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novembro 25, 2005

BLOGS, MODO DE USAR

Ando nos blogs vai para mais de dois anos e, depois de todo este tempo, o acto de blogar continua a ser para mim um alvo de perplexidade.
Diz-se frequentemente que os blogs são um espaço de auto-expressão, de intervenção cívica e liberdade.
De acordo quanto aos dois primeiros, mas a liberdade já me causa mais hesitação.
Liberdade, liberdade é escrever para si, livre de toda a contingência ou perscrutação social.
Quando alguém arrisca escrever nos blogs está desde logo a restringir a sua liberdade de expressão. Porque a exposição pública implica ter de prestar contas, dar a cara pelo que se escreve e ter de pensar para quem se escreve. E isso implica restringir a liberdade, em troca de aceitação social.
Porque, sem eufemismos, blogar implica aceitação social, mesmo nos blogs mais umbiguistas. Para quê escrever em público, arriscando ostracismo ou indiferença, se não é para se ser lido? Mais vale continuar a rabiscar o diário em papel...
E da aceitação passa-se à tentativa de agradar. Começa-se a escrever com regularidade para satisfazer "os leitores", pede-se desculpa por não se ter tempo, avisa-se que se vai deixar de escrever temporariamente, procura-se assunto para se escrever, fazem-se "esboços de posts", fala-se de assuntos que não nos interessam ou sobre os quais não se tem nada de novo a dizer porque tememos ser acusados de "assobiar para o lado" por motivos indizíveis. Porque a palavra passa a ser um acto, que se faz quer se use a palavra ou não, blogar começa a tornar-se um fardo, as ideias acumuladas que vinham naturalmente esgotam-se e é preciso procurar novas, é preciso descobrir palavras inéditas para dizer e novas formas de o fazer.

E, de repente, quando no início blogar parecia tão fácil como sermos nós próprios, descobrimos afinal que é um casamento com um cônjuge exigente, que quer atenção, mimos, carinho, afecto, novidades, surpresas, prendinhas, jantares íntimos e sexo tórrido todos os dias, no meio da rotina mais banal e ínsipida.
E então uma pessoa começa a pensar se lhe interessa mesmo manter essa relação, se não prefere procurar amantes novos, sair com os amigos, ler livros interessantes, ir a cinemas e teatros, voltar ao diário rabiscado.

E depois vem a hesitação de abandonar os filhos-posts, o receio de ficar só, a angústia de não se voltar a encontrar um cônjuge tão devoto, tão carinhoso, tão amante.

E então é preciso escolher. Às vezes persiste-se, escolhendo a segurança dos episódios felizes e dos momentos inesperados. Outras vezes divorciamo-nos, só para regressar de imediato ao conforto dos mesmos braços. Outras ainda procuramos novos braços que nos acolham. E alguns desaparecem, no sossego da vida sem compromissos.

No fim de contas, blogar talvez nos fascine e prenda porque é tão parecido com amar.

Só que, agora, o que é que fazemos?

Publicado por Jorge Palinhos às novembro 25, 2005 07:41 PM

Comentários

A mais perfeita descrição dos prazeres e tormentos de um blogger que alguma vez li.
Na mouche, Jorge.
Quem ainda não percebeu por que razão decidimos fechar o BdE, talvez agora perceba.

Publicado por: José Mário Silva em novembro 25, 2005 08:08 PM

Agora, abre um blog e bloga! :D

Abraços

Publicado por: Paulo em novembro 25, 2005 08:44 PM

HUM!...

Publicado por: Bomba em novembro 25, 2005 09:00 PM

Se calhar a solução é tirar umas férias e depois abrir outro blog...

Publicado por: Rui Neves em novembro 25, 2005 09:06 PM

Um texto excelente, onde muitos de nós se sente reflectido.
Hoje tenho alguma pena de não te ter comentado mais vezes. Ainda estou para saber porquê, possivelmente por estar quase sempre de acordo com o que dizias, e no caso do Z.M., ou Filipe, ou Rainha, ou Tchern, algumas vezes mesmo estando de acordo o que diziam dava alguma pica para retorquir o que nem sempre se passava nos teus posts, mais serenos.
Mas espero sinveramente voltar a ler-te noutro local.

Publicado por: ML em novembro 25, 2005 10:47 PM

É de facto assim, é de facto isso

Publicado por: Eufigénio em novembro 25, 2005 10:51 PM

É tudo verdade.

Publicado por: Ricardo Alves em novembro 25, 2005 11:30 PM

Eu uso o blog para publicar aquilo que nunca publicaria.

Publicado por: Daletra em dezembro 16, 2005 09:23 PM

Um belíssimo post este.
Nem sei mais o que dizer.
Nem precisa, aliás.
Felicidades para todos.
Abraço, Gustavo

Publicado por: gustavowb em dezembro 29, 2005 12:37 AM

Não tendo muito para pensar direi aquio que penso deste Portugal que tão mal está sendo remado porem pelas muitas palavras já houvidas e escritas por estes politiqueiros acrescento que estamo ao encontro dalavagem das palavras sociais e nelas so fiquem recordações ficarei admirado se se no futuro que não deve ser muito distante não tenhamos á perna um pide ou uns intelectuais disfarçados com faro de lince admirados nos Portugueses estamos pela intlecutualidade dos politos de esquerda ficariamos mais alegres se o respingar e a luta tivesse na ordem do seu dia esquerda é defender o idial de partinha não é nem nunca será o comudismo Carlos Gomes

Publicado por: carlos gomes em fevereiro 17, 2006 05:59 PM