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novembro 25, 2005

OS MENCKENS DO CHIADO

Em Portugal abundam indivíduos de ambos os sexos, semiliteratos, semiviajados, cujo desporto intelectual é deitar abaixo o país e a sociedade portuguesa. Criticar a "choldra", na sua intertextualidade favorita. Excitar-se em indignações convulsas, vociferar contra os burgessos locais, deitar mãos ao alto diante do compadrio, espumar da boca perante o atraso, a incultura, a indigência, a hipocrisia, etc., etc.

Portugal não é um paraíso e há muito que criticar e mudar. Mas também não é o pior dos mundos e, mais absurdo ainda, muitos dos defeitos que estes xenófilos mais gostam de apontar são também abundantes lá fora e, infelizmente, frequentes na maioria das sociedades humanas.

E para Portugal evoluir é preciso todo um programa de mudança, ideias sobre o que é preciso mudar, o que é preciso conservar, como mudar e quando. Só dentro de um programa destes - e há muitos programas possíveis - se pode criticar com coerência, convicção e consequência.

Porque criticar sem ideias ou convicções ou acções, pelo simples fundamento de que Portugal não é a França e Lisboa não é Paris, não é colocar-se acima dos burgessos ou apresentar-se como uma elite aristocrática.

É apenas ser um burgesso que cita Eça.

Publicado por Jorge Palinhos às novembro 25, 2005 06:25 PM

Comentários

Clap, clap, clap!!!
Excelente. Mudam-se os tempos mas tudo é actual. não será Paris, mas Nova Iorque ou Londres, é igual.

Publicado por: ML em novembro 25, 2005 10:48 PM

Epá, acho que isso já vem n'"A Cidade e as Serras"! Por falar nisso, vou "comer umas trutas celestes" e "compreender enfim o que é o Céu".

Publicado por: Filipe Moura em novembro 25, 2005 11:54 PM

Triste. Tinha-o pela escrita a que nos fez habitar (e continuo a ter) em boa estima. Foram muitos e bons textos. Mas isto estraga o fim, não vejo outro modo de o dizer. Não entendo, sinceramente nem este texto de radicalização contra um qualquer posicionamento de espirito critico perante a sociedade, aberto, curioso e liberto, e não entendo a descuidada oportunidade revelando uma amarga posição contra algo, auxiliado, imagine-se, na própria amargeza que se pretendia refutar, a poucas horas de um desfecho que se pretendia outro. No fundo, acaba-se como se por efeito da gravidade por voltar sempre, em vontade própria ou imposta externamente, de modo quase cruel, à importante questão: como se lida com a hegemonia das "públicas virtudes"? Ou dito de outra forma, com esta terrivel sucção para o território do politicamente correcto, que de tanta falsa moralidade e continuada e acarinhada paz-podre, transformou tanta coisa em lastro.
O post assume quase o tom e o ritmo de infelizes - porque vácuos e sem questionamento- movimentos como "Portugal Positivo", ao som de "menos ais, menos ais", e na senda de uma estéril e conformada estética do "gostamos da vida como ela é", e demais estímulos minímo-múltiplo-comum, que afinal de pró-activos pouco possuem. E não são comparações apressadas, quiçá putativamente semi-viajadas ("lá fora é igual"), com países terceiros - fazia-nos antes falta olhar com cuidado para aquilo que se move entre nós - que podem rebater aspectos, que se colam aos nossos narizes todos os dias. Comparações dessas, não obrigado, pois acabam por nos fazer cruzar braços. Aliás, frases como "todos os politicos são iguais", "todos os paises são iguais", sabemos onde acabam. Mas que escreveu o Jorge Palinhos por aqui sempre? Nunca pôs nada em questão? Ou antes, texto após texto optou por relatar o "melhor" de Portugal? E relata agora na despedida, o melhor de Portugal e "tutti quanti", ou simplesmente assume a posição de um meta-questionamento sempre confortável porque distante: questionar quem questiona?
Faz-me confusão, pois sei que sabe que faz parte do senso-comum, ou pelo menos pensei eu que fizesse parte do senso-comum que, auto-estima sem auto-critica não existe, ou é simplesmente inviável. Resta-nos saber apenas quem faz auto-estima com alguma auto-critica, e quem faz auto-critica com alguma auto-estima. Mas adoptar quer um, quer o outro, sem o outro, simplesmente é caminhar, sem sair do mesmo sitio. E esse sim, é o verdadeiro exercício da inócua excitação, que afinal pensei pretender combater.

Publicado por: Vitorino Ramos em novembro 27, 2005 06:19 AM