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outubro 11, 2005

AINDA SOBRE OS RESULTADOS DAS AUTÁRQUICAS

Já o dissemos aqui de outras formas, mas talvez convenha repetir: as análises aos resultados das eleições de domingo, feitas pela generalidade dos comentadores políticos e aceites como uma evidência quase unânime pelos noticiários televisivos, inflacionaram ostensivamente a derrota do PS (e a vitória do PSD).
Mesmo admitindo que o PS perdeu de forma clara o sufrágio, ao falhar o objectivo de recuperar os principais centros urbanos do país, o certo é que os seus resultados estão muito longe do falhanço clamoroso que alguns lhe apontam. Para começar, o número total de votos não terá ficado muito abaixo do valor conseguido pelo PSD (considerando que cabem aos sociais-democratas para aí 80% das votações obtidas em coligação com o CDS-PP), mesmo se este indicador de nada serve em eleições locais. Depois, na dança das autarquias que mudaram de mãos, constatamos que o saldo com o PSD foi nulo (13 câmaras ganhas; 13 câmaras perdidas), foi ganha uma câmara ao CDS, uma ao Movimento Partido da Terra, enquanto perderam duas para os independentes (contra uma recuperada) e sete para a CDU (contra duas ganhas). Ou seja, o PS foi buscar à direita e perdeu à esquerda.
Além disso, temos que considerar outro aspecto: o número de câmaras perdidas por uma unha negra. No caso do PS, o partido mais azarado nas disputas renhidas, foram 13 os municípios perdidos por cerca de 100 votos ou menos (há um caso, Manteigas, em que a diferença se limitou a um único voto, motivando um pedido de recontagem que ainda pode alterar o escrutínio final). Dessas 13 derrotas por margem mínima, dez foram em favor do PSD (que só perdeu duas câmaras por tão pouco).
É evidente que tudo isto vale o que vale, porque todas as vitórias têm o mesmo peso, sejam conseguidas por um ou por 100.000 votos de diferença. Mas se nos lembrarmos que o PS perdeu apenas quatro municípios em relação a 2001, não é difícil perceber que o saldo poderia ter sido outro.
Quanto ao suposto triunfo "em toda a linha" do PSD, não deixa igualmente de ser caricato, quando a comparação com as últimas autárquicas revela que o partido de Marques Mendes perdeu, no cômputo final, uma câmara.
Verdadeiros vencedores, só vejo dois: a CDU e os independentes. Mas a imagem da "vitória esmagadora" dos sociais-democratas, essa, já passou para a opinião pública como um facto consumado.

Publicado por José Mário Silva às outubro 11, 2005 11:46 PM

Comentários

Zé Mário,
Não podemos é esquecer que se trata de comparações com as eleições de 2001, uma verdadeira hecatombe para o PS — e alibi para a fuga de Guterres.
Esperar-se-ia uma re-aproximação à situação "normal"; o que aconteceu foi um aprofundar da desgraça, que agora se institui como "normalidade", modificando e muito os paradigmas anteriores.

Publicado por: LR em outubro 12, 2005 02:47 PM

A CDU pode ter ganho mas o povo perdeu com isso...no distrito de Setubal espera-se mais 4 anos de má gestao autarquica...

Publicado por: Meistre em outubro 12, 2005 03:09 PM

Sim, Luis, o termo de comparação (2001) é muito, muito mau. Mas, tendo em conta as circunstâncias actuais (crise económica gravíssima e contestação de muitos sectores da sociedade às medidas duras do Governo), seria de esperar uma punição maior do PS. A CDU, por exemplo, conseguiu capitalizar (salvo seja) parte desse descontentamento. O PSD não.
Creio que outro líder social-democrata, mais forte do que Marques Mendes, teria conseguido resultados muito melhores que poderiam ser, aí sim, verdadeiramente embaraçosos para José Sócrates.

Publicado por: José Mário Silva em outubro 12, 2005 03:49 PM

Zé Mário, tu acabas por terminar com a frase decisiva «a imagem da "vitória esmagadora" dos sociais-democratas, essa, já passou para a opinião pública». O que conta é mesmo a imagem até porque, como dizes, os votos totais são coisa de somenos numas autárquicas. O que conta são as câmaras conquistadas e aí o PS continua muito mal, especialmente quando apontadas as que são mais visíveis.

O que estas eleições deram para ver é que a esquerda continua bem e recomenda-se e que a CDU parece estar a reganhar algum fulgor. Por outro lado, não me parece que o Marques Mendes tenha tido um mau resultado. É verdade que o PS foi penalizado pelas medidas impopulares, mas o PSD ta,bém partiu de uma base muito baixa nas legislativas passadas.

No final, creio que ainda que o PSD não tenha massacrado nas eleições, as ganhou de forma clara (tem mais câmaras que os outros, isso é que conta). Por outro lado, à sua escala, a CDU teve um resultado muito bom. O PS, não tendo perdido tanto quanto poderia, acabou por as perder claramente por não ter conseguido capitalizar a imagem delas.

É que por mais voltas que dês, a imagem de vitória é dada em simultâneo pelo número de câmaras conquistadas e pelo resultado nas principais câmaras (especialmente nas capitais de distrito). E aí o PSD ganhou claramente.

Publicado por: João André em outubro 12, 2005 05:24 PM

UNIÃO DA ESQUERDA
A expressão «união da esquerda» vem sendo ao longo dos anos comummente utilizada pelo PCP, e mais recentemente também pelo BE. Na prática, esta “união” não significa mais do que uma renúncia consentida destes dois partidos aos seus ideais, em detrimento de uns presumidos ideais de “esquerda” do PS.

Esporadicamente, o PS também recorre a esta expressão, e quando o faz, além de ficarmos todos a saber que algo vai mal no reino “socialista”, na prática constatamos que o PS está a contar que, pelo menos um destes dois partidos de esquerda, renuncie às suas aspirações em prejuízo dos interesses do PS. Nunca, em caso algum, os “socialistas” utilizam esta expressão considerando renunciar às suas conveniências.

Sempre considerei enigmática esta vassalagem dos partidos de esquerda ao PS, pois, por muito que tenham tentado, ainda ninguém me conseguiu convencer que o PS é de esquerda e que o PSD é de direita. A única diferença que encontro entre os dois partidos – para além das personalidades que os dirigem – é que o PS se auto-denomina de centro-esquerda, e o PSD de centro-direita.

Esta diferença de mera assunção denominativa, aparentemente, é ainda o motivo bastante para obstar a qualquer entendimento político mais abrangente em assuntos de interesse nacional que nada têm a ver com as ideologias em causa.

http://geracao-rasca.blogspot.com

Publicado por: André Carvalho em outubro 12, 2005 09:41 PM

Caro José Mário, o DN prestou em péssimo serviço na segunda-feira. Um título interior (pág. 2, se não estou em erro) falava em pais esmagadoramente laranja e era nitida no mapa por baixo uma mancha laranja praticamente em igualdade...

É claro que o PS não ganhou, manteve -- o que já é bom tendo em conta o desgaste acelerado a que hoje em dia os governos são submetidos. É claro que o PSD ganhou alguma coisa - mas menos do que poderia, e ainda bem para o próprio PSD porquer foi feito à custa de medidas louváveis.

O vencedor é efectivamente o PCP (CDU).

Publicado por: Paulo em outubro 12, 2005 11:47 PM

Se pegarmos nos resultados de 9 de Out e se os compararmos com os de 20 de Fev (Câmaras e hoje já finais), ver-se-á que a soma dos resultados dos 3 partidos associados à esquerda revelam uma quebra de 688.843 votos, assim distribuídos:

O PS passou de 2.573.869 para 1.931.564, isto é menos 642.305 votos;

A CDU passou dos 432.009 votos para os 590.657, isto é teve mais 158.648 votos;

O BE passou dos 364.430 para os 159.244, isto é menos 205.186 votos;

Resumindo: enquanto em 20 Fev os três tiveram 3.370.308, agora só conseguiram 2.681.465 votos.

Para reflectirmos todos em plena pré-campanha das presidenciais: em 1986 Soares foi eleito “à pele” com 3.010.756 votos, Jorge Sampaio em 1996 foi eleito com 3.035.156 votos. Ora, hoje, os 3 associados à esquerda somam apenas 2.681.465...

Publicado por: Margarida em outubro 13, 2005 09:16 PM

Margarida, continua a comparar os resultados das eleições parlamentares com os das eleições autárquicas.
Mesmo assim, mantendo a sua forma de comparação eleitoral, podia completar o quadro com o número de eleições locais a que concorreu cada um dos partidos...

Publicado por: CausasPerdidas em outubro 15, 2005 01:25 AM

Causas Perdidas

A seu pedido cá vai o número das eleições locais a que cada um concorreu:

PS - 307 (CM); 307 (AM); 3715 (AF)
CDU - 301 (CM); 301 (AM); 2240 (AF)
BE - 111 (CM); 115 (AM); 448 (AF)

Lembro que o total nacional dessas autarquias é o seguinte:

CM - 308; AM - 308; AF - 4.260


Publicado por: Margarida em outubro 15, 2005 11:12 PM

E continua a subtrair aos votos das legislativas?

Publicado por: CausasPerdidas em outubro 16, 2005 01:03 AM

Causas Perdidas

Mas essa extrapolação foram BE e PS que a fizeram em Abril, Maio, Junho, Julho deste ano, lembra-se? E o PCP sempre a contrariou...Eu só lhe estou a mostrar como seguindo essa lógica do BE e PS se podem fazer leituras dos resultados eleitorais. Foram BE e PS quem abriram o flanco. Agora não têm moral para se queixarem. Só podem comer e calar.

Publicado por: Luís Simões em outubro 16, 2005 09:52 AM

A sondagem real!


Honório Novo, deputado do PCP, JN, 17/10/05

Uma semana depois a poeira assentou e as declarações pomposas já produziram os efeitos pretendidos, sendo agora tempo de confrontar os resultados reais com os discursos de circunstância e com as perspectivas criadas antes do acto eleitoral de 9 de Outubro.

É verdade que o PSD tem o maior número de presidências de Câmara. Só que isso já sucedia e os resultados mostram que, entre 2001 e 2005, o PSD passa afinal de 159 para 158 presidências. É verdade que o Porto, Lisboa, Coimbra ou Sintra têm presidentes do PSD (e que tal tem indesmentível importância política), mas a verdade é que isso já ocorria há quatro anos. Em suma o PSD pouco ganhou de concreto e o PS não só nada ganhou como nada ganhará nestes como noutros concelhos se insistir em impor a sua vontade sem olhar nem atender à força, ao projecto e à alternativa real que existe à sua esquerda e que sai destas eleições bem reforçada. O exemplo maior está em Lisboa onde a Direita só ganha porque o autismo do PS preferiu romper o acordo existente...

Os números da "sondagem real" mostram muito bem quem é que ganha estas eleições em todos os seus parâmetros; quem, em comparação com 2001, obteve mais votos, mais presidências de Câmara, mais vereadores, mais eleitos em assembleias municipais, mais presidentes de Junta e mais eleitos em assembleias de freguesia. Esta comparação global mostra que há uma única força partidária que em 2005 sai reforçada em qualquer um dos seis "parâmetros eleitorais" que estavam em jogo a 9 de Outubro.

Claro que há outros números para confrontar com as perspectivas criadas antes do acto eleitoral e que põem a nu escandalosos proteccionismos. O BE não multiplicou nem por sete nem por dez os seus votos de 2001, sendo verdade que se o PS passa em oito meses de 45% para 36%, também os bloquistas passam no mesmo tempo de quase 7% para menos de 3%, perdem mais de 200 mil votos, não reforçam a sua única maioria presidencial, perdem três das seis presidências de freguesia que detinham, e afundam-se no Porto ao fazer de Rui Sá e da CDU obsessões fundamentais.

Finalmente as sondagens. O papel que representaram merece ser analisado com rigor. Não é que não suceda noutros actos eleitorais, só que os erros que vezes demais ocorrem (vejam-se os casos de Lisboa e do Porto com os "empates técnicos de última hora"…), a par do condicionamento que provocam, é, nas eleições autárquicas, multiplicado e amplificado com consequências incalculáveis na autenticidade dos resultados.

Quando, por exemplo, uma empresa de sondagens reconhece (embora a posteriori) que a "amostra seleccionada estava muito longe de ser representativa" dos eleitores de um dado concelho, quando admite que as "sondagens podem influenciar o comportamento" (isto é, o voto real) dos eleitores, cabe perguntar quem e com que objectivos concretos encomenda e divulga estes "estudos de opinião"? Quem e com que objectivos os mediatiza tão fortemente, durante toda uma campanha eleitoral, até mesmo no seu último dia?

Quem aceita participar nesta perturbação do normal processo de reflexão que antecede a opção de voto não é inocente, visa interferir e condicionar os resultados finais. Sobretudo em eleições autárquicas onde muitas presidências ou a composição de executivos (e suas maiorias) se jogam tantas vezes por meia dúzia de votos. Obtidos os efeitos pretendidos fecham-se em copas, erguem muros de silêncio, esquecem as "maravilhosas" sondagens que propagandearam … até ao próximo acto eleitoral onde regressarão com a habitual capa de isenção!

E que tal um estudo de opinião sério e representativo que mostre quais os efeitos provocados por "sondagens" encomendadas? E que tal ponderar sobre as suas consequências, voltando quiçá a impedir o regabofe da sua divulgação durante os últimos dias de campanha?

Publicado por: Luís Simões em outubro 17, 2005 04:08 PM