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outubro 13, 2005

CUIDADO COM OS GUARDA-CHUVAS

Soube-se pelo jornal Público que esta tarde, em Paris, no Centro Cultural Calouste Gulbenkian, Agustina Bessa-Luís e Manuel António Pina irão debater «a literatura do Porto». Óptimo, só tenho pena de viver a três horas e muitos euros de TGV. Na notícia, até aí, nada de surpreendente, menos ainda de assustador.
A surpresa e (grrrr) o susto surgem quando se lê que «o encontro faz parte do programa paralelo às jornadas de ‘Littératures Métisses’», que arrancam amanhã em Poitou-Charentes. Compreenda-se bem: trata-se de um programa «paralelo» ao das Literaturas Mestiças, não de um programa «integrado» nelas. Ainda assim pergunto-me: porque é que haverá uma bela conversa (Agustina e Pina são dois fabulosos conversadores, além de dois magníficos cronistas), porque haverá essa conversa de meter-se debaixo do guarda-chuva da mestiçagem?
Nada contra os mestiços. Mestiços somos todos, para menos ou para mais. A questão está em que os poderosos (normalmente os organizadores, neste caso franceses) se consideram uns «puros», âmbito de que os outros (neste caso, os portugueses) rapidamente se vêem excluídos. Percebo: as «littératures métisses» são aquelas de que a língua se estende por vários continentes, caso da nossa. Mas alguma vez essa língua «métisse» será a francesa? Ou será mau feitio pensar que para a língua francesa está reservada a qualificação de «intercontinentale»?
Enquanto as coisas assim se mantiverem, colaborar na nossa exclusão não será o que de melhor há para uma tarde parisiense, julgo eu. Até porque, mesmo aquilo que temos de realmente bom – do Saramago ao Pauleta –, mesmo isso depressa é nacionalizado pelos poderosos imediatamente acima. Atenção: não quero exagerar a queixa. Mais vale repararem em nós pelo exotismo do que nos esquecerem de todo. Mas convém ter cuidado com os guarda-chuvas.
(Fernando Venâncio)

Publicado por José Mário Silva às outubro 13, 2005 12:12 PM

Comentários

Fernando, desculpa mas estou totalmente em desacordo.

Primeiro, tomara que houvesse outros paises que se interessassem tanto pela cultura portuguesa como a Franca.

Depois, qual e o problema de sermos mesticos? Na verdade nao e isso o que somos? Nao creio que haja nenhuma intencao depreciativa nesta classificacao por parte da organizacao, e mesmo que eventualmente houvesse essa intencao depreciativa eu nao a tomaria como tal.

Passando aos "finalmente", diz-me la quando e que se dedicou alguma atencao a literatura mestica na Holanda, na Amesterdao onde vives...

Parece que em questoes de cultura, pelo menos na Europa, a Franca continua a incomodar. Ou estou errado?

Publicado por: Filipe Moura em outubro 13, 2005 01:36 PM

Para ser mais claro, na minha ultima questao: ha uma altura no teu texto em que perguntas se "sera mau feitio..." Eu diria que sim; eu chamaria a este teu texto "de mau feitio". Compreendido?

Publicado por: Filipe Moura em outubro 13, 2005 01:38 PM

Que os franceses são chauvinistas e olham para as outras culturas com sobranceria, não é novidade. O que me assustou particularmente neste post, está no excerto "aquilo que temos de realmente bom – do Saramago ao Pauleta". Se um exemplo daquilo que temos de realmente bom é Saramago, não posso senão chorar pelo estado da cultura nacional...!

Publicado por: Gonçalinho em outubro 13, 2005 02:09 PM

Ah, Filipe, eu aprecio a frontalidade, eu capitulo perante ela. Mas creio que vês mal, ou eu não fui claro, ou deixei (claro que deixei) alguns cadilhos por desentrelaçar.

O que me incomoda não é a França, de que gosto à brava. Aprendi francês aos dez anos, falo-o fluentemente, tenho um bacharelato em literatura francesa. Adoro o país, calcorreei-lhe alguns lugares secretos - bom, há-de chegar.

Sei, também, que a França nos dá muita atenção, e até carinho. O que me incomoda é o tratamento de que, vezes de mais, nos vejo objecto. E, nisso, não interessa muito de donde vem. Terás de convir (suponho que terás) em que chamar «mestiço» a uma coisa que, sem procurar muito, se poderia igualmente chamar «intercontinental» não é prova de muito respeito. Dê por onde der, e havendo essa tão óbvia alternativa, «mestiço» é depreciativo.

Quanto à Holanda: só te digo que, em proporção ao número de habitantes, há incomparavelmente mais traduções (e deixa-me dizer-te, mais cuidadas, mais fiéis) de literatura nossa do que na França. Esta não sabias, provavelmente.


Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 02:15 PM

gonçalinho, de acordo quanto ao Saramago, mas, quanto a chauvinismos, deixemo-nos de chavões: com excepção de Portugal, que é subserviente em tudo e olha para tudo o que é estrangeiro com admiração, todos os países são culturalmente «chauvinistas» e garanto-lhe que a França é dos menos fechados neste capítulo. Olhe antes para os lados da Inglaterra e dos seus (dela) patrões americanos.

Publicado por: jm em outubro 13, 2005 02:32 PM

Gonçalinho e JM,

Desde quando é que Saramago não é uma das nossas grandezas?

(Respostas sérias ao Rossio, 11).

Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 03:12 PM

resposta a Fernando Venâncio: se o Saramago ganhou o Nobel é, evidentemente, uma das nossas grandezas, mas no universo, digamos, da fama, que, infelizmente, nem sempre coincide com o do «valor cultural». Isto é a minha opinião pessoal de leitor de Saramago, para mim um dos mais inconstantes escritores portugueses: vai do bonzinho ao péssimo. Leio-o, agrada-me que tenha ganho o prémio («se há-de ser prós porcos!») mas não o erijo em meu valor cultural só porque se tornou conhecido lá fora.

Publicado por: jm em outubro 13, 2005 04:36 PM

JM, aí está uma resposta séria.

MALTA, aquilo do «Rossio 11» erà rènar, pàzinhos! Suponho que o velho sítio das respostas a anúncios do DN já não existe, e se passou, há muito, com armas a bagagens, para o cimo da Av. da Liberdade.

Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 06:11 PM

Não percebo mesmo, Fernando. Diz que "trata-se de um programa «paralelo» ao das Literaturas Mestiças, não de um programa «integrado» nelas", depois mais à frente e no título diz que o encontro está debaixo do mesmo guarda-chuva. Diz isto, porque o encontro de Agustina e Pina é motivado pelo outro evento (sobre Literaturas Mestiças)? Este encontro está integrado no outro acontecimento, que provavelmente se desenrola em sessões paralelas, entre as quais se encontrará esta dos escritores Portugueses, é isso?
De uma maneira ou de outra, não vejo isto como uma exclusão, ou como uma visão depreciativa da nossa cultura. Pensar assim seria pensar a cultura Francesa actual como endemicamente chauvinista na sua relação com as outras culturas, o que não me parece certo, sequer justo. Parece-me, do modo como têm mudado as modas, que ser considerada a Literatura Portuguesa como Literatura Mestiça, de encontro de culturas, é (tida pelos franceses como) uma vantagem. Longe de provocar sustos, eles pretendem fazer um elogio, talvez uma provocação, mas nunca um insulto. Faço-me entender?

Publicado por: João Ribeirete em outubro 13, 2005 06:15 PM

onde se lê "é tida" pretendia-se "é tido".

Publicado por: João Ribeirete em outubro 13, 2005 06:24 PM


Os franceses são nossos amigos desde que Portugal reproduza a sua matriz cultural.
É assim com Manuel de Oliveira e César Monteiro no cinema e é assim nas outras artes.
O Saramago é capaz de ser dos poucos artistas que não é estrangeirado (não que isso tenha algo de mal). Enquanto alguns se passeavam pelos cafés e pelas universidades em Paris o Saramago exercia o seu oficio de serralheiro.
O facto de ter ganho o Nobel custa a muita gentinha.

Publicado por: bento em outubro 13, 2005 06:27 PM

se ser serralheiro é que forja bons escritores, por que é que eu não o sou? E o saramago, serralheiro também, por que é que o não é? Se o César Monteiro é de «matriz francesa» (ele, o mais português dos nossos artistas!) vou ali e não volto! Já agora, bento: o Saramago não é estrangeirado? Traduza-o para castelhano e lê uma espécie de copista dos latino-americanos, realistas mágicos e tal.

Publicado por: jm em outubro 13, 2005 07:10 PM

João Ribeirete,

A notícia dizia: «Os escritores Agustina Bessa-Luís e Manuel António Pina cruzam-se esta tarde em Paris, no Centre Cultural Calouste Gulbenkian, para um debate sobre a literatura do Porto moderado por Danielle Schramm.
O encontro faz parte do programa paralelo às jornadas Littératures Métisses en Poitou-Charentes, que arrancam já amanhã [...]».

Você concluirá da proximidade do «programa paralelo às jornadas» e das «jornadas» em si mesmas. E talvez deva reparar no artigo definido [«DO programa paralelo»], que faz supor mais uma concertação do que uma simples coincidência de iniciativas. Foi essa suposta concertação que eu subtilizei em guarda-chuva.

Claro que você e eu ficamos, aqui, dependentes da exactidão do jornalista de serviço.

Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 08:33 PM

E mais isto.

Escreve você que, com a designação LITERATURAS MESTIÇAS, «eles pretendem fazer um elogio, talvez uma provocação, mas nunca um insulto».

Digamos que eu, no que afirmei, me mantive longe de sugerir, na escolha dos termos, um INSULTO. Mas já me parece espectacularmente simpático adivinhar neles um ELOGIO.

Fiquemos, você e eu, no exacto meio. Sim, Ribeirete: trata-se, muito provavelmente, de uma PROVOCAÇÃO.

Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 08:41 PM

Já agora, os autores presentes nas jornadas mestiças do Poitou-Charantes são estes (fonte: http://www.lire-en-fete.culture.fr)

Agustina Bessa-Luís (Portugal), Dulce Maria Cardoso (Portugal), Modesto Carone (Brasil), Mário de Carvalho (Portugal), Lídia Jorge (Portugal), Jean-Yves Loude (França), Max Mallmann (Brasil), José Luís Peixoto (Portugal), Manuel António Pina (Portugal), Pedro Rosa-Mendes (Portugal), Moacyr Scliar (Brasil) e Márcio Souza (Brasil).

É uma bela escolha. Não conheço todos os brasileiros, mas atesto que Moacyr Scliar é um excelente efabulador.

Publicado por: fernando venâncio em outubro 13, 2005 08:57 PM

Bom dia, tive o grande prazer e honra de receber Agustina Bessa Luis e Manuel Antonio Pina no Centro cultural Gulbenkian en Paris, num encontro que abria o Festival de Poitou-Charente. A proposito de "Littérature métisses" o nome do festival, se trata de uma manifestação literaria generosa e aberta que tem o grande mérito de procurar fazer conhecer a literatura de outros paises na França e este ano particularmente a literatura de lingua portuguesa. O numero de pessoas presentes a cada encontro mostrou o interesse que o leitorado frances tem pela literatura portuguesa. Nâo entendo o seu mau humor a proposito de uma denominação - "littératures métisses" - que insiste sob as diversas literaturas portuguesas. Não é simpatico ? O português se escreve em Portugal, mas também no Brasil, na Africa, et até na Asia. Isso não é "metissage" ? E que linda palavra !
Lhe lembro qu a lingua francesa também serve uma literatura mestiça, do Québec, das Antilhas, da Africa do Norte e da Africa sub equatorial. Cordialmente

Publicado por: Danielle Schramm em novembro 11, 2005 11:01 PM