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novembro 24, 2005

ISABEL DE CASTRO (PARA SI)

Consultando a base de dados do Centro de Estudos de Teatro, dou-me conta de que terei visto só um espectáculo com Isabel de Castro (era do Teatro da Garagem, não me lembro de quase nada). Entrou em O Fim Ou Tende Misericórdia de Nós, dos Artistas Unidos, mas alternava com Glicínia Quartin e foi ela quem me calhou em sorte (não me queixo). E não fui ao Porto ver a Castro.
Filmes vi mais alguns, fez mais de setenta. Mas do que agora me lembro bem é qualquer coisa de intermédio: dois "filmes de teatro" feitos para televisão e baseados em espectáculos do Teatro da Cornucópia de 78/79. Vi-os aos dois na Abril em Maio, em sessões do Não É Cinema, e foram descobertas emocionantes (se eu mandasse, passavam todas as semanas na RTP Memória...). No primeiro, E Não Se Pode Exterminá-lo?, Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo (muito novos) alternam no papel de Karl Valentin, óculos e nariz postiço, a mesma subversiva desconversa nos sketches do cómico de Munique que tanto influenciaram Brecht. Há dois solos marcantes de Isabel de Castro: a carta escrita ao namorado sobre porque é que ele não lhe escreve; a maravilhosa canção em pseudo-chinês, alternando de forma hilariante entre os sons "orientais" e o português, entre a pose hierática (de mãos postas) e o burlesco (com os dedos indicadores espetados a marcar o compasso).
O outro filme é um caso mais sério: Música para Si, de Franz Xaver Kroetz, realização de Solveig Nordlund a partir da encenação de Cintra e Silva Melo. Durante uma hora (todo o filme), Isabel de Castro não diz uma palavra: está sozinha em casa, executa com precisão cansada os gestos quotidianos depois do trabalho (na cozinha, na casa-de-banho, no quarto), enquanto ouve um programa de discos pedidos na rádio (banda sonora exemplar). Não há um grito, uma lágrima - mas nunca o desespero foi tão palpável e angustiante. Trata-se além disso de uma das mais conseguidas transposições cinematográficas de um espectáculo (filmada num apartamento e não no palco), com uma planificação implacável, bressoniana, destacando as partes do corpo que trabalham, a repetição mecânica das acções. No final, ao deitar (luzes que se apagam e voltam a acender), uma saída finalmente: ao alcance da mão, a engolir com um copo de água.
Fica então este retrato (parcial e ignorante): entre a tragédia quotidiana nos comprimidos de Kroetz e a alegria pura debaixo do chapéu chinês de Valentin.

Publicado por Francisco Frazão às novembro 24, 2005 03:48 AM

Comentários

grande actriz. lembro-me de um filme extraordinário, o "Brandos Costumes" - lembram-se? ou do aparelho voador a baixa altitude. tive pesadelos com este filme - quem o viu, saberá do que estou a falar... ela também aparecia de vez em quando nos do oliveira. morre uma grande senhora das artes cénicas deste país. pode ser que dêem o nome dela a alguma rua ou a algum teatro...

Publicado por: Eduardo César em novembro 24, 2005 01:55 PM

E onde é que vamos poder continuar a ler textos como este quando o Blogue de Esquerda acabar?

Publicado por: Alexandra em novembro 24, 2005 06:22 PM

Alexandra, já não escrevia há tanto tempo que até me enganei a apagar um comentário daqueles engraçados que por aqui fazem: queria apagar o último e saiu-me o primeiro (o teu). Como não queria, vaidoso, deixar de ter aqui a tua simpática frase, recorri ao estratagema de fazer copy/paste da página não actualizada, antes que o comentário se evaporasse. Daí a mudança na ordem dos comentários e a hora errada...
Eduardo: que bom sublinhares esses dois filmes, um fundador (por muitas razões, mas aprendi hoje que foi o primeiro filme não-comercial que a Isabel de Castro fez), outro que poucos viram e é também da Solveig (como o Música Para Si), ficção científica (a partir de Ballard) onde não a costuma haver.

Publicado por: Francisco Frazão em novembro 24, 2005 06:34 PM

Passem pelo www.ometablog.blogspot.com e pelo www.aforismos-e-afins.blogspot.com que ha batatada da grossa com a direita ultramontana, vulgo pseudo-liberais (senador McAAA incluido)

Cumprimentos,
Joao Galamba

Publicado por: joao galamba em novembro 24, 2005 06:56 PM

Bem-regressado Francisco, nestes dias de fim anunciado! Olha, para não destoar do costume, e sem querer beliscar a memória da falecida, discordo num ponto minúsculo: o "Aparelho voador" é coisa horrível. Pobre Ballard. E já viste a curta que a mesma realizadora fez a partir do "6 para Centauro" (acho qe se chamava assim o conto)? Ver aquilo era embaraçoso: o par final era composto por uma Eva e por um... Bravo; adivinharam todos!
Mas encomendei o "Atrocity Exhibition", depois faço cópias piratass para todos.

Publicado por: LR em novembro 24, 2005 11:03 PM

Luis, se dissesses mal dos "Brandos Costumes" ou do "Música Para Si" estava o caldo entornado (são duas obras-primas), mas não vou defender com unhas e dentes a adaptação do Ballard que a Solveig fez; a curta não vi, e não li (mea culpa) nenhum dos dois textos-fonte... Quanto ao "Aparelho Voador", quis só chamar a atenção para o facto de ser um dos raros filmes de fc no cinema português (nem sei se isso tem por si algum mérito, mas não deixa por isso de ser um... ovni). Lembro-me de pouca coisa do filme, mais que tudo do seu maior achado: o décor (natural) do hotel abandonado (acho que em Tróia, com qualquer coisa de soviético na sua dimensão), onde se passa a maior parte da acção, e usado pouco antes de ser demolido. Abraço

Publicado por: Francisco Frazão em novembro 24, 2005 11:25 PM

...bem, eu vim a saber da sua existência através de uma reportagem na revista Marie Claire - edição portuguesa. Fiquei fascinado por ela, por sua lucidez, por sua transparência- enfim, por tudo o que ela disse naquela entrevista. Um dia, fui conhecer Portugal e ela estava encenando uma peça, em um teatro de Lisboa. Fui até lá só para conhece-la - não ví a peça - e dizer a ela o quanto a achei humana.

Publicado por: joao lewczuk em fevereiro 15, 2006 10:19 AM