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setembro 19, 2005

APÓS AS ELEIÇÕES ALEMÃS

Aproximadamente, os votos perdidos pelos democratas cristãos vão directamente para os liberais, e os perdidos pelos social-democratas directamente para os ex-comunistas.
É impossível formar-se um governo de direita. Mesmo tendo a CDU sido o grupo mais votado, estes resultados traduzem uma insofismável viragem à esquerda da Alemanha. Um governo que não traduza essa viragem à esquerda não estará a respeitar a vontade transmitida pelo povo alemão.

Publicado por Filipe Moura às setembro 19, 2005 09:20 PM

Comentários

Parabéns à esquerda transformadora do PDS.

Publicado por: Adaúfe em setembro 19, 2005 10:38 PM

Um governo que reúna uma maioria do voto alemão estará representando a vontade alemã. O que gostarias de ver representado, Filipe, é o sentido da mudança no voto alemão. Mas isso é uma coisa distinta da maioria alemã. Pela tua lógica o governo françês para representar o sentido das mudanças no voto do povo françês em futuras eleições deverá incluir a FN mesmo que houvesse uma possibilidade de governo estável em uma coligação entre partidos de centro-direita e centro-esquerda, só por uma fuga de votos á direita? Não gostamos dos Haiders em um sentido mas no outro achamos piada?

Publicado por: Caetera em setembro 19, 2005 11:29 PM

Só existem duas hipóteses razoáveis nisto tudo: ou o Partido dos Verdes se alia a uma coligação da direita no governo, ou um bloco-central SPD-CDU. Se os Verdes forem inteligentes farão o primeiro, se forem estúpidos darão o poder ao SPD no seu lugar. Pela minha parte preferia um governo de bloco central, ou seja que os Verdes fossem estúpidos

Publicado por: Caetera em setembro 19, 2005 11:32 PM

Não concordo com a tua leitura Filipe. O que os alemães demonstraram nestas eleições é que ainda não estão preparados (alguma vez o estarão?) para perder o seu estado social e abraçar o liberalismo. Seja como for, se os liberais não têm afirmado que apenas iriam em coligação com a CDU/CSU, neste momento haveria boas possibilidades de os democratas-cristãos estarem uns bons 5 pontos percentuais à frente do SPD (não, não é exagero, pelo menos em contas de Bundestag).

Caetera: os Verdes não farão governo. Estão preparados e determinados a irem para a oposição. Estiveram 7 anos no governo e não foram beliscados por isso. Irem para uma coligação com a CDU seria o mesmo que o FPD ir para uma coligação com o SPD: uma traição ao seu eleitorado. A solução vai passar quase inevitavelmente por uma grande coligação, mas o problema é que não deverá durar muito mais que um ano. É que a Alemanha não é Portugal e os blocos centrais não funcionam.

Publicado por: João André em setembro 20, 2005 12:27 AM

(1) Já que a maioria dos deputados é de esquerda, assim deveria ser o Governo.
Mas o SPD comprometeu-se a não fazer Governo com o Partido da Esquerda.
(2) Então, pode formar governo a CDU/CSU com o FDP e os Verdes.
Mas os Verdes não querem nada com CDU/CSU-FDP.
(3) Então, só resta mesmo a «Grande Coligação».
Mas essa é a solução nitroglicerina...

Publicado por: Ricardo Alves em setembro 20, 2005 01:19 AM

Mais uma vez a esquerda batoteira mostra a sua verdadeira face.

Publicado por: fidel em setembro 20, 2005 09:57 AM

Filiep, queria ver-te a escrever este comentário caso tivesse sucedido o contrário.

Publicado por: André em setembro 20, 2005 11:28 AM

Um motor chamado Amor


J. e S. olham-se à distância. Ela está sentada num banco, tem os lábios pintados de vermelho e as pálpebras carregadas de pretidão. Ele está a acabar a jogatana com os amigos, marcou um golaço com o pé esquerdo; nem foi um grande remate,conquanto disparou o esférico com o pé que estava mais à mão. A mãe avisa-o no entanto: Ó J. tem cuidado que partes os vidros da vizinha e depois é um caso sério!!
Falo numa empatia ultra-magnética, o olhar deles cruza-se. J. filtra S., S. mira J., um sujeito garboso que de momento tem o motor corporal em trepidação. Respira fundo e vai ter com ela. Entrementes os inevitáveis pensamentos de quem nasceu ontem e tem a pulsação em lume alto. Escutemos pois o teor introspectivo de J.( Ela é tão bonita, palavra de Deus que é, Kant vivendo hoje reformularia o conceito de Belo por certo. Eu sei que o céu pode ser cor-de-rosa, se qual barqueiro navegasse no seu corpo que é um mar imenso, ah ancorar em determinados portos, desbravar mares revoltos, a ultrapassar escolhos, ah puras quimeras! Digo-te utilizando se preferires uma comparação quente de África, és bela como uma gazela.) J. todavia, é envergonhado no seu ser, inibido de dicção verbal fluxa diante da futura namorada guardou estas lisonjas para si e manteve um diálogo patusco não obstante

- Porque estás descalça, não tens dinheiro para meias?

- Os meus pés atraem os homens, visto que a minha beleza é uniforme resta-lhes olhar abaixo. Olha, não te queres sentar ao pé de mim e escutar sinfonia metálica?

- Tens bom gosto, é agradável.

- Estou cansada de estar aqui, vamos dar um passeio, quero gretar os meus pés. Roubamos comida da mercearia e à noite saciaremos a nossa paixão plena de cicatrizes. Amanhã de manhã prometo-te sexo na igreja depois de repor a esmola e estacionar bem a mota.

- Parece divertido! O P. falava-me muito do poder da noite, que as mulheres têm um inconsiente mais amplo. Qual é a tua opinião em relação a isso?

- Os gregos é que tinham opiniões e vê o que lhes aconteceu.

- O quê?

- Ficaram gregos

Moral da estória:
As focas tem gordura armazenada mas só habitam nos pólos ou redondezas de cariz tundríco, contudo os helicópteros na sua combustão aérea são mais velozes, é que eles querem ver tudo na mesma forma que J. e S. aspiram a abarcar o máximo oxigénio duma golfada só.

Publicado por: Paulo Eduardo em setembro 20, 2005 12:09 PM

>Mesmo tendo a CDU sido o grupo mais votado, estes >resultados traduzem uma insofismável viragem à >esquerda da Alemanha.

Este é um comentário à PCP do tipo, ganhamos porque sobrevivemos !!!

Um viragem à esquerda na Alemanha com um partido de direita a ganhar é complicado !!

A salvação desta "viragem à esquerda" foi a incapacidade de Merkel de ganhar votos, ou melhor a
grande facilidade como deitou quase tudo a perder.

Todavia para a esquerda em geral (demasiada arrogante para fazer uma avaliação imparcial) isto será uma grande vitória politica.

Esta situação faz lembrar o caso da Galiza no inicio deste ano, em que os partidos de esquerda apesar de terem tido menos votos conseguiram formar governo através de uma coligação.

Mais recentemente a Noruega vez uma grande viragem à Esquerda (aparentemente passou despercebida por estes lados, os post sobre chuveiros são mais interresantes). Uma coligação composta por socialistas, ex-comunistas e euro-cepticos vencerem
as eleições norueguesas e tornou-se no executivo o mais à esquerda da Europa.

Portanto, assistimos na europa a uma passagem do eleitoras dos grandes blocos para partidos mais pequenos e menos convencionais (e mais radicais). O futuro dirá, com os olhos postos nestes paises, qual será a influencia desses partidos na Europa.

cumps


Publicado por: Mr X em setembro 20, 2005 02:54 PM

"Um governo que não traduza essa viragem à esquerda não estará a respeitar a vontade transmitida pelo povo alemão", defende o Filipe Moura e bem. Regressa Rosa Luxemburgo, estás perdoada? E os papás, papas e papões deste mundo deixariam? E o Filipe Moura só defende isto para a Alemanha?

Publicado por: Margarida em setembro 20, 2005 05:15 PM

As verdades insofismáveis do Filipe Moura tem um certo travo azedo de Comité Central do PCP. Continuai, que Estaline vela por vós.

Publicado por: LFP em setembro 20, 2005 08:10 PM

Essa do Estaline é piada para o Pedro Soares e para o Fazenda, não é? E também para o Jorge Coelho, o José Lamego, o João Carlos Espada, o Pacheco Pereira, o José Manuel Fernandes, o Fernando Rosas, o Durão Barroso, o Francisco José Viegas, o Zé Mário Branco and so on...

Publicado por: Margarida em setembro 20, 2005 08:19 PM

Margaridinha amiga e camarada:

Qual desses personagens é que está inscrita num partido marxista leninista como você? Porque é que você acusou o toque, quando a boca nem era de facto para si?

Publicado por: Luis Oliveira em setembro 20, 2005 09:05 PM

Será que ainda existe dentro de si uma mal disfarçada consciência? Quando fizeres a tua perestroika mental nós cá estaremos para nos juntar-mos a ti Margarida.

Publicado por: Luis Oliveira em setembro 20, 2005 09:11 PM

O LPF provocou e o Luís Oliveira enfiou a carapuça? É que eu só perguntei sobre os que há 30 anos andavam em comícios e manif's com a foto do Estaline e que acusavam os meus camaradas por o terem criticado vinte anos antes...

E se há pouco tempo vi o dirigente português da IV Internacional renegar Trotsky e o trotskismo, ainda não vi nem o Pedro Soares, nem o Fazendas e nem o Carlos Marques fazerem o mesmo em relação ao Estaline e ao estalinismo.

Publicado por: Margarida em setembro 20, 2005 09:32 PM

Pelo menos menos mostrava-se respeito consideração e atenção se não viessem aqui certas pessoas que não aponto com o dedo denunciar outras que mudaram de opinião politica há muitos anos e que foram logo acusadas de virar casacas aos verdugos da democracia que não é democracia nem é nada se nos recordarmos que também não sabemos o que ca aqui andamos a opinar em nome de certas ideias que nem estamos certos quem é que inventou, isto é. Tenho razão ou não tenho. O Flipe Moura também não deve ser atacado porque tem mais ou menos a mesma opinião que eu e outros que tambem alias, a têem. Esta esquerda é memo daquelas que inervam.

Publicado por: Bonita Musselina em setembro 20, 2005 09:40 PM

Era uma vez a revolução

João Mesquita, Grande Reportagem, 2/04/05

(...) Na noite de 18 de Dezembro de 1974, o semanário político Voz do Povo reservou o teatro Capitólio para uma sessão de apoio ao jornal, que começara a publicar-se cinco meses antes, sob a direcção do médico João Pulido Valente (...). Ao fundo do palco, um enorme pano clamando “democracia para os operários, repressão para os reaccionários” indiciava que algo mais se passaria.

Para que não houvesse dúvidas, outro pano colocado na sala exibia as fotos de Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao Tsé-Tung com os dizeres. “Marxismo-leninismo, doutrina sempre jovem e científica”.

Não foi preciso esperar muito para que as centenas de pessoas que enchiam o teatro confirmassem estar-se numa sessão muito especial.

Pelo palco já tinham passado José Mário Branco, entre outros cantores, e o coro da Juventude Musical Portuguesa, onde pontificava o actual crítico musical do Expresso João Lisboa.

De súbito toma a palavra um monitor da Lisnave e ex-simpatizante do PCP Eduardo Pires (...). “Como resultado de recentes contactos estabelecidos entre elementos de várias forças políticas que defendem a liquidação do capitalismo e o estabelecimento de uma democracia popular como primeiro passo na construção do socialismo construiu-se uma comissão promotora com vista à formação de um partido político, a UDP, para intervenção no período eleitoral que se avizinha”, informou Pires (...).

As “várias forças políticas” a que o orador se referia eram, basicamente, três grupos da chamada corrente marxista-leninista.

Todos tinham ido buscar inspiração ideológica ao cisma operado no mundo comunista dos anos 50 para os anos 60, entre a China de Mao (acompanhada pela Albânia de Enver Hoxha) e a URSS, e à consequente cisão com o PCP de Francisco Martins Rodrigues (apoiado por Pulido Valente), tempos depois.

Como inspirador da UDP (como, aliás, do jornal) pairava a figura tutelar de Martins Rodrigues (...).

O antigo dirigente do PCP, que já em Janeiro de 1960 acompanhara Álvaro Cunhal na sua célebre fuga (...), deveria ser o líder “natural” do movimento, mas a sua imagem estava definitivamente prejudicada pelo facto de, ao ser preso e torturado de novo pela PIDE, não se ter revelado tão corajoso quanto Pulido Valente.

Em 10 de Janeiro de 1975, Pires volta a estar na mesa do primeiro grande comício da UDP (...). Mas a intervenção de fundo é de Vladimiro Guinot, operário da General Electric: “Não há via pacífica para a tomada do poder”, garante. “As eleições são o momento em que o povo escolhe os homens que o vão oprimir e explorar no período de quatro ou sete anos seguintes.” Apesar disso e das resistências internas à ideia, a UDP disputará (...) as eleições para a Assembleia Constituinte (AC) de 25 de Abril de 1975.

Antes, a 9 de Março, a UDP realizara o seu primeiro congresso, no Montijo. José Mário Branco figura entre os 22 eleitos para a Comissão Central. António Peres Metelo, actual subdirector do DN, é outro. Pires, que não podia faltar nessa lista, ainda hoje se recorda de que os advogados Amadeu Lopes Sabino e Augusto Rocha percorriam o recinto do congresso à procura das cinco mil assinaturas necessárias à legalização do novo partido (...). “As pessoas acreditavam que estavam a fazer história”, justifica Pires, agora com 57 anos a aguardar a discussão do seu trabalho de fim de curso no IST.

É já a direcção eleita no Montijo que decide rejeitar o pacto entre o MFA (...) e os partidos, assinado em 11 de Abril de 75.

No primeiro sufrágio (...) a UDP alcança um feito até então inédito entre a chamada esquerda revolucionária europeia: a eleição de um deputado (...).

Pulido Valente (...) era o cabeça da lista (...). Mas o Avante causara a confusão (...) com a notícia de que o médico visitara o banqueiro Jorge de Brito em Caxias, onde fora encarcerado na sequência da tentativa de golpe da direita militar em 11 de Março. Era certo que (...) apoiara a família de Pulido Valente quando este pagara com a prisão a sua oposição ao salazarismo. Mas a época não se prestava a considerações sentimentais.

Isso e a glorificação do operariado, muito comum entre os maoistas, fizeram com que não fosse Pulido Valente a sentar-se no hemiciclo de S. Bento, mas sim o nº 2 da lista, o operário da Lisnave Américo Duarte.

Carlos Marques (...) foi um dos três homens destacados para assessorar o deputado (o outro era Manuel Falcão, actual director do canal 2 da RTP). (...)

No dia em que Duarte se estreou como deputado houve uma discussão interna sobre quem deveria cumprimentar quando entrasse no hemiciclo. Foi acordado que não estenderia a mão aos deputados do CDS (...).

Marques, (...) considera no entanto que “a cena mais complicada” (...) se verificou após a morte por afogamento, no Tejo, do militante do MRPP Alexandrino de Sousa, na sequência de confrontos (...) desse partido maoista rival. (...) Duarte foi recebido pelos colegas deputados aos gritos de “assassino, assassino!”.

Reacção tão inesperada nem quando Marques entrou em S. Bento em pleno cerco do palácio por milhares de trabalhadores da construção civil, no início de Novembro de 1975. Deparou-se com uma chusma de jornalistas que lhe pergunta de chofre: “É verdade que a UDP está a preparar a tomada do poder?”

Não estava, claro. O que a UDP preparava era a substituição de Duarte (...) por Afonso Dias, cantor e membro do Grupo de Acção Cultural, liderado por José Mário Branco. O que, por alegado desgaste do operário da Lisnave, aconteceria pouco depois dos acontecimentos de 25 de Novembro (...).

A UDP conservava uma desconfiança na AC tão grande quanto o empenhamento na intervenção extraparlamentar. Em Fevereiro de 1975 tivera papel determinante numa marcha contra a NATO e o desemprego, convocada por uma “comissão interempresas” onde pontificavam militantes seus como Pires e Manuel Monteiro, operário da cervejeira Cergal.

No 1º de Maio, promovera (...) uma manifestação alternativa (...).

E no fim desse mês apoiara a ocupação do posto emissor da Rádio Renascença, para colocar a rádio católica “ao serviço do povo”.

Em Agosto, posicionara-se activamente ao lado do chamado documento do COPCON (...). Monteiro foi um dos oradores da manifestação de 20 desse mês (...): “O MFA, que muitos teimaram ser a aliança e o baluarte mais seguro do povo, estala e divide-se, sendo uma da incógnita de que lado muitos oficiais colocarão as suas armas”.

Ainda em pleno “Verão Quente” de 1975, os militantes da UDP estão entre os assaltantes da Embaixada de Espanha (...).

Mais de 29 anos decorridos, a acção ainda provocará acesa controvérsia entre Pires e Cunhal, durante um debate realizado no IST, com o então líder do PCP a sustentar que, por causa dela, houve sérios riscos de intervenção militar espanhola em Portugal. Mas Pires ainda hoje não acredita nisso (...).

Na manhã de 26 de Novembro, o major de cavalaria Mário Tomé (...) está de prevenção no regimento da PM, de que é segundo comandante. Correm rumores sobre a iminência de um ataque por parte dos vencedores das disputas da véspera. Não por acaso, destacados militantes da UDP (...) tinham passado boa parte da noite (...) erguendo trincheiras.

Horas antes, o chefe da RML, Vasco Lourenço, telefonara ao comandante da PM Campos de Andrade, perguntando-lhe se estava com o Presidente da República ou com os pára-quedistas sublevados em Tancos. Andrade ter-lhe-á respondido: “Apoiamos as reivindicações dos “páras”, mas isso não é contraditório com a fidelidade ao Presidente”.

Insatisfeito, Lourenço mandara-o apresentar-se, com Tomé e o comandante operacional, no Palácio de Belém. Mas Andrade opta por convocar um plenário para a parada da unidade, onde estão umas duas mil pessoas entre militares e civis.

Durante a sua intervenção, o regimento da Amadora ataca. Ao fim de dez minutos de troca de tiros, há a registar três mortos: dois do lado dos Comandos e o aspirante miliciano Albertino Bagagem, militante da UDP. Logo a seguir, os três responsáveis da UDP apresentam-se na PR, de onde são conduzidos à cadeia.

Em finais de Janeiro de 1976, Tomé é transferido para o presídio militar de Santarém (onde também está Otelo), sendo libertado em 23 de Abril, sem qualquer acusação judicial. Ainda sai a tempo de integrar a Comissão Política da candidatura de Otelo às presidenciais de Junho, que conta com o apoio da UDP. Mas muita coisa mudara no País.

Não tanto, ainda, na UDP, com que Tomé colaborava praticamente desde a sua fundação.

Em 25 de Novembro, além de Bagagem, a UDP perdera outro militante às mãos dos Comandos: Joaquim Leal, morto quando distribuía comunicados junto à estação da Amadora – e isto porque a UDP decidira furar o estado de sítio decretado por Costa Gomes, tendo mesmo lançado durante a sua vigência o jornal A Voz do Nosso Povo (...).

Em 17 de Dezembro, Dias ocupava o lugar de Duarte como deputado. Uma das últimas intervenções parlamentares do ex-operário da Lisnave (...) foi em solidariedade com o povo de Timor-Leste (...). Então já os dirigentes da Fretilin (...) usavam a sede da UDP (...), para as suas reuniões.

Nos dias de transição para 1976, os grupos ML que estão por trás da UDP fundem-se no congresso de fundação do PCP (R), (sendo o “R “ de “Reconstruído”, já que as ambições destes militantes, intitulando-se de “comunistas autênticos”, sempre foi tomar o lugar do “revisionista” partido de Cunhal) realizado no maior secretismo num ginásio do Chiado.

José Caiado, um operário de Alhos Vedros, cunhado de Pires (...) é eleito primeiro-secretário do novo partido. Martins Rodrigues, António Carriço, actual administrador da Portugal Telecom, e Frederico de Carvalho, hoje jornalista do Expresso, são os restantes membros do Secretariado.

Exilado em Paris, Diógenes Arruda, célebre dirigente do PC do B (...), acompanha de muito perto o processo. Em princípios de 1976 instala-se mesmo em Lisboa e passa a participar nas reuniões de cúpula do PCP (R).

Em Abril, lança o “processo de revolucionarização e proletarização”, que leva ao afastamento de Martins Rodrigues e outros (...). É criada uma comissão de inquérito ao porte na cadeia durante a ditadura. José Martins, um electricista (...) é promovido a primeiro secretário.

“O Vinhas (pseudónimo de Arruda) mandava nisto, e toda a gente se rendeu a ele, impressionada com o facto de ter sido amigo de Estaline”, recorda Monteiro, hoje (...) comerciante de produtos higiénicos.

A 25 de Abril desse ano realizam-se as primeiras eleições legislativas (...). A UDP (...) embora perca votos em Lisboa, mantém o deputado. Este passa a ser Acácio Barreiros (...). Era um dos mais destacados activistas estudantis do IST, organizado num grupo que incluía (...) Mariano Gago. (...)

Cinco dias depois das legislativas, Otelo anuncia a sua candidatura a Belém. (...)

Sendo a UDP a organização frentista do PCP (R), as duas entidades confundem-se frequentemente. Em 18 de Abril de 1977, a Praça de Touros do Campo Pequeno enche-se para um comício do PCP (R) onde se apresenta uma delegação do Partido do Trabalho da Albânia. O evento surge a pretexto do II Congresso (...) que contrapõe o “25 de Abril do Povo” à “democracia burguesa”, lança a palavra de ordem “Os ricos que paguem a crise” e consagra Pires como seu novo líder. (...)

Quando em Março de 1979 (...) se realiza o III Congresso do PCP (R), consuma-se uma primeira cisão no partido.

Quatro dirigentes são expulsos sob a acusação de “fraccionismo” e “direitismo” e com eles solidarizam-se Carriço e João Carlos Espada, hoje um cronista pró-Bush, que então dirigia a Voz do Povo.

Mais umas centenas, incluindo quase todo o sector estudantil, Barreiros e a maioria dos redactores da Voz do Povo, a começar por José Manuel Fernandes e Nuno Pacheco, hoje, respectivamente, director e director adjunto do Público, demitiram-se ou foram afastados (...).

Pires (...) assume a sua quota-parte de responsabilidade no processo de ruptura: “Não tive flexibilidade. Foi uma manifestação de esquerdismo infantil” (...)

O congresso ratifica a linha dos conclaves anteriores, respondendo à cisão com uma campanha de recrutamento (...) a que é dado o nome de “Promoção Estaline”. Com base nela, o PC(R) – assim se passou a chamar, assumindo por fim a condição de partido legal – chegou a atingir quatro mil membros. E a UDP perto de 20 mil. Mas Arruda morria pouco depois. Pires era substituído por (...) José Alves (...). E Monteiro passava a suplente do Comité Central.

Ainda assim, foi ao ex-operário da Cergal que coube substituir Barreiros na AR quando este foi afastado. Monteiro apresentou-se como “um soldado do proletariado” (...) zurziu forte e feio no programa do Governo de Maria de Lurdes Pintasilgo, cuja candidatura presidencial a UDP seria o único partido a apoiar sete anos depois.

Mas Monteiro não se mantém muito tempo em S. Bento. Inicia ele próprio um processo de afastamento que culminará num artigo publicado no semanário O Jornal em 1991, apontando a evolução da Albânia como exemplo “do fim das revoluções populares”. O Bandeira Vermelha, jornal oficial do PC(R), responde-lhe: “Os Monteiros passam a Albânia socialista continua” (...).

Em Dezembro de 1979 (...) Tomé é o novo rosto (...) na AR (...).

A UDP apoia a segunda candidatura presidencial de Otelo (...). Todo o Secretariado saído do III Congresso do PC(R), entra em crise.

Um dos seus membros, Amadeu Ferreira, que chega a substituir Tomé no hemiciclo (...) abandonará mesmo o partido pouco depois.

E Carvalho acabará por aderir ao PCP em meados dos anos 80. “Fiquei sem pinga de sangue” conta Pires acerca da reunião pedida ao Secretariado pelo futuro jornalista para defender que “a clivagem dos anos 60 no movimento comunista internacional tinha sido um logro”.

É certo que no seu IV Congresso a UDP consegue recuperar para o Conselho Nacional nomes como Branco, o pianista Jorge Moyano ou o jornalista José Manuel Rodrigues da Silva (hoje no JL). Tal como consegue reeleger Tomé (...) em Outubro de 1980. Mas torna-se cada vez mais evidente (...), que a táctica do “25 de Abril do Povo” impedia “a definição de uma política correcta”.

No IV Congresso do PC(R), em Março de 1983, tornam a manifestar-se divergências. Martins Rodrigues encabeça um grupo que entende estar o mal do partido (...) em ser “centrista” (...).

Em Dezembro de 1984, após a expulsão de três dirigentes eleitos no congresso, já o grupo afecto a Martins Rodrigues está fora do partido, a fundar a (...) PO.

Na nova cisão desempenha algum papel a coligação constituída entre a UDP e o PSR (...) para as legislativas de 1983 (...). A PO sustenta que com a coligação se “privilegiaram os acordos por cima, em detrimento da acção revolucionária por baixo”. (...)

Hoje ninguém faz um balanço positivo da aliança, que aliás se salda na perda do deputado (...). Pires acha que o acordo foi “oportunista” (...) Marques que o entendimento “surgiu fora do tempo”.

Pôr-se a par “do tempo” bem poderia, aliás ser a palavra de ordem saída do VI Congresso da UDP, em Fevereiro de 1984 (...). O partido apoia Soares na segunda volta das presidenciais de 1986 (...). Nesse ano, o V Congresso do PC(R) (...) reafirma o apoio à Albânia.

“Liberdade e bem estar” é a consigna saída do VII Congresso, em Março de 1987, onde é eleito Tomé (...) para secretário-geral (...).

Mesmo depois de resultados desastrosos nas eleições europeias de 1987, o VIII Congresso da UDP mantém a linha do “Sim a Portugal” (...) Luís Fazenda ascende aqui ao Secretariado.

Em Junho de 1989 (Fazenda) é o protagonista da candidatura da UDP nas novas eleições para o PE (...). Seis meses depois, por via da integração (...) na coligação de esquerda (...) para Lisboa, é eleito deputado municipal.

Pires continua a ser (...) o homem forte do PC(R). Quando o Secretariado (...) discute as presidenciais de 1991, o seu nome é aventado. (...) Mas tem outra ideia, que é aprovada: Carlos Marques. (...)

Na Madeira, Alberto João Jardim convida-o para almoçar (...) e Marques vai. Durante a campanha, apresenta-se sempre de fato e gravata (...). Com os 2,8% obtidos nas urnas, o antigo presidente da Juventude Universitária Católica, alcançou uma marca recorde. (...)

Em 1991, Tomé está de volta à AR, (...) como deputado independente eleito pela CDU, por via de um acordo entre a UDP e o PCP (...).

Nas legislativas de 1995, onde não elege ninguém, a UDP volta a concorrer sozinha, desta vez chamando às listas gente como Mário Viegas e Dórdio Guimarães (...).

O mesmo acontecera aliás nas europeias (...) onde Marques não consegue igualar os resultados das presidenciais, ficando mesmo atrás do MRPP. E até nas presidenciais de 1996 (...) a UDP apresentara (...) Alberto Matos (...).

A regra só não se aplicou nas autárquicas de 1993, onde (...) tornou a apoiar Sampaio (...), conseguindo eleger dois militantes na AM (...) .

Mas então (...) o PC(R) transformara-se em associação política, no congresso de Junho de 1992. Fazenda substituíra Pires à frente da novel associação, Comunistas pela Democracia e Progresso (CDP), a Albânia (...) é criticada, bem como o estalinismo.

Nas autárquicas de 1997, a UDP (...) conserva os dois deputados municipais em Lisboa ao integrar a candidatura de João Soares contra o PSR e o grupo Política XXI, coligados (...).

Em Julho de 1998, no XII Congresso da UDP, Fazenda (...): “Do PS não podemos esperar nada. Do PCP não ficamos à espera”. A via para o BE (...) está aberta (...)

Como confirmam os documentos para o XVII Congresso (...) que marca a sua evolução de partido para associação política, a UDP continua a reclamar-se de (...) comunista. Mas Pires que teme cada vez mais a diluição no BE, continua insatisfeito. Monteiro ainda mais: “A UDP caiu no mais completo cretinismo parlamentar” (...).

Publicado por: João Lopes em setembro 20, 2005 10:18 PM

o problema hoje em dia é que a direita coitada "quer", "quer muito" mas não tem os votos necessários. daí que alguns apontem já com o dedinho o "fim do "sistema"" (há uns anos era a esquerda ridicularizada por falar no "sistema").
e com efeito até têm alguma razão: a coligação possível CDU/SPD é uma contradição com tudo o que os dois partidos defenderam nas campanhas eleitorais, e provavelmente o resultado que vai realmente ao encontro das suas respectivas "vocações". o mundo tende inevitavelmente para o "bloco central" do pensamento único. felizmente que temos a extrema direita ultra liberal para animar um pouco o debate político.

Publicado por: tchernignobyl em setembro 20, 2005 10:44 PM

já agora e só por simples curiosidade, este comentário do joão lopes vem a propósito de quê?

Publicado por: tchernignobyl em setembro 20, 2005 10:47 PM

das eleições alemãs?

Publicado por: tchernignobyl em setembro 20, 2005 10:48 PM

O comentário não é do João Lopes. O João Lopes (eu) limitou-se a postar um artigo do João Mesquita, publicado na Grande Reportagem em 2 de Abril de 2005, que prova que pessoas há que afinal de contas não foi há tempo como isso que mudaram de ideias e outras que pura e simplesmente não mudaram de ideias. Ao contrário do que a "bonita" disse...

Publicado por: Margarida em setembro 20, 2005 11:02 PM

Sorry again. É do cansaço e de estar ao mesmo tempo a ver o debate na SIC-Notícias. Em vez de (eu) devia estar (eu não sei quem é)

Publicado por: Margarida em setembro 20, 2005 11:20 PM

Margarida, gostava que esclarecesse a minha curiosidade: Quando é que viu/leu/ouviu o F. Louçã a renegar o trotskismo e a 4.º Internacional?

Publicado por: CausasPerdidas em setembro 21, 2005 01:23 AM

margarida/lopes, que confusão... esse debate na sic notícias deve ter sido uma seca de cair para o lado.
a outra confusão é precisarmos de ler grande parte de um artigo do joão mesquita na "grande reportagem" num comentário a um post sobre as eleições alemãs para saber que há pessoas que mudam e outras que não mudam, umas mais depressa e outras menos, de opinião.
uma terceira confusão provavelmente decorrente da pressa na edição do artigo, surge na passagem
"Carlos Marques (...) foi um dos três homens destacados para assessorar o deputado (o outro era Manuel Falcão, actual director do canal 2 da RTP)". se CM era um dos três, e Manuel Falcão o outro significa que o Manuel vale por dois?

Publicado por: tchernignobyl em setembro 21, 2005 08:31 AM

Tcher,


Obrigado por teres decidido voltar ao ninho das lagartixas vociferantes. Já estávamos com saudades da tua moca de bater nos ricos da direita. Onde é que tens andado, Langley, Virginia? Vê se pões alguma ordem nisto. Anda por aqui muita intriga e o esgotamento nervoso do ZM não veio ajudar nada. O PC acampou há umas semanas com armas, bagagem e conversa do costume e tem saturado a atmosfera com gazes que diminuem os poderes de concentração da rapaziada. Já temos alguns casos graves de hipertimias melancólicas. Põe-te especialmente a pau com uma tal... .não, o melhor é não citar nomes. Viste o Luis Rainha, lá por onde andaste?

Publicado por: Bomba em setembro 21, 2005 09:55 AM

Causas Perdidas:

(...)
P – Pelo que diz concluo que já não é trotskista.

Francisco Louça – O Trotsky teve um papel fundamental na luta contra o estalinismo, contra a estalinização, contra o que veio a ser o modelo soviético. Não só ele mas muitos outros.

P – Ainda se define como trotskista?

Francisco Louça – Eu nunca me defini como trotskista. Defini-me sempre como marxista.

P – Integrou uma organização trotskista…

Francisco Louça – Mas foi uma organização que nunca se definiu como tal, embora, e eu assumo isso por inteiro, o contributo do Trotsky tenha sido fundamental para pensar o socialismo de hoje. Como foi o de outros, como Rosa Luxemburgo ou Gramsci e alguns outros marxistas. A nossa herança é exactamente essa e vivia sempre da mesma forma.

P – Entre o Trotsky e Rosa Luxemburgo há diferenças fundamentais…

Francisco Louça – Com certeza. Mas eu creio que o socialismo aprendeu com essas diferenças.

(...)
(Entrevista conduzida por São José Almeida e Mª José Oliveira e publicada no Público, em 21 de Julho de 2005)

Tchern...
Boa pergunta a fazer ao João Mesquita

Publicado por: Margarida em setembro 21, 2005 09:56 AM

Bomba, com efeito andava com saudades do blog e destas polémicas.
infelizmente a esquerda ainda não conseguiu cumprir o sábio programa "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades" e nos últimos tempos tenho-me visto obrigado a usar todas as minhas capacidades para suprir o mínimo de necessidades que me permitam não soçobrar.
as minhas participações no blog vão por isso continuar a ser esporádicas.
de resto, o PC é bem vindo a polemizar aqui no blog que como sabes está aberto a andar à porrada com todos os quadrantes políticos. sempre numa perspectiva de esquerda, claro.

margarida terei todo o gosto em questionar o joão mesquita quando ele aparecer aqui a comentar no blog

Publicado por: tchernignobyl em setembro 21, 2005 10:21 AM

Margarida,
esse artigo encontra-se online?
Onde?

Publicado por: Ricardo Alves em setembro 21, 2005 03:12 PM

Margarida,
esse artigo encontra-se online?
Onde?

Publicado por: Ricardo Alves em setembro 21, 2005 03:14 PM

Não sei se está online, pois não sou assinante do Público on line. Eu na altura guardei o recorte. O título da entrevista é:
Há "um capitalismo predador e selvático" que "só pode ser substituído por uma sociedade socialista"

Está na página 12 (Nacional) do Público de 21 de Julho de 2001. Se fizer muita questão, à noite, posso bater essa entrevista e postá-la aqui. Se viver em Lisboa pode encontrar o Público desse dia na Hemeroteca Municipal, perto do Jardim de São Pedro de Alcântara.

Publicado por: Margarida em setembro 21, 2005 06:57 PM

Há "um capitalismo predador e selvático" que "só pode ser substituído por uma sociedade socialista"


O BE é um movimento de novo tipo, que vive da contestação e da luta anticapitalistas e pela construção de uma alternativa socialista, afirma o líder dos bloquistas, Francisco Louçã

O BE não tem ideologia, garante Louçã, que assegura que isto significa não perfilhar nem o marxismo-leninismo, nem o leninismo, nem o trotskismo, nem o marxismo, apenas recolher contributos destes pensadores.


O BE defende a revolução ou assume-se como um movimento reformista?

É um debate de conceitos que o BE não teve. O que tivemos é que somos um movimento anticapitalista e socialista. O socialismo não existe sem uma transformação das condições do regime económico e social.

E isso consegue-se por via reformista ou por via revolucionária?

Consegue-se por grandes combates transformadores que são reformas e que são revoluções. Acho que nos batemos por reformas essenciais e fazemo-lo com toda a convicção de que é importantíssimo para ajudar a mudar a vida das pessoas. O capitalismo moderno, que é um capitalismo predador e selvático, só pode ser substituído por uma sociedade socialista.

O que é para si a revolução, quando diz que defende a evolução por reformas, mas que podem também elas ser revolução.

Há grandes reformas que podem ser revolucionárias. Não se consegue combater a injustiça fiscal, o privilégio do poder económico de ter regras distintas para si próprio, diferentes da grande maioria da população, sem uma alteração da relação de forças que permitem impor a democracia como regra. Acredito que não se conseguem alterar regras do comércio internacional e impor o predomínio do direito internacional na relação de conflitos sem uma alteração da relação de forças que derrote o império. Acredito que não muda a União Europeia sem uma grande refundação democrática e social que reconstrua as suas bases na estruturação. Isso são revoluções.

Como é que o BE se define ideologicamente?

Socialista.

E o que é que é ser socialista no século XXI?

Significa ter vivido e aprendido a lição do socialismo soviético e chinês e rejeitá-la. Nunca existe socialismo que proíbe o direito de greve, que impõe na Constituição o governo perpétuo de um partido político, como é o caso do Partido Comunista chinês e da Constituição chinesa. É rejeitar as monarquias delirantes como a Coreia do Norte. No fundo, é rejeitar a ideia de que o socialismo pode ser compatível com a redução do pluralismo político ou da liberdade social. Creio que o socialismo só pode existir, só se pode limpar, se resultar da reflexão e de rejeição do que foram os modelos de Leste. E é também uma outra coisa, é um anticapitalismo, uma contestação da civilização capitalista e do desastre humano e ambiental que ela representa.

Pelo que diz concluo que já não é trotskista.

O Trotsky teve um papel fundamental na luta contra o estalinismo, contra a estalinização, contra o que veio a ser o modelo soviético. Não só ele mas muitos outros.
Ainda se define como trotskista?
Eu nunca me defini como trotskista. Defini-me sempre como marxista.

Integrou uma organização trotskista...

Mas foi uma organização que nunca se definiu como tal, embora, e eu assumo isso por inteiro, o contributo do Trotsky tenha sido fundamental para pensar o socialismo de hoje. Como foi o de outros, como Rosa Luxemburgo ou Gramsci e alguns outros marxistas. A nossa herança é exactamente essa e vivia sempre da mesma forma.

Entre o Trotsky e a Rosa Luxemburgo há diferenças substanciais...

Com certeza. Mas eu creio que o socialismo aprendeu com essas diferenças.

No BE ainda há marxistas-leninistas?

Depende do que quer dizer com o conceito marxista-leninista. Há leninistas certamente, há leninistas que são marxistas. Agora o marxismo-leninismo foi entendido muitas vezes como uma representação do estalinismo e isso não há. Como há não marxistas.

Mas o BE como movimento identifica-se com o leninismo?

Não, o BE não tem que se identificar com o leninismo.

Portanto, não há ideologia única?

Não há nem vai haver. Como sabe, aliás, o BE nasceu e só podia ter nascido assim não por uma fusão ideológica que reinterpretasse o passado, mas por uma definição da agenda política e do programa. O programa constrói-se na luta social, nas alternativas políticas para o país, para a Europa. E foi isso que nos permitiu aprender um nível de política completamente distinto do que a esquerda radical tinha feito em Portugal durante 30 anos. Nós mudámos completamente a capacidade de actuação política e social, tornando-nos uma força política influente.

A importância que dão aos movimentos sociais é enquadrada pelo Fórum Social?

Quando o BE surgiu ainda não existia o Fórum Social, mas o movimento que lhe ia dar origem já estava a nascer, o movimento antiglobalização.

O caminho de forçar reformas, de condicionar o capitalismo, é mesmo por aí?

Há algumas políticas que são de reformas, há outras que são de combates frontais. Por exemplo, na política do ambiente quando se defende uma política de redução das emissões de dióxido de carbono por causa do efeito de estufa é uma grande reforma.

Não concebem a oposição política exclusivamente teorizada, sem ser através da acção dos movimentos sociais, da contestação social.

O que os fóruns sociais começaram a introduzir é a necessidade de dar substância aos movimentos de contestação com a formulação de alternativas, com a formação de políticas. Acho que nós temos o dever de apresentar políticas tão consistentes quão necessárias para governar um país.

Mas não concebe fazer isso só por via parlamentar, por exemplo?

Não. Porque a representação parlamentar reduziria a democracia, como se fosse a única forma de debate político no país. Nós damos toda a importância à intervenção parlamentar, cumprir o nosso compromisso, mas entendemos que a democracia vai para além da vida parlamentar.

Nos seus acampamentos, o BE ministra cursos de desobediência civil. O que é isto?

Nós não ministramos cursos. Nos acampamentos há um conjunto de ateliers. Discutimos desobediência civil, que eu creio que é indispensável fazer na sociedade de hoje.

Mas o que é desobediência civil?

É por exemplo num país que está em guerra não pagar a minha parte de impostos que corresponde ao esforço de guerra quando estou em desacordo com ela. Foi presa uma jornalista do New York Times porque se recusou a revelar as fontes e ela explicou, e bem, que ia para a prisão por desobediência civil. Portanto, recusou uma ordem do tribunal que achou que era injusta e contraditória com o seu código deontológico. Desobediência civil é isso mesmo, é uma acção não violenta, de protesto em situações problemáticas.

S.J.A./M.J.O.
(Público, 21 de Julho de 2005)

(www.voy.com/196702/438.html)

Publicado por: Margarida em setembro 21, 2005 08:43 PM

Obrigado, Margarida, por teres colocado aqui o texto.

Publicado por: CausasPerdidas em setembro 23, 2005 08:08 PM