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outubro 22, 2005

UM RELATO FUTEBOLÍSTICO


O extremo direito persegue a bola, conseguindo evitar que ela saia pela linha de fundo. Sem sequer levantar a cabeça, saca um centro a pingar para o coração da pequena área. Ali, o guarda-redes e um defesa hesitam antes de intervir. Um segundo de hesitação que basta ao atacante adversário para se intrometer com um pequeno toque de cabeça. A bola descreve um arco letal e entra na baliza, mesmo junto ao canto. É golo.

E lá corre o extremo esquerdo, braços esticados como se a sua alegria bastasse para o arrancar às leis da gravidade. Enquanto aquele miúdo corre, ele não é deste mundo; arde de uma febre sem remissão, é o centro do universo, voa bem alto — acima mesmo dos aplausos da bancada cheia.
Assim marcou hoje o meu filho o primeiro golo da época oficial. Nada de grandes ou urgentes consequências. Nada de que reste registo daqui a alguns dias.
Mas dei por mim no minuto de celebração a pensar que talvez nunca na minha vida tenha experimentado uma alegria menos egoísta do que aquela. Não sentia orgulho nem cumplicidade no triunfo; estava feliz apenas porque o meu filho estava feliz.
Mesmo o júbilo esmagador de o ter visto pela primeira vez, a espernear ainda incerto do peso deste mundo, mesmo esse teve muito de grito dos meus genes, proclamando a vitória da propagação. Mesmo aí comecei logo a calcular as aventuras, partilhas e destinos que iriam unir pai e filho. Não; nem então me consegui saber feliz apenas por ele.
Mas hoje sim. Hoje fui feliz só porque o vi meu filho iluminado por dentro, brilhando de uma alegria sem fim.
Estranho mesmo foi ter precisado do mais bruto e rasteiro dos jogos para me ter sentido tão puro, tão longe de mim.

Publicado por Luis Rainha às outubro 22, 2005 11:55 PM

Comentários

Gostei.

Publicado por: CausasPerdidas em outubro 23, 2005 12:43 AM

Parabéns ao J.

Publicado por: monty em outubro 23, 2005 02:17 AM

Um relato futebolístico via Afixe

Publicado por: loladas em outubro 23, 2005 05:57 PM

Pois a mim que gosto de futebol não me admiro que isso tenha acontecido. Os amantes de futebol gostam de recordar que o Albert Camus dizia que "o que conhecia de mais puro e genuíno das pessoas era ao futebol que o devia" !

Publicado por: Jorge Lucio em outubro 24, 2005 02:06 PM

Há gente que devia, defintivamente, arranjar uma vida. Em vez de vegetar pela dos outros. Refiro-me ali ao loladas ou o raio que o parta. Ao trabalho que esta maltinha se dá.

Publicado por: Monty em outubro 24, 2005 03:35 PM

Monty:

É possível que chamar atenção para aquele detalhe tenha sido, um pouco desleal para vocês (ainda há gente séria que não sabe o que é isso do RSS feed), mas todos os que temos o gosto(!) de ler a afixe via RSS feed vimos aquele textinho lá. As razões que me levaram a trazer o detalhe para aqui só a mim me dizem respeito, obviamente quer o tchern quer o Luís Rainha podem apagar os meus comentários(!). Tu (ou o Luís Rainha) é que já apagaram o link, as razões só a vós dizem respeito.

Publicado por: loladas em outubro 24, 2005 08:07 PM

"As razões que me levaram a trazer o detalhe para aqui só a mim me dizem respeito!"

A ti e ao teu analista, pá, vê se te curas, mas é!

E não apaguei link nenhum, como vês, o teu link continua no ar:

http://afixe.weblog.com.pt/arquivo/2005/10/um_relato_futeb

Quem serás, loladas? Não há que enganar, não é?

Publicado por: monty em outubro 24, 2005 10:57 PM

Monty:

Fiquei cagado de medo com os teus comentários aqui, vi-me mesmo obrigado a escrever-te um e-mail. Será que te vais dar ao trabalho de responder, ou essa agressividade toda é só fogo de vista?

Boa tarde

P.S.: também não é bonito por a expressão mother fucker no título dos posts do Afixe, ou será que eu tembém me posso dirigir a ti usando os mesmos termos? Eu acho que não.

Publicado por: loladas em outubro 25, 2005 05:16 PM