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outubro 15, 2005

SÍMBOLOS E MEMÓRIA

«Portugal, claro, também não escapa à erosão da sua história recente. O salazarismo é simplesmente ignorado ou então é mantido nas versões estereotipadas dos que militaram contra ele. Os desfiles anuais do 25 de Abril, reproduzindo uma retórica gasta, expressam precisamente esse distanciamento. Assumindo a ritualização do contrato social, a domesticação da data revolucionária tende a transformar-se numa comemoração de si própria. Deste modo, as práticas cerimoniais assumem o paradoxo de fomentar o esquecimento: são fábricas do homogéneo, dirigidas para os seus símbolos. O acto de revivescência institucionaliza os produtos cívicos resultantes do fim da ditadura, mas não os problematiza nem os faz perdurar criticamente. Porque há uma luta pela hegemonia da memória, sempre numa lógica de consenso. Quando sabemos que o edifício da antiga sede da polícia política salazarista nunca será um museu porque ali foi projectado um condomínio de luxo, traduzimos plenamente a dimensão selvagem deste recalcamento simbólico-ideológico do nosso passado.»

Tiago Barbosa Ribeiro, n' a estrada

Publicado por José Mário Silva às outubro 15, 2005 07:11 PM

Comentários

Acertada reflexão. Precisamos de continuar pelo caminho que o José Gil abriu e, finalmente (30 anos depois), assumir o salazarismo como fenómeno cultural, muito para além de meramente político. Esta será uma área de renovação teórica e ideológica, onde dinossauros de direita ou esquerda não entram.

Publicado por: Valupi em outubro 19, 2005 03:21 AM