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outubro 26, 2005

CONFORMEM-SE LÁ COM A VIDA COMO ELA É, SE FAZEM FAVOR

As grande empresas em que o estado português ainda vai conseguindo mandar parecem ter um papel muito importante, embora oculto, a desempenhar. Não falo do seu providencial estatuto de cash cows, nem do cómodo que é ter sempre à mão armazéns onde depositar adereços políticos embaraçosos e fora de moda.
Há mais. A colossos como a Galp ou o grupo PT parece ter cabido em sorte o relevante estatuto de reguladores do estado de espírito do povão.
Primeiro, a Galp aproveitou o europeu de futebol para galvanizar o combalido amor-próprio da alma lusa, com o horrendo hino do "Menos ais, menos ais, menos ais!", aposto a spots carregados de majorettes emplumadas, entusiasmo a rodos e sorrisos vitoriosos. "No fim, só ganha um… e temos que ser nós" urrava-se então. No fim, foi o que se viu.
Agora, passada que está a ressaca do europeu, toca à TMN a vez de usar os blocos publicitários à laia de Prozac colectivo. Ao que parece, já se desistiu de animar a malta. Os objectivos presentes são bem mais modestos: tentar reconciliar-nos com a vida cinzenta, medíocre, apagada, fruste, amarfanhada e mansa a que nos dizem condenados. Assim, a nova campanha da TMN não almeja pôr-nos aos pulos rumo à vitória; contenta-se em afirmar que "gostamos da vida como ela é". Com "pneus", fotos desfocadas, gente triste, diarreias (é um clássico automático aquele belo MUPI com alguém de calças em baixo devido à "comida indiana"...) e toda uma catrefa de temas deprimentes.
Se calhar, é pelo melhor; quem nutre expectativas rasteiras tem menos hipóteses de contrair neuroses quando der de caras com a realidade.

PS: saindo da psicanálise caseira para a publicidade propriamente dita, gostaria de saber uma coisa: para que servirá a TMN, se tudo já se toma por perfeito assim como está? O que nos oferece ou promete este posicionamento, afinal? Alguém precisa de uma marca que já nem deseja melhorar a vida de ninguém?

Publicado por Luis Rainha às outubro 26, 2005 01:18 PM

Comentários

Quem tudo relativizava uns tantos posts atrás, quem depois advogava um imposto sobre a tontice, está agora a mandar vir contra a publicidade tipo now da tmn? São só contradições ou é apenas um acesso passageiro de mau humor?

Publicado por: Margarida em outubro 26, 2005 01:09 PM

Isto de mandar bitaites sem consultar primeiro a Soeiro tem os seus riscos: a campanha "Now" é da Vodafone.
E o facto de não confiar nem um pouco em Soares nada tem que ver com relativismos; a não ser que consideres relativista tudo o que sai da alçada das orientações partidárias.

Publicado por: LR em outubro 26, 2005 01:15 PM

Portantos, vamos lá a ver se entendi bem: não são aceitáveis campanhas publicitárias que (nos) elevem a moral, mas também se devem desprezar aquelas que (nos) puxam para a(s)(nossas) realidade(s). É isto, não é? Por mim, está decidido, a partir de agora só ligo às imaginativas campanhas dos detergentes (lixívias, perferencialmente). Ah, e às dos partidos políticos, já me esquecia! essas sim, verdadeiramente reais, e nada repetitivas.

Publicado por: eu em outubro 26, 2005 04:24 PM

"Não são aceitáveis"? Em geral? Mas porquê? Mui simplesmente, acho estas duas em apreço bastante fracas (e até contraproducente, no caso da TMN).

Publicado por: LR em outubro 26, 2005 04:56 PM

Ó LR mas o conceito de now, i.e., viva o momento, vem da ideia de tirar o melhor partido de cada momento, não é? E será assim tão diferente deste conceito de "gostamos da vida tal como ela é"?

E não acha terrivelmente fora de moda essa sua implicância doentia com a Soeiro? Além de reveladora duma insegurança que só o fragiliza?

Publicado por: Margarida em outubro 26, 2005 05:40 PM

E se for mesmo uma questão de não gostar nem de umas nem de outras? De desprezar as que elevam, as que rebaixam e as que mantêm? Quase todas se servem da nossa palhacice como consumidores, e o mínimo que podemos fazer é malhá-las também. E depois até podemos comprar, se nos apetecer e tivermos dinheiro para isso. Escusamos é de andar a dizer :"aquela pub é mesmo GIRA" quando é medíocre. Raras as publicidades boas como as da coca-cola que de tão parvas dão logo vontade de beber uma de 33cl. Mas essas são parvas, não são medíocres.

Publicado por: zangalamanga em outubro 26, 2005 05:47 PM

COCA-COLA nâo precisa de publicidade, o subtimal é sufeciente! Nâo tens gosto de beber uma?.

Publicado por: pitou em outubro 26, 2005 08:30 PM

Parece-me que anda por aqui um pouco daquele taxista que há dentro de cada um de nós. Falar gratuitamente de tudo é arriscado. Falar do que não se conhece é igual. Dizer que as campanhas da TMN e da GALP servem ou serviram os interesses dos governos e que foram encomendadas por este é pura ignorância. Da boa.

Publicado por: João Nazaré em outubro 26, 2005 11:15 PM

Quem é que disse que as campanhas servem os interesses dos governos e são por eles "encomendadas"? Não sejas literal. Trata-se apenas de curiosas coincidências, analisadas com alguma ironia. E há sempre espaço para a existência de mecanismos de regulação social que escapam aos desígnios conscientes dos individuos. Já os pioneiros da sociologia deram por isto.
De resto, em relação a este mercado, também não serei propriamente um taxista...

Publicado por: LR em outubro 27, 2005 12:42 AM

No entanto, não deixa de ser certo que António Mexia era à data boss da Galp e um dos principais activistas do patusco movimento Compromisso Portugal; mais tarde, chegou a ministro. Claro está que uma campanha tão “positiva” quanto a da Galp também foi um bonito enfeite na sua lapela...

Publicado por: LR em outubro 27, 2005 10:05 AM

Pelo que percebi o LR não gosta da vida como ela é! Não gosta de "Curtir à porta de casa", não goste das "Noitadas como elas são", não gosta das "Segundas Feiras" (aqui até compreendo é sentimento generalizado, embora eu goste), não gosta de "Bricolage" mesmo que sejam piercings ou tattoos, nao gosta de "Derbies" na companhia de amigos, não gosta de olhar de olhar para trás e ver que "Os dias não" já passaram. Escolheu as publicidades que menos lhe agradam. É normal, também não gosto de algumas mas, curiosamente, não me são dirigidas. Mas fica-lhe mal julgar o todo pela parte (ainda por cima criteriosamente seleccionada). Ou simplesmente não gosta que uma empresa se tente posicionar mais próxima de si? Falo por mim quando digo que a publicidade seria muito pior se fosse feita com fotos de "gente perfeita", com "vidas perfeitas", "carros e casas perfeitos" e feita de "momentos perfeitos".

Ficava-lhe melhor dar ideias de como melhorar ao invés de criticar apenas.

Ah! E quanto ao ""No fim, só ganha um… e temos que ser nós" urrava-se então. No fim, foi o que se viu." ou andou MUITO distraído ou não percebeu que, independentemente do resultado, foi a 1ª vez que Portugal chegou a uma final num campeonato europeu! Mas parece que isso, para si, não chega.

Desejo-lhe um bom dia, porque acho que está mesmo a precisar.

Ah! E antes que se interrogue, não sou de direita, nem adepto do mexia. Mas também não gosto de dizer mal só por dizer (embora às vezes falhe, como ache que você falhou agora)...

Publicado por: Denis o Pimentinha em outubro 27, 2005 11:00 AM

Não escolhi peva nenhuma. Falei apenas dos exemplos que vi. Nem todos têm o seu empenho a coleccionar cromos de reclames.

Para mim, um posicionamento destes é ineficaz: quem gosta da vida como ela é não precisa de fazer nada para a tornar mais agradável. Quanto a ideias para melhorar seja lá o que for... isso só a pagantes, amigo.
E essa antinomia gente perfeita — gente feia não tem nada a ver com a questão. Outros exemplos de comunicação publicitária "hiper-realista", como a campanha Dove, são algo diferentes, por mais cuidados. Esta marca, por exemplo, afirma coisas como "Effective on real skin", enquanto mostra mulheres comuns. "Eficiente", está a ver o busílis? Há uma promessa de resultados, não um conformismo bovino com vida "como ela é".
Mas, enfim, cada um engole o que quer.

Publicado por: LR em outubro 27, 2005 11:45 AM

Parece-me que o que diz a margarida é errado. Os conceitos publicitários da TMN e da Vodafone são, actualmente, diametralmente opostos. A Vodafone apela à acção, a não deixar a vida passar como ela é, a vivê-la intensamente como a efémera. "A efémera faz mais num dia do que fazemos num ano. Já pensou que temos algo a aprender com ela?".

Já a TMN apela precisamente ao contrário: "Deixe-se estar! Os pormenores aborrecidos da vida até têm a sua piada. Continue a não fazer sexo com o seu cônjugue, aprenda a apreciar as segundas feiras aborrecidas. Continue com a mesma rede de telemóvel. Aprenda a apreciá-lo."

Não é uma estratégia de uma empresa que se quer afirmar. Pelo contrário. É uma estratégia de quem já faz parte da "vida como ela é", com os seus altos e baixos. Estando nessa posição, a mensagem é: "para quê mudar?".

É preciso estar-se numa boa posição de monopólio para se optar por um conceito destes, principalmente numa empresa tecnológica, onde a inovação é importante. Duvido que a própria Microsoft o fizesse!

Publicado por: João em outubro 27, 2005 08:19 PM

LR : Eu também não os conhecia de cor e também não acho piada ao da cozinha indiana, mas dei-me ao trabalho de ver todos antes de falar. Sim, a estratégia da TMN passa por ser "o seu vizinho do lado", posicionando-se... colando-se a uma posição mais familiar, mais confortável. Daí a utilizar todos aqueles adjectivos vai um bocado. Não sei se reparou, mas as publicidades anteriores da TMN (que não fossem relativas a eventos desportivos) não eram no sentido de rumo à vitória. O lema era "Mais perto do que é importante". Mas eu não percebo nada de MKT, eu sou só mais um do rebanho. E gosto da minha vida como ela é e continuo a fazer todos os dias aquilo que gosto para que ela continue a ser como eu gosto. O que não quer dizer que faça todos os dias as mesmas coisas, nem da mesma maneira! Pasme-se... sou um radical, até experimento coisas novas sempre que posso!

Publicado por: Denis o Pimentinha em outubro 28, 2005 12:29 AM