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outubro 18, 2005

AVENTURAS DA MÃO INVISÍVEL EM PORTUGAL

Os liberais são umas criaturas pertinazmente religiosas. O seu credo tem como artigo de fé central que, num mercado livre, cada indivíduo é levado por uma espécie de "mão invisível" a tomar as decisões mais propícias ao bem comum. Isto quando deixado a agir por conta própria, em resposta apenas ao que ele julga serem os seus interesses egoístas.
Assim deixou escrito o Profeta Adam Smith; assim o repetem pelo menos 12 vezes ao dia os seus discípulos mais assanhados. Para dar um ar mais sério e científico à superstição, invocam sempre uma misteriosa parecença entre este arremedo de "lei" e as descobertas de Isaac Newton. A conclusão desejada é óbvia: a gravidade e a bondade intrínseca do mercado são dois fenómenos igualmente reais, comprovados e credíveis. Os fiéis mais sofisticados e com mais tempo livre nas mãos ainda conseguem inventar umas pícaras divagações sobre matéria e economia "autoorganizadas" para compor o ramalhete teológico.
Não sei o que achar mais desconcertante: se a fé cega num princípio inverificável, infalsificável e improvável, ou se tão generosa confiança depositada nessa mítica e brava figura: o Empresário.
Olhem que, a fazer fé na minha experiência profissional, que inclui contactos com várias dezenas de empresários cá do burgo, imaginar esta malta dedicada, mesmo que de modo involuntário, ao bem da sociedade é voo de imaginação capaz de causar vertigens ao espírito mais aventureiro (pronto, está bem: claro que existirão uns quantos cidadãos bem formados, altruístas e menos sociopatas no grupo).
Mas, como sabe qualquer um que já estudou o fenómeno de Fátima, não adianta argumentar de forma racional com gente que se julga infundida desse exótico sopro divino, a Fé; mesmo a propósito do que parecem ser imposturas flagrantes. Adiante.
Os problemas desta famosa "Mão Invisível" começam quando se dá o choque frontal com a realidade. Quando temos ocasião de verificar como se comportam empresas e empresários mal se julgam ao abrigo de qualquer fiscalização. E que vemos? A erupção imparável da mais sã concorrência, promovendo melhores produtos, preços reduzidos, mais felicidade para a populaça?
Ná. A resposta, como os menos dados à busca de teofanias já adivinharão, aparenta ser outra: o que vemos medrar são cartéis; associações de malfeitores que manipulam em seu favor os preços, distorcendo os mercados e roubando o consumidor. O tal bem comum parece ser misteriosamente preterido em favor da cupidez, da ambição desbragada e do egoísmo mais atroz.
Há uns meses, a triste história dos telemóveis franceses já tinha dado que falar. Agora, em Portugal, as autoridades também começam a perder o medo: a seguir ao conhecido escândalo das farmacêuticas, vem já aí a pouca-vergonha dos preços do pão.
Não podia mesmo ser pior: nem os doentes escapam. No primeiro caso, empresas de grande e pequeno porte juntaram-se numa quadrilha multinacional que combinava preços a apresentar em concursos hospitalares; o nosso depauperado sistema de saúde perdeu assim, só à conta dos testes de diabetes, mais de 10 milhões de euros. As empresas de moagens de farinhas, por seu lado, vêem-se agora envolvidas num processo similar, tendo sido multados gigantes do sector, empresas de média dimensão, quase todo o mercado, em suma: "as multas abrangem praticamente todas as companhias representativas do sector."
Concorrência? Para quê, se podemos maximizar a nossa margem de lucro sem fazer qualquer investimento? A Mão Invisível? Só se for a que nos põe mais dinheiro no bolso…

Talvez fosse boa ideia regressar à Obra do Profeta e descobrir o que andou Adam Smith a fazer com grande parte da sua vida: estudar uma coisa fora de moda, incómoda e pouco propagandeada: a ética dos negócios. Mas isso seria bem mais trabalhoso do que repetir o santo mantra dos mercados, da liberdade, do bem comum, etc. Mais vale fazer de conta que estas feias realidades dos mercados, quando metem gente de carne, ossos e grandes bolsos, não existem de todo.

Publicado por Luis Rainha às outubro 18, 2005 04:41 PM

Comentários

Excelente artigo!

Publicado por: Ricardo Alves em outubro 18, 2005 04:56 PM

O seu blog he Exelente!!

Veja o meu...

www.maquiavelicopolitica.blogspot.com

Publicado por: Gaspar VS em outubro 18, 2005 07:03 PM

O seu blog he Exelente!!

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Publicado por: Gaspar VS em outubro 18, 2005 07:03 PM

Provavelmente passarei por ignorante, mas não tinha consciência do grau de fanatismo destas criaturas. Certo que sabia que eles acreditam piamente na liberalização total do mercado, mas imaginava-os intrínsecamente realistas, presos à terra. Afinal descubro que vêm defender o liberalismo como uma consequência do darwinismo, parece-me que defendem o famoso "desígnio inteligente", etc. Tanta asneira - ainda por cima contraditória entre si - vem-me espantar. Eu sei, estou a ser ingénuo ou mesmo inocente, mas não o consigo evitar.

Publicado por: João André em outubro 18, 2005 07:10 PM

Tem calma, Joao. Nao e caso para isso.

Publicado por: Filipe Moura em outubro 18, 2005 07:22 PM

Mas ainda alguém tem paciência para os devaneios liberais.

Publicado por: Kafka em outubro 18, 2005 10:43 PM

A crença na bondade do mercado não é exclusiva liberalimo, é o capitalismo de uma forma geral.
Já o Keynes dizia:
"Capitalism is the astounding belief that the most wickedest of men will do the most wickedest of things for the greatest good of everyone."

Mas o Keynes era mais do que um economista de pacotilha como esses que se dedicam a organizar "fórums" disto de daquilo cá no burgo para se apresentarem como futuros salvadores da pátria...

Publicado por: Indignado em outubro 19, 2005 12:07 AM

Se os hospitais fossem privados de certeza que esta situação não se passava.
Aliás, o que é que aconteceu ao administrador do hospital público?

Publicado por: João Cardoso em outubro 19, 2005 12:19 AM

Nao sao so os carteis. O pior é a concentracao. Aqui nos EUA quase todos os media pertencem a 3 empresas. Resultado: nao ha noticias. Vinte minutos de "alertas": terrorismo, crime, vulcoes, tsunamis, furacoes, galinhas com gripe, mexicanos a atravessar a fronteira aos magotes... comprem um Dodge!

Publicado por: Filipe Castro em outubro 19, 2005 05:38 AM

Lamento , mas os exemplos que se dão não são de "mão invisivel" , mas de "mão bem visível". Carteis , distorções de mercado , manipulações de preços são contrários ao liberalismo económico. e resultam de manipulação de "mão visivel".

Mas afinal quem é que são ultra-fanáticos?
Convosco é só verdades absolutas...

Publicado por: F COVAS em outubro 19, 2005 09:16 AM

é para isso que se conta com a bondade do sr Covas para pôr alguma moderação e sensatez nisto tudo. Com ele, as verdades são com certeza bastante mais elásticas, assim do género ventosa do homem aranha

Publicado por: tchernignobyl em outubro 19, 2005 09:25 AM

Interessante esta conotação do liberalismo com a religião. Eu até sei porquê: a maioria dos fatos-gravatas que estão à frente do mercado são opus dei!

Publicado por: jm em outubro 19, 2005 11:26 AM

Qualquer liberal defende que um dos papeis do estado é assegurar, através do seu sistema judicial e legislativo, a livre concorrência.

O que acho curioso é como tantos confundem capitalismo, que como se sabe pode existir em diversos contextos politico-legais (incluido nos ditos sistemas 'socialistas' em que funciona em todos os espaços que o estado não cobre - mercado negro, etc.), com liberalismo.

Publicado por: Pedro Oliveira em outubro 19, 2005 12:21 PM

Eu julgava que o Dr. Arroja estava fora de moda. Como o Prof. Zandinga. Mas enfim. Concedamos: depois do que a "mao invisivel" fez aos argentinos é preciso ter tomates para defender o neo-liberalismo!

Publicado por: Filipe Castro em outubro 19, 2005 01:15 PM

Estava-me a lembrar que li recentemente uma entrevista a uma prima da Condi Rice em que ela dizia que nao acreditava na "invisible hand". It's more like an invisible prick, and it always fucks the poor. Disse ela. E eu concordo.

Publicado por: Filipe Castro em outubro 19, 2005 01:24 PM

Duas notas:
1- "verdades absolutas" são para mim , verdades demonstradas científicamente , verfificadas por leis universais: Ex. "A agua ferve a 100º." Por isso neste campo da economia podemos acreditar numa coisa ou noutra , mas não poderemos demonstrar inequivocamente que assim é. Se calhar é por isto que depois a conversa resvala para questões de fé.
2- O que aconteceu aos argentinos foi derivado da "mão visivel" do governador do banco central argentino e não da "mão invisivel" do mercado.

Publicado por: F COVAS em outubro 19, 2005 02:43 PM

é pá, ò Covas, essa noção de verdade absoluta acabou para aí no século XIX, além de que não há lei universal que diga que a água ferve a 100º (para já porque não ferve sempre a 100º, depende pelo menos da pressão atmosférica).

Publicado por: Gonçalo P. em outubro 19, 2005 03:40 PM

Sou leitor assiduo deste blog, mas o assunto discutido neste artigo tem como base uma suposicao errada.
"cada indivíduo é levado por uma espécie de "mão invisível" a tomar as decisões mais propícias ao bem comum...ou se tão generosa confiança depositada nessa mítica e brava figura: o Empresário" O que Adam Smith queria dizer e que o bravo empresario embuido do seu egoismo e ganancia na sua busca pela riqueza, acaba inevitavelmente por destribuir o fruto dessa mesma ganancia pela sociedade como que por efeito de uma metaforica mao invisivel. Nao que o empresario seja o sujeito altruista que manipula a mao invisivel como sugerido no artigo.

Se me perguntares que acho que este sistema e a panaceia...digo que nao, ainda tenho a utopia no meu horizonte, e e para la que caminho. Mas se perguntares que por agora e o melhor sistema que temos para lidar com a nossa necessidade de realizacao pessoal e egoismo, penso sinceramente que sim.

Melhores Cumprimentos

Luis

PS:Desculpem a falta de acentos e cedilhas mas o teclado que estou a utilizar nao os possui.

Publicado por: Luis Silva em outubro 19, 2005 03:43 PM

Luís,

Vais desculpar-me, mas não houve equívoco, dado que eu até estou ao corrente desse aspecto trans-individual do dogma...
Assim sendo, escrevi: "Isto quando deixado a agir por conta própria, em resposta apenas ao que ele julga serem os seus interesses egoístas " e "mesmo que de modo involuntário".

Publicado por: LR em outubro 19, 2005 04:22 PM

Publicado por: Filipe Castro em outubro 19, 2005 01:24 PM

Essa pila invisível deve ser a dos liberais americanos. Acontece é que, nesse território de pobreza, miséria e morte dominado pela ganância liberal, esse termo (liberal) tem outro significado: é uma espécie de socialista assim à Dean, Kerry ou à Kennedy, cheio de pasta e de ideias radicais. Enfim qualquer coisa entre o Mário Soares e o Francisco Louçã.

Publicado por: Pedro Oliveira em outubro 19, 2005 06:02 PM

Gostei :)

Publicado por: random em outubro 19, 2005 08:16 PM

é levado por uma espécie de "mão invisível" a tomar as decisões mais propícias ao bem comum...

acho que a formulação da tese não é bem esta mas pronto.....

Publicado por: Ezequiel em outubro 20, 2005 04:55 PM