainda andaremos a conhecer os cantos à casa e a ajeitar o template, numa azáfama não muito diferente da que anima os operários do quadro de Caillebotte . imagem com que fechámos a primeira fase da vida deste projecto e que serve de ponte entre o velho Blog de Esquerda e o novo BdE (II).
Na verdade, a mudança principal não se resume ao endereço (há mais gente a trocar o Blogger pela plataforma portuguesa criada pelo Paulo Querido). A mudança surgiu de um desejo de alargar o leque das pessoas que fazem, todos os dias, esta página. Ao fim de quase 11 meses de escrita diária ininterrupta, este vai deixar de ser o blogue dos «manos Silva» (mais uns quantos itálicos) para ser o blogue do José Mário Silva, do Manel Deniz, do Francisco Frazão, do Frederico Águas, da Margarida Ferra, da Marta Lança e do tchernignobyl ("o" comentador residente, lembram-se?). Cada um deles apresentar-se-á a seu tempo; todos virão aqui blogar, com maior ou menor regularidade, dependendo da respectiva verve e do tempo disponível. Quanto aos textos itálicos (contribuições livres dos nossos leitores), continuarão obviamente a ser muito bem-vindos.
E agora bloguemos de novo. Como se fosse a primeira vez.

Publicado por José Mário Silva às 07:58 PM | Comentários (27)