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outubro 19, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM


Fotografia de Chris van Houts


Ele é, talvez, o mais importante dos poetas neerlandeses vivos. Gerrit Komrij, o provocador. Gerrit Komrij, o crítico impiedoso. Gerrit Komrij, o cronista desbocado e politicamente incorrecto. Mas também Gerrit Komrij, o tradutor de Shakespeare e o eremita que escolheu Portugal para escapar às mundanidades holandesas. Gerrit Komrij, o poeta que sempre escreveu versos sobre o vazio, sobre o abismo, versos que se auto-destroem ou crescem em terreno precário, peças ínfimas de um jogo muito irónico e muito lúdico com a morte. É este Gerrit Komrij poeta (ainda inédito por cá, ao contrário do Gerrit Komrij romancista) que uma antologia da Assírio & Alvim vem dar agora a conhecer aos leitores portugueses. O livro intitula-se Contrabando, o tradutor é o nosso Fernando Venâncio e o lançamento terá lugar amanhã, no Pavilhão Chinês (junto ao Príncipe Real), pelas 18h30.
Eis um dos poemas de Komrij:


A CAMA DE FERRO

Olham uma menina e um gato
Num espelho qual buraco de fechadura,
Vendo outra menina e outro gato.

Coisa alguma o fardo alivia
Do espelho e do armário de gavetas.
A eles se agarrou muita poesia.

Poemas como caixas, dentro nada.
Ou, se algo houver, será apenas isto:
Triste cama em marquise envidraçada.

Publicado por José Mário Silva às outubro 19, 2005 07:02 PM

Comentários

n gosto do novo template

Publicado por: ss em outubro 19, 2005 09:08 PM

Muito bom. Vou comprar.

Publicado por: Valupi em outubro 19, 2005 11:23 PM

ó josé mário silva, o que diabo é um neerlandês?

Publicado por: virtuoso em outubro 20, 2005 12:28 AM

A propósito de "Neerlandês", tem havido ultimamente carradas de posts e comentários que me pouparam quase um frasco de cápsulas de "melatonin", mas como o meu dicionário parece desconhecer o termo, vou armar-me em lexicógrafo e chamar-lhe melatonina. Parece nome de rapariga, não parece? E talvez por isso uma boa oportunidade para a Margarida voltar a estas páginas. With a vengeance...

Publicado por: Ritinha em outubro 20, 2005 10:01 AM

Valupi,

Bons olhos te vejam. Como eu, outros se perguntarão se tomaste conhecimento do «post» de 5 de Outubro [ARTIGOS PARA IREM LENDO ENQUANTO A GENTE POUCO ESCREVE (III)] onde se debateram coisas que directamente te podem interessar.

Fica a lembrança. Não te desanimes connosco.

P.S. Não estarei no lançamento, esta tarde. Ou estou, sim, mas sob a gentil máscara de José Mário Silva. Se fores, perceberás.

Publicado por: fernando venâncio em outubro 20, 2005 01:28 PM


Come on, Fernando, let bygones be bygones. Give the man some space. Besides, if he stays around we always can keep an eye on him, just in case.

Publicado por: Bomba em outubro 20, 2005 03:14 PM

Arre, Bomba. E o meu espaço hein? É cair logo em cima do pobre! Mas, ok. I said nothing.

Publicado por: fernando venâncio em outubro 20, 2005 04:04 PM

acho porreiro
importar poetas para o mercado intelectual nacional
para não ficarem só campos de golf prós analfabrutos burgueses
e empregados que fazem camas tristes
e más-linguas
como eu
antes de me pirar
pero non mi gustam camas vazias

Publicado por: xatoo em outubro 20, 2005 04:36 PM

Caríssimos amigos, Fernando e Bomba, passou-me completamente ao lado o vosso "tour de force" bem polido e não menos valente. De facto, tenho estado arredio desta arena (há vida para além dos blogues, como bem sabeis); mas se a paga é o nascimento de uma teoria da conspiração que faz de mim um epígono do VPV, considero-me homericamente recompensado. Só espero que o Vasco não venha a saber da comparação, caso contrário ainda aparece mesmo por aqui para vos dar uma desanda.

Como de costume, a alquimia (e rara generosidade) do Fernando faz dum pedaço de carvão manhoso outra coisa que passa por diamante. É só uma questão de acertarmos na perspectiva para o mundo voltar ao seu eixo: o carvão sou eu, diamante as suas palavras. Inusitada dádiva que desmereço na perfeição.

Para o nosso Bomba, o meu aplauso. Eis um homem cuja imaginação é uma força de desbloqueio. Há ali uma lucidez sapiencial bem escondida pela ramagem das suas diatribes. Talvez bem escondida demais...

Ah, a eterna curiosidade de tudo. Não há destino mais alto.

___

Aproveito o momento para responder a uma questão que o Fernando me fez e que tive de deixar pendurada à espera de oportunidade. Ei-la:

"Eu pasmo com o que escreves. Aliás é bom, para eu não pensar que percebo tudo do mundo. Porque uma coisa que não me entra é essa tua capacidade (e a alegria dela) de te entregares às energias da multidão. Eu seria incapaz. No meio do estádio mais ululante, eu sentir-me-ia - saber-me-ia - sozinho. Tu, um fulano consciente, que até percebes uma coisas e reflectes sobre o resto, és presa das forças primitivas - e feliz com essa condição. Explica-me. Até porque sei que mo sabes explicar."

E aqui vai a minha trapalhona resposta:

Pois, Fernando, seria uma honra poder-te explicar fosse o que fosse. Para tal, porém, teria de estar certo do que falamos. E não estou.

Por exemplo, sou leitor compulsivo do "Livro do Desassossego". Independentemente de qualquer juízo de valor estético ou filosófico que daí resulte, uma certeza podes ter: a temática da radical solidão, da tragédia da existência, da derrelicção como destino, é pasto do meu rebanho. Mas seria o Pessoa apenas essa consciência mentirosa, porque mental, da finitude idiota? Não, como sabemos. Ele era também uma sensibilidade porosa, um "vortex" de sensações, uma empatia literal (e literária...).

Quem disse que as forças primitivas nos aprisionam? E se for o contrário? O estado de fusão pelos químicos – o fenómeno da droga – está inscrito na erótica antropológica universal. Todos os povos organizaram modelos de consumo ritual e celebração colectiva. O mesmo com a pulsão sexual e a morte, uma regulação do tempo desregulado. Há acontecimentos cognitivos a que só se acede pelo caminho do excesso, como escreveu alguém que sabia do assunto.

Salto quântico para a aparente banalidade, vulgaridade e bestialidade de um estádio de futebol cheio de gente em frenesim. A turba ululante não tem de conseguir explicar o que sente, mas sente; e é este o acontecimento. O quotidiano é um colete de repressões e achincalhos - o urro lançado em direcção ao relvado rasga o calendário e pára os relógios, é a actualização de uma matriz sacrificial onde cada um é, finalmente, Senhor do universo através de uma hecatombe simbólica. E depois, quando acontece a festa cantada ou abraçada, já não há estranhos em redor, somos todos da mesma tribo e ficamos unidos pela celebração do irracional; irracional esse que é a essência da essência das coisas, certo?

Enfim, estou para aqui a patinar na análise quando tudo isto pode ser resumido num sentimento: nostalgia comunitária. Lembro-me da experiência das horas que antecederam a final do Europeu, as imagens televisivas do povo à beira da estrada para ver passar a Selecção comoveram-me pelas mesmíssimas razões com que um cínico as poderá ter desprezado, o patético daquilo tudo. E depois saí à rua e dei umas voltas pelo bairro. Em cada rua onde passavam carros passava igualmente uma onda de excitação, uma dionisíaca pulsão de comunicar. Fiquei em contemplação extasiada, vendo os meus concidadãos a exibir uma característica que surpreende sempre não importa as vezes que a vejamos repetida - ausência de medo.

Não sei se há muito, se há pouco tempo (mas reporto-me aos anos 70), ainda resistia na cidade uma tradição rural de convívio popular. O ciclismo levava as pessoas para a rua, os santos populares eram festejados em cada quarteirão com fogueiras espontâneas e partilha de pinga, os cafés eram escolas de malandrice, fórum e noticiário. A tecnologia tudo muda e as confortáveis casas da maioria tornaram-se hipnóticos cárceres. Vivemos num estado de privação e carência social, somos uns tristes.

Por tudo isto, e o mais que fica por dizer, há quem se salve na perdição da bola.

Publicado por: Valupi em outubro 21, 2005 08:39 AM

Valupi,

Se os redactores da Bola escrevessem como tu, ninguem precisava de ir à missa. Era exactamente um regresso destes que todos estávamos à espera. Para sarar arranhadelas superficiais, dissolver aquilo que podes ter considerado um ataque à confidencialidade a que tens direito, e também para consolidar o teu prestígio de bom embaralhador de cartas. E não te incomodes, o Basco (deixa-me mudar a etnia, no caso de isto ir parar a tribunal) não irá aparecer para nos passar bodes, porque não há, suponho, nada de importante que exija reparação nem explicação.

Em tua juda, permite-me este exemplo histórico. Cagliostro, depois de sair da Sicília, nunca mais disse a ninguem que se chamava José Bálsamo, nem sequer ao Frederico prusso ou à Catarina da Russia. O que é que te impede, se te apetecer ou convir, de fazeres o mesmo em termos blogosféricos lusitanos? Quem é que me teria algum respeito se eu sinceramente dissesse que me chamava Óscar Prudente, Paulo Vilarinho ou Pedro Murtosa? Para um povo confiado que corre atrás de figuras brancas que mais parecem fantasmas desde o fim da era dos Descobrimentos, o que é importante não é o lençol em si, mas sim o que debaixo dele se agita, especialmente nas noites cálidas. Com mais ou menos vigor, bem entendido. Portanto, aparece e continua a descascar à vontade nesta malta e defende-te que a rapaziada aqui não anda a dormir. Pelos dermatóglifos já sei quem és, mas não fiques triste porque estamos pagos.

Publicado por: Bomba em outubro 21, 2005 03:52 PM