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outubro 19, 2005

A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL: OS CANDIDATOS

Estamos numa legislatura que normalmente deverá durar mais três anos e meio e temos um governo com maioria absoluta na Assembleia que tem tido a sua actuação muito contestada nos últimos tempos e que desceu francamente nas sondagens. É neste contexto que vamos ter eleição presidencial, havendo já cinco candidatos anunciados.

Como irá decorrer a campanha ? Que papel irão ter e qual é a motivação dos diferentes candidatos? Que impacto terá esta eleição no futuro do País?

Para escrever sobre estes assuntos há que analisar em primeiro lugar o papel do Presidente da Républica na prática política portuguesa. Como nota lateral, desejo dizer que considero a nossa Constituição estruturalmente bastante boa. É provável, por exemplo, que a Constituição francesa evolua no sentido de se aproximar da nossa. Mas, dito isto, a minha opinião é a de que a função mais importante do PR na nossa prática política é a de se encontrar uma vez por semana com o Primeiro-Ministro.

Para analisar a próxima campanha eleitoral a minha chave política é, assim, a de imaginar os futuros (e nalguns casos com probabilidade nula) encontros de José Sócrates com o futuro PR. Vou-me permitir caracterizar com duas palavras a campanha e a hipotética actuação dos diferentes candidatos.

Comecemos por Mário Soares: "Apoio crítico". Se a sua actuação futura for só a de dar apoio ao governo PS não tem interesse nenhum. Mas, se este apoio for acompanhado por conselhos e críticas ditadas pela experiência e, sobretudo, por uma capacidade de mobilização que leve o País a debruçar-se e a debater os modos de fazer política em Portugal, ou seja, o futuro da nossa Democracia, a eleição de Mário Soares poderá ser extraordinariamente importante. Ele poderá, por exemplo, fazer algo que se assemelhe ao congresso "Portugal que futuro?", que foi uma coisa muito bem feita. Em particular, ele pode influenciar o PS para que se revele capaz de contribuir para o renovamento e reinvenção da Democracia portuguesa, em vez de se reduzir a uma mera estrutura de apoio ao Governo.

Cavaco Silva: "Controlo e rigor". O País está suficientemente bem informado sobre as qualidades e características pessoais de Cavaco Silva. Quem não estiver, basta-lhe ler um dos inúmeros textos que sobre ele escreveu e certamente continuará a escrever Vasco Graça Moura. Mas, o que nem VGM nem ninguém ainda foi capaz de dizer é o que fará Cavaco Silva se o controlo e a simples insistência no rigor não chegarem para fazer funcionar o governo a seu contento. Parece-me que é um assunto sobre o qual o próprio se terá de pronunciar durante a campanha. Terá, também, interesse ver se Cavaco Silva, mais maduro e sabedor, é capaz de revelar alguma capacidade crítica relativamente à sua actuação de há 10 anos atrás.

Francisco Louçã: "Moralidade e crítica". Imaginar Louçã Presidente da República a encontrar-se com o Primeiro-Ministro José Sócrates é um exercício puramente académico. Não deixa, no entanto, de ter algum interesse. A dúvida é se Louçã revelaria maturidade para dar mais importância aos problemas de fundo do País do que às questões meramente "fracturantes".

Jerónimo de Sousa: "Crítica construtiva". A hipótese de Jerónimo de Sousa ser PR é igualmente académica. Não posso, no entanto, deixar de pensar que, se a nossa Presidência fosse rotativa e quase simbólica, como na Suíça, ele poderia ser um dos Presidentes transitórios. Serviria, pelo menos, para lembrar que no País ainda há operários.

Manuel Alegre: "O Verbo e o vazio". Creio que todos aceitam o "Verbo". Procurei uma segunda palavra e não encontrei. O "vazio" resultou deste não encontrar. Se algum apoiante de Manuel Alegre sugerir alguma palavra que julgue adequada estou disposto a ponderá-la. Mas não abdico da minha opinião. Acho que Manuel Alegre falhou completamente a oportunidade que teve de contribuir para o renovamento do PS quando apresentou a sua candidatura a Secretário-Geral por ocasião do último Congresso. Falhou na organização da campanha, particularmente inoperante e centralizada, na incapacidade de fazer um diagnóstico dos problemas do PS e de propor soluções para eles, na falta de diálogo com os apoiantes, no modo muito fechado como a sua candidatura organizou a lista para a Comissão Nacional. De facto, limitou-se a construir um quadrado que reproduziu, alguns agravados, os defeitos do aparelho existente. O XIV Congresso do PS ainda não acabou: as moções sectoriais subscritas pelos delegados, que dada a impossibilidade de serem apreciadas em Guimarães transitaram para a Comissão Nacional para serem apreciadas e votadas, ainda não o foram. Os elementos da CN eleitos pela candidatura de MA ainda não deram, até hoje, nenhuma atenção ao assunto. Não vejo, assim, qualquer interesse em hipotéticos encontros de Manuel Alegre Presidente da República com José Sócrates Primeiro-Ministro. (António Brotas)

Publicado por Filipe Moura às outubro 19, 2005 02:36 PM

Comentários

A bem da verdade, julgo que há sítios na net dedicados ao apoio a Soares em número bastante para que não seja necessário transplantar para aqui coisas destas. A quem interessará a opinião de Brotas sobre a nossa constituição? E que dizer do seu palpite de que os franceses ainda vão acabar a copiá-la? Gimme a break.
Gostaria de ler é o que tu, Filipe, tens a dizer sobbre este tema.

Publicado por: LR em outubro 19, 2005 03:50 PM

Epa se os conheces di-los. Eu so conhecia o "Super Mario", do limk do Causa Nossa.
Ando sem tempo nenhum, com dificuldades na ligacao a internet. E tenho de responder ao Joao Miranda. Antes disso tenho de escrever um post que tem de sair impreterivelmente amanha. Mas obrigado pelo teu interesse.

Publicado por: Filipe Moura em outubro 19, 2005 03:55 PM

LR:

Gosto muito do texto, em parte porque conhecendo o autor esperava uma opiniao diferente.

Parece-me que o raciocinio esta muito bem estruturado:"a minha chave política é, assim, a de imaginar os futuros (...) encontros de José Sócrates com o futuro PR".

Luis Rainha, podes nao concordar com a opiniao expressa sobre alguns dos candidatos, mas seria interessante ver-te contrargumentar seguindo a mesma linha de raciocinio ...


P.S.: Filipe, estou pagando para ver a tua resposta ao Joao Miranda!

Publicado por: Luis Oliveira em outubro 19, 2005 04:21 PM

Como com grande pressa vocês já despacharam para o arquivo tudo quanto dizia respeito às Autárquicas, e porque só agora descobri esta nova maneira do BE apresentar "resultados", lamento mas cá vai, para todos reflectirmos se há mesmo necessidade de deitar a mão a estas hebilidadezinhas:

A “anedota” das contas do BE, já não é só “anedota”, já vira falsidade completa. Então não é que no seu site está uma “Nota do Bloco de Esquerda sobre os resultados eleitorais” com gráficos comparativos das votações nas AM e CM onde “dão” por exemplo, em 2005, na CM à CDU 558.242 votos (em vez de 590.596) e ao PS 1.856.542 (em vez de 1.931.508) e na AM à CDU só dão 592.312 (em vez de 628.985) e ao PS 1.845.679 (em vez de 1.923.597)?

E sabem qual a justificação para o fazerem? Exactamente nas palavras deles: “O número de votos da CDU exclui Lisboa, onde obteve mais de 30 mil votos (por comparabilidade, visto que em 2001 não há dados de votos CDU, havendo uma coligação)
Naturalmente, os números de votos do PS são igualmente apresentados excluindo Lisboa, pela mesma razão “.

Isto é, porque em 2001 houve a coligação PS-PCP-Verdes em Lisboa, nos resultados de 2005, o BE, RETIRA à CDU, 32.354 e 36.673 votos nos resultados da AM e ao PS, 74.966 e 77.918. respectivamente!!!!

Publicado por: Margarida em outubro 19, 2005 05:16 PM

Luís Oliveira,

Admitir a relevância desses encontros prefigurados é ter como certo que Sócrates ainda por lá vai estar 5 anos...
E sabendo já como eram as relações entre Soares e um primeiro que lhe fazia sombra (Cavaco), só posso mesmo imaginar o pior para uma reedição da História. é que essas coisas da ideologia são perfeitamente secundárias para Soares I.

Publicado por: LR em outubro 19, 2005 05:41 PM

O último parágrafo saíu com gralha. Deve ler-se:

Isto é, porque em 2001 houve a coligação PS-PCP-Verdes em Lisboa, nos resultados de 2005, o BE, RETIRA à CDU, 32.354 e 36.673 votos nos resultados da CM e AM e ao PS, 74.966 e 77.918 também nos resultados da CM e AM respectivamente!

Em relação ao tema deste post, as presidenciais, não acha o FM que se pergunta “qual é a motivação dos diferentes candidatos?” e porque tanto quanto sei pelo menos três dos candidatos já apresentaram a sua declaração de candidatura (Soares, Jerónimo e Louçã)não teria sido mais curial que o FM as apresentasse ou que pelo menos as comentasse, para começar?

Publicado por: Margarida em outubro 19, 2005 05:42 PM

Margarida,

Ainda não conseguiste perceber a função destas janelas de comentários, pois não? Ora imagina que a ideia é precisamente comentar o texto acima; não despejar aqui a tralha que te vai entulhando o espírito.
E que temos nós a ver com o que aparece ou não no site do BE?

Publicado por: LR em outubro 19, 2005 05:53 PM

Aqui que ninguem nos ouve, ouvi dizer que o camarada Mário Soares, concorre a presidente para assegurar que os investimentos imobiliarios que possui na zona da Ota serão rentabilizados com a construção do novo aeroporto, coisa que com Cavaco seria mais complicada!

Publicado por: Tio Sam em outubro 19, 2005 07:10 PM

Tio Sam: They say lots of things (the old man said)

Margarida: Corre o risco, a continuar assim, de as pessoas já nem lerem os seus comentários mal se apercebam do autor. Conselho de democrata.

Publicado por: random em outubro 19, 2005 08:06 PM

Porque acho mesmo que fazer de avestruz nada resolve, porque nem sei como se pode explicar que para termos uma “estatística” mais volumosa tenham pura e simplesmente feito desaparecer as votações de há uma semana do PS e da CDU em Lisboa e principalmente porque o Bloco não tinha necessidade de nada disto peço desculpa à Margarida e a quem mais se sentir lesado com esta, repito, inexplicável maneira de apresentar os resultados das autárquicas.

Publicado por: Joana em outubro 19, 2005 08:30 PM

Tanto se cospe para o ar que a escarreta acababo por atingir o cuspidor. Então a Margarida, adepta ou militante dos profissionais do 'vencemos' vem, qual anafada frei Tomás, criticar o BE por utilizar exactamente as mesmas tácticas que o PCP, e os seus avatares, CDU e FEPU, já utilizam desde as eleições de 1975? Gimme a break!

E desculpas por o comentário não ter nada que ver com o poste, mas não consegui resistir...

Publicado por: Pedro Oliveira em outubro 20, 2005 01:33 AM

O texto tem todos os estereótipos da imprensa de fim-de-semana: o social-democrata Soares "crítico" das veleidades liberais de Sócrates, o Cavaco "mais maduro" do "controlo e rigor", e não faltam mesmo o "fracturante" Louçã e o "operário" Jerónimo.

Como disse alguém por aí, poupem-me!

Publicado por: CausasPerdidas em outubro 20, 2005 09:16 AM

Desta feita, desculpem que fuja ao tema do "post".
Esperando reduzir os ressentimentos da Margarida em relação ao BE, poupo-lhe o trabalho:

Do Jornal "Avante!" de 13 de Outubro de 2005, n.º1663:

"É preciso que se saiba!


Tomando os desejos por realidade, com o inesgotável apoio e promoção por parte da comunicação social, o Bloco de Esquerda apresentou-se nestas eleições com o claro objectivo de se afirmar como uma «imensa força autárquica».
Apurados os resultados, depois de neste mesmo ano ter alcançado mais de 350 000 votos nas eleições legislativas de Fevereiro, o BE ficou-se por cerca de 160 000 votos em todo o país para as Câmaras Municipais, ganhou a Câmara de Salvaterra de Magos perdendo 3 freguesias em 6 e um vereador, elegeu mais 3 vereadores em outros tantos concelhos (Entroncamento, Moita e Lisboa) e aumentando de forma pouco expressiva os eleitos em Assembleias Municipais e de Freguesia. Feitas as contas, trata-se de uma derrota clara que confirma este partido como uma força política absolutamente inexpressiva no panorama autárquico nacional.
Este resultado é ainda mais elucidativo se tivermos em conta que o BE elegeu como seu principal adversário a CDU e o PCP (o que é elucidativo sobre os reais objectivos do BE e de quem o promove), usando e abusando do mais preconceituoso anticomunismo, alimentando calúnias quanto à política de unidade do PCP dentro dos executivos autárquicos (aliás elemento distintivo dos eleitos da CDU em 30 anos de poder local democrático), assumindo como principal objectivo ficar à frente da CDU nas cidades de Lisboa e Porto, facto que não só não se registou, como no caso do Porto, apesar das muitas ajudas (comunicação social e Partido Socialista) nem deu lugar à eleição do seu vereador.
Fazendo contrabando entre candidaturas «independentes» e partidárias (como foi o caso de Lisboa) e assumindo-se como os campeões da luta pela transparência política, concentrando as suas atenções nos concelhos de Felgueiras, Amarante, Gondomar e Oeiras prestaram um lastimoso serviço ao populismo político e quase que foram apanhados em falso nos últimos dias de campanha com as notícias divulgadas sobre investigações em Salvaterra de Magos, o tempo o dirá.
No rescaldo eleitoral, reclamaram vitória em Lisboa e Amarante (onde por sinal perderam 70% / 710 votos face às últimas eleições autárquicas) e quanto ao resto, falaram baixinho A comunicação social dominante procurará varrer estes resultados para debaixo do tapete. Por tudo isto, é preciso que se saiba!"


Publicado por: CausasPerdidas em outubro 20, 2005 09:28 AM

Ao fim deste tempo todo, a Margarida ainda não percebeu que este blogue é um sítio de pessoas de esquerda, de várias tendências, e não um blogue do Bloco de Esquerda. É pena, porque isso leva-a a perder o seu tempo com críticas e ressentimentos para os quais não temos resposta, uma vez que não nos dizem respeito.

Publicado por: José Mário Silva em outubro 20, 2005 11:53 AM

Eu estou de acordo com a Joana. Realmente não havia necessidade.
E também não havia necessidade nenhuma do José Mário Silva só agora se demarcar do Bloco. Era preferível que se demarcasse de certas práticas nada recomendáveis do Bloco.
Eu também estou envergonhada com a maquilhagem dos resultados que o Bloco fez. Era preferível que tivessemos assumido que as coisas não correram como gostavamos. Ao menos não davamos o flanco a críticas como estamos a dar.

Publicado por: Luisa Lima em outubro 20, 2005 01:56 PM

Luisa,
Só agora?
Alguma vez me (ou nos) viu a escrever neste blogue segundo as conveniências ou a agenda do Bloco?

Publicado por: José Mário Silva em outubro 21, 2005 06:20 AM

"SOBRE A SOLIDARIEDADE QUE POR VEZES FALTA À ESQUERDA. «PCP contra petição para despenalização do aborto». Não é preciso dizer mais nada, pois não?"

Lembra-se de ter escrito isto no BdE em 23 de Novembro de 2003? E o que escreveu estava conforme a conveniência e inserida na agenda do Bloco, não é verdade? Este é só um exemplo.

Publicado por: Luisa Lima em outubro 21, 2005 01:00 PM