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outubro 28, 2005

PRESIDENCIAIS: TUDO OU NADA?

Para o Ivan, e para muita gente à esquerda, estas eleições presidenciais jogam-se num terrível e definitivo tudo-ou-nada. "Perder na 2ª volta não adianta nada; como Soares tem enfatizado, o propósito é ganhar". Se isto fosse assim, deveríamos talvez assumir desde já a derrota e poupar esforços para batalhas mais úteis. Ou, como também sugere o Ivan, transformar esta batalha numa escaramuça menor em busca de pequenos ganhos partidários.
(Estranha-se, antes do mais, que um tal pensamento, quando ilumina meninges de esquerda, não leve logo à conclusão lógica: vamos então reunir em torno de Alegre, que as sondagens continuam a dar como o melhor colocado para dar luta a Cavaco. Na prosa do Super-Mário, a defesa da aposta em Soares fica apenas a cargo de um tíbio e inconsequente "até a direita sabe que o combate de Soares nunca se resumirá a uma intenção «de poeta»"; o que significará isto, além de mais um chocarreiro ataque a Manuel Alegre?)
Mas isto está longe de ser o mais importante agora. Para Ivan, "o prémio de consolação é irrelevante". Ou se ganha ou se perde.
Será mesmo assim?
É certo que, se as tendências hoje em dia cartografadas pelas sondagens se confirmarem, Cavaco só de propósito poderá perder estas eleições. Pode ser que consigamos, todos juntos, alterar este panorama nos próximos meses; mas, até lá, fechar os olhos a isto é fazer campanha no País das Maravilhas. (O que também é uma opção legítima, claro está...)
Afinal, o que se está a passar? A intenção/ameaça de votar no candidato da direita parece provir de muita gente que costuma votar em partidos de esquerda; só assim se explicam os números avassaladores, sempre a ameaçar uma vitória logo à primeira volta. E aqui está um excelente argumento para a multiplicação de candidaturas à esquerda. Alegre, Jerónimo e Louçã: cada um deles, à sua medida, ajuda a fixar na esquerda, e longe do homem de Boliqueime, votos preciosos. Os quatro candidatos de esquerda são, por certo — e as sondagens parecem confirmá-lo —, muito mais eficazes a ancorar os respectivos eleitorados do que o patriarca socialista por si só, sempre condenado a arrastar a sua pesada bagagem de anticorpos e recordações embaraçosas (se duvidam que a Emaudio, por exemplo, ainda vai dar muito que falar nesta campanha, ponham os olhos do "Independente" de hoje).
E porque será importante chegar a uma segunda volta? Apenas para agarrar o tal "prémio de consolação"? Nada disso.
Importa evitar a todo o custo uma hiper-validação do mandato de Cavaco. Quando a revoada de convertidos ao presidencialismo já está a afiar as unhas, adivinhando Cavaco a presidir a conselhos de ministros enquanto dita as suas políticas, urge cortar-lhes as asas, fazendo com que a vitória do seu candidato tenha proporções esforçadas e normais, não de "avalanche" que exige uma espécie de revolução em torno de mais um homem providencial.
Obrigar Cavaco Silva a uma segunda volta (que até poderá perder, quem sabe) é um imperativo para a esquerda. Ele tem de ser um presidente como os outros, não um iluminado com a sagrada missão — outorgada por 60%, ou mais, do bom povo português — de salvar a Pátria e a Democracia. Aí, os arautos deste verdadeiro golpe de estado à socapa, como Morais Sarmento, surgiriam de imediato investidos do cargo de sumos-sacerdotes do novo Salvador.
Vamos mas é tratar de nos salvar deste fado.

Publicado por Luis Rainha às outubro 28, 2005 03:32 PM

Comentários

Luís:

Concordo em parte contigo. A esquerda tem que se apresentar nesta primeira volta numa frente unida. O Soares e o Alegre têm que deixar de competir por protagonismo, e de lutarem de uma forma fratricida entre si. A esquerda tem que se pronunciar também sobre que modelo de desenvolvimento que quer para o país (ou isso fica só para o candidato de direita?), e isso inclui dizer inequivocamente duas coisas:
1) o que é que pensa sobre o défice
2) o que é que pensa sobre como é que a produtividade do nosso país pode ser aumentada

P.S.: Obrigado pelo e-mail

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 28, 2005 04:16 PM

Um dos sintomas mais preocupantes desta campanha é verificar que um conjunto de quatro candidatos que representam partidos com a larga maioria dos votos do eleitorado (mesmo que Manuel Alegre não seja formalmente apoiado pelo seu), se preparam já para uma humilhante derrota na primeira volta. Na minha opinião isso acontece por um motivo simples. Nenhum desses candidatos é bom. Ou porque envelheceu, como Soares, ou porque é instrumental ou tribunício (Louçã e Jerónimo) ou porque é simplesmente mediocre, como Alegre. E a pergunta que o eleitorado deve estar a fazer é esta: não havia mesmo mais ninguém?

A crise da esquerda e a sua falta de soluções para esta país nunca estiveram tão expostas como agora.

Tal como os partidos na primeira República, a esquerda portuguesa afundou-se em quezílias demagógicas, perdeu o contacto com a realidade, embrenhou-se num discurso anti-reformista, anti-liberal, radical e sem substância, não combateu o laxismo público nem os favorzinhos privados, alimentou a bandalheira dos "investimentos" faraónicos e agora vai ter exactamente o que merece: a magnífica oportunidade de abrir o caminho a um professor de finanças autoritário, provinciano e austero, que tal como o seu antecessor de há oitenta anos sabe muito bem o que quer e para onde vai. E vocês vão com ele, como bons meninos reguilas e inofensivos. Realmente, eu detesto o professor Cavaco. Mas vocês são muito piores.

Publicado por: corvo em outubro 28, 2005 04:26 PM

Que o Cavaco Ganhe e a esquerda perca,caso contrário será o marasmo com Socrates e soares ou alegre.Força Cavaco.

Publicado por: NovaDemocracia em outubro 28, 2005 04:49 PM

Para derrotar o Cavaco, a Esquerda tem de unir-se em torno do Mário Soares senão, o Cavaco vai gnhar.
Mário Soares lutou contra a ditadura fascista e contra uma possível ditadura comunista.
O Alegre não têm qualquer hipótese e não é apoiado pelo seu partido portanto nunca devia ter-se canditado(desista enquanto é tempo).O Louçã e o Jerónimo que façam o mesmo.Lembrem-se das palavras sábias do Cunhal, podem não gostar do Mário Soares, mas votem nele pois ele é melhor que os outros.
Parece que na vossa opinião o que interessa é que o Mário Soares não ganhe e que o Cavaco ganhe sem uma grande maioria.
São esses os vossos argumentos?
Se são é como estarem a votar no Cavaco também.
Vais vale não dizerem que são de Esquerda, pois se vão fazer isso, é porque não o são.
Votem em Mário Soares.

Publicado por: Filipe em outubro 28, 2005 04:51 PM

Luis R., na última vez que estive contigo não tive oportunidade de te ver as asinhas. Cortaste-as antes ou cresceram-te depois? Lê bem o que te digo: o Luis Rainha não terminará um post com a expressão "Vamos mas é tratar de nos salvar deste fado" Cromo! Sempre vens cá acima este fds?

(olha o loladas ali em cima)

Publicado por: Monty em outubro 28, 2005 05:24 PM

Eu acho que transformar Cavaco Silva num bicho papão presidencialista não colhe. Seguramente na direita quem pense assim, coincide mais ou menos com um certo discurso maniqueísta popular tanto à direita como à esquerda. Se a situção fosse inversa, maioria do PSD, candidato forte do PS, existiria um discurso simétrico à esquerda, como, aliás, já foi ventilado no segundo mandato de Mário Soares com a maioria de CS. Usá-lo como arma contra CS não surtirá efeito, creio até que terá o resultado inverso.

Publicado por: João Gundersen em outubro 28, 2005 05:29 PM

Monty:

O loladas? Onde? Onde é que ele está, que eu dou-lhe já um par de estaladas bem dadas!

Agora mais a sério ainda estás chateado comigo? Se for esse o caso, terei todo o gosto em tomar um café contigo para resolver o problema. É sempre uma honra encontrar-me com um blogger tão distinto como tu.

Cumprimentos

Publicado por: loladas em outubro 28, 2005 05:35 PM

"Ele tem de ser um presidente como os outros, não um iluminado com a sagrada missão — outorgada por 60%, ou mais, do bom povo português". Já te esqueceste da votação que Soares teve na segunda vez que se candidatou? Ai o catano!

Publicado por: Armando G. Pereira em outubro 28, 2005 05:37 PM

Armando & João: as diferenças entre os dias que correm e o tempo da reeleição de Soares são muitas. Começando pelo clima de "fim de ciclo", de esgotamento do sistema que hoje se vive e pela deriva presidencalista que já se sente a crescer em sectores importantes do PSD. Depois, uma reeleição tem sempre uma força mais mitigada; uma vitória esmagadora de Cavaco agora não deixaria de ser explorada como um voto de desconfiança do eleitorado no PS.

Filipe: não vejo bem como é que votar no segundo candidato de esquerda (a fazer fé nas sondagens) pode ajudar a derrotar quem quer que seja...

Publicado por: LR em outubro 28, 2005 05:50 PM

Zangado? Não. Não encontro sentido no que fizeste e fiquei algo aborrecido, mas não estou zangado. Não é necessário "estalar" o loladas.

Publicado por: Monty em outubro 28, 2005 06:00 PM

Excelente e certeiro. Tenho a impressão que este post foi feito há algum tempo e decisivo para a candidatura do Louçã. É tão certeiro que o povo da esquerda não festiva deve preocupar-se mais com os votos do Louçã, do que com os votos do Cavaco.
Dói mais o voto do Luís do que o voto do Rogério ;)

Publicado por: Real em outubro 28, 2005 06:12 PM

A esquerda moderada sabe que Cavaco é necessário. Até já assume que apenas é preciso que não vença de forma esmagadora. E esse é já um sinal de que a vitória de Portugal com Cavaco, será de facto indiscutivel.

Publicado por: Louco em outubro 28, 2005 06:16 PM

Monty:

Admito que foi uma inconfidência desnecessária ... desculpa(em).

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 28, 2005 06:27 PM

Corvo primeiro para si, não sei de onde lhe veio a ideia de utilizar essa designação, que eu há vários meses utilizo em comentários em alguns blogues, será falta de imaginação será para lançar a confusão, realmente não vejo qualquer interesses em dois comentadores utilizarem o mesmo pseudónimo, e por isso para não haver confusão o CORVO a partir de hoje desaparece.

Eu passarei a utilizar outro pseudónimo pois não gosto de confusões....

Publicado por: corvo em outubro 28, 2005 07:27 PM

Na boa, Luís. De resto, quem sou eu para atirar pedras?

(Este Tim é uma forma de Riapa dos tempos que correm?)

Publicado por: monty em outubro 28, 2005 08:34 PM

Monty:

Já te respondi no sítio que me pareceu mais adequado. De resto, parece-me que é um local onde por natureza és bem capaz de te sentir mais à vontade ...

Cumprimentos

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 28, 2005 09:18 PM

O LR volta à carga e defende o que diz ser a “conclusão lógica: vamos então reunir em torno de Alegre, que as sondagens continuam a dar como o melhor colocado para dar luta a Cavaco”. Insiste “É certo que, se as tendências hoje em dia cartografadas pelas sondagens se confirmarem, Cavaco só de propósito poderá perder estas eleições”, e torna a insistir “A intenção/ameaça de votar no candidato da direita parece provir de muita gente que costuma votar em partidos de esquerda”.

Três semanas depois dos resultados eleitorais terem demonstrado a pouca fiabilidade das sondagens, é no mínimo suspeita esta insistência do LR.

Mas já que é ele próprio que chama a atenção para as sondagens da Marktest e da Aximage publicadas ontem e hoje, dei-me ao trabalho de ver como se comportaram estas duas empresas nas sondagens que fizeram nem há um mês, para as autárquicas. E o que descobri foi o seguinte:

A Marktest fez seis sondagens em seis concelhos: Porto Lisboa, Oeiras, Matosinhos, Felgueiras e Gondomar. Em todos esses concelhos a CDU foi a 3ª força política mais votada, mas essas sondagens da Marktest só o previram em dois concelhos - Porto e Gondomar – e mesmo em Gondomar, só previu 2,1% para a CDU quando de facto obteve, 7,1%. Em Lisboa, previu um empate da CDU com o BE e em Oeiras, Matosinhos e Felgueiras previu que a CDU teria menos votação que o BE. Quer dizer que nos 6 concelhos onde a Marktest fez sondagens, houve um desacerto total nas previsões da CDU (para menos) e em desacerto total nas previsões do BE (para mais).

Já quanto à Aximage, só fez sondagens em quatro concelhos: Faro, Lisboa, Sintra e Leiria. Ora se em Sintra previu a vitória de João Soares, em Lisboa também previu a vitória de Carmona mas por uma diferença de apenas metade da percentagem que se verificou (8 em vez dos quase 16% de 9 de Outubro) além de ter previsto um empate entre a CDU e o BE quando houve 3,5% a separá-los. Quanto a Faro, onde o PS ganhou com 2,8% de diferença do PSD, a previsão de diferença da Aximage foi de 11,3%!

Isto é, o que descobri – e que qualquer um pode descobrir pois basta ir ao site da Marktest, e analisar as sondagens que lá estão e estão lá todas – mostra que as sondagens feitas recentemente por estas duas empresas são muito pouco fiáveis. Se acertaram tão pouco em sondagens publicadas dois dias antes das autárquicas é no mínimo insensato confiar em sondagens feitas a dois meses e meio de distância das presidenciais e quando a pré-campanha está ainda a começar.

Eu sou apoiante da candidatura do Jerónimo. E com os meus camaradas partimos para esta batalha para marcarmos a nossa diferença e proclamarmos a necessidade de uma ruptura com as políticas de direita. Não estamos neste combate para aceitar um lugar subalterno como Alegre insinuou quando disse que apenas três candidatos podem vencer. Estamos nesta campanha em igualdade de circunstâncias e com o objectivo de obtermos o máximo de apoios e de votos, pois ninguém tem à partida votos garantidos.

Estamos nesta campanha sem camuflar a nossa opção partidária, como fazem Alegre e Cavaco, e sem camuflar o nosso inimigo principal, como faz Louçã, que até a palavra "direita" aboliu da sua declaração de candidatura.

Estamos nesta campanha com um candidato de pleno direito e sem considerarmos que qualquer outro candidato é mais do que isso mesmo, candidato.

E acho um perfeito disparate que o LR considere que o objectivo desta campanha é tornar o candidato da direita, “um presidente como os outros”. Não, nada disto – para mim o objectivo é pura e simplesmente derrotar o candidato da direita, mais uma vez. Ou o LR já se esqueceu que há dez anos este mesmíssimo candidato da direita já foi derrotado? Parece que sim.

Publicado por: Margarida em outubro 28, 2005 10:08 PM

OK, Luis, ficamos assim (referes-te ao La fontaine?). Vai aparecendo. Lá terás tido as tuas razões, sendo certo que na altura tb estava longe de saber quem era o loladas (que raio de nick).

Publicado por: monty em outubro 29, 2005 12:08 AM

Aliás, Luis, ainda hoje, confesso, tenho alguma dificuldade em ver-te como o loladas. É que não imagino as tuas razões. Mas tudo bem, águas passadas, desculpas aceites (espero que não estejas a assumir os odiosos de ninguém).

Publicado por: monty em outubro 29, 2005 12:24 AM

Transcrevo aqui oum post que fiz para o Farol

Presidenciais 2006 - Vota útil na primeira volta !
Ou seja, não votes no Cavaco Silva.

Na verdade, e sendo as eleições presidenciais a duas voltas, desde que nenhum candidato tenha 50 %, mais um, dos votos, é quase certo que Cavaco Silva irá à segunda volta.

Também é quase certo que não ganhará na primeira volta, mas tal acontecer, ou não, é independente da distribuição dos votos nos restantes candidatos.

Assim sendo o que está em jogo nas próximas eleições presidenciais (na primeira volta) é quem irá à segunda volta com Cavaco Silva. Considerando que candidatos, ou putativos candidatos, como Garcia Pereira ou Manuela Magno não terão muitos votos, existem quatro candidatos a disputarem a segunda volta. E, na minha opinião, o resultado será renhido. Provavelmente não serão precisos muito mais do que 15 % dos votos. Se Mário Soares aparece como favorito dado ter o apoio do maior partido de esquerda, a verdade é que as sondagens têm dado vantagem a Manuel Alegre.
Mas também Jerónimo de Sousa que tem protagonizado um crescente na CDU ou Francisco Louça que tem um carisma que ultrapassa em muito o próprio Bloco de Esquerda, poderão ter a sua palavra a dizer.

Seja como for, todos os votos contarão e ainda muita água passará debaixo das pontes antes de se poder começar a sentir o pulso ao eleitorado. Mas nesta primeira volta, de certa forma, Cavaco está de fora, e todos os votos nele podem ser considerados como votos inúteis.

P.S. Numa segunda volta também serão inúteis mas já sob um outro ponto de vista...

Publicado por: Pedro Farinha em outubro 29, 2005 01:13 AM

Já disse e repito que cometi uma inconfidência desnecessária. Quanto às razões também admito que foram um bocado estúpidas, na altura houve alguém (que não foste tu nem o Luís Rainha) que disse algo que me intimidou e eu escrevi aquele comentário, no fundo tratou-se de (lamentável) agressividade deslocada. E repara que eu te estou a dizer isto tendo-te enviado um e-mail que ainda não teve resposta. Quanto a essa questão de assumir odiosos terás que ser tu a explicar.

Quanto ao nick admito que eventualmente tem algo de boçal, mas isso que tu dizes de teres dificuldade de me imaginar como aquele nick se fosse dito a propósito de outros nicks seria considerado o melhor de todos os elogios.

Publicado por: D. João e a Máscara em outubro 29, 2005 04:27 AM

Para mim estas eleições não são Presidenciais. São a 2ª volta das legislativas.Depois do discurso do Cavaco nada é mais evidente. E este discurso tem aspectos freudianos interessantes, alias este aspecto freudiano do Cavaco tem-se vindo a declarar desde a alguns anos a esta parte. Chama-se a culpa.
Ele sabe bem demais que o monstro foi criação sua, que a proliferação de caciques e desperdicios de fundos comunitarios foram maioritariamente da sua responsabilidade. Agora, quer ficar na fotografia quando(e se) isto der certo. Nada mais cristão.
Apoiado pelos ressabiados e mais por aqueles que sabem que a direita não terá outra hipotese de voltar ao poder tão depressa, a sua candidatura enfuna com o apoio dos media e jornalistas/cumentadores que hesitam entre a verdade e a fidelidade ao patrão.
Enquanto isto a esquerda mede-se entre si propria
para saber quantos votos vale quem, anunciando enganadoramente que o objectivo é bater o criador do monstro.
O povo consumidor de telenovelas, "cheap thrills" e do futebol indigena não desdenha o apoio a um ternurento, sebastiao dos anzois, que expiado pelos sucessivos idiotas executivos que o sucederam e que ainda por cima é todos os dias "atacado" por quatro indomaveis patifes. É a famosa psicologia popular de apoio ao mais fraco.
Vejam-se os recentes exemplos autarquicos.
Perante isto prevejo (obviamente não desejo)um passeio facil para Cavaco.
A esquerda tem que aprender mais com as filosofias orientais sobre a denegação do Ego.

Publicado por: antonior em outubro 29, 2005 11:44 AM

Corvo, ou como quer que você se chame agora, já é a segunda vez que você me insulta por usar o mesmo nome que escolheu para si. Mas o que é que julga, que andei a copiá-lo? Deixe-se de tolices e siga em frente. Não tenho paciência para atrasados sociais.

Publicado por: corvo em outubro 29, 2005 12:34 PM

Margarida,

"para mim o objectivo é pura e simplesmente derrotar o candidato da direita, mais uma vez"

Resumindo e concluindo: Jeronimo candidata-se nao porque pense poder vir a ser um bom Presidente ou saiba como exercer o cargo mas para que Cavaco nao ganhe e para derrotar a direita.
Para quando uma candidatura pela positiva?
Nisso, independentemente das sondagens, Cavaco leva clara vantagem em relacao a todos os outros, que so' se preocupam com... Cavaco.

Publicado por: Nuno Morais em outubro 29, 2005 12:55 PM

O Antonior é o exemplo de “cumentador” que fala, fala mas não explica nada porque o seu fito é mostrar-nos que é inevitável a vitória do candidato da direita, por culpa...do povo.

Parte da premissa que “a direita não terá outra hipótese de voltar ao poder tão depressa”, quando a direita acabou de ganhar as autárquicas.

Acha que a “esquerda mede-se entre si própria (…) anunciando enganadoramente que o objectivo é bater o criador do mostro”, quando acabei de ouvir o Alegre a dizer que a sua candidatura não é contra ninguém , o Louçã nem sequer usa a palavra “direita” e que o Jerónimo foi o primeiro a candidatar-se.

Esquece-se o Antoninos que o povo já derrotou exactamente há dez anos o Cavaco, que a campanha serve também para avivar a memória das malfeitorias dele e dos seus seguidores, e que muitos correligionários foram por ele atropelados e não perderão a oportunidade para se vingarem. Aliás, basta ler o artigo do Vasco Pulido Valente no Público para se perceber como a vingança se serve fria. Mas para o Antoninor isto não tem importância, o que ele queria era todas esquerdas a fazerem ioga para não atrapalharem a passeata do Cavaco. Porém a candidatura do Jerónimo acabou com isso e atrás dele o PS lá lançou o Soares e o BE que remédio teve senão vir a reboque.

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 01:37 PM

Nuno Morais: uma coisa é o que eu digo, outra coisa é o que diz o Jerónimo e por favor nem ele, nem nenhum outro candidato pode ser julgado sómente pelo que dizem os seus apoiantes.

Já que me interrogou sobre as razões da candidatura do Jerónimo deixo uma pequena passagem do discurso do Jerónimo no comício de há uma semana em Lisboa (está na íntegra em www.pcp.pt):

"(...) Apresentamos a nossa candidatura assumindo o compromisso solene de defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República.
Uma candidatura que se demarca, crítica o caminho que se vem trilhando de desfiguração e empobrecimento da nossa democracia, cada vez mais reduzida à dimensão da representação política.
Somos uma candidatura que afirma claramente que a origem da crise, incluindo a da representação política e dos males que o país padece não é o resultado da existência de um inadequado sistema político, carente de reforma, mas do facto de ser enorme a distancia entre as promessas e as práticas e do conteúdo das políticas de quem governa.
Uma candidatura que assume a independência e soberania nacionais como um valor indeclinável, condição e garantia também do exercício da democracia.
Somos uma candidatura que afirma a necessidade de um novo rumo para o país no respeito pelo legado da Revolução de Abril e que aspira à construção em Portugal de uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural.
Uma candidatura que no quadro dos vastos poderes que a Constituição confere ao Presidente da República coloca como prioridade da sua intervenção e acção e como primeiro grande desígnio de uma política nacional o crescimento económico e o desenvolvimento sustentado, no respeito pelo ambiente, virados para a satisfação das necessidades de todos, particularmente dos que vivem apenas dos salários, pensões e reformas.
Uma política de desenvolvimento que finalmente assuma a defesa da produção nacional, o emprego, a valorização do trabalho nacional e o desenvolvimento e modernização das nossas capacidades produtivas, como uma questão fundamental e básica para assegurar o presente e o futuro do país e uma vida melhor para os portugueses.
Uma nova política que promova os valores do direito ao trabalho e do trabalho com direitos como um eixo democrático essencial; os direitos sociais como um suporte essencial de um Estado democrático que se reclama de moderno e avançado e a justiça social e o combate às exclusões como valores inalienáveis de uma sociedade solidária.
Uma nova política e de esquerda que aprofunde a democracia com o restabelecimento da liberdade de organização política; um sistema eleitoral que respeite a vontade dos portugueses; a autonomia do poder local; a liberdade de organização e acção sindical nos locais de trabalho; a concretização de uma reforma democrática do Estado.
Uma nova política que não negligência, antes assume a promoção da educação, da ciência e da cultura, como condição para assegurar um mais elevado patamar de qualificação e formação dos portugueses e o aproveitamento pleno e dinâmico das suas potencialidades ao serviço de um projecto de desenvolvimento nacional.
Somos uma candidatura que luta por um Portugal aberto ao mundo e por uma nova orientação na construção da integração europeia baseada em países soberanos e iguais em direitos, que não abdica da sua pátria e do seu povo.
Somos uma candidatura que afirma os direitos das mulheres, na participação em igualdade, no apoio a uma maternidade e paternidade responsáveis, na criação de condições para eliminar a chaga do aborto clandestino, no combate às discriminações. A propósito, esta embrulhada do referendo do aborto só vem responsabilizar o PS e o BE que assim prejudicaram as mulheres portuguesas. Deviam o PS e o BE pedir desculpa às mulheres portuguesas.
Uma candidatura que dá estímulo à participação dos jovens, à sua realização presente e futura, ao seu contributo para o desenvolvimento.
Somos uma candidatura que reafirma o nosso compromisso colectivo com os trabalhadores, o povo português, os jovens, os mais idosos, as mulheres, os trabalhadores, os pequenos e médios empresários, os intelectuais e quadros técnicos, os desempregados, com os portugueses concretos que são e fazem Portugal.
Uma candidatura para combater a resignação e o fatalismo, afirmando convictamente que Portugal não está condenado ao atraso e ao subdesenvolvimento.
Uma candidatura que não desiste de Portugal, que afirma que Portugal pode ter futuro, para lutar por um futuro com mais desenvolvimento e mais justiça social.(...)"

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 01:45 PM

Margarida,
Concordo que nao devemos julgar os candidatos pelos apoiantes (embora o perfil dos apoiantes nao seja independente do dos candidatos) e a provocacao era dirigida a si e nao ao Jeronimo. No entanto, ele tambem nao tem resistido a enfatizar a necessidade de "derrotar Cavaco Silva e a direita" e essa bandeira parece-me perversa (ate' porque ajuda gratuitamente Cavaco).
De qualquer modo, agradeco o elucidativo excerto que me permite uma apreciacao mais informada.

Publicado por: Nuno Morais em outubro 29, 2005 02:57 PM

Nuno: Sobre os intuitos do meu candidato, ele próprio explicou na sua declaração de candidatura em princípio de Setembro: “Nesta batalha eleitoral concreta, a candidatura decidida pelo CC do PCP (…) visa ao mesmo tempo marcar a diferença, fazer crescer a compreensão de que é necessária uma ruptura democrática e de esquerda com as políticas de direita que nos trouxeram ao actual estado de coisas e demonstrar que há alternativas” e (…) “visa contribuir para a derrota daquele que venha a ser o candidato apoiado pelos partidos da direita e (…) participar num incontornável debate que sendo sobre as funções do órgão Presidência da República, terá necessária e obrigatoriamente de ser um debate sobre o estado da democracia e o futuro de Portugal.”

Estes são em resumo os objectivos da candidatura do Jerónimo. Com a passagem do comício de há uma semana eu só quis salientar aspectos do que ele se propõe defender.

E lembro-lhe que também foi importante o facto de em 30 de Junho, o CC do PCP ter registado “com preocupação a aparente subestimação, ou resignação, que o PS, e outros, evidenciam perante a progressiva promoção da candidatura de Cavaco Silva” e em conformidade ter decidido intervir nas presidenciais para assegurar a derrota da direita; lembro-lhe ainda que em 23 de Agosto, o PCP anunciou a candidatura do seu Secretário-geral, e que só em finais de Julho o DN anunciou que Mário Soares ponderava candidatar-se o que veio a acontecer em 31 de Agosto, e só em 4 de Setembro o PS aprovou o apoio a esta candidatura. Claro que só depois é que o BE, que remédio teve senão candidatar o Louçã.

E se reparar, de facto, dos "quatro", o Louçã nem a palavra "direita" usa, o Alegre diz que a sua candidatura não é contra ninguém e o Soares só começou a falar concretamente contra as ideias do Cavaco DEPOIS do comício do Jerónimo na semana passada. É mesmo necessário que o Jerónimo denuncie as malfeitorias do candidato da direita, se não for ele a fazê-lo...quem o fará?

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 03:17 PM

Margarida:

A propósito das malfeitorias do passado não sei se queres que eu mande uma contribuição itálica sobre as malfeitorias dum certo primeiro ministro afecto ao PCP.

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 29, 2005 03:21 PM

Luís Oliveira, por mim pode mandar o que quiser, se quer pedir autorização a alguém contacte os donos do blogue. Eu limito-me a vir aqui às vezes e outras tantas participo na caixa de comentários. Mas sou absolutamente pela liberdade de expressão.

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 03:51 PM

Margarida,
Louca mudou o discurso, no inicio dizia que a batalha era contra "Cavaco Silva e a direita". Alegre dizia-se o candidato "mais bem posicionado para derrotar Cavaco Silva e a direita" mas ja' percebeu que o eleitorado que o pode levar 'a 2a volta nao e' o que esta' contra Cavaco. Soares ate' era o unico que nao hostilizava Cavaco no inicio mas nao resistiu.
Eu ate' simpatizo com Jeronimo de Sousa. Sou e' contra a partidarizacao das Presidenciais e contra candidatos que se candidatem contra outros candidatos ou que, pelo menos, usem caracteristicas pretensamente negativas de outros como elemento de campanha.
E isso das "malfeitorias" faz lembrar um certo "bushismo". Alias, toda a gente conhece Cavaco e tem uma opiniao (boa ou ma') formada sobre o homem, nao ha' nada para denunciar. Essa estrategia da "denuncia" e', na minha opiniao, um tiro no pe'. Em Janeiro saberemos.

(desculpem a ausencia de acentos, nao estou em Pt)

Publicado por: Nuno Morais em outubro 29, 2005 03:57 PM

Eu li a declaração de candidatura do Louçã e lá não só não aparece a palavra "direita" como muito menos aparece a palavra "Cavaco"; Do Alegre dizer que a sua candidatura não é contra ninguém ouvi-o há pouco na SIC a dizer isso mesmo.

Lembrei-lhe há pouco que o Jerónimo foi não só o primeiro a apresentar a sua candidatura como aliás disse logo que não queria que a direita ganhasse a Presidência da República, como também disse no Comício em Lisboa em 21/10:

“Ontem, depois de meses de calculada e bem encenada expectativa e falsa reflexão, Cavaco Silva, o candidato da direita, apresentou formalmente a sua candidatura à Presidência da República.

Uma candidatura que se sabia que antes de o ser já o era, cuidadosamente preparada, planeada e gerida com o objectivo de branquear o seu passado de governante ao serviço dos grandes interesses e do processo de recuperação capitalista contra Abril que liderou em favor do grande capital nacional e internacional.

Processo que está na origem dos nossos atrasos estruturais e das actuais dificuldades que o país atravessa.

Operação de branqueamento cuidadosamente pensada com o objectivo da construção de uma nova e falsa imagem que quer mostrar Cavaco Silva como o economista de rigor e neutro, predestinado a “salvar a pátria”, a pairar por cima dos partidos e dos interesses e que ontem culminou naquela seráfica declaração de “anjo” sem mácula.

Quis sacudir o passado não clarificando o pensamento e objectivos que persegue!

Maquilhagem para esconder a real natureza da sua candidatura – uma candidatura de submissão do poder político ao poder económico – e da uma visão instrumental dos partidos que o apoiam pelos homens do grande capital.

É este D. Sebastião do século XXI que deixou o país numa profunda crise após dez anos do seu governo, que se pôs em fuga perante o desastre da sua política e que o povo português maioritariamente condenou e derrotou que se apresenta agora, messiânico, a oferecer a salvação do país.

O governante que trocou o futuro e a defesa da nossa agricultura, das pescas e da nossa indústria por uma mão cheia de Ecus que se esvaíram por entre os dedos dos poderosos, como o ouro do Brasil, ficando o país mais pobre e exaurido.

Cavaco Silva faz parte desse cortejo de ex-governantes que têm o monopólio dos espaços de debate, onde se sentam apenas os “prós” e onde os “contras” são, quando são a flor decorativa para salvar as aparências e que do alto do seu pedestal e quantas vezes com petulante jactância passam a vida a dar receitas e a apontar caminhos, mas que sempre que assumiram responsabilidades deixaram o país pior do que o encontraram.

Não há camuflagem que esconda as enormes responsabilidades e as malfeitorias dos governos de Cavaco Silva, a sua arrogância e o seu autoritarismo.

E se o tempo as pode fazer esquecer, e as outras candidaturas o deixam passar em branco, a nós compete lembrá-lo.

Foi Cavaco Silva que, durante os dez anos que esteve à frente do governo do país, que protagonizou uma das maiores ofensivas contra os direitos individuais e colectivos dos trabalhadores e deu rosto ao mais grave desrespeito pelos valores e princípios básicos do regime democrático com uma prática governativa à revelia e contra a Constituição da República.

Foi com Cavaco Silva e no seu ciclo governativo que se iniciou o processo de subversão das leis laborais, da lei da greve, dos despedimentos, abrindo as portas aos despedimentos colectivos e ao aumento da idade da reforma das mulheres dos 62 para os 65 anos, que executou o primeiro acto repressivo contra elementos das forças de segurança.

Foi Cavaco Silva que, insensível às injustiças, promoveu um redobrado ataque ao trabalho com direitos, apoiou e incentivou as rescisões e as pré-reformas forçadas de acordo com os interesses do grande capital e aprofundou as desigualdades sociais. Para privatizar precisava fazer a “limpeza” de direitos para entregar as empresas livres de encargos.

Foi com Cavaco Silva no governo que se acelerou o processo de reconstituição das grandes fortunas e de entrega do melhor património público empresarial, nomeadamente as empresas dos sectores básicos ao capital estrangeiro.

Olhando para os seus mais destacados apoios é caso para dizer que “amor com amor se paga”. Salvo seja! A palavra amor não liga bem com Cavaco. É mais “favor com favor se paga”!

Não é por acaso que ainda hoje Cavaco Silva tem o apoio incondicional dos grandes senhores do dinheiro e dos grandes interesses, dos Belmiros, dos Teixeira Pinto do BCP, dos Dias Loureiro do BPN.

Realidade bem patente também nos apoios e na constituição do núcleo duro da sua campanha, a começar pelo seu director de campanha, um dos fundadores do conclave do Beato e acérrimo defensor dos despedimentos selvagens.

Foi Cavaco Silva, o responsável pela entrada sem preparação de Portugal na moeda única que conduziu à perda de mais de 20% da nossa competitividade em relação à média europeia.

É este o candidato da instabilidade democrática com o qual a direita acalenta a esperança de subversão do sistema de poder constitucionalmente consagrado e de um presidencialismo autocrático.

Este é a candidatura que se impõe derrotar no próximo mês de Janeiro!”

E a campanha ainda nem começou.

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 04:13 PM

Maragrida,
O factos de Louca nao usar a palavra "direita" na declaracao de candidatura e de Alegre agora dizer que se candidata contra ninguem nao apagam declaracoes publicas anteriores.
Mas conseguiu provar-me que Jeronimo e' efectivamente o que mais se esforca por denunciar os pecados de Cavaco (obrigado pelo extenso rol de "malfeitorias") o que me parece jogar contra o proprio Jeronimo.
Ficamos por aqui, OK?
Abraco!

Publicado por: Nuno Morais em outubro 29, 2005 04:24 PM

Pois é Nuno, desde o dia 20 que foi quando o Cavaco anunciou a sua candidatura, de facto, nem o Louçã nem o Alegre ainda se descoseram...esta é que é a realidade. E o Jerónimo antes e depois, frontalmente, declarou ao que vai: e vai para ajudar a derrotar a candidatura da direita. Na candidatura do Jerónimo não há ambiguidades e há uma postura de combate contra o essencial: impedir que a direita se aposse do órgão de soberania que é a Presidência da República. E que faz falta esta voz desassombrada eu acho que faz!

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 04:46 PM

Ó pra mim todo assombradote ... e cheio de ambiguidades ...

Publicado por: D. João e a Máscara em outubro 29, 2005 06:46 PM

OH Margarida. Você tem um problema com a realidade e portanto, muda a realidade. Leia atentamente o que as pessoas escrevem, reflicta, e se possivel desligue a k7.E já agora, encontre por aí um Donald, pois como dizia Pepe Carvalho "...não há nada pior do que aturar uma melher mal amada.."

Publicado por: antonior em outubro 29, 2005 06:57 PM

OH Margarida. Você tem um problema com a realidade e portanto, muda a realidade. Leia atentamente o que as pessoas escrevem, reflicta, e se possivel desligue a k7.E já agora, encontre por aí um Donald, pois como dizia Pepe Carvalho "...não há nada pior no mundo do que aturar uma mulher mal amada.."

Publicado por: antonior em outubro 29, 2005 06:58 PM

Como não sabe como responder o Antonior chuta para o lado e arma em machista. Mas fazê-lo em dupicado já é exagero. Não havia razão para a nervoseira.

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 07:43 PM

Antonior:

"Você tem um problema com a realidade e portanto, muda a realidade."

Uma ligeira correcção:
A Maragarida não tem qualquer problema com a realidade, pelo contrário ela conhece bem a realidade, e honra lhe seja feita é uma "melher" inteligentíssima e uma excelente argumentadora. Como tu dizes ela manipula a realidade para tirar dividendos políticos. Acho que qualquer político faz isso, mas a Margarida exagera. Desconfio até que ela e o Paulo Portas terão aprendido retórica com o mesmo professor. Talvez o Lenine? Quem sabe?

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 29, 2005 08:14 PM

Ó Luís acusar é tão fácil...dê-me lá argumentos, s.f.f. e se não se importar de manipulação da realidade que eu tenha feito. Ou não haverá antes maneiras diferentes de ver, perceber ou sentir aspectos da realidade? Ou do ponto de vista a partir do qual analisamos o que nos rodeia? As coisas umas vezes são mais complexas e outras vezes são mais simples do que nos parecem se não pensamos muito nelas.

Por exemplo, há pouco, ao dar uma vista de olhos ao Expresso até me pareceu que o António José Saraiva exprimia pontos de vista parecidos com o do Antoninor. Mas eu "leio" sempre o Saraiva com desconfiança porque já o apanhei demasiadas vezes a ajeitar a realidade às suas teorias. Admito perfeitamente que me acusem do mesmo mas se não apontam objectivamente as distorções, não me convencem. E assim às vezes surgem as grandes incompreensões.

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 10:02 PM

Ó Margarida, tens toda a razão. O problema é que tu (e eu provavelmente também faço isso) quando te vez sem argumentos recorres (do meu ponto de vista) a raciocínios cuja lógica escapa a quase todos.

O que me parecia proveitoso era que abdicássemos (todos) desses truques.

Um exemplo que li no tal livro reaccionário que o Luís Rainha conhece do David Landes: no brasil naquela altura em que toda a malta ia às compras de manhã porque à tarde já tudo era mais caro havia gente que argumentava que a inflacção não era um problema. Se os preços aumentavam, as empresas brasileiras iam tendo mais dinheiro para pagar ordenados mais elevados aos seus trabalhadores. Mas como é que isto funciona num país com economia aberta? Não funciona!

Quem é que resolveu isto? Não foi a esquerda, acho eu. E repara que o Brasil é um país com problemas sociais muito mais marcados que os nossos. Eu já lá estive e fiquei com a nítida sensação que os países do Norte têm que mudar muito seriamente a política agricola se querem ver aquele tipo de problemas resolvido. Mas quem sou eu para dizer isto?


PS: Eu já há muito tempo que não leio o caderno principal do expresso (não tenho pachorra para aquilo), mas quanto ao AJS estamos completamente de acordo.
PPS: o título do livro é "A riqueza e a pobreza das nações"

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 29, 2005 10:33 PM

LR as sondagens estão a ser feitas para prejudicar o Mário Soares, não nos deixemos enganar por elas.
Mário Soares é o único candidato com força para derrotar Cavaco e assim a Esquerda ganhar as eleições.

Publicado por: Filipe em outubro 29, 2005 10:44 PM

Como tenho que ir comprar o livro sobre o Cavaco que saíu - eu tenho o vício de gostar de ler até para tentar perceber or argumentos dos adversários - se encontrar e não for muito carote sou capaz de comprar esse livro do Landes, Luís.

Filipe, o que eu defendo sobre as sondagens é que as analisemos objectivamente. Eu tentei analisar o mais objectivamente possível estas duas sondagens, por isso não fiquei muito impressionada com elas. Aliás não sei se acompanhou o que se passou há uma semana nas eleições da Polónia. O Tusk, o que foi derrotado, como tinha óptimas sondagens, ficou em estado de choque com o resultado das eleições. Isto está sempre a acontecer. É óbvio que são também usadas como armas de contra-informação e propaganda. Por isso há que analisá-las o mais objectivamente possível.

Publicado por: Margarida em outubro 29, 2005 11:06 PM

Margarida:

É um livro interessantíssimo, mostra bem que do outro lado da barricada há argumentos muito interessantes. No que respeita ao David Landes em particular discordo acima de tudo do que ele pensa sobre o trabalho. Talvez mais interessante do que as minhas convicções pessoais, ou as dele, nesta matéria seja discutir o ponto de vista dele sobre as condições dos trabalhadores durante a revolução industrial, suponho que nessa matéria estaremos os dois de acordo.

E já agora queria um conselho teu e de mais alguém que o queira agarrar sobre o Manuel Tiago, até agora li o "saltos" e o "cinco dias cinco noites", qual é o que aconselhas a seguir?

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 29, 2005 11:41 PM

O único que li e já lá vão uns anos foi o "Até amanhã camaradas", Luís.

Publicado por: Margarida em outubro 30, 2005 08:42 AM

Pois Margarida esperemos que as sondagens estejam erradas e que cá aconteça o mesmo que aconteçeu na Polónia, que as pessoas não se deixem influenciar pelas sondagens e que o candidato que eu defendo, Mário Soares vença as eleições.
Já agora tenho referir que gostei bastante da análise que fez sobre os outros candidatos.

Alguém sabe o nome livro que foi feito por um militante do PSD a criticar o Cavaco e já agora o nome do autor?

Brigada Bigornas atacar o Mário Soares e o PS com as invenções das estórias dos diamantes é mesmo típico de quem é fascista e de quem odeia uma das pessoas que sempre lutou pela democaracia e pela liberdade.

Publicado por: Filipe em outubro 30, 2005 12:39 PM

É curioso como se consegue justificar uma candidatura, não por méritos próprios do candidato (Soares), mas como uma candidatur contra Cavaco! Diz-se ao pessoal: Bora lá votar Soares! Porquê? Porque sim, para que Cavaco não ganhe ou ganhe por poucos! É assim tipo passar um cheque em branco. Isto de votar não em princípios, mas em estratégias calculistas faz-me um bocado de impressão...

Publicado por: AL em outubro 30, 2005 05:03 PM

Só uma pergunta, Margarida: nesse concelhos que cita, as empresas em questão enganaram-se no nome do vencedor? Não?
É que não estamos aqui a falar dos 2 ou 3% que decidem se o BE fica ou não à frente do PCP... Há coisas mais importantes em jogo, por estranho que lhe possa parecer.

Publicado por: LR em outubro 30, 2005 06:39 PM

Lembro-me que em Sintra nem no nome acertaram, puseram o João Soares a ganhar, noutras puseram o primeiro a empatar com o segundo e o terceiro com o quarto...

Mas quem parece que está a dar muita importância às sondagens é o LR, eu não fiquei nada impressionada com elas. Nem com as das autárquicas nem com as das presidenciais.

Publicado por: Margarida em outubro 30, 2005 07:03 PM

Não exagere, senhora. É inevitável que nem sempre se acerte; sobretudo quantdo estão em causa valores próximos das próprias margenss de erro das sondagens. É claro que não está impressionada, a Margarida nunca ficará impressionada com o que quer que não venha no editorial do "Avante!"; já deu para perceber bem isso.
Aliás até eu estou impressionado com o último editorial do seu pasquim. "Quanto a Louçã, o velho rapaz que veio do trotskismo folclórico para encher um partido de esquerdistas desiludidos e de reformistas fatigados, a sua candidatura, avançada visivelmente a contragosto porque se arrisca a fazer uma nova contagem de votos desfavorável, a sua ambição mais visível é a de tentar prejudicar o candidato comunista. Aliás, o propósito central de toda a política do BE, apadrinhada pelo PS e pela comunicação social, tem sido sempre o de atacar o PCP, atingindo hoje o anticomunismo dos seus dirigentes níveis só alcançados pelos mais reaccionários políticos e formações partidárias desde Abril."
No estilo odioso do divisionismo mais nojento, não está nada mal. Não pode dizer àquela malta para se ater aos artigos sobre a popularidade de Stalin na Rússsia e deixar de dar razão aos que apontam o PCP como um partido de velhos ressentidos e autistas?

Publicado por: LR em outubro 30, 2005 07:15 PM

Mas se quiser experimentar isso da honestidade intelectual — em privado, para ninguém a ver— pode sempre ir ler o que um profissional do campo (mas que não trabalha para partidos) tem a dizer sobre o funcionamento das sondagens nestas autárquicas e dos seus pontos fracos. Vai ver que aquilo das sondagens também não é propriamente uma invenção de capitalistas aldrabões que inventam resultados para prejudicar o parrtido da classe operária:
http://margensdeerro.blogspot.com/2005/10/sntese_10.html

Publicado por: LR em outubro 30, 2005 07:19 PM

LR, não ponho s.f.f. na minha boca coisas que eu não disse, e repare que eu não analisei as sondagens das autárquisas, eu limitei-me a comparar as previsões saídas das sondagens feitas pela Marktest e Aximage nas autárquicas com os resultados de 9 de Outubro.

E quem lhe diz que eu não conheço o trabalho do Margens de Erro? Claro que conheço. Só que o Margens de Erro não analisou as empresas que fizeram sondagens (foi o que eu fiz), mas sim as sondagens própriamente ditas. E nem esperava que o fizesse.

Afinal o Pedro Magalhães do Margens de Erro é da direcção do Centro de Sondagens da Católica, como sabe, e nestas coisas eles não costumam falar do trabalho de uns dos outros. Mas só o facto de disponibilizarem as sondagens permite a nós, leigos, que estamos de fora, olhar para elas e tirarem algumas conclusões. Que repito não me impressionaram por aí além. Tão somente.

Publicado por: Margarida em outubro 30, 2005 07:40 PM

Desculpe, só agora reparei que antes do último comentário do LR, havia outro anterior, onde o LR se manda para o ar contra o editorial do Avante. Como não sei do que fala, logo depois do jantar, lhe direi alguma coisa.

Publicado por: Margarida em outubro 30, 2005 07:44 PM

Lá fui ler o Editorial do Avante e que aqui ponho para os restantes comentadores verem o que tanto danou o LR que o convenceu a aderir ao clube dos poetas zangados. A mim, francamente,parece-me um naturalíssimo editorial adequado à estação política pré-eleitoral. Ou agora, acha o LR que o PCP até no seu semanário não pode ter liberdade de expressão e de opinião? Ou acha o LR que lá porque o Louçã mudou a táctica eleitoral (de caça-bandidos passou a ser o anjo-da-guarda do Cavaco) que os outros candidatos são obrigados a imitá-lo?


"Esclarecer diferenças
Editorial, Avante, 28/10/05

Ao avançar com a candidatura de Jerónimo de Sousa às presidenciais, e ao fazê-lo em primeiro lugar, apresentando em 12 de Setembro as razões que levaram o Comité Central do PCP a tomar tal decisão, o secretário-geral do Partido sublinhou então que tal candidatura «visa marcar a diferença, fazer crescer a compreensão de que é necessário uma ruptura democrática e de esquerda com as políticas de direita que nos trouxeram ao actual estado de coisas e demonstrar que há alternativas».
Anunciou também que a candidatura comunista visa «contribuir para a derrota daquele que venha a ser o candidato apoiado pelos partidos da direita e, simultaneamente, participar num incontornável debate que sendo sobre o órgão de soberania Presidência da República, terá necessária e obrigatoriamente de ser um debate sobre o estado da democracia e o futuro de Portugal».
É o que tem sido feito e que o candidato do PCP continuará a fazer durante os próximos tempos, no que se insere já, entretanto, a sua declaração sobre o combate à pobreza, pelo direito a ter direitos e em iniciativas futuras, numa batalha mobilizadora de esclarecimento em que todo o colectivo partidário se empenha.
Hoje, quando no essencial as candidaturas foram já apresentadas, as diferenças entre a de Jerónimo de Sousa e todas as outras são por si mesmas esclarecedoras.

Em vez de declarações vagas – para que os eleitores se deitem a adivinhar que tipo de intervenção se propõe cada candidato fazer se for eleito – Jerónimo de Sousa vai ao fundo dos problemas, que são graves e muitos, clarificando a posição dos comunistas nas diversas matérias e questões com que o País se confronta.
Ao invés das declarações arredondadas dos outros candidatos, que lançam recados apaziguadores em quase todas as direcções, escondendo ou revelando as suas atitudes quanto a matérias específicas, Jerónimo de Sousa contrapõe uma postura de clareza, identificando as situações e a sua gravidade, desmistificando as «soluções da política de direita que, com as eventuais diferenças de estilo, tão bem caracterizam as «famílias políticas» em concorrência e as identificam a todas no essencial.
Essa identificação tê-los-á levado, a dois desses candidatos, a erigir a chamada por eles «estabilidade política» como cerne das suas propostas. Se Cavaco Silva assegura que é a «estabilidade» que o orienta, logo Mário Soares corre a jurar que também ele considera a «estabilidade» como valor fundamental e copia o seu adversário afirmando que considera igualmente os poderes presidenciais como suficientes.
É claro que existem diferenças, mas diferenças ainda não claramente assumidas nestas declarações quase idênticas. Para Cavaco Silva bastam-lhe hoje os poderes actuais do PR e deixou mesmo entrever o recado dirigido a Sócrates, tranquilizando-o acerca de um eventual conflito entre o PR e o Governo. Desde que o executivo do PS prossiga e endureça a sua política de direita, o professor de economia deixá-lo-á governar. Quanto ao aumento de poderes do PR, que hoje tantos defendem – os mesmos que tudo fizeram para diminui-los porque podiam constituir obstáculo ao aprofundar das medidas lesivas dos trabalhadores e do País – tornou-se um objectivo fundamental da estratégia da direita e, ao silenciá-lo, Cavaco mais não faz do que adiar a sua concretização.

As diferenças entre as outras candidaturas que neste momento já vieram a lume depois do anúncio da de Jerónimo de Sousa, não são, por enquanto, relevantes e pouco se pode ajuizar delas a partir das declarações dos candidatos. Porém, todos eles são conhecidos dos eleitores, todos prestaram provas na política e nada indica que, passados estes anos, se hajam alterado grandemente as suas posições.
Quanto a Louçã, o velho rapaz que veio do trotskismo folclórico para encher um partido de esquerdistas desiludidos e de reformistas fatigados, a sua candidatura, avançada visivelmente a contragosto porque se arrisca a fazer uma nova contagem de votos desfavorável, a sua ambição mais visível é a de tentar prejudicar o candidato comunista. Aliás, o propósito central de toda a política do BE, apadrinhada pelo PS e pela comunicação social, tem sido sempre o de atacar o PCP, atingindo hoje o anticomunismo dos seus dirigentes níveis só alcançados pelos mais reaccionários políticos e formações partidárias desde Abril.
Manuel Alegre, por seu lado, embalado pela sua irritação contra Soares e Sócrates, também não avança se não afirmações redondas onde desponta, hoje, a sua ira antipartidos, já que não é apoiado por nenhum. Com a voz aparentemente colocada à esquerda, não deixa de ser o homem que, durante trinta anos, sempre apoiou, com obediência, convicção e voto, todas as medidas mais gravosas da política do seu partido.
Mário Soares, que nos últimos anos se desdobrou em profissões de fé anti-imperialistas e que se distinguiu pela sua oposição ao cavaquismo, não deixa de ser o amigo de Carlucci e o mentor da contra-revolução que lançou o País na política de direita, de entrega ao capital da riqueza nacional, da submissão aos interesses dos monopolistas europeus.

Cavaco Silva surge, porém, com menos ambiguidade neste panorama, apesar da cosmética tranquilizadora e do silêncio ruidoso de dez anos. Para além de todos os malefícios que causou aos trabalhadores acentuando medidas contra os seus direitos, o finalmente candidato à Presidência da República tenta, numa posição concertada com os seus apoiantes partidários e os apoios dos grandes grupos económicos, aparecer branqueado do seu passado de «governante ao serviço dos grandes interesses e do processo de recuperação capitalista que está na origem dos nossos atrasos estruturais e das actuais dificuldades que o País atravessa», como sublinhou Jerónimo de Sousa no seu discurso da passada sexta-feira, em Lisboa, e que o Avante! reproduz na íntegra.
Esta é a candidatura da direita. Aquela que o PCP se propõe contrariar com mais vigor, procurando contribuir para a sua derrota. Com uma candidatura e um candidato de combate e de projecto para ir tão longe quanto o povo português quiser!"

Publicado por: Margarida em outubro 30, 2005 08:57 PM

Margarida,
Longe de mim querer coarctar a liberdade de expressão dos editorialistas do "Avante!"; lá deixariam os rapazes de poder expressar livremente a verdadeira alma do PCP de hoje: ressentida, amarga e meio alucinada:-)
Quanto às sondagens, já nem percebo bem o que afinal quer dizer. Mea culpa; deve ser da mudança de hora.
"eu não analisei as sondagens das autárquisas, eu limitei-me a comparar as previsões saídas das sondagens feitas pela Marktest e Aximage"?

Publicado por: LR em outubro 30, 2005 09:12 PM

"eu limitei-me a comparar as previsões saídas das sondagens feitas pela Marktest e Aximage nas autárquicas com os resultados de 9 de Outubro", é assim a frase tal qual a escrevi, e os resultados não me impressionaram, torno a acrescentar. E relembro que ainda falta pelo menos uns dois meses e meio para as presidenciais e essas sondagens das autárquicas foram feitas quase todas dois dias antes das eleições...

Com essa da "alma do PCP" tão negativa, não está o LR a tomar o desejo pela realidade?

Publicado por: Margarida em outubro 30, 2005 10:38 PM

Limitou-se a "comparar as previsões saídas das sondagens", mas afirma que ""eu não analisei as sondagens". Deve ser o famoso "duplipensar". Natural em quem consegue ler sem vomitar aquele tal "editorial". Mas já é tarde para que eu consiga aventurar-me por semelhantes abismos da psique...

Publicado por: LR em outubro 31, 2005 12:53 AM

Margarida, uma vez que gosta de contar: conte as palavras dedicadas ao "anjo da guarda de Cavaco" Louçã e compare-as com as dedicadas a Cavaco - nem falo das dedicadas a Manuel Alegre e Mário Soares.
O PCP destapa a manta da "luta contra a direita" e mostra quem é o seu inimigo: o Bloco de Esquerda. Agora, Francisco Louçã.

É notório que nas últimas semanas tem-se verificada uma alta intensidade não na crítica política (legítima) mas na mais baixa calúnia. Mesmo pendurando-se na golpada dada dois dias antes das eleições pela imprensa burguesa que o PCP diz até à rouquidão apoiar o bloco - olhe que não, vá medir a cobertura da imprensa e da TV nestas eleições autárquicas e depois verifique a diferença entre a realidade e o selo que o PCP quer colar ao bloco.

Poderia rematar-lhe que tal não me preocupava vindo de um jornal que há poucas semanas rejubiliva com as estátuas construídas a Estaline lá num lugarejo da Sibéria - não deviam descender do "Samizdat" os entusiastas da ideia. Como um partido que enche as sedes com retratos de Lenine deviam ter-lhe mais respeito.

Mas não só: pelo que vejo em alguns locais onde me movimento, esta "linha" é complementada com uma campanha odiosa entre os militantes sobre o bloco. Parece-me que o bloco acabou de suplantar o "estatuto" de inimigo reservado aos "esquerdistas".
Mesmo que entre os adereentes do bloco estejam muitos combatentes anti-fascistas que pagaram bem caro as suas opções.
Mesmo que uma das deputadas do bloco seja do concelho geral da CGTP, e apesar de em alguns sindicatos da CGTP haver militantes do bloco na mesma direcção onde estão militantes do PCP, eleitos nas mesmas listas, como aliás já ocorreu comigo num dos sindicatos mais fortes da CGTP.

Minha cara: tenho idade suficiente para ter visto trabalhadores a serem expulsos de assembleias sindicais que enchiam o pavilhão dos desportos em Lisboa, apenas porque queriam apresentar propostas divergentes da direcção. Isso aconteceu quando o seu líder Gerónimo chefiava o Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa.´
Não venha para aqui atirar lama sobre organizações de esquerda e sobre pessoas que a integram - e que em alguns casos foram suas camaradas. Os "Processos de Moscovo" foram nos anos 30.


Publicado por: CausasPerdidas em outubro 31, 2005 02:53 AM

Será que é hoje que vamos descobrir qual é a esquerda que lava mais vermelho?

Publicado por: Luís Oliveira em outubro 31, 2005 03:27 AM

Causas Perdidas: Afinal, acabou com uma tirada acertada: "Os processos de Moscovo foram nos anos 30". Só lhe lembro que estamos em Portugal, mais de 70 anos depois, e 11 dias depois do Cavaco ter apresentado a sua candidatura, ainda não ouvi do candidato Louçã qualquer referência crítica aos seus propósitos. Nem uma para amostra. Mas se você for ao www.jeronomidesousa.org encontratá nas intervenções do Jerónimo largas referências sobre o candidato da direita.

Publicado por: Margarida em outubro 31, 2005 09:12 AM

Não ouviu nada porque sofre daquele mal tão útil e tão comum lá no seu partido: a cegueira/surdez selectiva. Graças a esta importante vantagem evolucionária, a Margarida pode fazer de conta que a realidade se adapta aos seus desejos.
"Perante as irresponsabilidades dos seus governos, Cavaco Silva esteve sempre calado." Por isso, "o grande objectivo do BE é derrotar a direita". Até porque, diz Francisco Louçã, "Cavaco Silva esteve calado mas sabemos que ele esteve lá. Chamou-se Manuela Ferreira Leite, Durão Barroso, Isaltino Morais ou Avelino Ferreira Torres".
Isto veio nos jornais de 4 de Setembro, bem antes das intervenções do seu candidato que refere.
Mais recentemente, já depois do lançamento da candidatura de Cavaco, também não faltaram declarações de Louçã a referir Cavaco Silva.
É no que dá depender exclusivamente do “Avante!” para se sabeer o que se passa em Portugal e no mundo...

Publicado por: LR em outubro 31, 2005 11:20 AM

Estão aqui a perguntar-me se por acaso não é a Margarida Botelho...

Publicado por: LR em outubro 31, 2005 11:31 AM

É duro confessar isto publicamente, mas não tenho outro remédio porque a verdade é mais importante que a minha pobre reputação. E a verdade é que já gastei duas caixas de lenços de papel na leitura dos comentários a este post. As lágrimas têm sido tantas, tantas, tantas que me fazem lembrar a prostituta duma história do Italo Calvino, se não estou em erro, que nunca mais parava de mijar. Nem as anedotas da Margarida conseguiram pôr cobro à torrente de lágrimas, apesar de me terem arrancado duas ou tres gargalhadas isoladitas com gosto.

Há uma premissa ou condição fundamental que tem de ser aceite à entrada. Portanto quem não estiver de acordo passe à frente para não perder tempo. E ela é a de que tanto o PS como o PCP são instrumentos dos mesmos controleiros mundiais da esquerda social-comunista - os senhores Rothschilds, que são vários e distribuidos “equitativamente” pelos centros nevralgicos da maçaroca, e os Rockefellers. Nah! Ai é nah? Pelo menos é o que anda na boca de toda a gente nos mercados da Moita e do Pinhal Novo. Alem do mais, estou a escrever isto diante duma fotografia do Krutschev a dar uma abraço a um destes rufiões nos anos sessenta. Nada o salvou, no entanto, de levar o pontapé no cú assim que foi considerado desnecessário. (Obrigado por me teres lembrado deste pormenor interessante, Bernardo de Tours).

Olhando deste poleiro sobre a arena preliminar da nova corrida à presidência, e a uma distância que me ajuda a manter a cabeça fria, desconfio que a Esquerda, liderada pelos mais importantes membros das suas chefias encapotadas, e portanto os únicos com poder para imprimirem direcções conspirativas às politicas aparentes dos seus partidos, está em vias de preparar uma campanha com a deliberada intenção de colocar um presidente “capitalista” no trono. Nem mais nem menos. Dai ao “descalabro” que resultará de atritos entre um presidente “capitalista” e um primeiro-ministro “socialista” é um passo e não daqueles em que precisamos abrir muito as pernas. E parece que vão conseguí-lo sem espantarem a caça e sem assustarem os ursos. Que nenhum tanso da esquerda fique a lamber feridas se acontecer assim.. Essa derrota traduzir-se-á na realidade como numa rica victória secreta, conforme planos dos tecelões intriguistas do costume. E o ambicioso Cavaco, tudo indica, cairá neste logro que nem um patinho porque o seu status de professor nunca foi infelizmente capaz de eliminar completamente o que de mau herdou dos asininos, um povo de pigmeus que viveu nas margens da Ribeira de Alte, hoje sequinha que nem uma palha, que escorria pelos concelhos de Loulé e Albufeira.

Não é dificil compreender por que razão esta “derrota” deliberada é vital para um partido moderado da Esquerda Folcórica de obediência a politicas globalistas e coincidentemente em apuros com um primeiro ministro ainda menos popular que o Santana Lopes, já para não se falar de outras coisas menos próprias. A confusão política que se gerará com um presidente de direita e um governo de esquerda num clima de maçonarias divididas à procura de tachos, mais o descontentamento popular e a subida dumas coisas e a escassez doutras, servirá às mil maravilhas os barões do dinheiro. Para os Roths e os Rocks tanto faz, ganhe a direita, ganhe a esquerda, o lucro é sempre o mesmo, mas os ânimos exaltados prestam-se sobremaneira a festas internacionais tenebrosas que se adivinham no horizonte, especialmente no estado desgraçado em que o mundo se encontra. Neste país pequenino, como dizia o outro, podia-se ter juizo. Mas nem isso.

Que nenhum papa-açorda perca estas coisas de vista.. Eu vou continuando a ler o mais que posso sobre António Conti, intriguista-mor veneziano que preparou a cama à revolução francesa e nos ajudou a amar o plagiário Galileu. Quem quizer conversar comigo sobre eleições, não se esqueça disso.


Publicado por: Bomba em outubro 31, 2005 11:47 AM

Rectifico: Afinal DEPOIS do anúncio da candidatura de Cavaco e segundo a TSF, em 20/10, Francisco Louçã disse: "Depois de tanto tempo em silêncio, Cavaco Silva podia ter explicado as questões essenciais que o trazem à campanha presidencial, mas Cavaco falou nas mesmas escolhas e valores de há 10 anos atrás».

Mas uma coisa me intriga: se o LR acha mesmo que esta declaração salva a "honra" do Louçã porque é que não está inserida no seu blogue de campanha? Será que não acha que esta declaração
é completamente inócua? Afinal, fico sem saber qual o juízo do Louçã sobre "as escolhas e valores de há 10 anos atrás". É óbvio que se o Cavaco há dez anos se candidatou, tinha "escolhas e valores". Mas eram adequados? Positivos? Negativos? Mistério...o Louçã sobre a substânciazinha nada diz a não ser que têm pelo menos 10 anos.

E eu lembro-me que quando o Cavaco se estreou na governação do país não foi há dez, mas há 24 anos...e que foi também há 24 anos que ele "subiu" à direcção do PSD de que era militante desde...1974, isto é a sua fundação.

Não sou a Botelho, não. Essa deve ter mais que fazer do que eu, e a propósito de ter que fazer, tenho mesmo, pelo que só lá talvez para a noite aqui possa voltar. Bye, bye!

Publicado por: Margarida em outubro 31, 2005 11:48 AM

Mas quem fala de "salvar" seja o que for, sobretudo aos seus olhos? Agora o que define o que um candidato pensa é o que vem num blogue? Abrenúncio!
E que diz da passagem "o grande objectivo do BE é derrotar a direita". Cavaco Silva esteve calado mas sabemos que ele esteve lá."? E que tal ao menos consultar o Google antes de fazer declarações falsas e ígnaras?

Publicado por: LR em outubro 31, 2005 04:02 PM

É verdade que li esta caixa de comentários na diagonal, mas parece-me que aqui se encontra uma demonstração pratica de porquê que o Cavaco vai ganhar provavelmente á primeira volta. Uma pergunta: se todos os candidatos estão nisto para "derrotar a direita", porquê que não foi possível o obvio: uma só candidatura de esquerda? Já nem peço uma candidatura que não fosse o repetir de discursos inadequados á realidade. Eu tenho uma opinião: a esquerda não existe, existe só o status quo a reproduzir-se. Toda a gente a agarrar o seu «share». Claro que eu não votava em nenhum dos candidatos de "esquerda", mesmo na segunda volta. Eh pá! Não é que eu sou o povo que não percebe que vantagens é que os candidatos de "esquerda" trazem?! E não vejo porquê que é mais terrível ganhar o Cavaco que o Soares...É o problema do povo. Não percebe as vanguardas. Bom descansem, o Cavaco nunca verá a cor do meu voto.

Publicado por: mulize em outubro 31, 2005 04:43 PM

Mas a discussão, LR, era sobre o que o Louçã, dissera (ou deixara de dizer) DESDE que o Cavaco apresentou a sua candidatura, que relembro-lhe foi em 20 de Outubro. E esta frase que aqui me traz é de 4 de Setembro, como você próprio indicou aí em cima e eu confirmei. E se foi por volta de 4 de Setembro que o Louçã vestiu a pele do caça-bandidos, mês e meio depois já a pôs de lado para se armar agora em anjo-da-guarda do Cavaco.

Mas se o Louçã é o líder do BE e tem o blogue para as presidenciais, se eu consultei tanto o site do BE como o blogue do Louçã, agora vem-me dizer que eu devia consultar o google? Além de que numa discussão neste mesmo espaço com o Nuno Morais JÁ eu me tinha insurgido com esta mesmíssima atitude do Louçã, que aliás detectei logo na sua declaração de candidatura onde ele nem o termo "direita" utiliza!

LR eu nunca disse que o Louçã nunca atacara o Cavaco: disse é que depois que o Cavaco se candidatou (já lá vão 11 dias) ainda não o atacou. Compete agora a si tentar demonstar o contrário, coisa que ainda NÂO fez!

Publicado por: Margarida em outubro 31, 2005 04:59 PM

O que vocês(PCP e BE) deviam fazer era apoiar o candidato do PS Mário Soares, assim como Manuel Alegre devia fazer o mesmo.
È a única forma da esquerda ganhar as eleições.
Vota Mário Soares.

Publicado por: Filipe em outubro 31, 2005 07:53 PM

Margarida,
A mim não me "cabe" coisa nenhuma, muito menos indicada por si. Se lhe recomendei o Google, era para me poupar tempo e arrelias. E a frase que lhe aprresentei serve perfeitameente de exemplo; não é você quem decide o que é ou não "inóciuo". Só faltava essa...
Mas bastou-me ir a http://franciscopresidente.net/diario.htm para dar logo com o tal nome que vocêe não encontra, repetido vezes sem fim... Não conseguiu encontrar o site, foi?
Fica uma passagem que parece escrita para si: "No seu primeiro comício eleitoral, Jerónimo de Sousa dedicou uma parte importante do seu discurso a ataques e insultos a outros candidatos de esquerda. A melhor pérola foi dizer que estavam “calados como ratos” em relação ao passado de Cavaco Silva. Se, dois meses antes de começar a campanha, Jerónimo já trata os outros candidatos como “ratos”, é de temer o pior do que vem por aí.
Esta candidatura esclarece desde já que não responde a insultos, respeita todos os candidatos, não alimenta polémicas mesquinhas nem perseguições sectárias e que se concentrará no que tem que fazer: apresentar uma alternativa da esquerda contra Cavaco e contra todas as políticas liberais e de desemprego, como as seguidas pelo governo."

Satisfeita?

Publicado por: LR em outubro 31, 2005 09:34 PM

Sim falam lá muito no nome de Cavaco, mas concretamente sobre Cavaco e contra Cavaco o que é que dizem? E é revelador que a passagem que para aqui trouxe é contra...Jerónimo! Estão mesmo obsecados, não estão, LR?

Como também é revelador que eu ande pelo menos aqui há dois dias a bater nesta tecla e só agora o LR me venha - NÂO com passagens de intervenções públicas do Louçã - mas com o "diário da campanha"... onde há extractos de notícias, fait-divers, peças assinadas pelo Daniel Oliveira, and so on. Mas vou ficar atenta e serei a primeira a pôr aqui qualquer declaração do Louçã sobre o candidato da direita. Que até à data, repito, ainda NÂO o vi a fazer.

PS: Entretanto avise o Nuno Morais que a linha política da candidatura passa por atacar o Cavaco. É que ele não pensa assim.

Publicado por: Margarida em outubro 31, 2005 10:08 PM

Eu sei que "a linha política da candidatura passa por atacar o Cavaco". Nao concordo e' com a linha politica... :)

Publicado por: Nuno Morais em outubro 31, 2005 11:41 PM

Maragarida,

Já chega desta conversa de surdos. Primeiro, você diz que andou a verificar "tanto o site do BE como o blogue do Louçã"; agora uma citação do tal site já não conta. Depois, já lhe tinha dado um excerto de uma dessas declarações que diz que não viu, feitas à TSF.
Se não tem tempo para ler o "Público", não tenho culpa disso. Mas, por uma derradeira vez, dou-lhe aqui um bocado de uma notícia de ontem: “Cavaco Silva, ‘um Cristo que desce à terra’, ironizou, acabou por ser o principal alvo das críticas do candidato presidencial dos bloquistas."
Louçã afirmou que “quer discutir prioritariamente com Cavaco Silva” e ao longo da sessão pública insistiu na ideia de que o candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS-PP refugia-se no silêncio e na ‘estratégia do vazio’.”
“Quando levantamos a capa da banalização, percebemos que Cavaco Silva não conhece os problemas do país, não conhece os problemas do seu tempo. Enganou-se no número de desempregados que existe no país. Quem se engana por 200.000 desempregados não faz ideia do que se está a passar no país.” Mas este é apenas um exemplo que qualquer pessoa sem má vontade ou preconceitos consegue encontrar facilmente. Mas não é o seu caso, pois não?

Já chega, ou só fica contente quando vir o Louçã a repetir os chavões mentecaptos do seu candidato?

Publicado por: LR em novembro 1, 2005 01:10 AM

Desculpe lá Margarida, mas essa do Louçã já parece uma tara. Há alguém neste país, mesmo que só ligue a novelas, que confunda o Louçã com a direita? Nem no vosso partido o conseguem fazer. Deixe-se disso, defenda o seu candidato, mas pelo menos respeite a inteligência das pessoas que a lêem.


Sobre Eleições
Não desdenho mas não perco muito tempo com sondagens, a minha forma de ver a política é a de que se deve dizer aquilo que se entende ser a verdade, independentemente do custo eleitoral. E da aprovação dos “mentideros” da imprensa, já agora.

A política feita de meias tintas e de acordos “contra-natura” onde colocamos alguém do nosso partido e a coisa fica “mais positiva” só confunde, levou a que as pessoas já nem distingam a Esquerda da Direita. Já bastam os arautos do “fim das ideologias” para fazer o número da pirueta de 180 graus em nome da sua “carreira” e os outros, a maioria, a quem nem as justificações políticas preocupam quando pretendem “engrossar a função pública” - do lado mais bem pago.

Sei que é nas eleições que os pequenos partidos podem (por enquanto) ter mais visibilidade, mas não sou tanso o suficiente para acreditar que todos os partidos partem da mesma linha. Basta olhar para os noticiários e verificar que as propostas dos partidos mais pequenos quase não são discutidas, tenham a importância ou o assunto que tiverem. No quadro de uma imprensa-espectáculo tem sempre mais eco uma birra entre caciques do PP que uma proposta do PCP na AR, nem quero falar do BE.
Entretanto, de vez em quando, vão surgindo no ar propostas que pretendem substituir encapotadamente o sistema proporcional por um sistema maioritário distorcido. Em nome da “estabilidade” política, dizem, pretendem consagrar em lei aquilo que a imprensa já faz.

A "vitória antecipada" de Cavaco.

Quem se apresenta perante os eleitores deve-o fazer na base de opções e posições políticas claras, deve assumir sem tibiezas o seu passado e não ter medo de dizer ao que vem. Cavaco não o fez. Cavaco é uma peça de “marketing” cheia de lugares comuns para jornalista papaguear. A campanha é tão forte que consegue mesmo intimidar muita gente de Esquerda que, em pânico, já está de “voto útil” na mão – o mesmo voto que nos colocou nesta posição, repetidamente.

Este Cavaco é um produto acabado de uma campanha preparada com cuidado e com o apoio da imprensa alinhada - que parece decidida a tornar prática a ameaça de “conseguir eleger um presidente da república”.
Pelo caminho descobriram que o “pai da democracia” Soares não serve, leia-se “não é necessário”. O dono da Sonae, Belmiro de Azevedo, justificou na RTP2 a um empregado seu, a mudança de cavalo: “nesse tempo [Soares a presidente] era para conter os bárbaros”.
Montaram o mito do “técnico” do “economista” e do “académico”, lavaram fundo as responsabilidades do primeiro-ministro Cavaco como aquele que mais tempo esteve na governação, com “estabilidade” necessária para cumprir o seu programa. Acabou o seu reinado com a acusação de que “o PSD não governa, governa-se”: milhões da CEE atirados aos subsídios a amigos; dinheiro de formação profissional que serviu para comprar um pacto social com a UGT; muito, muito dinheiro para queimar barcos e derrubar olivais, esbanjados em BMW e casas de campo e praia. Agora o candidato unânime da direita, tem a lata de nos comparar com a Irlanda que “fez uma aposta em tempo na educação e na qualificação”.


Estas eleições têm uma característica particular: todos mas todos os votos contam. E todos os candidatos contam, já agora. Ao contrário dos que prevêem a vitória de Cavaco na primeira volta, estou convencido que a entrada em concorrência de vários candidatos de Esquerda não é drama nenhum, proporciona lugar para votar a mais gente.
Uma vez que não se trata de uma eleição de onde resulte a nomeação de um primeiro-ministro (alguém que explique isto ao pessoal do info-entretenimento!), o debate eleitoral poderá ser mais político e esclarecer o que pretendem as diferentes correntes para Portugal. Pelo que já vi e li, temo que o debate se faça apenas à Esquerda.

Acredito que as eleições se vão decidir numa segunda volta, mas compreendo as preocupações manifestadas neste e noutros blogues: “Há uma imprensa alinhada com Cavaco e o descontentamento com a política do governo”. Que fazer neste caso, passar um pano por cima da actividade do governo, subsidiar acrítica e eleitoralmente o seu candidato mesmo que, aparentemente, ele pretenda demarcar-se de quem o arregimentou?

Para além das campanhas ridículas sobre a idade do candidato, será a identificação do Mário Soares apoiado pelo partido no poder que será a sua fraqueza. A Esquerda que se tem aposto a esta política, o BE e o PCP não poderiam deixar de se apresentar autonomamente sob pena de ficarem reféns da bipolarização logo na primeira volta.
Interessante será ver a campanha de Manuel Alegre, colocado à parte pela direcção do partido. Todavia, apesar do desconforto (ou talvez não, ver-se-à…) criado pela apresentação de dois candidatos do mesmo partido, vista de outra forma a candidatura de Manuel Alegre tem uma vantagem para o PS: mantém debaixo de protecção o seu eleitorado mais à Esquerda salvaguardando-o do discurso do PCP e da investida do BE.

Não tenho dúvidas que a imprensa fará da campanha um conjunto de lugares comuns e de folclore, tirará partido das acusações entre candidatos - a guerra do PCP a Francisco Louça não augura nada de bom, só espero que o candidato do BE não lhes siga as peugadas. Cavaco, por seu turno, será apresentado em “pose de Estado”, acima das querelas, mas terá de responder às perguntas que a imprensa não lhe faz.

Como já vai longo: a vitória antecipada de Cavaco é só na imprensa; acredito que haverá segunda volta, mesmo não ignorando que o mito do D. Sebastião ainda não morreu e que a memória em política é demasiado curta.

Publicado por: CausasPerdidas em novembro 1, 2005 02:02 AM

Epá, mas que bela leitura me foram dar - o blogue da candidatura do Louçã!
Aquilo parece os editoriais do DN no tempo do Fernando Lima. Aliás, quem escreve aquilo está para o Louçã como o Fernando Lima está para o Cavaco.
Repare-se nestas pérolas. O Jerónimo acusa-os de estarem "calados que nem ratos" (uma expressão popular e inofensiva, típica dele, como o célebre "olho no burro e no cigano"). Pois acusam-no de lhes estar a chamar ratos! Será graças à honestidade que demonstram nesta vitimização?
Mas o melhor é quando respondem, no tom moralista do costume, que não alimentam polémicas mesquinhas e nem perseguições sectárias. Para a seguir, a maioria dos textos serem a atacar o governo, o Mário Soares e o Manuel Alegre! Nem a coitada da Joana Amaral Dias - tão amigos que eles eram - escapa.
Que giro que isto vai. Para mim vai passar a ser mesmo leitura diária.

Publicado por: Filipe Moura em novembro 1, 2005 02:06 AM

Ontem por acaso não comprei o Público. Mas então segundo a citação do LR foi ONTEM que o Louçã começou (finalmente, 11 dias depois) o ataque ao Cavaco. Mais vale tarde que nunca, mas como qualquer um constata, mesmo essa ocasião é aproveitada pelo LR para atacar o Jerónimo dentro daquela lógica bushiana que diz que se o meu candidato é inteligente o teu é mentecapto. E depois desta pérola, ainda querem convencer alguém que são "vítimas"...algum mentecapto convencerão, acredito.

Publicado por: Margarida em novembro 1, 2005 09:52 AM

Margarida,

Olhe que até lhe começo a achar alguma piada. Afinal, cada blogue deve ter o seu entertainer de serviço. Este seu número matinal, então, é do melhor!
Agora, quer convencer as pessoas que o facto de eu lhe ter apontado uma notícia de ontem, de um jornal que até tinha à mão, é prova de que esse tal ataque de Louçã a Cavaco só começou ontem!
NÃO, SENHORA; QUER DIZER APENAS QUE ENCONTREI SEM ESFORÇO AQUILO QUE VOCÊ GARANTIA NÃO EXISTIR!
Não ando a fazer o diário da campanha; limitei-me a pegar no "Público" e a encontrar lá o que você não conseguia topar em parte alguma.

E eu não escrevi que o seu candidato é mentecapto - por acaso até nem penso isso - escrevi sim a frase "chavões mentecaptos do seu candidato", coisa perfeitamente justificada face aos exemplos que a Margarida nos tem fornecido! Assim, classifico as palavras que lhe escrevem, não o homem.
Por favor, guarde lá no saco a viola do colectivo em que me quer enfiar; é escusado continuar com essa treta do "vocês" quando fala comigo. Eu não sou militante do BE e o que eu escrevo em nada os compromete nem é sujeito a aprovação prévia por uma qualquer comissão política. Ao contrário de gente que conheço, que só sabe papaguear a linha oficial do seu partido...

Publicado por: LR em novembro 1, 2005 10:33 AM

Mas ontem não disse que tinha ido ao google? E não foi no google que descobriu a tal boca do Louçã de 4 de Setembro?

E já que está a falar de "chavões mentecaptos", é capaz de me apontar, ao menos um, para exemplo?

Agora diz que não é militante do BE mas ainda há uns diazitos dizia que tinha visto o Louçã escrever a declaração de candidatura...em que é que ficamos, não é corregelionário, mas é íntimo, familiar, primo talvez?

E essa piadinha da gente que conhece mas só "sabe papaguear a linha oficial" é para dentro ou para fora do BE? Sim que segundo o que por aqui tem contado, pelos vistos, você não é militante de nenhum partido, mas tem frequentado as catacumbas de uns tantos, não é verdade, assim como que a modos de entrista, LR?

Publicado por: Margarida em novembro 1, 2005 11:32 AM

Hmmm. E que tem isso do google a ver com o que quer que seja? Não sabe que o "Público" até só é acessível a quem o pague?

Não estou "agora" a dizer que não sou militante do BE; sempre o disse. E só na sua cabecita de alfinete é que está escrito que eu vi o Francisco Louçã a escrever seja o que for. Apenas garanti que foi ele quem escreveu a sua declaração.

Quer uma aleivosia mentecapta, além das suas imitações de papagaio? Tome lá esta: "Deviam o PS e o BE pedir desculpa às mulheres portuguesas." Lá vem o PCP a reclamar o exclusivo de uma luta, como se se tratasse de um monopólio.

Não sei bem o que seja um "entrista"; mas não é por certo nada que no seu partido me chamassem quando me pediam ajuda em campanhas eleitorais.

Publicado por: LR em novembro 1, 2005 11:47 AM

Então é isso que anda a remoer, já há 12 dias, desde que o Jerónimo disse no comício em Lisboa: "(...) Somos uma candidatura que afirma os direitos das mulheres, na participação em igualdade, no apoio a uma maternidade e paternidade responsáveis, na criação de condições para eliminar a chaga do aborto clandestino, no combate às discriminações. A propósito, esta embrulhada do referendo do aborto só vem responsabilizar o PS e o BE que assim prejudicaram as mulheres portuguesas. Deviam o PS e o BE pedir desculpa às mulheres portuguesas. (...)"

Já se podia ter explicado. Mas o que é que há de incorrecto nesta afirmação? Não é a pura verdade?

Agora uma coisa lhe peço: chame-me o que quiser, mas poupe-me essa de "papagaio", não vá (nestes tempos de histeria de gripe das aves), chegar aos ouvidos da direcção-geral das inspecções sanitárias e porem-me de quarentena. É que eu prezo muito a minha liberdadezinha...

Publicado por: Margarida em novembro 1, 2005 12:41 PM

Pareece-me bem que preze a sua liberdade. Devia era dar-lhe uso mais vezes. Ia ver que acabava por gostar.

Publicado por: LR em novembro 1, 2005 05:21 PM

O PCP sempre - desde 1984, que foi quando apresentou o 1º projecto lei sobre a IVG - defendeu que o Parlamento é a sede para regular esta questão.

Quando o Guterres e Marcelo anunciaram o acordo para o referendo, DEPOIS do Parlamento ter aprovado a lei (que assim ficou em stand-by), o PCP denunciou esse acordo como desrespeitador do Parlamento. Fez-se esse primeiro referendo que foi inválido porque só teve 30% de participação e o PCP continuou a defender que o assunto regressasse ao Parlamento, que é a sede legítima.

Na campanha eleitoral de 2002 o BE, tal como o PCP, defendeu que a sede para discussão era o Parlamento. Só DEPOIS das eleições é que o BE ressuscitou a ideia de novo referendo e arrastou o PS para a petição a exigi-lo. O PCP esteve contra e alertou que o BE andava a criar ilusões porque o referendo não depende nem duma petição nem do Parlamento mas do PR que é quem o convoca.

Na campanha eleitoral de 2005 o BE teve o mesmo comportamento - defendeu que bastava o Parlamento para resolver a questão, mas logo após as eleições, na noite de 20 de Fevereiro o Louçã veio com a exigência do referendo ao Sócrates.

O que o PCP disse aconteceu: nem com a petição antes, nem com a proposta aprovada no Parlamento pelo BE e PS vai acontecer para já o referendo. Ora havendo a maioria de esquerda que há, se se tivesse pura e simplesmente tratado a questão no Parlamento, já estava resolvida!

Antes, o BE dizia que queria o referendo por uma questão de princípio: agora não querem alegando ser um "caso de urgência social"! De repente o princípio pode ir pelo cano abaixo.

Nesta triste história o PCP foi o único que coerentemente sempre defendeu a despenalização da IVG e o único que não instrumentalizou um drama que afecta tantas famílias. Razão tem o Jerónimo de Sousa quando acha que PS e BE devem desculpas às mulheres pela trapalhada em que se meteram e por não quererem o assunto resolvido com urgência. É que já andamos nestas trapalhadas há mais de 20 anos e quem tem empatado têm sido PP e PSD com a ajuda do PS de Guterres e de Sócrates e do BE.
João

Publicado por: João em novembro 1, 2005 05:40 PM


Dona Margarida,

Não é que não sejas boa rapariga. És, e devem ter-te deitado a luva muito nova, provavelmente quando repararam nas cócegas irreprimíveis de que eras acometida nos palcos juvenis da demagogia operática. Mas tens pontos fracos evidentes que precisam pelo menos duma afinação. A parte que convence menos do teu discurso, por exemplo, é sem dúvida nenhuma a monotonia que te impede de inchares a veia do pescoço com naturalidade, como acontece com pregoeiros sinceros. Mais por essa razão que por qualquer outra, vês-te à brocha para endireitares a espinha da moral ao teu partido, acabas por não impressionar nem manéis nem marias pobres e ainda por cima causas enjoo em vez de alarme a clérigos indiferentes, mesmo aos que piamente como nós passamos os dias a ouvir salmos e músicas sacras. Deu-te para isso, o que é que havemos de fazer. Mas faz um esforçozinho, caraças. Quando a malta gosta mais de ti é quando és teimosa menos de dez vezes sobre um tema qualquer e deixas girar a maquinaria nos eixos. Devias saber isso. Não rebentes com a paciência ao Luis Rainha. Olha, vai dar uma voltinha pelos números velhos do Portugal Socialista e do Avante! para ver se encontras a tal informação que o Bénard de Tours te andava a pedir. Vá, faz esse jeito à mala desinformada.

Publicado por: Bomba em novembro 1, 2005 08:09 PM

Margarida, se a memória não me engana, a primeira vez que foi apresentado um projecto sobre o aborto na assembleia da república foi pelo (único) deputado da UDP, Mário Tomé.

Outra lembrança: quando uma mulher, Conceição Massano, foi julgada no tribumal da Boa-hora (deu pancadaria forte com a polícia à porta) era o PSR (extra-parlamentar) que estava na rua.
Ainda me lembro da direcção do PCP desdenhar do PSR como o "partido do aborto".
Eu sei que então havia "questões mais importantes" e que agitar as águas onde se movia o poder da igreja era "irresponsabilidade" e "fazer o jogo da direita".

Sabe que todos os partidos de esquerda defenderam a aprovação da lei do aborto na AR, sabe também que foi Guterres que a atirou para referendo contra a posição da esquerda e parte do PS.
Sabe que, apesar do resultado não ser vinculativo, foi feito um referendo e que a direita tem se agarrado ao argumento "democrático" (como se agarrará a outros quaisquer, concordo); sabe que o PS ganhou a maioria absoluta defendendo um referendo sobre o aborto; sabe que o BE exigiu nos primeiros dias da assembleia que o referendo avançasse; sabe que o PS cometeu um monte de trapalhadas e o P.R. não quis queimar as mãos; sabe que perante a decisão do tribunal constitucional o BE propôs que a A.R. tomasse a decisão.

Não acha algo exagerado confundir as posições que o PS tomou e toma com as que o BE tomou? Ainda por cima vindo do partido que o acusou de só falar dessas questões?

Se quer falar de "direitos de autor" sobre a questão do aborto concedo-lha desde já: Álvaro Cunhal fez a sua tese de doutoramento sobre a questão do aborto. Já agora, sabe que Cunhal defendia nessa tese que as operárias faziam aborto por necessidade e as burguesas por capricho?

Você sabe que em muitos anos de democracia o PCP não entendia essa questão como essencial (justiça seja feita, não foi só o PCP). Não venha com sermões.

Publicado por: CausasPerdidas em novembro 2, 2005 01:50 AM

Causas Perdidas: aproveitando a hora do almoço, fiz uma rápida busca no google e aqui lhe coloco três peças para esclarecimento destas questões de aborto e referendo:
A 1ª é da APF (Associação para o Planeamento da Família), a 2ª é um artigo de Catarina Pereira da JCP que tem uma cronologia interessante e a 3ª é o Projecto Lei sobre IVG apresentado pelo PCP em Março deste ano.

Se há noite tiver tempo, e se você entretanto tiver mais dúvidas, desenvolverei mais. Mas o que estas 3 peças de facto demonstram é que a iniciativa poítica e a luta nesta questão tem sido encabeçada pelo PCP, independentemente do facto de a ela se terem juntado outras forças políticas. Aliás sem os votos do PCP e do PS (e de alguns deputados do PSD) não se teria sequer aprovado a
lei que o acordo Guterres/Marcelo pôs em stand-by).

Sobre a tese que fala do meu camarada Cunhal vou-me informar e depois respondo-lhe: não gosto de mandar bitaites sobre o que desconheço.

1 - ASSOCIAÇÃO PARA O PLANEAMENTO DA FAMÍLIA
CRONOLOGIA DO PLANEAMENTO FAMILIAR EM PORTUGAL 1981-1983

1981
CNAC lança um abaixo-assinado em que 3.000 mulheres declaram ter abortado.
Parecer da Procuradoria-Geral da República, recomendando o não acesso de menores de 18 anos a consultas de planeamento familiar, sem autorização expressa dos pais.
Aplicação deste parecer nos Centros de Saúde, através da Circular Normativa da Direcção-Geral de Saúde.
Em Lisboa, a APF promove três colóquios sobre "A Importância da Sexualidade na Educação".
Continuação do trabalhos junto da comunidade em Coimbra, Lisboa e Porto.
A Delegação Regional de Coimbra inicia uma experiência de atendimento de jovens na A.A.C. e na sua sede.
Em resposta ao Parecer da Procuradoria-Geral da República, a Delegação Regional de Lisboa promove um Colóquio sobre "O Direito dos Jovens à Contracepção".

1982
O PCP entrega na Assembleia da República três projectos-lei relativos à Protecção à Maternidade, Planeamento Familiar e Legalização do Aborto.
Manifestação a favor da Legalização do Aborto.
A Assembleia da República recusa o Projecto-Lei sobre a Legalização do Aborto, por 127 votos contra 105.
(…)
1983
(…)
Várias organizações de mulheres promovem nova campanha a favor da legalização do aborto.
Discussão e aprovação no Parlamento dos três projectos-lei sobre "Protecção da Maternidade", "Educação Sexual e Planeamento Familiar" e "Interrupção Voluntária da Gravidez".
(…)

2 - Aborto: a resposta necessária

Numa altura em que se ouve, uma vez mais, falar em julgamentos de mulheres (desta feita em Setúbal) por prática de aborto clandestino, a JCP sublinha que urge em Portugal, não se perder mais tempo em se fazer aprovar uma lei na Assembleia da República (AR) que despenalize a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), depois do que, chocantemente, se perdeu quando em:
- 1982, a maioria parlamentar de direita rejeitou o primeiro projecto de lei apresentado pelo PCP;
- 1984, existindo na AR uma folgada maioria de deputados comunistas e socialistas, um projecto de lei do PCP, foi reprovado graças aos votos contra e abstenções de deputados do PS;
- 1997, existindo igualmente uma maioria de deputados comunistas e socialistas, um novo projecto de lei foi derrotado por um voto;
- 1998, a aprovação de um projecto de lei de despenalização foi sabotada por um acordo entre PS e PSD para a convocação de um referendo, que se concluiu com uma vitória tangencial do não, mas que, não tendo tido carácter vinculativo, devolveu à AR a sua inteira liberdade de decisão;
- 2004 um projecto-lei do PCP foi de novo chumbado pela maioria do governo PSD/CDS-PP.
A actual penalização da prática do aborto é ineficaz enquanto instrumento de dissuasão para milhares de mulheres que, por razões que só a elas dizem respeito, tomam a decisão de o realizar.
É uma lei que atenta contra a dignidade de todas as mulheres que têm de recorrer à IVG, mesmo das que têm condições económicas de a realizar em Portugal, ou no estrangeiro, com melhores garantias para a sua saúde. Contudo são as mulheres das camadas mais desfavorecidas social e economicamente que têm de percorrer os atalhos do comércio clandestino, que se desenvolve em condições sanitárias precárias, colocando-as numa situação de risco e até de morte.
O aborto clandestino é um problema de saúde pública, assim, há números que não se podem esquecer:
- O aborto clandestino representa a 2ª. causa de morte materna e a 1ª. entre as mães adolescentes;
- Estima-se que sejam realizados entre 20 a 40 mil abortos clandestinos por ano em Portugal;
- Morrem, em Portugal, 15 mulheres por ano devido às suas consequências;
- Estima-se que 5 em cada 100 raparigas até aos 19 anos terão abortado uma vez.
A JCP considera que agora que temos na AR uma maioria, dita de “esquerda”, haveriam condições para resolver este flagelo social. Mas a realidade é que não as há de facto, porque o PS e o BE recusam assumir a decisão política de mudar a lei do aborto na Assembleia da República, optando pelo Referendo e demitindo-se das responsabilidades para que foram eleitos, leia-se, a responsabilidade de legislar sobre um grave problema de saúde pública, cedendo assim à minoria de partidos de direita e aos interesses de direita que, paradigmaticamente, ficam em maioria na AR com este tipo de posições retrógradas e populistas.
Catarina Pereira
Membro da Comissão Política da DN da JCP

3 - Projecto de Lei nº /X
Interrupção Voluntária da Gravidez
I – Introdução
Desde 1982 que o PCP tem vindo a lutar, na Assembleia da República e fora dela, pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez e pelo consequente fim do grave problema de saúde pública que constitui o aborto clandestino.
A Assembleia da República chegou em 1998 a aprovar na generalidade um projecto de lei de despenalização, cujo processo legislativo viria a ser interrompido pela convocação de um referendo sobre a matéria, acordado da noite para o dia entre os líderes de então do PS e do PSD.
Por isso rejeitamos a ideia de que por “escrúpulo democrático” seria necessária a realização de um novo referendo antes de qualquer alteração da lei penal nesta matéria. Escrúpulo democrático foi na verdade o que faltou quando, após a referida aprovação na generalidade de uma iniciativa de despenalização, dois partidos – PS e PSD – acordaram a realização de um referendo enxertado num processo legislativo em curso, em total desrespeito pelo papel da Assembleia da República no exercício do poder legislativo.
O referendo de 1998, nunca sequer teve valor vinculativo, visto que votaram apenas 31,9% dos eleitores. Mesmo que tivesse tido mais de 50% de votantes o seu efeito vinculativo já teria há muito terminado, tendo em conta que passaram quase oito anos desde a sua realização e que estamos a entrar na terceira legislatura posterior àquela em que a consulta popular se efectuou. Não obstante o referendo de 1998 tem sido sucessivamente invocado para tentar negar a plena legitimidade jurídica e também política da Assembleia da República para legislar sobre a matéria.
Em Março de 2004 a Assembleia da República, em debate agendado pelo PCP, discutiu mais uma vez esta questão. Nesse debate, em que se votaram em primeiro lugar iniciativas de despenalização e depois iniciativas de convocação de referendo, ficou aliás expressa uma ampla convergência dos partidos então na oposição sobre esta matéria. O debate e a votação foi essencial para desmascarar a hipocrisia dos partidos da direita, com o PSD preso de um acordo pós-eleitoral com o CDS-PP em que se garantia a não aprovação de qualquer iniciativa, mas também para confirmar a total legitimidade da Assembleia da República para proceder à alteração legislativa em causa.
Despenalizar a Interrupção Voluntária da Gravidez na Assembleia da República sem referendo prévio, não significa pois fugir à consulta popular, especialmente num momento em que a ampla maioria parlamentar de forças que afirmam defender a alteração da lei penal, lhe atribui particular legitimidade nesta matéria.
Despenalizar a Interrupção Voluntária da Gravidez é a única forma de pôr fim às sucessivas investigações, devassas, humilhações, julgamentos e condenações de mulheres que nos últimos anos se repetiram em vários processos judiciais em Portugal.
Despenalizar a Interrupção Voluntária da Gravidez é a única forma de combater o flagelo do aborto clandestino, atingindo mulheres portuguesas, sendo um grave problema de saúde pública.
Despenalizar a interrupção Voluntária da Gravidez significa alterar uma legislação penal que não tem eficácia no combate ao aborto. Apenas o torna clandestino, desprotegido e perigoso para a saúde física e psíquica e por vezes para a própria vida das mulheres.
Quando em 1982, o PCP tomou a iniciativa do primeiro debate sobre o aborto estimavam-se em 100 mil aborto clandestinos por ano. Actualmente esse número situa-se, entre os 20 a 40 mil abortos. Estes números evidenciam que as mulheres nos últimos 30 anos tem vindo a utilizar formas seguras para prevenir gravidezes indesejadas. Estas novas possibilidades foram abertas com o 25 de Abril e com a institucionalização das consultas de planeamento familiar a partir dos centros de saúde, informação e acesso à contracepção, utilizando crescentemente formas seguras de planeamento familiar e de garantir uma vivência sexual saudável.
A consolidação de um caminho que generalize a educação sexual nas escolas, que amplie as consultas de planeamento familiar e a acessibilidade à contracepção é uma aposta decisiva e indispensável, sendo necessário dar uma especial atenção às camadas mais jovens.
Mas, os números continuam a demonstrar que não existem métodos de controle da fertilidade 100% seguros, podendo ocorrer falhas e gravidezes não desejadas. E em muitas destas situações as mulheres decidem recorrer ao aborto em Portugal ou no estrangeiro. E muitas continuam a chegar aos hospitais com sequelas de aborto clandestino.
Assumimos sem hesitação nem ambiguidade a defesa da despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez até às 12 semanas e não qualquer outra solução que assente na ideia da culpabilização das mulheres pelo recurso ao aborto, mesmo que com penalização mitigada.
Em trinta anos de democracia, várias oportunidades foram perdidas no encarar desta dura realidade. Portugal não pode continuar a situar-se entre os países que negam à mulher a liberdade de decidir em matéria de direitos sexuais e reprodutivos, componente fundamental do direito à igualdade
O PCP bate-se pela alteração de uma legislação que maltrata as mulheres que recorrem ao aborto, tratando-as como criminosas e pela aprovação de uma lei penal tolerante, que respeite a capacidade de decisão das mulheres e que se integre na defesa dos seus direitos sexuais e reprodutivos.
A despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez não pode esperar e é agora possível. E sobretudo é agora possível.

II – Síntese do Projecto de Lei
O projecto de lei que apresentamos corresponde no essencial aos Projectos apresentados na anterior legislatura.
Propomos:
- A exclusão da ilicitude da interrupção voluntária da gravidez quando realizada nas primeiras 12 semanas a pedido da mulher para garantir o direito à maternidade consciente e responsável.
- Nos casos de mãe toxicodependente o alargamento do período atrás referido para as 16 semanas;
- A especificação de que, havendo risco de o nascituro vir a ser afectado pelo síndroma de imunodeficiência adquirida, o aborto (eugénico) poderá ser feito até às 24 semanas (situação que já está compreendida na actual lei, mas que convirá explicitar dadas algumas resistências ainda existentes relativamente à aplicação da lei);
- O alargamento de 12 para 16 semanas do prazo dentro do qual a Interrupção Voluntária da Gravidez pode ser praticada sem punição, nos casos em que a mesma se mostre indicada para evitar perigo de morte ou de grave lesão para o corpo ou saúde física ou psíquica da mulher grávida. Na verdade, a vida demonstrou, nomeadamente nas doentes submetidas a tratamentos antidepressivos, a necessidade de alargamento do prazo;
- O alargamento para 24 semanas no caso de vítimas de crimes contra a liberdade e a autodeterminação sexual quando menores de 16 anos ou incapazes por anomalia psíquica;
- A obrigação de organização dos serviços hospitalares, nomeadamente dos distritais, por forma a que respondam às solicitações de prática da Interrupção Voluntária da Gravidez;
- A impossibilidade de obstruir o recurso à Interrupção Voluntária da Gravidez através da previsão da obrigação de encaminhar a mulher grávida para outro médico não objector de consciência ou para outro estabelecimento hospitalar que disponha das condições necessárias à prática da Interrupção Voluntária da Gravidez;
- A despenalização da conduta da mulher que consinta na Interrupção Voluntária da Gravidez fora dos prazos e das condições estabelecidas na lei;
- Garantia de acesso a consultas de planeamento familiar.
Com o presente projecto de lei pretende o PCP que se institua um regime legal mais adequado do que o vigente, nomeadamente tendo em atenção os conhecimentos da medicina, o qual tem de ser acompanhado por políticas que garantam a realização pessoal dos cidadãos e que protejam a maternidade e a paternidade.
Assim, os Deputados abaixo assinados do Grupo Parlamentar do PCP apresentam o seguinte Projecto de Lei:
Artigo 1.º
(Interrupção da gravidez não punível)
O artigo 142.º do Código Penal passa a ter a seguinte redacção:
1 - Não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico, ou sob a sua direcção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido, quando realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez a pedido da mulher para preservação do direito à maternidade consciente e responsável.
2 - De igual modo, não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico ou sob a sua direcção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido, com o consentimento da mulher quando, segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina:
a) (actual alínea a) do n.º 1 do artigo 142.º);
b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física e psíquica da mulher e for realizada nas primeiras 16 semanas de gravidez;
c) (actual alínea c) do n.º 1 do artigo 142.º, com a redacção que lhe foi dada pela Lei n.º 90/97, de 30 de Julho);
d) Houver seguros motivos que indiciem risco de que o nascituro venha a sofrer, de forma incurável, de HIV (síndroma de imunodeficiência adquirida) e for realizada nas primeiras 24 semanas de gravidez, comprovadas nos termos referidos na alínea anterior;
e) (actual alínea d) do n.º 1 do artigo 142.º, com a redacção que lhe foi dada pela Lei n.º 90/97, de 30 de Julho);
f) Nos casos referidos na alínea anterior, sendo a vítima menor de 16 anos ou incapaz por anomalia psíquica se a interrupção da gravidez for realizada nas primeiras 24 semanas comprovadas nos termos referidos na alínea c).
3 - Sempre que se trate de grávida toxicodependente não é punível a interrupção da gravidez efectuada a seu pedido nas condições referidas no n.º 1 durante as primeiras 16 semanas de gravidez.
4 - A verificação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez, referidas no nº 2, é certificada em atestado de médico, escrito e assinado antes da intervenção, por médico diferente daquele por quem, ou sob cuja direcção, a interrupção é realizada.
5 - Actual n.º 3.
–-Actual n.º 4.
Artigo 2.º
(Despenalização da conduta da mulher grávida)
O artigo 140.º do Código Penal passa a ter a seguinte redacção:
Artigo 140.º
(Interrupção da gravidez)
1 - Actual n.º 1.
2 - Actual n.º 2.
3 - Eliminado.

Artigo 3.º
(Garantias de prática da Interrupção Voluntária da Gravidez
nos termos da presente lei)
1 - Os estabelecimentos públicos de saúde, nomeadamente a nível distrital, serão organizados por forma a dispor dos serviços necessários à prática da interrupção voluntária da gravidez, de acordo com o previsto na presente lei, sem prejuízo do direito à objecção de consciência dos médicos e demais profissionais de saúde.
2 - A objecção de consciência deverá ser declarada na altura em que for solicitada a interrupção da gravidez, e terá de constar de documento então assinado pelo objector, sendo tal objecção imediatamente comunicada à mulher ou a quem, no seu lugar, pode prestar o consentimento.
3 - A comunicação referida no número anterior deve ser acompanhada de informação sobre o profissional que não seja objector de consciência.
4 - Sempre que um estabelecimento público de saúde não disponha de condições para a prática de interrupção voluntária da gravidez, as solicitações de intervenção ali apresentadas serão imediatamente encaminhadas por aquele serviço ao estabelecimento de saúde mais próximo onde seja praticada a interrupção voluntária da gravidez, por forma a que esta seja efectuada nas condições e prazos previstos na presente lei.
Artigo 4.º
(Planeamento familiar)
A instituição onde se tiver efectuado a interrupção voluntária da gravidez providenciará para que a mulher, no prazo máximo de sete dias, tenha acesso a consulta de planeamento familiar.

Artigo 5.º
(Entrada em vigor)
A presente lei entra em vigor no dia imediato ao da sua publicação.
Assembleia da República, 16 de Março de 2005

Publicado por: Margarida em novembro 2, 2005 01:09 PM

Consegui emprestado o livro com a tese que menciona de Álvaro Cunhal, tive a pachorra de o ler e de dactilografar o sub-capítulo a que se refere e se tiver a atenção de ler tudo verá que a palavra “capricho” nem é sequer usada.

Já agora, caso descubra a data em que o Mário Tomé apresentou o projecto na Assembleia, agradecia-lhe que me informasse. E já que está na própria introdução do Projecto de Lei do PCP apresentado em Março, a referência ao projecto do PCP de 1982, certamente que os deputados do BE "corrigirão" se entenderem que não está correcto. A propósito este Projecto-Lei do PCP está on-line no site do Parlamento.
Mas aqui vai o sub-capítulo em questão:

“(…) Causas económicas sociais e morais do aborto

Vistas tais consequências do aborto, salta a questão de saber que causas imperiosas levam as mulheres a enfrentar a morte, a esterilidade, as doenças e ainda a repressão legal para evitar ter filhos. Ou seja: a questão de saber que causas determinam o aumento constante do número de abortos, apesar dos estragos que eles fazem.

Parece contraditório. Cada vez se conhecem melhor e são divulgados os estragos do aborto. E cada vez é maior o seu número (…).

Muitos escritores procuram fazer crer que as causas fundamentais são “uma causa moral”, “uma causa de costumes”, “a degenerescência moral das camadas inferiores da população” e ainda “a propaganda anticoncepcional”.

Tais razões apresentadas são apenas uma capa que esconde as verdadeiras e profundas razões que conduzem as mulheres ao aborto. É demasiado evidente serem as causas que levam as mulheres a arrostar todos os perigos provenientes da prática do aborto mais prementes do que tais riscos. Quais são, pois, essas causas? Cabe aqui distinguir o aborto praticado por mulheres das classes trabalhadoras e o aborto praticado por mulheres das classes economicamente desafogadas.

Quanto ao primeiro.
Por que considera a mulher trabalhadora o nascimento de um filho como um mal maior do que todos os perigos que vai correr com a prática do aborto clandestino? Há que ter em conta, em primeiro lugar, a angustiosa situação económica das classes trabalhadoras . Baixos salários impostos pelo sistema económico capitalista, pelo objectivo do lucro e pela tendência para o salário se tornar inferior ao valor da força de trabalho. Desemprego massivo uma vez que o desenvolvimento da economia capitalista determina o aumento do exército de reserva, o que agrava, por sua vez, a situação dos trabalhadores empregados, pois permite o abaixamento dos salários, o prolongamento da jornada de trabalho, maiores exigências ao trabalhador, etc. Miséria que alastra. Nestas condições, um filho para a família de trabalhadores representa mais uma boca para comer, representa um aumento de despesas incomportável para o orçamento familiar, representa ainda o afastamento temporário da mãe do seu trabalho e, portanto, uma grave diminuição das receitas familiares. A mulher trabalhadora não pode ter “nurses” para lhe cuidarem dos filhos e, por isso, estes se tornam obstáculos sérios ao desempenho da sua actividade remunerada, absolutamente necessária à vida económica da família. A miséria é a primeira grande causa do aborto nas classes trabalhadoras.

Há que considerar, em segundo lugar, o conjunto de uma série de causas sociais e de natureza médica. O agravamento da intensidade de trabalho que acompanha o desenvolvimento técnico e o aproveitamento da mão-de-obra feminina em violentos trabalhos, isto a par de uma subalimentação crónica e da falta de férias de gestação, colocam a mulher trabalhadora numa situação quase incompatível com a concepção de um novo ser. O organismo da mulher grávida, necessitado de repouso e de uma alimentação especial, continua a depauperar-se com um trabalho brutal e parca alimentação. O novo ser, em desenvolvimento no ventre da mulher, necessita de fósforo, de ferro, de cálcio, de hidratos d carbono. Se um repouso e uma alimentação cuidada não atendem as exigências do novo organismo, a mãe aguenta só à sua custa as despesas e daí “resultará um défice no seu organismo”. A gravidez representa para a mulher trabalhadora uma doença e o rápido envelhecimento. Desta forma, o impedimento de uma maternidade saudável empurra a mulher trabalhadora para o aborto.

Há que considerar, em terceiro lugar, a perspectiva que se abre ante os filhos.

Os filhos das mulheres trabalhadoras estão condenados a uma vida de restrições, de miséria, de falta de instrução. Como podem assimelas ansiar a vinda ao mundo do produto do seu ventre, como podem desejar que a carne da sua carne venha para o sofrimento e para a dor? Além disso, outras nuvens negras se levantam: o número elevadíssimo de nados-mortos nas classes laboriosas e a mortalidade infantil.

As mulheres trabalhadoras que venceram todos os obstáculos, todas as dificuldades, e lançaram ao mundo novas vidas vêem que a maioria dos seus filhos é ceifada em idades tenras, quer porque trazem já dos seus ventres os estigmas de uma morte próxima, quer porque lhes faltam, nos primeiros tempos, os seios das mães, as roupas, a higiene, a vigilância e os cuidados necessários. Nestas condições, como podem desejar ser mães as mulheres trabalhadoras? Como estranhar que recorram ao aborto?

Há ainda que considerar múltiplas causas. A crise da habitação, uma vez que o amontoamento e a promiscuidade nas acanhadas habitações operárias são condições muitíssimo desfavoráveis à maternidade e à vida das crianças. O direito à cultura da mulher trabalhadora, uma vez que, não havendo nenhuma protecção do Estado à educação e sustento das crianças, o filho é para a mulher trabalhadora um obstáculo ao seu desenvolvimento cultural. A crise da agricultura, uma vez que, nos campos, o aborto é agravado pelo desconhecimento da higiene e de preceitos de carácter médico e sexual. A injustiça social para com as mães solteiras, em virtude da moral dominante, que é incapaz de compreender o amor desinteressado. A impunidade dos abusos da burguesia, condenando a mãe solteira à “desonra” e aos maiores vexames, de que é exemplo corrente o de criadas que engravidam muitas vezes por relações que, coagidas, tiveram com os patrões e são despedidas implacavelmente como pessoas indignas. A existência de dezenas de milhares de prostitutas condenadas a nunca terem um lar e cujos filhos eventuais não terão um pai. A falta de propaganda de práticas anticoncepcionais, que, ao contrário do que afirmam especialistas, longe de serem um incentivo ao aborto, constituem um processo eficaz de luta contra ele. E ainda causas excepcionais, como violações, nomeadamente durante as guerras em territórios invadidos.

Quanto ao aborto praticado por mulheres de classes ricas: estas mulheres não conhecem a miséria, nem a subalimentação, nem a violência do trabalho, nem a crise da habitação. Podem cercar-se de todos os cuidados favoráveis a uma concepção saudável e a um parto feliz. A mortalidade infantil é diminuta. Ante os seus filhos, abre-se a perspectiva de uma vida desafogada e de conforto. E, entretanto, as mulheres burguesas recorrem igualmente ao aborto.

Em virtude das facilidades e da segurança com que praticam o aborto e em virtude do uso de práticas anticoncepcionais, em geral nas classes burguesas há uma limitação normal do número de filhos. Não vendo as verdadeiras causas deste facto (ou fingindo não vê-las), muitos escritores concluem que “uma certa falta de conforto, uma certa pobreza, constituem condições favoráveis para uma forte natalidade”. Tais são, por exemplo, as absurdas palavras do prof. Costa Sacadura no seu livro atrás citado.

As causas que, com frequência, as conduzem a isso são diferentes das que coagem as mulheres trabalhadoras. Não querem sacrificar os seus prazeres mundanos à maternidade. A necessidade de esconder o fruto de amores de jovens solteiras ou extraconjugais. Não queres o capitalista que, após a sua morte, os seus bens se desmembrem, divididos por um sem-número de herdeiros, sendo esclarecedor que, segundo um inquérito do dr. Lutaud, entre 1800 famílias ricas de Paris, contavam-se apenas 1 ou 2 filhos por família. Assim, com o desaparecimento do sistema de morgadios, o princípio da propriedade privada determina a limitação dos nascimentos nas famílias ricas…

O aborto nas classes ricas é, assim, em regra, um “aborto de luxo”, ao contrário do aborto nas classes pobres, que é um “aborto de necessidade”. (…)”

(páginas 75 a 80, do livro de Álvaro Cunhal “O aborto causas e soluções” – Tese apresentada em 1940 para exame no 5º Ano Jurídico da Faculdade de Direito de Lisboa, Campo das Letras – Editores, S.A.- Porto, 1997)

Publicado por: Margarida em novembro 2, 2005 11:46 PM

Margarida:
Tem razão, não fui exacto na forma como descrevi a posição de Cunhal sobre o aborto entre as diferentes classes sociais - é o que dá escrever de memória. De qualquer forma, não pretendi fazer nenhuma acusação com a leitura que fiz e mantenho do texto que teve a preocupação de aqui colocar, até porque a posição de A.Cunhal era (ainda é)partilhada por muitas organizações de esquerda, a meu ver erradamente.
"Erradamente" porque apesar de reconhecer como óbvio que as mulheres da classe social burguesa têm mais possibilidades de ter acesso à prática do aborto em condições de salubridade e segurança, não considero correcto ver nessa prática apenas um capricho - a palavra é minha e o sentido é de acordo com a minha interpretação do texto de Cunhal.

A questão do Género teve sempre uma importância que a Esquerda nem sempre considerou decisiva para a emancipação geral da sociedade das grilhetas do capitalismo, ao ponto de muitos partidos de esquerda, de diversas matizes, resolverem a questão colocando o epíteto de "pequeno-burguês" ao movimento feminista.
Não escondo que a origem social do movimento feminista andaria por aí - aliás, como muitos movimentos operários, convenhamos. Todavia, esse movimento colocou na agenda da Esquerda a necessidade de integrar as reivindicações ligadas ao Género no movimento operário, o movimento que segundo a lógica marxista deve ser o movimento de todas as revoltas, sendo que muitas delas não se fundam exclusivamente em questões económicas.

As mulheres de origem burguesa não deixam de ser mulheres e de, por isso mesmo, se defrontarem com as discriminações que atingem todas as mulheres.

A condição de Mulher coloca a mulher burguesa a outro nível, ao nível da mulher trabalhadora: os preconceitos da sociedade patriarcal e dos dogmas religiosos são transversais à sociedade.
Assim, a luta pelo direito ao próprio corpo preconizado pelas feministas "pequeno-burguesas" acaba por ter um conteúdo revolucionário que não se esgota apenas na questão de classe - demasiado simplista para falar da velha divisão que antecedeu a própria sociedade de classes.

Até Engels: "A Origem da família, da Propriedade Privada e do Estado"...

É defendendo a Mulher como Mulher que o partido operário faz chegar a sua mensagem de igualdade a todo o lado, abanando um dos pilares da sociedade capitalista: o patriarcado. O patriarcado que domina tanto nas altas esferas como nas famílias operárias.

A outra questão, a da autoria das leis do aborto.
Salvaguardando que coloco este texto não por solidariedade política absoluta mas apenas porque ele está de acordo com a memória que eu tenho do assunto:

" [...] Também por isso, é oportuno desfazer um mito: não foi Zita Seabra que apresentou o primeiro projecto de despenalização do aborto, em 1982, mas sim o deputado da UDP, Mário Tomé, em 1980, no seguimento do julgamento de Conceição Massano – o primeiro, após o 25 de Abril, desta longa série de julgamentos a que é urgente pôr cobro. [...]

Texto integral de Alberto Matos aqui:
http://www.udp.pt/textos/feminismos/abortotrincheira.htm

A CNAC... a coragem que aquelas mulheres tiveram!
(uma das vezes que a esquerda esteve unida pelas razões certas)

Publicado por: CausasPerdidas em novembro 3, 2005 02:13 AM