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outubro 14, 2005

IMAGENS FORTES

Gonçalo M. Tavares fala sobre «Os Emigrantes», de W. G. Sebald. É a apresentação do livro, organizada ontem ao fim da tarde pela editora (Teorema). O escritor português detém-se nos pequenos detalhes das quatro narrativas, nesses elementos que podem escapar aos leitores mais distraídos mas que de repente interrompem o fluxo do texto e lhe dão sentido, consistência, grandeza, intensidade. Pode ser o elevador apertadíssimo onde a mala do emigrante só cabe muito a custo, lugar de sufoco e chão instável. Pode ser a ideia da escrita associada à dor física, a partir de uma fotografia de Sebald em criança (ou será do narrador?), na carteira da escola, dobrado sobre o texto, sobre a escrita, como se algo lhe ardesse no peito. São «imagens fortes», como lhes chama Tavares, pouco depois de confessar que marcou as páginas do volume com guardanapos de papel. Guardanapos de papel daqueles muito finos, dos cafés, frágeis, quase transparentes, tão fáceis de rasgar, perdidos no meio das páginas densas de Sebald, páginas gradualmente mais negras, cheias de uma tristeza que se vai acumulando, como neve maldita, na memória do leitor. Gonçalo continua a falar de errâncias e comboios, mas eu já só penso nos guardanapos de papel. Para mim, eles fazem agora parte do livro (tanto quanto as fotos desfocadas que Sebald intercala no meio da prosa) e são mais uma das muitas «imagens fortes», à espera de explodir durante esse processo metamórfico que é a leitura.

Publicado por José Mário Silva às outubro 14, 2005 08:23 PM

Comentários

A propósito de imagens muito fortes, recoloco aqui este comentário que já coloquei lá em baixo e que me ficará como uma estóriazinha (mas exemplar) destas autárquicas:

No site do BE está lá um comunicado intitulado “Resultados do BE nas assembleias municipais” que começa assim: “O Bloco elegeu 114 deputados municipais, atingindo 5,8% da votação total dos concelhos onde concorreu”.

Isto é, para melhor impressionar os incautos , eles não dão os números do STAPE, que no caso da votação para as AM seria de 3,94%; eles tiraram a percentagem só dos 115 concelhos onde concorreram e omitiram que o universo das AM corresponde a 309 concelhos!

É a mesma lógica que preside ao absurdo da tese deles segundo a qual o Ruben é o candidato que mais falhou apesar de ter sido o único que ultrapassou a votação de há 8 meses, só porque as outras listas da CDU ainda ultrapassaram mais essa votação de 20 de Fevereiro!!!

É a tese de que o crime compensa: eles não conseguiram arranjar listas em 186 concelhos, mas não há problema, põem-se esses concelhos de lado, riscam-se do mapa e num passe de mágica a votação que foi de 3,94% passa a ser de 5,8%!

Quer isto dizer que se nas próximas eleições só concorrerem a uma AM (Salvaterra por exemplo) onde tenham garantidos uns 30%, poderão, dentro da sua lógica batoteira trombetear que passaram dos 5,8% para os 30%.

É a álgebra à lá carte do bloco, não há nada a fazer, eles são mesmo assim. É o género deles: serem contorcionistas trapalhões a armar ao pingarelho. Pode alguém confiar no que dizem?

Publicado por: Luís Simões em outubro 14, 2005 11:54 PM

Obviamente, Luís Simões, sofres de iliteracia.

Publicado por: Valupi em outubro 15, 2005 03:17 AM

E o Valupi pode trocar essa da "iliteracia" por miúdos?

Publicado por: Luís Simões em outubro 15, 2005 08:09 PM

(:

Publicado por: plim em outubro 15, 2005 10:39 PM

Vinte e quatro horas depois, o Valupi não soube trocar por miúdos...entrou como leão, saíu mudo e calado.

Publicado por: Luís Simões em outubro 16, 2005 09:43 AM

Há que mostrar magnanimidade quando se despacha com competência sobre o alfabetismo das pessoas dedicadas ao bando politico. Porque a inocência também gosta de dar opiniões sobre a ratice praticada pelos adversários. Não quebremos voluntàriamente a ninguém as pernas que um dia poderão servir para regressar ao ponto de partida e recomeçar novamente, escolhendo um novo caminho que poderá ser o mais certo entre tantas opções. Na realidade triste das coisas que nunca acontecem por acaso, os guerreiros simões da grande família partidária portuguesa são assim, simples, directos, abelhudos, expressamente doutrinados e injectados com duvidosas bravuras e ternuras para agitarem as lanças quixotescas ou dispararem as frechas angélicas, inconscientemente e sem cansaço, como mandam os costumes da grei proletária de acordo com os desejos e planos do ilusivo Arquitecto.

Um voto de pessoa muito boa que gasta um dinheirão em pomadas para aliviar tristezas e afugentar as raivas que brincam com o estado da pele fica aqui a beliscar por uns dias certas memórias que lerem isto, esperançadamente 5 por cento. Pouco mas muito ou decisivo em certos casos.

Que o ar viciado resultante dos debates acesos sobre as percentagens grangeadas pelos eleitos e justificações de pequenos crimes eleitorais não previstos na lei verificados durante a campanha conserve os pulmões dos simões à pressão óptima necessária ao prosseguimento, re-acendimento, re-direcção e re-confirmação da democracia e que a trave da língua, seca de não respirarem exclusivamente pelo nariz, não os impeça de proclamar no Teatro Municipal ou no Tivoli improvisado no barracão da fábrica que faliu mais uma grande empate na corrida ao poder que fez rebolar os melões de casca de carvalho da ultima safra.

Publicado por: Peido Mestre em outubro 16, 2005 11:14 AM

Bom seria que depois de derivas pseudo-moralistas e justiceiras nos concentrássemos no que a política tem de mais nobre: a defesa intransigente dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e a luta pelos direitos dos trabalhadores e das populações com menos recursos.

Publicado por: Luís Simões em outubro 16, 2005 12:49 PM

[olá Bomba]

Simões, se tu estivesses concentrado no essencial não serias o real pain in the ass que enche estas caixas com lençóis de irrelevâncias bolorentas. Se tu encarasses a política como uma actividade nobre, em vez de como uma actividade proselitista, não verias no BE um inimigo a abater, antes um aliado. Se tu fosses minimamente fiel ao ideal comunista, em vez de o seres somente à filiação partidária, estarias na rua a ajudar a legião de desvalidos, excluídos e oprimidos que enchem a tua retórica inane e não gastarias o precioso tempo sentado em frente ao computador a ladrar para um grupelho de burgueses que boceja com a tua intervenção.

Quanto à iliteracia, a frase que te suscitou a indelicadeza de ignorares o tema do post é absolutamente honesta, indica que a percentagem se refere apenas aos concelhos onde concorreu. Partires daí para escarrares um ataque ao BE expõe a tua iliteracia política: não sabes ler a realidade.

Publicado por: Valupi em outubro 16, 2005 08:36 PM

É isso mesmo que é grave. É eles considerarem só os concelhos onde concorreram e riscarem os outros do mapa para não lhes estragarem a estatística. E o que chamaria o Valupi a algum outro partido que fizesse isso? No mínimo pouco sério. É que os números do STAPE são referências universais para cidadãos, investigadores e media, nacionais e estrangeiros. Os deles são só para propaganda interna. Para mostrarem aos da tribo que são maiorzinhos do que são. Isto tem a importância que tem é só mais um episódio que estamos mais habituados a ver em seitas que se auto-marginalizam e que fazem gala dessa marginalidade, do que num partido político.

Mas ao que acho piada é que se alguém diz alguma coisa que os contrarie, aparecem logo os amigos tipo Valupi a salvá-los do "abate", em vez de tentarem perceber se o que se diz tem lógica ou pertinência. Tratam-nos como se fossem pirralhos mimados que não podem ser contrariados. E se crescessem todos, não seria mais saudável?

Publicado por: Luís Simões em outubro 16, 2005 09:12 PM

Simões, és patético.

Publicado por: Valupi em outubro 16, 2005 09:30 PM

Valupi: está-se a ver ao espelho?

Publicado por: Luís Simões em outubro 16, 2005 10:07 PM

Disse, em tempos, a senhora Ministra da Educação que pouco se lhe dava o problema de quem é que devia dar Inglês no 1º ciclo e que a medida não visava o emprego de professores mas antes o interesse dos alunos. Dificilmente alguém deixará de estar de acordo. Porém, não pode esquecer a senhora ministra que o objectivo referido não pode ser alcançado de forma abstracta e, naturalmente, ele se realiza num mundo concreto de interesses, por vezes, conflituantes de que não se pode alhear. E não é despicienda a questão de quem deve leccionar o Inglês e em que condições o deve fazer. Acontece que em conselhos da área metropolitana do Porto as coisas se passam de maneira tal que é uma admiração como ninguém as denuncia. Como é possível que uma Câmara Municipal, neste caso a de Vila Nova de Gaia, se sirva de jovens licenciados que fizeram estágio profissional e se encontram desempregados para lhes pagar sete euros e meio por aula sem contrato absolutamente algum? Quero sublinhar: sem contrato absolutamente algum. Mais ainda: trata-se de um pagamento de que o recebedor não passa qualquer recibo. Eu não entendo de legislação laboral mas isto ( que seguramente não é moral) não deve ser legal. Se é lamentável que na nossa sociedade haja indivíduos sem escrúpulos que se sirvam da existência de mão de obra barata para fazer exploração, o que dizer quando isso é feito por uma Câmara Municipal par implementar uma medida do Governo?
Amora da Silva

Publicado por: amora da silva em outubro 16, 2005 11:01 PM

Simões, Simões... esta mania que tu tens de andares a arranjar a arranjar lenha para te queimares. Não ficaste contente com abalroares as intenções posteiras do Zé Mário e depois ainda te dás ao luxo de descobrires nobreza de princípios na politica mas, atenção, só na área muito específica das palavras de ordem do partido onde militas. Depois rematas com a acusação de que precisamos crescer. Em suma, ficaste irremediavelmente traumatizado com o jogo baixo dos homenzinhos do BE e querias mais festa eleitoral, mais orgia dos números para entreter as donzelas, mais dança à la Margarida. E a media internacional, fiquei estupefacto, também vai ser induzida em erro como nós. Imagino-me a ler as grandes parangonas do Le Monde e do LA Times a corroborarem as tuas previsões. For God sake, Luis. Dá uma olhadela ao mundo para ver como é que param as modas. Há coisas muito mais importantes que as voltas que se dão aos números da salada autárquica portugesa.

E dou-te um exemplo do que considero não ser nem salada nem peixe frito. Se tiveres sorte, duvido, a esta hora já saberás da bronca que rebentou na Austrália com declarações dum ex-presidente da república Indonésia, um homem com um prestígio no seu país equivalente aos do Spinola, Eanes e Soares elevados ao cubo, depois de os destriparmos dos maiores defeitos. Segundo ele, a policia do seu pais ou os militares estiveram envolvidos nos atentados bombistas de Bali que fizeram centenas de mortos. E ao serviço de potências “ocidentais”, que é o mais bonito. O que isto tudo por associação nos leva a concluir é de que há muita emendazinha a ser feita à escrita do passado do teu partido, bem como à dos manipuladores de percentagens em eleições autárquicas, na área das definições e intenções do terrorismo internacional que cega tanta gente. E com um pouco de boa vontade da nossa parte talvez nos ajude a compreender também as razões íntimas e inconfessadas que levaram o Partido Comunista do Iraque a apresentar candidatos (275) em todos os circulos eleitorais nas “eleições” decretadas pelos ocupantes militares americanos.

O problema dos comunistas bem mandados, e acredito que bem intencionados, como tu é o de só muito tarde repararem que já basta de andarem a passear a preocupação de classe pelos jardins da irrelevância, enquanto lá fora e em certos cantos esconsos de cá dentro vai acontecendo aquilo que realmente importa a este planeta em matéria de “política”. Também lhes leva muito tempo a ver que os interesses do planeta e da humanidade não têm de estar sujeitos às regras dum jogo que se baseia em antagonismos de classe. É só com o tempo que naquilo que uns vêem confrontação outros verão apenas distracção.

E não sou eu que vou distrair-te, fazer perder-te essa preciosa concentração tão necessária ao teu estilo de trabalho partidário. Sei que conservas os olhos bem abertos, que ignoras o efeito da catarata ideológica e das vistas curtas e que regas isso tudo com uns bons copos da fonte marxista do materialismo histórico manipulado pelos intriguistas contemporâneos. Avante, Camarada! O Mundo pertence-te! Agarra-o antes que se esfume.

Publicado por: Bomba em outubro 17, 2005 10:48 AM

"os interesses do planeta e da humanidade não têm de estar sujeitos às regras dum jogo que se baseia em antagonismos de classe", diz o bomba. Tanto paleio para confessar o que já se sabia, que é mais um que acha que isso da luta de classes já foi. Só não se compreende é porque é que passam a vida a repetir isso. Deve ser para eles próprios acreditarem. Fique com a sua, bomba, que eu fico com a minha.

Publicado por: Luís Simões em outubro 17, 2005 11:43 PM