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novembro 25, 2005

POEMA A METRO

Um dos exercícios oulipianos consiste em escrever poemas a metro, que é como quem diz no metro. A coisa funciona assim:

- cada poema é composto durante um trajecto efectuado no metropolitano
- o número de versos corresponde ao número de estações do percurso menos um
- o primeiro verso é escrito mentalmente entre as duas primeiras estações
- o segundo verso é escrito mentalmente entre a segunda e a terceira estações
- o processo repete-se até ao fim do percurso
- cada verso deve ser transcrito para o papel apenas quando a carruagem se imobiliza
- não é suposto transcrever para o papel em movimento nem escrever mentalmente quando a carruagem pára
- o último verso do poema é transcrito na plataforma da última estação
- se houver mudança de linha, essa mudança corresponderá no poema a uma mudança de estrofe

Pois bem. O poema a metro que escrevi ontem de manhã (dia em que se completavam 45 anos sobre a fundação do OuLiPo), aconteceu durante o seguinte percurso:

1) Linha Verde: Anjos/Intendente/Martim Moniz/Rossio/Baixa-Chiado (ou seja: quatro versos)

2) Linha Azul: Baixa-Chiado/Restauradores/Avenida/Marquês do Pombal (ou seja: três versos)

Eis como evoluiu o poema:

1.ª estrofe:

Anjos/Intendente - Rude e secreta, a melancolia
Intendente/Martim Moniz - deste avanço subterrâneo
Martim Moniz/Rossio - sob o esplendor da manhã clara
Rossio/Baixa-Chiado - igual a tantas manhãs que não vi.

2.ª estrofe:

Baixa-Chiado/Restauradores - Outra carruagem, outros rostos.
Restauradores/Avenida - No ínvio percurso da rotina,
Avenida-Marquês do Pombal - falta o gesto que nos descarrile.

E agora o poema em versão final, sem os andaimes:

ANJOS/MARQUÊS

Rude e secreta, a melancolia
deste avanço subterrâneo
sob o esplendor da manhã clara
igual a tantas manhãs que não vi.

Outra carruagem, outros rostos.
No ínvio percurso da rotina,
falta o gesto que nos descarrile.

Publicado por José Mário Silva às novembro 25, 2005 12:58 AM

Comentários

...a ideia é cinco estrelas e os resultados não o são menos...porque não um ensaio de "prosa subterrânea" ou "ferroviária"...

...ides acabar "mesmo" ou preparais uma "refundação"...

Abraços.

Publicado por: Jorge A. S. em novembro 25, 2005 10:00 AM

Bom, eu cá só tenho este percurso menor, para levar a outra Alice ao infantário (Anjos - Intendente - Martim Moniz) e, com a desatenção provocada pela gárrula presença da tenra menina, só deu para isto:

Ó Zé Mário, lá saberás
Mas tu não te desgraces pá!

Obrigada e beijos muitos.
(P. S.: diz-me fonte amiga comum que a Alice [Silva]já tem um blogue. Importas-te de comunicar o endereço às almas mais distraídas mas não menos ávidas das ponderadas alocuções de tão distinta família?)

Publicado por: Margarida Vale de Gato em novembro 25, 2005 10:52 AM

Já fiz esse exercício JMS :-)
Agora uma reclamação: parece que a brigada bigornas/riapa assentou arraiais no Adufe e seguramente noutros blogues. Eis uma consequência extremamente negativa do fim do BDE. Acabar com o BdE é assim como destruir o regime de Sadam sem ter algo sustentável para a troca: é abrir caminho para o pior dos terrorismos e ... Bem, não era bem isto que eu queria dizer mas... dá para perceber?
Pronto, está reclamado :-)

Publicado por: Rui MCB em novembro 25, 2005 02:19 PM

Nos dois posts debaixo, estão encerrados quer comentários, quer TrackBacks.
Experimemtei de manhã, experimentei agora e nada. Porta fechada...! Vou ter de passar adiante.
Tem a sua graça que frequanto assiduamente exactamente essa linha, e nunca me tinha lembrado desse foco de inspiração.
Da próxima vou tentar, mas creio que é como "as coisas" dos espíritos, quando não se acredita não funciona...

Publicado por: ML em novembro 25, 2005 08:04 PM