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novembro 24, 2005

MAIS SEIS POEMAS INÉDITOS DE JLT

O TEMPO, ESSE VERDUGO

1.

Desabriga-te agora a atroz unhada do vento,
rouca calema nas tardes de windsurf; e eu
embutido aos sedimentos, ufano e ressurrecto,
entre os vincos que um bafo extraviado coalesceu.

Mas, cuida-te, que toda a vida é um improviso
sobre a queda e não há andaime que escore
o que fareja as tempestades antes do primeiro siso
despontar. Eu aprendi que nem sempre o que corre

à menção do naufrágio, aos óxidos que o azul
pressente, escapa ao látego que alucina
as veias. Talvez despiste um pouco o carbureto

que atrai os bandos negros ao céu de mossul,
mas para o embate que o destino assina
saibas tu que a poesia é imprestável amuleto.


2.

Sagra-se na pele um império de sombras.
Mas saldar a toxicidade do tempo, requer,
poeta, surdos decibéis de alarme a crescer
por dentro de um corpo entaipado para obras.

Não é da natureza do que cai furtar-se
ao desconforto dos hematomas que tantas
vezes espigam onde a dor vem deitar-se.
Agora entendo porque o afundar sereno cantas,

e nem uma única vez cedeste ao prodígio que
ressuscitou lázaro — nada como a morte
amadurecida matinalmente entre os lençóis

da tua cama: o ignoto porvir não endossa cheque,
nem aveluda o pez que te coube em sorte —
descampa-te os mil poros ao clangor de sete sóis.

(José Luís Tavares)

3.

Que te fale o tempo com voz silente
das cativas dores inocentes; e o meio-dia
rutilante da ruiva espada vivente
que abate toda solene criatura. Mas é dia

e governa o afã vital, virente chama
inicial, cada vida singular. Rega-as
o esplendor alheio à lei fatal que ama
a todos por igual, despede às cegas

seu canto eternal. Desde o sulco inicial
que a ti te governa um fado tal: à flor
do mar lemos seus sinais, ou no rebate

do vento pelos areais, que a banal
vida é propício campo onde medra a dor.
(Ao forte e triunfante também abate).


4.

É lícito proclamar com as veias tingidas
de salmoura: na baforada que adstringe
a dor (não a que em tosco verso se finge),
há que incubar o livor das passadas vidas?

Advertido pelo eco imorredouro do passado,
soldei o coração às gáveas que não rifam
as promissórias do futuro ao látego velado
das tempestades. Mas raros são os que fiam

do sangue que destila prenúncios de orfandade.
Benditos, pois, os que atam a calema às veias
e não suspiram pela ventilação que recicla

o uivo em glória, que o tempo é enfermidade
que palpa o âmago com o ímpeto de nove cheias,
e o amanhã empardece com o rufar duma só tecla.


5.

A lane to the land of the dead. W. H. Auden

Para um futuro de pranto te ergueste.
Embora no trajecto para a morte,
vez por outra, um bosque te seja consorte,
pois, tu nunca soubeste que seu nome é peste.

Clamoroso ainda, a lestada areando as fuças,
e tu, por mais que tussas, de ti anal nenhum
se lembrará, que não mais que zunzum
são o pranto e o pesar. Ruivas vozes moças

já para nenhum rumo impelem o coração;
mas, emboscado nas trevas, como um
ladrão sorvendo da botelha o quente rum,
sibila o escuro tempo igual azul pavão.

Tu que vacilaste, por vezes foste fraco,
lembra-te: toda a alta glória agora é caco.


6.

Se toda a felicidade
porvir do luto
não penses na flor da idade
que és tu o mais astuto

o tempo tem as mãos compridas
tanto ao justo como ao iníquo
cessa do coração as batidas
põe nas veias um rouco clamor oblíquo

ninguém jamais ouviu seu sinal
pelos ruivos céus do entardecer
embora digam que é lei universal
todo o vivente encanecer

(conceptualizá-lo tentou o de hipona
lá onde razão e método jazem calados
o de königsberg dedicou-lhe mais de meia jorna
analisando a questão por todos os lados)

leves de pés são o amante e o ladrão
só tempo viceja com vagar
ali onde haja sol e multidão
sua voz é como ganso a grasnar

quando avança não o enfrenta nenhum exército
inda pense o néscio que detê-lo seja possível
pra onde segue não leva séquito
nem seu avanço sucede em tropel audível

não o detém a boa estrela ou a má fortuna
nem o humano amor pela alta glória
segue o tempo o seu rumo como uma escuna
e ao seu rasto chama o homem história

Publicado por José Mário Silva às novembro 24, 2005 12:30 PM

Comentários

eh pá, mais ou menos, se me é permitido gostar apenas mais ou menos. não gosto muito da linguagem (é algo escusadamente confusa), e é repetitivo em certas palavras (pranto, os clamores, o proclamar), o que torna o poema demasiado circular e fechado; no entanto, tem alguns momentos quase sublimes de poesia cantada (e gabo-lhe o risco de ter arricado a rima): "ao desconforto dos hematomas que tantas/
vezes espigam onde a dor vem deitar-se." - isto soa muito bem.

Publicado por: Eduardo César em novembro 24, 2005 01:47 PM

viram a caixa dos fósforos últimamente? não? então permitam-me a publicidade: caixadosfosforos.blogspot.com - sei que estas coisas não se devem fazer; mas os anúnicos na rtp estão tão caros...

Publicado por: Eduardo César em novembro 24, 2005 01:59 PM

Não fui eu que comecei... Já leram o jornal de hoje?

Publicado por: O Verdadeiro em novembro 24, 2005 03:17 PM

Acima de tudo terei saudades disto.
Por acaso muitos poemas me "salvaram", pelo menos o dia, e se não participava muito, visitava bastante.
Um Abraço Herminio

Publicado por: provocador em novembro 24, 2005 10:21 PM