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outubro 08, 2005

O CIBERARQUEÓLOGO

Fernando Venâncio, nosso prezadíssimo itálico ocasional, escreve na edição desta semana do «Expresso» um interessante artigo sobre o Terràvista, essa aventura que prenunciou, no final da década de 90, o que viria a ser o furor blogosférico dos últimos três anos.
Eis um excerto do texto, intitulado «Testemunhos ciberarqueológicos»:

Em Março de 1997, surgia um portal português de Internet que visava um grande público. O Terràvista, de visual e arquitectura modelares, caiu no goto e entusiasmou milhares de internautas. Albergava fóruns de discussão e páginas pessoais gratuitas de 2Mg, um luxo para a época. Gente com vontade de falar criou dependências nos fóruns da «Noite», de «Gentes e Lugares» e da «Lusofonia». Neste, conversavam portugueses, brasileiros, angolanos, macaenses, galegos, outros ainda.
«A internet marcou-nos a todos», diz Francisco Napoleão, 26 anos, a fazer um mestrado em Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa. «Tinha um acervo de crioulos portugueses. Eram um fascínio e queria divulgá-los. Surge então o Terràvista, com um sucesso enorme. É aí que coloco os meus crioulos». Visionário, informadíssimo, não raro brilhante, Francisco incendiava o fórum, mas pagava-o caro. Moviam-no as causas de Olivença, do mirandês, do galego. Durante meses, um jovem de 18 anos lutou contra a imagem de activista fascizante, quando ele adorava a sua Lisboa crioula e advogava um regresso a África e ao Brasil, «mas desta vez em poligamia».

(...) Margarida Paredes possuía um «franchising» de decoração e mobiliário «country chic» na linha do Estoril, um casamento de 20 anos e um filho adolescente. Enquanto os homens dormiam, ela conversava com os lusófonos das sete partidas. «Todos lidávamos com rupturas históricas, culturais ou pessoais, e ali enfrentávamos os nossos fantasmas». Ao fórum eram levadas as doenças, as crises matrimoniais, as tricas burocráticas. E, como a qualquer bar do país, a candente actualidade. Eram os touros de morte de Barrancos, era a regionalização, o serviço militar, a imigração ilegal, a adopção por casais «gay». Foi, durante meses, a Expo-98. Seria, mais tarde, o Nobel de Saramago. E Timor.
(...) O Terràvista, esse projecto governamental único no mundo, ia ser, a 29 de Julho de 1998, e sem aviso prévio, encerrado pelo então ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho. Motivo: uma página com pornografia.
Haveria decerto algumas mais. Nada de patético entre cerca 28 mil páginas pessoais de outros tantos «marujos». A cibercomunidade indigna-se perante a reacção desproporcionada. Mais tarde se saberá que a fórmula de ouro - um portal público sem opressões comerciais - se tornara um quebra-cabeças orçamental. O abuso pornográfico era um pretexto, e nem o mais elegante. No EXPRESSO de 8-8-1998, escrevia Paulo Querido: «O que todos sabíamos, mas não importava, tornou-se subitamente crucial: o ministro da Cultura não liga à Internet, portanto não podia avaliar o alcance da medida que ia tomar. Chama-se a isto governar no escuro».
(...) «Perico», de nome Gonzalo González, é técnico informático em Vigo e animador cultural do casco histórico. Recorda essa época da Internet como de liberdade plena, ainda sem legislação. «Como técnico, eu sabia que ela iria acabar, que um dia surgiria um controlo, que seriam desenvolvidas pistas, criados filtros, concebidos para rastrear pornografia infantil, mas à disposição dos poderes. Nos fóruns actuais, a censura já foi interiorizada».
(...) O pano cairia definitivamente a 31 de Maio de 2001, cortando assim o fio à cavaqueira. «Nessa noite», recorda «Omar Salgado», «em vez de adeuses online, fomos todos jantar. À meia-noite exacta, ergueu-se o champanhe». Os actuais fóruns do Terravista (a grafia, sem acento, não é inocente) são sobretudo «placards» de anúncios grátis, onde - quem o diria - a oferta sexual é abundante. Conversa não há. Os actuais debates fazem-se nos «blogues» ou em bem estruturados «newsgroups».

[O artigo completo pode ser lido na revista «Única» do jornal «Expresso»]

Publicado por José Mário Silva às outubro 8, 2005 11:19 AM

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