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novembro 25, 2005

ERA UMA VEZ UM BLOGUE DE ESQUERDA

«Lenin and Giacometti», Leonid Sokov, 1990


Foi neste computador onde escrevo que, no dia 1 de Janeiro de 2003, em Paris, num inverno que prometia neve, eu e o meu irmão criámos o primeiro BdE. Foi no tempo dos primeiros entusiasmos com a blogosfera, em despique intenso com a Coluna Infame, a guerra do Iraque em fundo. Não posso por isso deixar de sentir uma certa estranheza ao escrever este derradeiro post. Mas não é nostalgia. A verdade é que, pela parte que me toca, o entusiasmo inicial se foi tornando, com o tempo, cada vez mais moderado, à medida que a blogosfera política portuguesa se transformava, com raras excepções, em arena de populismo opinativo, demasiadas vezes confundida com democratização da informação. Mais e mais opiniões, sempre opiniões, neste nosso espaço público português já de si tão saturado de comentário (basta ver as colunas do jornais e os convidados das televisões).
Foi por isso que tentámos, com o BdE II, fazer uma coisa diferente, que o modelo inicial não permitia. Um blogue colectivo que partisse do que se passa lá fora. Que não fosse apenas um blogue reactivo, mas também reflexivo. Onde se aprofundassem questões. Onde se traduzissem e partilhassem experiências (de luta, de leituras, de discussões). Mais fácil de dizer do que fazer. Alguns dos primeiros amigos e cúmplices desapareceram rapidamente do cabeçalho, como o Frederico Ágoas ou a Marta Lança. Outros foram ficando, apesar de apenas postarem episodicamente (o Zé Luís, o Frazão, a Margarida). Quanto a mim, primeiro vieram as limitações de tempo, chamado por afazeres mais académicos. A preguiça, depois (“Ai que prazer de ter um post para escrever, e não o fazer”). No fim, uma certa forma de cepticismo. Com o tempo, como vários outros colaboradores, fui-me distanciando do blogue, da sua dinâmica própria, dos seus hábitos, da identidade que ele ia construindo.

Nada disto impediu que o BdE II tenha sido um excelente blogue. Quem cá ficou foi mantendo uma visão alerta e comprometida do que se foi passando neste últimos dois anos. Mesmo se muitas vezes me não reconheci no que se dizia por aqui, mesmo se li demasiadas vezes este blogue como se dele não fizesse parte (mas isso é problema meu, não do blogue), nunca deixei de cá passar todos os dias com prazer.
Em todo o caso, o projecto inicial foi ficando sucessivamente adiado. E de tanto adiar, esgotou-se. Ficou esquecido. Os colaboradores mais “activos” do BdE II foram criando estilos individuais que ganharam leitores e adeptos. Alguns estão aliás a avançar com outros projectos, o que confirma que o fim do BdE não vai deixar a blogosfera “à direita”. Estranho fantasma esse, por sinal. Primeiro porque exagera a importância deste espaço, depois porque nunca é demais lembrar que a blogosfera é um mundo pequeno e limitado. A tendência para essencializar a blogosfera, como se se tratasse de um terreno que não admitisse «hors-champ», parece-me uma curiosa forma de miopia política. Como se a política se jogasse e se decidisse apenas nestes virtuais blocos de notas.

Os últimos dias pareceram dar razão aos muitos leitores e comentadores que não percebem porque decidimos acabar agora. Avalanches de textos, boas discussões, vários colaboradores “regressados”. Foi quase o “adeus eufórico” que o Zé Mário pediu. Mas isso não muda o essencial. A questão é que não queríamos manter a casa apenas por ela ser antiga e respeitada. Acabaríamos excelentíssimos dinossáurios, a cheirar a naftalina. Estava no tempo de cada um seguir o seu caminho e é preferível deixá-la assim. Viva. Cheia de promessas. E partir para outra.

Publicado por Manuel Deniz às novembro 25, 2005 08:03 PM

Comentários

" ,..o que confirma que o fim do BdE não vai deixar a blogosfera “à direita”. Estranho fantasma esse, por sinal. Primeiro porque exagera a importância deste espaço, depois porque nunca é demais lembrar que a blogosfera é um mundo pequeno e limitado."

Gee, isto cheira a linguagem de ressabiamento! Agora percebo porque é que o BdE vai acabar, porque não conseguiu nem metade das audiências dos blogues de "direita". E aposto que muitos dos vossos colaboradores prefeririam ter continuado a escrever mas os chefes impuseram-se e a gente sabe como a esquerda é tão liberal ...

Publicado por: tina em novembro 25, 2005 08:38 PM

Mas os colaboradores podem iniciar outro blog quando quiserem (e espero que o façam), felizmente criar um blog é a coisa mais fácil do mundo, não é preciso estar dependente dos "chefes".

Publicado por: xana em novembro 25, 2005 08:50 PM


HUM!...

Publicado por: Bomba em novembro 25, 2005 08:54 PM

Estes gajos são lixados, então acabam-me com o blog? Então e agora, como é que a gente se vai livrar do vício que era passar por cá todos os dias?

Publicado por: brite em novembro 25, 2005 09:09 PM

Parem os cavais. Repito: PAREM OS CAVAIS. Ponho à vossa disposição dez mil euros, leram bem, 10.000 €€€. Mas aguentem o vosso blogue. Sou rico, tenho alma de mecenas. Por que esperam? Mandem conta de banco, NIB se possível. Mas salvem o Blogue de Esquerda. Dou 10 minutos para uma resposta. Dez, pensando bem, nove. Do it!

João Eivado Printa

Publicado por: Eivado Printa em novembro 25, 2005 11:53 PM

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Publicado por: google pr main em abril 22, 2006 07:57 PM