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outubro 09, 2005

BAS FONDS

O texto que Clara Ferreira Alves escreveu sobre o Katrina é uma descida surpreendente, vinda de quem vem, aos bas fonds do abafado microclima mental padronizado pelos escritos de Helena Matos.
Porquê?
Ao que parece, entre as inúmeras campanhas de solidariedade com as vítimas do Katrina lançadas nos Estados Unidos, CFA apenas detectou uma, protagonizada por pretos abastados, que se equipare às campanhas lançadas por figuras destacadas do universo mediático americano branco.
Partindo do princípio que CFA tem um conhecimento exaustivo de todas as campanhas de solidariedade lançadas nos EUA e que nelas não existem pretos envolvidos mesmo anonimamente, de modo a concluir da total ausência de solidariedade dos pretos para com os seus "irmãos de raça", porque razão é que estes, e em particular os "moguls" ricos e arrogantes da musica rap, terão mais obrigação de acudir aos seus compatriotas de New Orleans do que a generalidade da população dos Estados Unidos...?
Por uma lógica sinistra:
É porque são pretos, ao que parece a cor da maioria das vítimas.
Esta teoria da especialização étnica das solidariedades, tal como outras teorias idênticas, baseadas na região, no género, na religião ou na orientação sexual, nega os fundamentos de uma sociedade democrática, plural e multirracial e apesar de aparecer no texto como uma reacção espontânea e indignada às críticas que foram feitas, desde os primeiros dias após o desastre, a Bush e à sua Administração, cheira a argumento de "dammage control" chocado à pressa num qualquer think tank republicano.
Esquece, no entanto, que os moguls e estrelas cadentes do rap, nas suas vestes espampanantes, modos e gostos apalhaçados contradizendo uma retórica muitas vezes aparentemente sulfurosa mas que nada tem também a ver com as origens e práticas dos criadores do rap e militantes dos direitos civis de outras épocas, apenas alimentam um "cluster industrial" de ponta na penetração dos valores do "american way of life", e são pura e simplesmente membros ricos e poderosos da sociedade americana a cujos princípios aderem, não havendo assim razões para uma "sensibilidade social" particular.
Acaso os brancos ricos sentem alguma compaixão particular pelos brancos pobres pelo facto de estes serem brancos, ou quando assim sucede deverão discriminar a sua solidariedade em primeiro lugar aos infortunados de idêntica cor de pele?
Não é assim preciso puxar muito pela cabeça para ver o conteúdo potencialmente racista deste tipo de análise, aliás complementar de uma outra "tese" profundamente difundida entre o "senso comum" dos portugueses e que dá um jeitão para fundamentar directa ou indirectamente os ghettos sociais e económicos para onde é empurrada grande parte da nossa população preta. A saber: "os pretos são os piores racistas para os pretos".
Mesmo que genuinamente chocada com a indiferença dos pretos ricos, talvez Clara Ferreira Alves devesse pensar um pouco nas consequências de um texto deste tipo, começando por reflectir sobre a razão da sua particular revolta perante a indiferença dos pretos ricos.

Publicado por tchernignobyl às outubro 9, 2005 12:20 AM

Comentários

Quando acabei de ler esse texto da Clara Ferreira Alves (o da Helena de Matos não conhecia), veio-me à memória uma frase batida e um remate estadonidense: "É a Luta de Classes, estúpida".

Publicado por: CausasPerdidas em outubro 9, 2005 03:19 AM

Refiro a HM apenas por uma questão de "enquadramento" para se perceber a dimensão da tragédia intelectual, não li nada escrito por ela sobre o katrina.
pois... a luta de classes... é na verdade uma coisa incómoda.

Publicado por: tchernignobyl em outubro 9, 2005 08:24 AM

Não concordo de todo com o comentário ao texto de CFA (e noto que normalmente não gosto dos textos de CFA). A verdade é que (penso que com a notável excepção de jogadores da NBA) não se viram 50Cent's ou Spike Lee's em New Orleans. Antes de acusarmos outros de nos prejudicar, devemos nós próprios dar exemplos e a sociedade "Afro-american" falhou rotundamente neste caso.
É preciso recordar que nas sociedades anglo-saxónicas a concessão de donativos está profundamente enraizada (até por isso as organizações da chamada sociedade civil são muito mais independentes do que nos países latinos), pelo que esta situação me parece particularmente criticável.
Não sei se "brancos ricos" sentem mais compaixão por "brancos pobres". Sei contudo que a notícia de uma tragédia em Portugal ou nos PALOPs (lembram-se das cheias em Moçambique ou de Timor ?) impressiona mais em Portugal. E não deve ser assim ?!

Publicado por: Jorge Lúcio em outubro 9, 2005 09:54 AM

Que bando de idiotas nós somos: eles, nós, a Clara Ferreira Alves, quem escreveu este post e eu.
Podemos dizer o que quisermos porque nada vai ajudar quem precisa.
E existe racismo de todas as maneiras, conhecidas e desconhecidas.

Publicado por: Fatima Cordeiro em outubro 9, 2005 01:03 PM

CFA se calhar generalizou, mas será que não colocou o dedo na ferida que já está purulenta?

Num 'link' aqui colocado, e que nos atirava para o 'blog' Moçambique para todos, P.Preto, em irritado comentário, tentava a justificação e falava em concertos em benefício dos atingidos pelo Katrina, onde pontificaram nomes como Rod Stewart, Paul Simon, Neil Young, Mariah Carey, e muitos outros, que não me consta serem negros!

Por outro lado, querer esconder que o racismo entre negros existe, é apenas mais uma das meneiras existentes de perpetuar esse racismo e desinteresse, fruto da generalidade de uma falta de educação e de civismo, que emana da irresponsabilidade das políticas estado-unidenses, mas comuns a tantos outros países.

CFA, mais uma vez, esteve bem, ao alertar para este assunto, mau grado as mossas que ele possa fazer no políticamente correcto discurso de uma certa esquerda caviar.

Quanto à especialização das solidariedades, bataria talvez dizer, que será mais lógico que eu tenha mais pena da perna partida do meu vizinho, do que da que partiu o colega de quarto da prima da namorada do meu primo Armindo que já não vejo há mais de cinco anos.

Publicado por: Teofilo M. em outubro 9, 2005 01:13 PM

Nao sabia que CFA escrevia na imprensa. Ouvi dizer que ela tinha plagiado um texto qualquer e que tinha sido despedida.

O texto e patetico, duma estupidez e ignorancia confrangedoras, mas sobretudo misterioso: sera que ela conviveu todos aqueles anos com Stephan Jay Gould e nunca leu "The Mismeasure of Man"? "Raca negra" e uma expressao que aqui so se ouve nos rallies do Ku Klux Klan.

A "sociedade 'Afro-american'" do comentario aqui em baixo nao existe. Os americanos que se veem a si proprios como African-Americans tem valores muito diversos, aspiracoes muito diversas, e a unica coisa que os une verdadeiramente e serem vitimas dos olhares ignorantes de quem os tenta meter a todos no mesmo saco.

Publicado por: Filipe Castro em outubro 9, 2005 03:05 PM

O racismo não existe. O que existe é a discriminação, a qual se exerce em todos os locais onde se juntam seres humanos, incluindo a família, a escola e o trabalho - e se abate sobre qualquer um, independentemente da pigmentação.

Porém, há racismo. Está inscrito na genética e não há discurso que o anule. Só que essa é uma outra história.

Publicado por: Valupi em outubro 9, 2005 03:10 PM

Filipe Castro: quem plagiou foi a Clara Pinto Correia, não a Clara Ferreira Alves.
Quanto ao comentário de o que une um grupo são os preconceitos dos outros, parece-me bastante paternalista...
Aliás, o Bill Cosby (podemos considerá-lo "Afro-american" apesar de ter sucesso na Hollywood dos brancos ?) critica severamente os seus irmãos de raça, exactamente por perderem mais tempo a criticar os WASPs no lugar de aproveitarem as oportunidades que se oferecem a quem teve a sorte de nascer numa país desenvolvido. Não quero parecer demagógico, mas será que no Ruanda ou no Sudão os protestos seriam os mesmos ?

Publicado por: Jorge Lúcio em outubro 9, 2005 03:15 PM

É engraçado quando o racismo se manifesta sem o emissor se sentir racista. Descriminação positiva é o que mais grassa por aí.
Um dia destes ouvi o meu filho mais velho descrever ao irmão um senhor que estava a ver: "aquele ali, o das calças brancas!, não vês, aquele, todo musculoso." Não lhe disse que era preto e o outro não respondeu "ah, aquele, preto?" e sim "ah, aquele com o cabelo rapado?". E foi com toda a naturalidade, não têm ainda a consciência do politicamente correcto. Fiquei satisfeita: os meus filhos, tal como eu, não são racistas.

Publicado por: susana em outubro 9, 2005 03:52 PM

acho muito bem que se desmascare estes «pensadores» neocons, sejam de direita ou esquerda, homens ou mulheres, pretos ou brancos. Estamos fartos das banalidades dessa gente. Imagine-se que li uma coisa da CFA sobre o Guerra e Paz de Tolstói em que ela, no meio de muitos lirismos, da neve, do frio e da alma russa, debitava as velhas balelas do «general inverno» que teria derrotado Napoleão (e não o heroísmo do povo russo em luta contra os invasores), como se os russos fossem imunes ao frio do inverno deles. Isto quando a tese principal da Guerra e Paz é precisamente a denúncia (com factos históricos) destas tretas!

Publicado por: jm em outubro 9, 2005 06:03 PM


Como não podia deixar de ser, o texto da CFA (como sucede em geral com os textos da outra criatura citada) foi abundantemente postado em blogues racistas e "neonazis" por cá.

Publicado por: Pedro Jorge em outubro 9, 2005 07:24 PM

Pois é! Confusao de Claras!! Peco desculpa. Esta nao deve ter lido os livros do SJG.

Mas o que eu digo é que meter todas as pessoas com feicoes remotamente africanas no mesmo saco aqui chama-se etnomania e é o mesmo que dizer que "os judeus" tem uma conspiracao para dominar o mundo, ou que foram "os nus" que desenvolveram a Fonte da Telha. :-)

Mas sao so os "wasps" (e a CFA) que acham que as pessoas com feicoes mais ou menos africanas se consideram todas "brothers and sisters" celebram o kwanzaa, veem o canal BE e ja nao torcem pelo Tiger Woods porque a direita divulgou o facto dele ter avos caribenhos.

Publicado por: Filipe Castro em outubro 10, 2005 02:57 AM

Muito bem.
Boa análise, boas conclusões.

Publicado por: Gabriel Silva em outubro 10, 2005 10:19 AM

HOMME DE COLEUR


Quand je suis né, j'étais noir.
Quand j'ai grandi, j'étais noir.
Quand j'ai peur, je suis noir.
Quand je vais au soleil, je suis noir.
Quand je suis malade, je suis noir.

Tandis que toi "homme BLANC"
quand tu es né, tu étais rose,
quand tu as grandi, tu est devenu blanc,
quand tu vas au soleil, tu deviens rouge,
quand tu as froid, tu deviens bleu,
quand tu as peur, tu deviens vert,
quand tu es malade, tu deviens jaune,

Et après ça tu as le toupet de m'appeler :

"homme de couleur !"

Auteur anonyme

Publicado por: Bomba em outubro 10, 2005 11:58 AM

Esse poema é giro. Estava na cantina da minha universidade do ano passado (Estrasburgo). Mas o problema continua.

Fala-se de New Orleans e toda a gente comenta o facto de a população ser maioritariamente negra (ou preta, consoante se fale para uma televisão ou para um grupo de amigos). E o problema está lá na mesma. Se eu digo negro na TV ou nos jornais e preto em casa sou ou não sou racista? Se eu digo que não sou racista mas na Damaia tenho medo quando me cruzo com um preto, venha ou não da Cova da Moura sou racista ou cauteloso?

Mais que acusar outros de serem racistas (independentemente do texto da CFA ser uma idiotice pegada) o melhor seria que cada um olhasse para os seus próprios actos, para as suas próprias generalizações e visse o seu próprio racismo. Eu tento não ser racista. Não faço ideia se consigo ou não.

Publicado por: Nelson em outubro 10, 2005 02:25 PM

nelson.... dou a mão à palmatória. mas há que distinguir entre racismo encapotado e anti-racismo anedótico.
e confesso que o anti racismo anedótico já fez aqui uma vítima: eu.
há uns tempos atrás eu usava a expressão "negro" pensando que era a designação "correcta". logo comentadores furiosos me deram tanto na cabeça que mudei para preto apenas para não alimentar discussões fúteis.
mas francamente ainda não percebi o alcance dessa distinção lexical... talvez alguém me dê agora uma ajuda.

Publicado por: tchernignobyl em outubro 10, 2005 07:14 PM

lol!
tambem li o artigo da clara. ridiculo. apoio o que foi dito aqui pelo tchernobyllili... e espero que tambem possa circular via email pela internet como circulou o dela.
para ja ela nao faz a minima do k se passa por la em termos de ajuda por parte da comunidade negra, muitos rappers ricos e famosos "e alguns arrogantes sao simples american dreams sim senhor", ja difundem a sua mensagem por outro meios antes de acontecerem as desgraças pois sabem do k se passa, nao tenho a certeza mas acho que a comunidade negra nao passou a ficar chatiada com esses rappers por causa disso pk a clara havia de ficar? o snoop dogg por exemplo faz trabalho comunitario com jovens desfavorecidos socio economicamente, e nem por isso tem k reagir como se fosse uma surpresa uma catastrofe como akela. nao é surpresa para quem a vive no dia a dia. alguem liga ao que esta escrito nos graffitis nas paredes?alguem liga ás letras das musicas que falam sobre o que pensam muitas pessoas de todas as cores que vivem em determinadas zonas? viram a maneira como ela fala da cultura urbana que segundo ela domina o mundo? terminando com um yo totalmente depreciativo?
por favor enviem este site á clara e aos vossos amigos.
abraços

Publicado por: zé marsupilami em novembro 8, 2005 03:52 PM