« ERA UMA VEZ UM BLOGUE DE ESQUERDA | Entrada | O GRANDE CIRCO DA FÍSICA - O CADÁVER QUE NÃO GRUDAVA »

novembro 25, 2005

REGRESSO A RUBEM

Comecei como colaborador residente com um texto de Rubem Fonseca, cuja leitura recomendo especialmente no dia de hoje (contra a violência doméstica).
Voltemos a Rubem, um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa. Em Maio deste ano Rubem completou 80 anos; lamentavelmente, deixei passar esta efeméride. Fiquemos então com esta passagem de Feliz Ano Novo:

Podem comer e beber à vontade, ele disse.
Filho da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. .Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.
Como é seu nome?
Maurício, ele disse.
Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?
Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.
Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros que estavam quietos, apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.
Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede?
Ele se encostou na parede.
Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.
Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.
Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, disse Zequinha.

Publicado por Filipe Moura às novembro 25, 2005 09:47 PM

Comentários