« ALGUNS LINKS SOBRE HAROLD PINTER | Entrada | UMA PONTE ENTRE DUAS PONTES »

outubro 13, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

Em Março de 2002, enquanto lutava contra um cancro no esófago, Harold Pinter escreveu este poema:

CANCER CELLS

"Cancer cells are those which have forgotten how to die."
(Nurse, Royal Marsden Hospital)


They have forgotten how to die
And so extend their killing life.

I and my tumour dearly fight.
Let's hope a double death is out.

I need to see my tumour dead
A tumour which forgets to die
But plans to murder me instead.

But I remember how to die
Though all my witnesses are dead.
But I remember what they said
Of tumours which would render them
As blind and dumb as they had been
Before the birth of that disease
Which brought the tumour into play.

The black cells will dry up and die
Or sing with joy and have their way.
They breed so quietly night and day,
You never know, they never say.

Publicado por José Mário Silva às outubro 13, 2005 01:10 PM

Comentários

Desculpa se a pergunta for de mau gosto, mas estes versos salvaram-no do cancro?

Publicado por: Filipe Moura em outubro 13, 2005 01:15 PM

Creio que sim. Pelo menos já passaram mais de três anos e ele continua vivo.

Publicado por: José Mário Silva em outubro 13, 2005 01:22 PM

Estes versos fazem-me lembrar a frase de um que não se salvou "I don't know what tomorrow will bring", o óbvio, de Pessoa obviamente.

Publicado por: JCV em outubro 13, 2005 02:03 PM

JCV,

Pessoa escreveu «I KNOW NOT what tomorrow will bring». Muito mais shakespeariano.

Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 03:07 PM

É verdade, citei de memória e errei.


MARAVILHA-TE, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.
Meus contos de fadas meus -
Rasgaram-lhe a última folha...
Meus cansaços são ateus
Dos deuses da minha escolha...

Mas tu, memória, condizes
Com o que nunca existiu...
Torna-me aos dias felizes
E deixa chorar quem riu

Publicado por: JCV em outubro 13, 2005 03:23 PM

[queremos mais, chiiiiu]

Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 03:57 PM

Há uma tradução deste poema numa das Tabacarias da casa Fernando Pessoa.
Diabo! Não tenho a revista aqui comigo.

Publicado por: Rui Amaral em outubro 13, 2005 04:21 PM


zé mário, não é possível meter aí um dos «coros para depois do assassinato» traduzido para português?

Publicado por: José Luís Tavares em outubro 13, 2005 04:40 PM

Aí vai uma tradução rapidinha, não será naturalmente do calibre das daquele cavaquista cheio de Graça, mas enfim...

Esqueceram-se de como morrer
E assim aumentam a sua vida assassina

Eu e o meu tumor lutamos intimamente
Esperamos que estaja por aí uma dupla morte

Necessito ver a morte o meu tumor morto
Um tumor que se esqueçe de morrer
Mas em vez disso planeia matar-me

Mas eu lembro-me de como morrer
Embora todas as minha testemunhas estejam mortas
Mas eu lembro o que disseram
De tumores que as superariam
Tão cegos e mudos como foram
Antes do nascimento deste mal
Que trouxe força ao tumor

As células negras secarão e morrerão
Ou cantarão de alegria e terão o seu caminho livre
Respiram tão calmamente dia e noite
Nunca o sabes, elas munca o dizem.

Publicado por: JCV em outubro 13, 2005 04:45 PM

"To render" não significa "superar". Neste caso é mais "que os deixariam" ou "que os tornariam".

Publicado por: LR em outubro 13, 2005 05:18 PM

José Luís Tavares, esse texto é do Edward Bond...

Publicado por: Francisco Frazão em outubro 13, 2005 07:28 PM

...choca-me ver alguém tratar com tanta superficialidade algo tão "gravemente triste"...Por certo nunca conviveram de perto com um problema análogo...O que é que importa a pureza da linguagem ou a "qualidade da tradução" quando comparado com um problema que causa sofrimento e dor aqueles que "O" transportam e a toda a gente que os rodeia... "elas" as ditas células nunca morrem pelo menos na memória daqueles que continuam por cá...

Publicado por: Ana Paula Dias em outubro 30, 2005 08:27 PM

Há que ter presença de espírito para compor um poema quando um tumor o consome por dentro. Harold Pinter, que marcou o teatro do século XX, mostra que para ele a arte é, de fato, maior que a vida.

Publicado por: Paulo Osrevni em junho 13, 2006 04:22 PM