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setembro 14, 2005

NÃO ME QUEIRAM CÁ QUE EU SÓ ATRAPALHO

Segundo declarações proferidas segunda-feira pelo secretário-geral da federação sindical FENPROF, Paulo Sucena, o alargamento da carga horária previsto para este ano lectivo significa "a degradação da qualidade do ensino, o abastardamento do perfil profissional do professor e a desvirtuação da escola enquanto espaço pedagógico"

Posso andar distraído, mas é a primeira vez que vejo uma classe profissional portuguesa dizer que a sua presença no local de trabalho degrada consideravelmente a qualidade do trabalho feito. Ou não é isto que o Paulo Sucena está a dizer?
O que se seguirá: os médicos a dizer que os hospitais funcionam muito melhor sem eles? Os advogados defenderem que só andam nos tribunais a empatar o bom funcionamento da justiça?

Outras perplexidades educativas no Random Precision.

Publicado por Jorge Palinhos às setembro 14, 2005 06:18 PM

Comentários


Vocês, representantes da esquerda folclórica têm de dar um desconto à Fenprof.
Quando o Paulo Sucena se passar para o vosso lado vão ver que o bicho até se parece com o Fazenda.

Publicado por: Takikaki em setembro 14, 2005 06:34 PM

Mas quem é esta Quitéria Barbuda? E porque razão anda para aqui a postar coisas que nada têm a ver com os assuntos?

Quanto ao tema:
Sendo aluna de um colégio privado sempre tive lá os professores (alguns) até mais tarde e sempre achei que isso beneficiava (e continua a beneficiar) todos os alunos (que querem aprender alguma coisa).

www.panteraforum.web.pt

Publicado por: Joana em setembro 14, 2005 08:31 PM

Esse comentário implica algum conhecimento da forma como as escolas estão organizadas: Elas funcionam apenas como "salas de aulas", na sua quase generalidade não há espaço físico nem condições materiais para desenvolver outras actividades. Ora as aulas têm de ser preparadas (ignoro, por rústicas, as opiniões dos que acham que se chega lá, abre-se o livro e... já está!). O tempo que os professores não passam na escola também pode ser de trabalho, e esse tempo não é contabilizado. Anseio por preparar todas as actividades dentro das escolas (com cartão de ponto e tudo!), ter os fins-de-semana totalmente livres, sair da escola sem testes para corrigir pela noite fora. Mas também exijo: um espaço de trabalho e computadores disponíveis, coisa que por enquanto não há... A actual ministra decidiu que os professores íam ficar mais horas nas escolas, mas não atendeu que era importante assegurar que haveria as necessárias condições. Na prática os professores vão ficar na escola mais umas horas a olhar uns para os outros ou a substituir colegas, e depois chegam a casa e têm o mesmo trabalho de sempre. È isso que é desmoralizador e pode diminuir a qualidade dos serviços...

Publicado por: AR em setembro 14, 2005 09:14 PM

Este é um post provocatório, pois parte de uma premissa falsa, e isso o Jorge sabe. O que degrada a qualidade do ensino é, segundo Sucena, "o alargamento da carga horária" e não, obviamente, a presença dos professores no seu local de trabalho. Eu, que sou de esquerda, não subscrevo nem uma vírgula do que aqui o Jorge veio dizer.

Publicado por: Santa Cita em setembro 14, 2005 10:03 PM

Parece-me que longe de andar distraído, o Palinhos anda é a fazer fretes ao PS e a dar credibilidade ao Luís Delgado e ao seu Diário Digital. É que em vez de embarcar no que o Diário Digital escreve bem podia tirar as dúvidas na fonte, indo ao site da Fenprof. Foi o que fiz e aqui está o comunicado:

FENPROF - Federação Nacional de Professores

ABERTURA DO ANO LECTIVO:

ONDE ESTÁ A NORMALIDADE?!

O início do ano lectivo 2005/2006, ao contrário do que afirma o Governo e o ME, fica marcado não pela normalidade administrativa que os responsáveis políticos se esforçam por fazer passar para a opinião pública, mas por uma profunda intranquilidade humana resultante de um conjunto de legislação divulgado em tempo de férias (entre 26 de Julho e 12 de Agosto foram publicados cinco importantes diplomas legais) que está a provocar um clima de grande perturbação nas escolas.

Convém registar que estes diplomas obedecem a um comportamento anti-negocial característico da acção desta equipa governativa que, aliás, levou a FENPROF a apresentar Queixas à OIT, Provedor de Justiça e Assembleia da República.

Esta legislação atenta contra o conceito de profissionalidade docente, subvertendo aspectos essenciais do conteúdo funcional da profissão, valorizando uma perspectiva utilitarista de escola, pensada mais como espaço de acolhimento e guarda de crianças e jovens e muito menos como espaço pedagógico organizado no sentido de lhes proporcionar aprendizagens relevantes e significativas, o que contribui para a degradação da qualidade do ensino.

Deste pacote legislativo destacam-se:

- o roubo do tempo de serviço prestado entre 30/08/2005 e 31/12/2006 e o congelamento, nesse período, das progressões nas carreiras.

- o aumento da idade da reforma para 65 anos de profissionais cuja actividade provoca um acentuado desgaste físico e psicológico como se encontra provado.

- a extinção de diversas reduções de componente lectiva por desempenho de cargos pedagógicos e o aumento efectivo do horário de trabalho dos educadores e professores.

- a alteração de diversas normas do ECD sem que houvesse um processo global e negociado de revisão, nomeadamente as referentes às componentes lectiva e não lectiva do horário dos docentes.

A quem pensa que tudo é normal nas escolas por estas abrirem as suas portas nos prazos fixados, algumas questões se devem colocar:

- Como é que se pode querer contar com professores motivados se, muitos deles, sabem que não lhes está a ser considerado o tempo de serviço que estão a prestar?

- Que motivação se pode exigir a quem vê, de repente e face às suas expectativas recentes, alargar-se-lhe o horizonte de trabalho até à aposentação em vários anos para além do que era legalmente previsto?

- Que entusiasmo se pode pedir a quem, já com muitos anos de profissão e acentuado desgaste físico e psíquico, é exigido, de um momento para o outro, largas horas de permanência na escola sem saber o que de útil tem para fazer ou, noutros casos exigindo-se-lhe tarefas que extravasam o campo da legalidade?

- Que empenhamento se pode pedir a muitos professores contratados que trabalham com horários incompletos que, em diversos casos, são insuficientes para cobrir as despesas que fazem mensalmente para poderem trabalhar nessas condições?

Acresce a todo este quadro o conjunto de outras medidas já em curso (extinção do regime de aposentação dos professores que leccionam em regime de monodocência e eventuais alterações ao regime de concursos e colocação de docentes, que o agravam), bem como um aumento brutal do número de desempregados que atinge já os 40 000!

Esta postura de solidão legislativa, característica dos que se sentem iluminados para tudo decidirem unilateralmente, só servirá para que recrudesçam as grandes tensões que já hoje se vivem nas escolas.

A FENPROF manifesta desde já a sua disponibilidade para com os professores e educadores continuar a combater esta política e o modo prepotente como tem vindo a ser concretizada. Nesse sentido, irá levar por diante as seguintes acções:

- realização de múltiplas reuniões de professores, de vário tipo (de escola, concelhias, plenários sectoriais, assembleias de delegados sindicais.) que permitam esclarecer, auscultar e mobilizar os professores e educadores para o acompanhamento dos processos negociais previstos e o envolvimento nas acções de luta que vierem a ter lugar;

- levantamento rigoroso da apropriação feita pelas escolas das instruções exaradas em despacho do ME sobre a organização e elaboração de horários, bem como sobre a implementação de actividades educativas de substituição de professores em falta, com vista à detecção de irregularidades e ilegalidades cometidas e sua correcção;

- lançamento de um abaixo-assinado que retrate as profundas discordâncias com estas medidas manifestadas pelos professores neste início de ano lectivo;

- realização de um conjunto de iniciativas públicas no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Professor (5 de Outubro), designadamente a aprovação em todo o país de uma Moção de carácter reivindicativo e, ainda, a realização de plenários de docentes e a distribuição de um texto à população sobre os problemas que afectam e tornam mais instável o desempenho de funções docentes. Por ser feriado no dia 5 de Outubro estas acções decorrerão, preferencialmente, no dia 4.

A FENPROF, neste momento muito difícil para os professores e para a Escola Pública, manifesta a sua disponibilidade para desenvolver de novo processos de entendimento e de convergência na acção com outras organizações sindicais de professores e educadores.

Lisboa, 12 de Setembro de 2005
O Secretariado Nacional da FENPROF

Publicado por: Margarida em setembro 14, 2005 10:15 PM

Só nos faltava vir agora o BdE fazer coro com o ataque a que têm sido submetidos os professores! Esta farsa já começa a cheirar mal e se a classe docente não fosse constituída por uma cambada de covardes a sua indignação perante tais ataques já se teria feito ouvir há muito tempo. Infelizmente, a capacidade reivindicativa dos professores e dos seus sindicatos não consegue ir além de melhores salários.
Ora bem, Palinhos, deixa-me adivinhar: tu não és professor, certo? Já somos dois. Professores não são, também, a maior parte das pessoas que costumam perorar sobre o sistema de ensino neste país. Essa função é geralmente confiada a não sei que iluminados, gente com a cabeça hipertrofiada de teorias risíveis e que não sabe, pura e simplesmente, do que está a falar.
As nossas criancinhas fazem figura de ursos nos certames internacionais de matemática e literacia, e em quem é que os iluminados lançam as culpas? Nos professores! Não nos pais (que se estão perfeitamente a marimbar, muitos deles, para o percurso escolar dos filhos, que não vão a reuniões na escola, que não vigiam as notas que os seus rebentos trazem para casa no final do período); não no Ministério, que deita cá para fora programas lectivos absurdos e directivas que convidam todos os professores a facilitar a passagem de ano do Zézinho e da Cátia Vanessa (mesmo que estes sejam uns cábulas, mesmo que passem o tempo todo a dormir na aula, mesmo que não consigam cumprir nenhum dos objectivos para eles estabelecidos no início do ano, e de modo a que nas estatísticas Portugal comece a aproximar-se dos valores de escolaridade média alcançados por países que levam esta coisa da educação a sério) mas nos desgraçados dos profes. Que além de servirem, cada vez mais, de amas-secas a pimpolhos mimados, mal-educados e interessados apenas em game-boys (e de tal maneira que muitos docentes neste país começam a questionar-se se vale a pena uma profissão tão desgastante, tão stressante, como a de dar aulas) ainda têm que ouvir “os pais” (que não aturam os filhos, que não lhes dão um livro para ler e têm o hábito de os despachar, à noite, para essa nurse a que chamamos televisão,) a queixarem-se de que os profes trabalham pouco!
Pois eu digo-te, Palinhos, nem por 1000 contos por mês eu aceitava ser professor. Aturar a má criação dos filhos dos outros? Passar o tempo todo a tentar impôr a disciplina que esta geração de filhos Yorn não conhece nem de nome? Aturar as conversas estúpidas dos meus colegas de trabalho? Passar a noite a preparar aulas o mais “excitantes” possíveis, para que os meninos não se aborreçam muito na sua aula de 90 minutos (mas quem foi o grandessíssimo idiota que concebeu esta ideia de aulas de 90 minutos para miúdos de 13 ou 15 anos?) ??
Claro que, visto de longe (e o problema de quem comenta assuntos educativos, em geral, está em que só pode falar de longe, pois já não entra numa escola há 10 ou 30 anos) pode parecer escandaloso o horário de 22 horas lectivas que os professores têm que cumprir. Mas quem alguma vez deu aulas sabe que o trabalho de um professor não se esgota nessas 22 horas. De facto, e exceptuando os de Educação Física, Educação Visual e uma ou outra disciplina curricular, os professores (pelo menos aqueles que são competentes e tentam levar a sério a sua vocação – e eu conheço vários) gastam seguramente 2 horas por dia a preparar as aulas do dia seguinte ou a corrigir testes e TPC’s. Se fizeres as contas, chegas a 32 horas de trabalho efectivo. 32 horas, das quais 22 se passam a aturar adolescentes irrequietos, cansados (porque – outro absurdo – as cargas horárias dos alunos são um perfeito disparate: para quê tanta aula, não seria mais sensato dar-lhes menos aulas, mas exigir deles o máximo?) e sem paciência para aprender aquilo que o professor tem para lhes ensinar.
Um dos problemas do ensino em Portugal, e espanta-me que isto não seja mais sabido, é que as escolas parecem cada vez condicionadas à ignóbil função de servir de depósitos ou prisões onde os pais abandonam a sua prole, de modo a poderem estar descansados até à hora de sair dos seus estúpidos empregos, sem a preocupação de os filhos andarem a fumar coisas e as filhas a engravidar à grande.
Com este modelo de escola-depósito (que começou a ser desenvolvido a partir dos governos de Cavaco Silva), que abdicou em grande parte dessa vetusta coisa que é a transmissão dos saberes em favor de uma nova espécie de entretenimento e serviços de baby-sitting, quem se admira que os nossos putos não saibam nada, não leiam nada, não queiram aprender senão as fintas do Cristiano Ronaldo e sintam um profundo desprezo por toda a gente que não é uma estrela do entertainment?
O que me incomoda nos bitaites que toda a gente se sente habilitada a debitar sobre esta matéria do ensino é verificar que a ligeireza com que são feitos. O ensino em Portugal é uma calamidade. Mas deitar a culpa para os professores é uma estratégia digna apenas de quem “trabalha” no Ministério e vive habituado a passar a culpa para o elo mais fraco. E ninguém duvide que os tristes dos profes são, no meio disto tudo, o bode expiatório. Criticar os pais? Credo! Seria afrontar uma grande parte do eleitorado, já que os pais são, como se diz, mais que as mães. Criticar o Ministério e as azémolas que conceberam as 672 reformas educativas que tivemos que sofrer desde o 25 de Abril? Criticar as pobres criancinhas, que são cândidas e inocentes como ovos de Páscoa? Não, que podiam ficar traumatizadas.

Por tudo isto, a para responder ao teu post infeliz, não me custa nada acreditar que a solução de pôr os professores a dar 28 horas lectivas por semana não beneficia em nada o ensino. Mas é uma iniciativa demagógica e que agrada aos pais. Tal como agrada aos pais a estúpida ideia de terem as suas criancinhas de entre os 6 e os 10 anos retidas na escola até às 17,30h. Como não? Assim não têm que pagar ATL’s ou contratar alguém para tomar conta delas durante a tarde. É, mais uma vez, a filosofia da escola como um derivado do baby-sitting.
Mais horas na escola não significa melhor escola. Só um imbecil é que pode pensar que quanto maior for a carga horária de professores e alunos, melhor estes aprendem. Não aprendem. Toda a gente que andou na escola sabe que ao fim de 4 ou 5 horas de aula, tanto o professor como o aluno já estão fartos uns dos outros e à espera do toque de saída. Será que Vocesselências já não se lembram como era? O que custavam a passar aqueles 50 minutos da aula de Português ao fim da tarde? E alguém se lembra de prestar atenção, nessa altura, a outra coisa que não o avanço dos ponteiros do relógio? E eu tinha, quando andava no secundário, um horário que me garantia três tardes completamente livres, luxo de que já não usufruem (segundo me consta) os alunos de hoje em dia. E aprendi menos do que estes meninos de hoje? Não me façam rir, que para lágrimas já me basta o Benfica.

Publicado por: Nosferatu em setembro 14, 2005 10:23 PM

Sou professor, teria algumas coisas para dizer sobre um «post» de quem não faz a mínima ideia do que é trabalhar nas escolas, em Portugal (e não só!) nos dias de hoje. Mas um tal Nosferatu ressuscitou das trevas da Transilvânia e disse tudo por mim. Agradeço-lhe (e custa-me acreditar que não tenha sido professor!).

Publicado por: Mário Artur em setembro 14, 2005 11:44 PM

Eu ía dizer, mas os últimos 4 comentadores já disseram tudo.
AR, Santa Cita, Margarida e Nosferatu, assino por baixo.

Publicado por: Helena Romao em setembro 14, 2005 11:53 PM

Mais um a assinar por baixo

Já agora, 2 pequenas coisinhas para o Nosferatu:

"exceptuando os de Educação Física, Educação Visual e uma ou outra disciplina curricular, (..) gastam seguramente 2 horas por dia a preparar as aulas do dia seguinte ou a corrigir testes e TPC’s."

Exceptuando!!??? Serão estes profs de segunda??

Tás desculpado porque o nosso país não prima por dar a importancia que a Cultura e o Desporto (o verdadeiro, não "a bola") e isto ressente-se nos nossos alunos e (principalmente) ex-alunos...


"...porque – outro absurdo – as cargas horárias dos alunos são um perfeito disparate: para quê tanta aula, não seria mais sensato dar-lhes menos aulas, mas exigir deles o máximo?"

Aqui também tu caiste no que depois criticas os "bitaites"... (a carga horária depois da Reforma Educativa diminui muito, esta até tem lógica, o problema são as 671 "contra reformas" e, principalmente, o querer "as omeletes sem ovos")

Publicado por: andré em setembro 15, 2005 12:51 AM

inferir das palavras do P. Sucena o que ele não quis dizer, fazendo com isso uma "chicane" politiqueira, brincando com os direitos da classe profissional que tem grandes responsabilidades na formação deste país, é no mínimo abusivo.
A Fenprof já respondeu, que mais quer?
fazer o jeito ao governo ou aos xuxialistas de merda?

Publicado por: trapizomba em setembro 15, 2005 01:13 AM

Finalmente estes BdE's mostram o que sempre foram: os BEngalinhas do PS, os BEtinhos de todas as modas. E como a moda agora é bater nos profs eles podiam lá perder a onda. E BEstamente cavalgam-na.

Publicado por: João Lopes em setembro 15, 2005 01:28 AM

Oh Pá.... vocês parecem uns papagaios daquilo que uns peudojornalistas vociferam...
não comento mais.....
Remember Mr. Reagan NO COMENTS...

Publicado por: ferreira em setembro 15, 2005 09:03 AM

Com todo o respeito que merecem as diversas corporações nacionais, gostaria de salientar o seguinte:
O sistema educativo não existe para servir os professores, mas sim os alunos;
A burocracia estatal não existe para servir os funcionários públicos, mas sim os cidadãos;
As forças armadas não existem para servir os militares, mas sim para a defesa nacional;
Etc, etc...
Ou será que estou enganado, e é exactamente ao contrário?

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 15, 2005 09:37 AM

Ooopps,... queria ir ao BDE II, afinal fui parar ao Blasfémias...

Publicado por: André Fernandes em setembro 15, 2005 10:24 AM

AR:

A exigência por condições de trabalho é uma coisa que posso compreender e aplaudir. O recusar cumprir o horário de trabalho no local de trabalho é algo que não consigo compreender.

Santa Cita:

Lamento mas o equívoco é teu. Não existe "alargamento da carga horária". Existe a exigência de uma parte dessa carga horária (que já existia) ser passada na escola. Querer que o empregado permaneça no local de trabalho durante o horário laboral é um direito que assiste a qualquer empregador.

Margarida:

Posso subscrever algumas das exigências da Fenprof. Mas a maioria é sobre alterações que afectam todos os funcionários públicos e outras é sobre problemas que se arrastam há anos (os professores contratados para tapar buracos nos horários). E a parte que se dirige à questão em concreto:

"Esta legislação atenta contra o conceito de profissionalidade docente, subvertendo aspectos essenciais do conteúdo funcional da profissão, valorizando uma perspectiva utilitarista de escola, pensada mais como espaço de acolhimento e guarda de crianças e jovens e muito menos como espaço pedagógico organizado no sentido de lhes proporcionar aprendizagens relevantes e significativas, o que contribui para a degradação da qualidade do ensino."

Isto é paleio cúbico, minha amiga.

Nosferatu:

É um choradinho impressionante o teu, pelo menos em termos de tamanho. Só que:

"Infelizmente, a capacidade reivindicativa dos professores e dos seus sindicatos não consegue ir além de melhores salários."

Falso: os professores têm mais regalias, melhores salários e melhores condições de trabalho do que quase todos os outros funcionários públicos e melhores condições do que os professores de quase todos os outros países europeus. Basta ver que em Portugal há dezenas de milhar de candidatos a professores e em Inglaterra têm de andar a contratá-los no estrangeiro.

"de amas-secas a pimpolhos mimados, mal-educados e interessados apenas em game-boys (e de tal maneira que muitos docentes neste país começam a questionar-se se vale a pena uma profissão tão desgastante, tão stressante, como a de dar aulas) ainda têm que ouvir “os pais” (que não aturam os filhos, que não lhes dão um livro para ler e têm o hábito de os despachar, à noite, para essa nurse a que chamamos televisão,) a queixarem-se de que os profes trabalham pouco!
Pois eu digo-te, Palinhos, nem por 1000 contos por mês eu aceitava ser professor."

Seguindo o mesmo raciocínio, os médicos são uns desgraçados que têm de aturar imbecis que não sabem evitar acidentes de trabalho, idiotas que não sabem conduzir ou atravessar a rua, grávidas histéricas, crianças estúpidas sem resistência, velhos gagás que não se souberam cuidar na juventude. E os advogados: lidar com patifes, vígaros, mentirosos, aldrabões, assassinos, mal-criados. Todos eles com elevados níveis de ingratidão.
Pois é, ser professor não é o mesmo que passar férias nas Caraíbas. Que desgraça! Não se concebe como é que possa haver 40 000 lorpas todos os anos a candidatarem-se para dar aulas.

"Se fizeres as contas, chegas a 32 horas de trabalho efectivo. 32 horas, das quais 22 se passam a aturar adolescentes irrequietos"

Claro que estás só a pensar nos professores em início de carreira, pois a partir de certa idade os professores começam a ter a carga lectiva reduzida para 18, 16, 14 ou 12 horas por semana. E, de resto, segundo os teus cálculos, os professores vão continuar a ter o mesmo horário de trabalho, só que uma parte dele terá de ser feito na escola. Afinal qual é o problema?

"Mais horas na escola não significa melhor escola. Só um imbecil é que pode pensar que quanto maior for a carga horária de professores e alunos, melhor estes aprendem. Não aprendem. Toda a gente que andou na escola sabe que ao fim de 4 ou 5 horas de aula,"

Ou seja, para ti escola é apenas aulas, o que me parece um conceito de escola bastante redutor e, esse sim, verdadeiramente o conceito de escola enquanto depósito. Porque é que na escola não se podem fazer também actividades como jornais escolares, teatro, visitas guiadas, projectos de internet, projectos de beneficiência, grupos de debate, investigações científicas, campeonatos desportivos, etc. Não são formas de aprender muito mais motivantes que as verborreicas aulas? Não podem ser organizados e coordenados pelos professores nas escolas?
Ou será que são actividades indignas da elevada condição docente?

Publicado por: Jorge P. em setembro 15, 2005 10:26 AM

Parece que a esquerda lacoste já começa a irritar a esquerda do comum dos mortais. Porque será ?

Publicado por: fidel em setembro 15, 2005 10:47 AM

Como em tudo, há bom e mau. Há bons e maus professores. Há aqueles que não dando aulas ficam a dar apoio nas escolas e há aqueles que nem lá poem os pés. É o resultado de se cortar a direito. Paga o justo pelo pecador.

Publicado por: Zeca em setembro 15, 2005 10:51 AM

Meu caro Palinhos,

nunca te deverias ter metido nestes assados, pois já deverias saber que a classe que se denomina de professores, e que está cheia de gente que nem para lavar um carro serve - é verdade, lavar um carro exige trabalho e conhecimentos - muito embora por lá ande também gente que gosta da sua profissão e não alinhe neste folclore da traulitada.

Como já leste por aqui, o ensino anda básicamente mel porque o governo 'rouba' os tempos de serviço, aimenta a idade da reforma, aumenta o horário de trabalho dos professores (que é dos mais baixos da Europa e do mundo), etc.

Tu não és professor, eu já fui, o que me dá possibilidades de zurzir nalguns malandros de forma muito especial.

Quanto à idade estamos conversados, pois a minha professora primária - era assim que se chamavam então - tinha 72 anos quando eu tinha seis, e não consta que me tivesse ensinado mal, nem a mim, nem aos meus compinchas, mas como era numa escola particular não devia estar submetida ao stress que os actuais estão!

Alguns destes peralvilhos que dão aulas, tentam alijar a sua responsabilidade para cima dos pais, como se o seu mister devesse ser obrigatoriamente dividido com os progenitores, que em média trabalham mais do que eles, e que já tem obrigações que cheguem com a criançada, uma vez que para além de lhes dar de comer, vestir e calçar, têm de apoiá-los nos seus piores momentos e felicitá-los quando necessário, obrigando-se a mandar os miúdos à escola e dar-lhes a e educação necessária para eles se saberem comportar em grupo, confiando-os a quem por vezes os vai estragar. Em contrapartida ainda lhes exigem que paguem do seu bolso a livralhada que muda ciclícamente sem que se compreenda muito bem porquê mais o tempo dispendido para poderem acompanhar o comportamento dos filhos, junto dos professores, visto estes dizerem não ter obrigação de estar disponíveis, em horários pós-laborais; ou seja, o esforço deverá recair apenas sobre uma parte!

Já nos idos de 80, o panorama era diferente, pois as reuniões com os pais faiam-se em horário pós-laboral e periódicamente, mas parece que a moda agora é diferente.

Depois há os que vêm para aqui dizer que há professores que demoram duas horas por dia a preparar as aulas do dia seguinte! Ou estão a brincar comigo, ou estarão a falar de professores que estão a dar aulas para as quais não sabem peva, mas isso não lhes interessa minimamente, pois o que interessa é que o ordenado entre no fim-de-mês.

Terás já visto alguma greve de professores a dizer que não querem dar aulas para as quais não estão habilitados? Já viste os professores virem para a rua pedirem salas para aconselhar os alunos? Já terás visto professores a encher as avenidas com cartazes a pedir melhores equipamentos?

Claro que não, pois quando são atacados por se servirem da escola, as desculpas são sempre essas mas as greves só são feitas quando lhes toca no pelo.

Sabes Palinhos, o que muitos 'professores' anseiam é que os alunos tenham apenas 10/15 horas de aulas semanais, que deixem de ter TPC's, e que os paizinhos larguem os empregos e façam a formação dos ditos, ficando eles em grupo nos cafés da zona, tipo treinadores de bancada para os receber quando as dificuldades apertarem.

Quem não quer aturar adolescentes irrequietos, dedique-se a outro tipo de trabalho, pois ninguém os mandou ir para professores, e quando escolheram esta profissão já sabiam (ou não sabiam) o que os esperava.

Deixem-se de palermices, ensinem, sejam imaginativos, deixem-se das conversinhas paroquianas nas salas de professores ou nos cafés de referência, e em vez de andarem a chular os pais que têm posses para pagar a explicadores, sejam explicadores na escola para os que têm necessidade disso.

Publicado por: Teofilo M. em setembro 15, 2005 11:25 AM

Já agora os professores poderão utilizar as horas não lectivas para ler, aprender a resolver exercicios de exame, aprender a redigir correctamente, ..., é que uma parte dos professores que saíram das universidades nos últimos anos têm a obrição de colmatar várias lacunas na sua formação.

Publicado por: JCV em setembro 15, 2005 11:38 AM

Jorge, vocè não faz a mais pequena ideia do que está a falar. A mais pequena ideia. Experimente concorrer ao ensino. Se tiver muuuita sorte, será colocado a cem quilómetros de distância, com horário reduzido, ganhando pouco, tendo com isso de pagar viagens, eventualmente alojamento (vivendo sozinho num quarto, longe da familia) e alimentação, e trabalhando frequentemente em escolas sem condições, prolongando o trabalho muito depois do horário de trabalho, (preparação de aulas, correcções, ec.etc.) Faça isso, Jorge, e depois falamos. Diga-nos depois se “os professores têm mais regalias, melhores salários e melhores condições de trabalho do que quase todos os outros funcionários públicos e melhores condições do que os professores de quase todos os outros países europeus”. Tudo isto já só dá vontade de rir.

Publicado por: antonio em setembro 15, 2005 12:12 PM

Completamente de acordo com o Post.
Sucena será sempre bloqueio para qualquer governo. Os professores devem exigir melhor ensino e isso não começa pelas mordomias, mas colocando os interesses dos alunos em primeiro lugar.
Admira-me o post no BdE, e realço a isenção.

Publicado por: carlos em setembro 15, 2005 12:36 PM

Pedro Oliveira
Afinal esqueceu-seduma máxima fundamental: O governo não existe para servir os governados (a população) mas sim para servir os bancos e as seguradoras. Não é isto o b.a. bá do neolibaralismo?

Palinhos
No post dizia categóricamente que era a 1ª vez que via "uma classe profissional a dizer que a sua presença no local de trabalho degrada consideravelmente a qualidade do ensino".

Agora, confrontado com o comunicada da Fenprof diz que "é paleio cúbico" (whatever that is!)

Na adenda (mais em cima) diz tão somente que é contra a posição dos sindicatos e do PCP.

Quanto mais explica mais se enterra e mais se percebe que o frete continua!

Publicado por: Margarida em setembro 15, 2005 02:33 PM

Jorge Palinhos

conheço uma escola onde este ano foram atribuidas 28 horas lectivas aos professores (mas talvez essa seja a única no país onde isso sucede, quem sabe?). Assim, sobram 7 horas para todo o trabalho extra de um professor (e que não se limita, como sugere o Teófilo M, a preparar aulas), nomeadamente: elaborar e corrigir os testes, preparar aulas capazes de motivar estudantes apáticos e desinteressados, corrigir TPC's (porque os professores que eu conheço, e defendo, são daqueles que ainda se dão ao trabalho de marcar TPC's e corrigi-los), ouvir os pais,etc.
O que mais me irrita nestas intervenções anti-professores é constatar que o sistema de ensino em Portugal está uma verdadeira lástima, sendo tantos os problemas que nem se sabe por onde começar a arrumar a casa, mas os iluminados só conseguem falar dos supostos privilégios dos professores. Sobre os privilégios dos professores, tenho a dizer que são mais aparentes do que reais, e que se é verdade que há professores que têm uma vida regalada, muitos outros há cujas condições de trabalho são miseráveis e indignas de uma profissão tão vital para o futuro deste país. Mas sobre este aspecto já outros comentadores se pronunciaram.
Talvez o Jorge Palinhos ache aceitável que que o futuro dos portugueses seja o de servir de caddies aos golfistas da europa, ou de barmans para turistas de melhor capitalismo. Nessa perspectiva, faz sentido, sim senhor, liquidar o ensino público, transformar as escolas em depósitos onde os filhos dos pobres podem ser mantidos longe da rua, e quanto ao mais, para ensino de qualidade, as elites podem sempre criar as suas próprias escolas deluxe, proporcionando desa forma aos seus rebentos todos os meios necessários para cumprirem o seu desígnio de governar a desinstruída ralé.
A mim, pessoalmente, desagrada-me esse futuro terceiro-mundista que nos parece destinado. É por isso que gostava de uma escola com melhores e mais exigenets currículos, gostava que se levase a sério a formação dos professores, gostava que as escolas tivessem condições para proporcionarem um ensino de qualidade, gostava que os ministérios não estivessem apenas preocupados com as estatísticas de escolaridade dos tugas na OCDE e se preocupassem a sério em formar cidadãos capaz de ler um jornal, de preencher um formulário, de resolver uma equação simples ou de participar activamente numa discussão que não se limite ao futebol.
Mas quando os opinion-makers, mesmo sendo de esquerda, só parecem precocupados com os professores, isso é sinal de que ninguém quer enfrentar realmente os problemas do ensino em Portugal. E, assim sendo, só nos resta esperar que as gorjetas sejam boas, nesse Portugal de tendeiros e barmans que nos está reservado.

Publicado por: Nosferatu em setembro 15, 2005 03:25 PM

Publicado por: Margarida em setembro 15, 2005 02:33 PM

Tanta má fé nem merece resposta. O estado é que existe para servir a população, o governo destina-se a administrar (idealmente, fazer o máximo com o mínimo) o estado. O governo não passa de um orgão, sem dúvida importante, mas não o mais importante, do estado. Mas já estou habituado a essa confusão frequente entre estado e governo: os totalitários nunca distinguem uma coisa da outra, e normalmente até lhe juntam o respectivo 'partido' único.

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 15, 2005 05:14 PM

Mas quanto aos bancos e às seguradoras o PO nada diz. Pois. Como o compreendo.

Publicado por: Margarida em setembro 15, 2005 06:54 PM

Publicado por: Margarida em setembro 15, 2005 06:54 PM

Nunca dei porque o governo servisse os bancos ou as seguradoras. Ou estás a pensar em isenções fiscais? Isso cheira é a dor de cotovelo, mais uma das pandendemias que fazem mover os totalitaristas.

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 16, 2005 10:04 AM

Se não servisse, porque é que o presidente do BCP se incomodou a ir ao Sócrates, conforme noticiou o Diário Económico anteontem? Claro também para não falar das isenções fiscais que disso já você falou!

Agora reparei que quando uma pessoa discorda de si é logo rotulada de "totalitarista". Grande "democrata" me saíu. Talvez à moda do defundo António Oliveira?

Publicado por: Margarida em setembro 16, 2005 01:57 PM

Publicado por: Margarida em setembro 16, 2005 01:57 PM

O presidente do BCP também foi ao Sócrates? Tinha ouvido falar no Infante, mas não no Jardim Gonçalves.

Agora reparei que quando uma pessoa discorda de si é logo rotulada de "totalitarista".

Não, totalitários são só os que se picam com opiniões diferentes, não é, Margarida?

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 16, 2005 04:21 PM

Incluindo, claro, esse tal de António Oliveira, pelo menos se fôr quem eu estou a pensar... Um tal António que ditadurou aqui no rectangulo.

Lutar contra ditaduras não transforma necessariamente alguém em democrata, ao contrário do que alguns podem pensar.

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 16, 2005 04:25 PM

E lutar contra os democratas é o quê? Émulo de Pinochet, de Hitler, de Salazar, do Marcelo, do Franco e aproximando-nos mais dos nossos tempos dos Bush's, do Reagan, da Thatcher, and so on!

Mas o Infante não é de facto o presidente do BCP? E foi lá fazer o quê? Tratar da vidinha, pois claro e logo com o PM, mas o "democrata" acha isso normalíssimo, claro!

Publicado por: Margarida em setembro 16, 2005 06:07 PM

Olha, Margarida, comparar Pinochet, Hitler, Salazar, Marcelo (Caetano, suponho), ou Franco a Bush, Reagan, ou Thatcher só revela que te picas facilmente com opiniões diferentes. Os primeiros, com excepção de Hitler chegaram os poder através de golpes de estado, os outros foram livremente eleitos em países democráticos. Noto também que te esqueceste, sem dúvida inadvertidamente de mencionar torcionários como Lenine, Staline, Mao Tse Tung, Pol Pot ou qualquer dos Kim. Esses devem ser, sem dúvida, grandes democratas.

O Diogo Infante é presidente do BCP? É melhor alguém avisar o Jardim Gonçalves...

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 16, 2005 06:30 PM

Reparei que passou como gato sobre brasas em relação ao Pinochet e ao Franco. É significativo não é? É que ambos deram golpes de estado contra governos eleitos, promoveram sangrentas guerras contra os seus opositores usando os mais bárbaros métodos e a todas essas acções os “democráticos” líderes”ocidentais” ou ajudaram (aliás o Nixon e o Kissinger até se empenharam) ou não mexeram um dedo ou até decidiram não vender armas ao legítimo governo republicano espanhol (UK, França, por exemplo) ao mesmo tempo que o Hitler, Salazar (e o seu então ministro Caetano) e Mussolini davam todo o apoio às claras ao Franco.

E chamo-lhe a atenção que eu não lhe perguntei sobre ditadores. Perguntei-lhe sobre os que lutam contra os democratas. E você responde-me que o Hitler foi eleito. Mas não perseguiu democratas? Além das barbaridades que provocou por toda a Europa e Norte de África com a guerra que desencadeou?

Diz-me ainda que os Bush’s, o Reagan e a Thatcher foram eleitos. Mas foi o Reagan que em 1983 invadiu Granada, matou e emprisionou os democratas granadinos, que em 1986 mandou bombardear a Líbia e ainda nos anos 80’s mandou bombardear El Salvador (nem do assassinato do Cardeal de El Salvador se recorda?) a Nicarágua e o Panamá já no final de mandato. E lembra-se que as autoridades de Nicarágua eram os democratas que tinham posto fim à ditadura, não se lembra?

Deve ainda estar recordado que nestes anos negros da Administração Reagan o Bush pai foi seu vice-presidente e depois foi presidente até 1993. E logo em 1991 desencadeou a primeira e terrível guerra contra o Iraque, com bombardeamentos aéreos tremendos contra a população civil. E ainda antes fora director da CIA. Você conhece algum director da CIA que não tenha lutado contra democratas? E sobre o Bush filho, porque foi eleito (na primeira vez quem o “elegeu” foi o Tribunal da Florida, lembra-se) NUNCA lutou contra democratas? Nem contra os 5 democratas cubanos que continuam presos contrariando ordens do Supremo Tribunal dos USA?

E falta a Thatcher, essa grande “democrata”. Claro que não foi ouvir a opinião dos nacionalistas e democratas irlandeses, nem dos sindicalistas britânicos, pois não?

E contrapõe-me com o Lenine a quem chama torcionário. Ao Lenine? Do Estaline conhecemos os crimes, aliás pelo PCUS. Do Pol Pot conhecem e bem os americanos, pois foram eles que deixaram até hoje que os torcionários do seu regime não tenham sido julgados. Dos Kim falam muito mas parece que o maior “crime” do Kim pai foi não ter permitido que os americanos ganhassem toda a península e a do Kim filho foi ter arranjado maneira de pôr os americanos à distância. Do Mao foi ter escorraçado ingleses, americanos e japoneses do seu imenso país. Mas de qualquer modo nenhum destes invadiu qualquer país ou declarou guerra a alguém. E lutando conseguiram recuperar a integridade e a independência dos seus países.

Mas torno a lembrar-lhe que a minha pergunta foi "e lutar contra os democratas é o quê?"
Sobre o Infante, não foi você quem assim cognominou o Paulo Teixeira Pinto?

Publicado por: Margarida em setembro 16, 2005 09:35 PM

Mas torno a lembrar-lhe que a minha pergunta foi "e lutar contra os democratas é o quê?"

A maioria dessas lutas de que falas não foram entre totalitários e democratas, antes entre totalitários e totalitários. A luta entre a Staline e Hitler não fez de nenhum deles democrata...

Quanto às comparações entre presidentes dos Estados Unidos ou primeiros ministros britânicos e ditadores vitalícios, só dá vontade de rir.

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 16, 2005 11:44 PM

A pergunta completa que lhe fiz é: "E lutar contra os democratas é o quê? Émulo de Pinochet, de Hitler, de Salazar, do Marcelo, do Franco e aproximando-nos mais dos nossos tempos dos Bush's, do Reagan, da Thatcher, and so on!"

Porque é que em vez de andar às voltas não tem tomates para responder: é ser émulo dos Bush's, do Reagan e da Thatcher! É que já o percebi desde o seu primeiro post lá em cima. Como dizia o meu camarada Carvalhas ser neoliberal (como você) é defender: "se queres ter saúde, paga-a; se queres ter educação, paga-a; e se não queres pagar impostos (ou se queres pagar menos impostos), enriquece". É isto mesmo que você quer não é? Um Estado não prestador de serviços sociais, com um aparelho de repressão forte - à la Reagan, Busch e Thatcher - para pôr na ordem sindicatos e trabalhadores e fazer as guerras necessárias para o rapinanço de recursos alheios, a ocupação de zonas estratégicas e a oolocação das "nossas" transnacionais e respectivos produtos.

É-lhe assim tão difícil admitir que é mesmo isto que você quer?

Publicado por: Margarida em setembro 17, 2005 12:27 AM

Porque é que eu deveria admitir o que não é verdade? Só para te fazer o jeito de não teres que tirar as palas dos olhos?

Todas as coisas que 'queres ter' têm que ser pagas: se não por ti então por outros. Mas como deves saber, entre o preto e o branco com que insistes em pintar a tua realidade, existem na verdade infinitas tonalidades de cinzento... Já para não falar em todas as outras cores.

Quanto a 'neoliberal'? O que é isso? Eu sou libertário, não sei o que é 'neoliberalismo'. Deve ser um palavrão qualquer para ti, mas para mim não passa de mais um desses chavões, tipo 'a grande burguesia capitalista', 'o grande capital internacional' e por aí fora, que o teu camarada Carvalhas tanto glosava nos seus discursos.

Estado forte? Eu não quero nenhum estado forte, e muito menos um aparelho de repressão forte. Quero é um estado o mais fraco possível. Anarquismo, não sei se já ouviste falar?...

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 17, 2005 01:11 AM

Porque é que eu deveria admitir o que não é verdade? Só para te fazer o jeito de não teres que tirar as palas dos olhos?

Todas as coisas que 'queres ter' têm que ser pagas: se não por ti então por outros. Mas como deves saber, entre o preto e o branco com que insistes em pintar a tua realidade, existem na verdade infinitas tonalidades de cinzento... Já para não falar em todas as outras cores.

Quanto a 'neoliberal'? O que é isso? Eu sou libertário, não sei o que é 'neoliberalismo'. Deve ser um palavrão qualquer para ti, mas para mim não passa de mais um desses chavões, tipo 'a grande burguesia capitalista', 'o grande capital internacional' e por aí fora, que o teu camarada Carvalhas tanto glosava nos seus discursos.

Estado forte? Eu não quero nenhum estado forte, e muito menos um aparelho de repressão forte. Quero é um estado o mais fraco possível. Anarquismo, não sei se já ouviste falar?...

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 17, 2005 01:12 AM

Peço desculpas pelo poste duplicado...

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 17, 2005 01:14 AM

Pois, o tal Estado o mais pequenino possivel para que os tubarões tenham a vida ainda mais facilitada! E depois diz que não sabe o que é o neoliberalismo. Não convém!

Publicado por: Margarida em setembro 17, 2005 01:22 AM

Liberalismo, conheço. 'Neoliberalismo' não passa de um chavão.

Mas decide-te lá. O estado deve ser pequeno ou grande? Ou de tamanho médio? Ou nenhum? Pelo que li de Marx, deveria ser nenhum.

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 17, 2005 01:28 AM

Afinal você é dos que precisam do "modelo"! O tal "modelo" que nos acusavam que queríamos impingir aos outros.

Mas não acha que a Constituição da República Portuguesa (apesar das revisões que a empobreceram) ainda tem potencialidades para o aprofundamento da nossa democracia?

À laia de exemplo deixo-lhe só este parágrafo do seu preâmbulo: “A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno”.

E sobre a questão do Marx que levantou. Ele sim é de facto uma referência, mas para o PARTIDO. E nós não confundimos o Partido com o Estado. Por hoje fico por aqui. E se não tiver sono, vá até ao site do parlamento e dê uma vista de olhos à Constituição. É que nos orgulhamos do contributo que demos na Consituinte para a sua feitura e ela é a nossa guia para a acção.

Por hoje fico por aqui. Boa noite.

Publicado por: Margarida em setembro 17, 2005 01:55 AM

Não. Não estou de acordo com constituições programáticas como a portuguesa. Uma constituição deve limitar-se a indicar quais os direitos e deveres dos cidadãos. Tão minimalista como o estado - já que na configuração actual do mundo não me parece que existam grandes possibilidades de passar sem estado.

E sobre a questão do Marx que levantou. Ele sim é de facto uma referência, mas para o PARTIDO. E nós não confundimos o Partido com o Estado.

A avaliar pelas repúblicas socialistas 'democráticas', só não confundem o partido com o estado porque não estão no poder.

E se não tiver sono, vá até ao site do parlamento e dê uma vista de olhos à Constituição.

Li a constituição original, em 1976. Agora deve estar algo melhor.

É que nos orgulhamos do contributo que demos na Consituinte para a sua feitura e ela é a nossa guia para a acção.

Porque é que isso não é uma surpresa? Basta ler as linhas acima...

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 17, 2005 10:31 PM

Não está de acordo com a Constituição mas ela foi aprovada SEM votos contra pela Constituinte que resultou da eleição mais participada de sempre por cá.

Nós respondemos por nós, por isso nos chamamos Partido Comunista PORTUGUÊS. E já vinham de 1964, como pode constatar se ler o Rumo à Vitória (de A. Cunhal) alguns dos valores que conseguimos introduzir na Constituição. E mantemos que o que é necessário para o país é o aprofundamento da democracia em todas as áreas - a política, a social, a económica e a cultural nomeadamente. Tão somente.

Publicado por: Margarida em setembro 18, 2005 12:27 AM

Não está de acordo com a Constituição mas ela foi aprovada SEM votos contra pela Constituinte que resultou da eleição mais participada de sempre por cá.

Pois foi, mas isso foi há 30 anos (1975), em eleições vigiadas por uma - benévola, mas real - ditadura militar. Achas que o país não mudou nos últimos 30 anos?

E já vinham de 1964

Eu bem sei como os comunistas têm saudades do passado. A orfandade é uma situação triste.

E mantemos que o que é necessário para o país é o aprofundamento da democracia em todas as áreas - a política, a social, a económica e a cultural nomeadamente.

Têm tanto direito em manter que essas são as necessidades para o país, como eu em discordar. Ninguém deve constestar os direitos dos outros a defender as suas ideias. Mas isso incluí não frabricar discursos que nunca foram pronunciados, não é?

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 18, 2005 11:23 PM

Pedro Oliveira
Afinal você tem má opinião de TODOS os partidos e de todos os políticos. Pois se pensa que tanto o PS como o PSD, que tanto o Mário Soares e Almeida Santos como o Sá Carneiro e o Marcelo Rebelo de Sousa ou o Freitas como o Adelino Amaro da Costa foram uns poltrões que sob o jugo da "ditadura militar" lá fabricaram a Constituição...

E pensa mesmo que o seu discurso nunca foi pronunciado? Nunca ouviu o Alberto João ou o Paulo Portas ou o Manuel Monteiro? É que se há cassete velha e revelha é esta contra a CRP. Nem mesmo se apercebeu da última Manif do Caldas? Possívelmente será cego e surdo. Não encontro outra explicação, a não ser a de sofrer de autismo.

E que são 36 anos comparados com os 216 que são tantos quantos já tem a constituição dos USA, a tal pequininina de que falou e de que falaram recentemente todos os federalistas europeus? Não é sensato mandar pedras sem ver se se tem telhados de vidro!

Publicado por: Margarida em setembro 19, 2005 02:16 PM

Afinal você tem má opinião de TODOS os partidos e de todos os políticos. Pois se pensa que tanto o PS como o PSD, que tanto o Mário Soares e Almeida Santos como o Sá Carneiro e o Marcelo Rebelo de Sousa ou o Freitas como o Adelino Amaro da Costa foram uns poltrões que sob o jugo da "ditadura militar" lá fabricaram a Constituição...

Tenho má opinião de todos os partidos políticos, mas pior de alguns do que de outros. E sim, sem chegar a chamar-lhes poltrões, foram intimidados. Se voltarmos 30 anos atrás, o que é um cerco da Assembleia Constituinte por operários metalúrgicos às ordens do PCP senão uma forma de intimidação?

Olha, Margarida, nem vou ligar a mais uma tentativa absurda de me colar a personagens que não partilham as minhas ideias políticas. Percebo que te dê mais tranquilidade ter toda a gente devidamente rotulada: 'lacaios do capitalismo internacional', 'fascistas', 'burgueses', 'compagnons de route', 'verdadeiros democratas', 'faccionários de esquerda', 'faccionários de direita', e por aí fora. É uma consequência inevitável do endurecimento dos processos cerebrais.

Mas ainda bem que vais buscar a constituição dos Estados Unidos, que consegue ser mais curta que o Manifesto do Partido Comunista, incluindo as emendas. Porque, talvez te estejas a esquecer, a constituição americana já foi emendada umas dezenas de vezes, para a ir adaptando a condições diferentes...

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 19, 2005 04:11 PM

Sobre o cerco à Constituinte, junto o capítulo 8 do livro de Álvaro Cunhal publicado há 6 anos e cujo conteúdo NÃO foi posto em causa por nenhuma das personalidades envolvidas. Lembro ainda que a CRP foi aprovada SEM votos contra CINCO meses depois desse episódio.

"O golpe militar em Portugal
O 25 de Novembro
Álvaro Cunhal [*]
resistir.info


1- O golpe militar em preparação
2- A tese do «contra-golpe»
3- O «cerco» de S. Bento
4- O «contra-golpe» falhado
5- A saída da crise político-militar


1- O golpe militar em preparação
O 25 de Novembro foi um golpe militar inserido no processo contra-revolucionário. A sua preparação começou muito antes das insubordinações e sublevações militares do verão quente e de Outubro e Novembro de 1975 .

Talvez que as mais esclarecedoras informações dessa preparação em curso muitos meses antes de Novembro sejam as que dá o comandante José Gomes Mota no seu livro, esquecido ou guardado nas estantes, A Resistência. O Verão Quente de 1975 , Edições jornal Expresso , 2ª ed., Junho de 1976.

Segundo José Gomes Mota, o golpe foi preparado pelo «Movimento», que define por ser contra o que chama «os dissidentes», — nomeadamente «os gonçalvistas» e o PCP. Fala em «novas estruturas reorganizadas». Diz que o «Movimento» deveria ter presença activa no Conselho da Revolução ( ob. cit. , p. 93) e aceitar a «manutenção formal dos órgãos de cúpula do Movimento — Conselho da Revolução e Assembleia do MFA» ( ob. cit. , p. 95).

O «Movimento» chamava a si a preparação e decisão do golpe militar, mas, «preservando e garantindo a legitimidade revolucionária do Presidente da República» ( ob. cit. , p. 94). Segundo José Gomes Mota, a cúpula efectiva era o «Movimento», que dispunha de dois grupos dirigentes.

Um «militar», «inicialmente constituído por Ramalho Eanes, Garcia dos Santos, Vasco Rocha Vieira, Loureiro dos Santos, Tomé Pinto e José Manuel Barroso». A sua «tarefa» principal era a «elaboração de um plano de operações» ( ob. cit. , p. 99), tarefa que «cumpriu rigorosamente», tendo «para isso muito contribuído a liderança de Ramalho Eanes» ( ob. cit. , p. 100).

Outro «político», de que faria parte o «Grupo dos Nove», «veio a desempenhar o papel de um verdadeiro estado-maior de Vasco Lourenço», que «assumira a chefia do Movimento» ( ob. cit. , p.100).

O livro encerra muitas contradições e obscuridades sobre o «Movimento». Diz que «a iniciativa [de um confronto militar] teria de partir sempre dos «dissidentes» ( ob. cit. , p. 93), que o «Movimento» tinha por objectivo «evitar qualquer possibilidade de uma guerra civil» e a criação da «Comuna de Lisboa» ( ob. cit. , p. 94). Mas o facto, que importa sublinhar, é a revelação de um efectivo centro político-militar a preparar um golpe ao longo do verão quente .

Melo Antunes, por seu lado, fala da acção militar do «Grupo dos Nove» na preparação para o golpe: «Além das acções legais ou semilegais a que deitámos mão para obter a supremacia militar, também desenvolvemos acções clandestinas para nos prepararmos para uma confrontação que eu julgava inevitável. [...] Tínhamos uma organização militar em marcha. » ( Vida Mundial , Dezembro de 1998, p. 50.)

A preparação do golpe «para pôr fim a uma situação insustentável» vinha pois de longe.

Foi ulteriormente dado a conhecer que, no verão quente , muitos Comandos «deixaram os postos civis e se alistaram de novo para estarem operacionais».

A colocação de Pires Veloso no Norte em Setembro de 1975, substituindo Corvacho, que Freitas do Amaral intitula de «famigerado Brigadeiro» «afecto ao PCP» ( O Antigo Regime e a Revolução , ed. cit., pp. 245 e 406), fazia parte dessa preparação. Não foi por acaso que, no 25 de Novembro, vieram ajudar o golpe várias Companhias do Norte, que depois levaram os presos para Custóias.

O papel de Ramalho Eanes é sublinhado nas valiosas informações que, no 20º aniversário do golpe, revela Vasco Lourenço, designado em 22 de Novembro e confirmado a 24 Comandante da Região Militar de Lisboa em substituição de Otelo Saraiva de Carvalho.

Segundo Vasco Lourenço, Eanes , « responsável por organizar o plano de operações», «desempenhou papel fundamental» , e «acabou por ser o principal comandante operacional », não cedendo às pressões dos militares mais radicais (artigo «Não aconteceu o pior», in Revista História , nº 14, Novembro de 1995, pp. 37-38).

Também Jaime Neves, sublinhando que se tratou de «um golpe contra o PCP», confirma o papel de Eanes: « Conspirávamos [...] e o Eanes [...] passou a ser ele a coordenar as coisas. » (Entrevista à revista Indy , 21-11-1997.)

O papel de Eanes expressou-se aliás publicamente, logo após a vitória do golpe, em factos tão significativos como a sua ascensão a Chefe do Estado-Maior do Exército (interino em 27-11-1975 — posse em 9-12-1975) e ulteriormente a Presidente da República eleito.

Está mais que provado, assumido e confessado, que se tratou de um golpe militar contra-revolucionário há muito em preparação num turbulento processo de arrumação e rearrumação de forças.

Cerca das 10 horas da própria manhã do dia 25, prontos para desencadear as operações, os conspiradores — numa diligência conjunta do «Grupo dos Nove», Eanes, Jaime Neves e oficiais dos Comandos da Amadora — procuraram e conseguiram obter a aprovação e cobertura institucional do Presidente da República, Costa Gomes (entrevista de Costa Gomes a Maria Manuela Cruzeiro, in Costa Gomes, o Último Marechal , Editorial Notícias, 3ª ed., Lisboa, 1998, p. 357; e in revista Indy, 27-11-1998).

Para a compreensão do golpe e do que dele resultou é necessário ter em conta que, na sua preparação, participaram forças muito diversas associadas num complexo enredo de alianças contraditórias.

Todas estavam aliadas para pôr fim à influência do PCP e ao processo revolucionário, restabelecer uma hierarquia e disciplina nas forças armadas e extinguir o MFA insanavelmente em vias de destruição pelas suas divisões e confrontos internos. Mas, como resultado do golpe relativamente ao poder político e às medidas concretas a tomar, havia importantes diferenças.

Na grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada, participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, que visavam a instauração de um nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente a ilegalização e destruição do PCP. Participava também o Grupo dos Nove, de que alguns membros, receosos da possibilidade de saírem vitoriosas do golpe as forças mais reaccionárias, pretendiam a continuação de um regime democrático.

Da parte dos fascistas e neofascistas, a ilegalização e repressão violenta do PCP era, não apenas um desejo mas um objectivo que pretendiam fosse alcançado no imediato.

As organizações terroristas deviam também participar. Paradela de Abreu diz que «sempre tinha estado convencido de que o Plano Maria da Fonte só deveria ser desencadeado no seu «programa máximo — um programa de violência ou de guerra — em ligação com um golpe militar » ( Do 25 de Abril ao 25 de Novembro , ed. cit., p. 204), intervindo com «muitos grupos capazes de executar quem quer que fosse» ( ob. cit. , p. 197). Na noite de 25 de Novembro foi-lhe comunicado para não avançar com o «Plano» ( ob. cit. , p. 208).

Este objectivo de desencadear uma vaga repressiva de extrema violência já na altura era abertamente proclamado nas campanhas anticomunistas. E muitos anos volvidos, mais claramente o dizem, nas suas confissões, alguns dos participantes.

Jaime Neves, num jantar em sua homenagem realizado em Janeiro de 1996, declarou que « o “problema” seria resolvido “muito simplesmente com a prisão do líder do PC”, Álvaro Cunhal » ( Público , 11-1-1996). O seu estado de espírito é transparente, ao dizer que, se «havia uma manifestação realizada pelo Partido Comunista, eu recusava-me a ir com a tropa para a rua se não fosse para prender o dr. Álvaro Cunhal» (entrevista ao Semanário , 26-11-1983).

Alpoim Calvão, operacional nº 1 da rede bombista, não deu por definitivamente derrotada a extrema direita depois do 25 de Novembro. Num encontro com Pinheiro de Azevedo (então Primeiro-Ministro), solicitou que fosse permitido o regresso a Portugal de Spínola e de todos os spinolistas exilados. Não são conhecidos os termos em que colocou o problema. Pedido? Exigência? O que diz é que uma tal decisão seria «uma solução pacífica», porque, apesar do 25 de Novembro, « muitos queriam pegar em armas e vir por aí abaixo matar comunistas » (entrevista a Eduardo Dâmaso, publicada no seu livro A Invasão Spinolista , Círculo de Leitores, 1997, p. 98). É o que teriam feito, pelo que se vê, se tivessem sido eles a impor o resultado.

No próprio dia 25, não estando ainda certo como o golpe iria terminar política e militarmente, todos envolvidos num objectivo geral comum anticomunista, cada qual pretendia que o resultado correspondesse aos seus próprios objectivos.

Mário Soares e o PS tinham representado um papel importante na acção política preparatória do 25 de Novembro. Mas o golpe do 25 de Novembro não foi o que projectaram. Nenhum dos seus três objectivos centrais imediatos se concretizou. Nem a liquidação da dinâmica revolucionária e das suas conquistas. Nem o esmagamento militar do PCP, do movimento operário e da esquerda militar, nem, como resultado do golpe, ser Soares o vencedor, aquele que teria salvado a democracia de um golpe e de uma ditadura comunista e que por isso assumiria naturalmente de imediato, no poder do Estado, as responsabilidades daí decorrentes. Tal operação foi tentada mas falhou. Não é por isso exagero dizer-se que Soares ficou de fora do 25 de Novembro .

Os fascistas e neofascistas, participantes na preparação e no golpe, não conseguiram tão-pouco o que pretendiam.

Quanto ao «Grupo dos Nove», Melo Antunes (tal como Eanes e Costa Gomes) defendia uma solução política da crise. Indo no dia 26 à televisão declarar que «a participação do PCP na construção do socialismo era indispensável», deu importante contribuição para a defesa da democracia.

Como na altura considerámos, essa atitude expressava um objectivo político e uma apreensão: o objectivo de assegurar um regime democrático para o que considerava indispensável o contributo do PCP e a apreensão de que, se a extrema direita desencadeasse a repressão contra o PCP, ele e seus amigos acabariam também por ser reprimidos.

Poucos dias depois, o chefe do EMGFA, general Costa Gomes, enviou aos três ramos das Forças Armadas uma directiva na qual se afirmava que «só os militares [...] estão em condições de servir o projecto de construção da sociedade proposta pelo Movimento do 25 de Abril, sociedade onde não seja mais possível a exploração do homem pelo homem» ( Jornal de Notícias , 2-12-1975).

E, ao tomar posse como Chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 6 de Dezembro, Ramalho Eanes, então promovido a general, declarou como «objectivos políticos prioritários a independência nacional e a construção de uma nova sociedade democrática e socialista.» ( Jornal de Notícias , 7-12-1975)

2- A tese do «contra-golpe»
Desde o 25 de Abril, todos os golpes e tentativas de golpes contra-revolucionários — golpe Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março e outros — foram explicados pelos seus autores, apoiantes e cúmplices como respostas a golpes ou tentativas de golpes do PCP visando o assalto ao poder. Assim sucedeu também no verão quente de 1975, quando forças contra-revolucionárias desenvolviam o terrorismo bombista e preparavam um novo golpe militar.

Ao contrário do que dizem (como acabamos de ver) os principais protagonistas do 25 de Novembro, Mário Soares e seus amigos não desistiram até hoje de dizer que, no 25 de Novembro, « houve uma tentativa de golpe, animado pela Esquerda Militar e pelo PCP, e uma resposta, [...] um contra-golpe da parte do sector democrático, isto é, militares moderados, “Grupo dos 9” e PS » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 487).

Esta versão dos acontecimentos foi através dos anos repetida incansavelmente.

José Manuel Barroso , sobrinho de Soares e adjunto de Spínola, é ainda mais categórico: « O 25 de Novembro [diz ele] foi um golpe de força militar, preparado pelo Partido Comunista ». «“Páras” e “fuzos” receberam, assim, ordens de saída directamente da direcção militar do PCP ». O 25 de Novembro foi «uma operação dirigida por dois postos de comando: um, militar, situado no SDCI, e outro, civil, a partir da direcção militar do Partido Comunista » ( Diário de Notícias , 25-11-1993).

Manuel Monge , destacado oficial spinolista próximo de Soares e que tinha fugido para o estrangeiro com Spínola depois do 11 de Março, afirma também que «o 25 de Novembro foi um golpe desencadeado pela ala “gonçalvista” do MFA com o total apoio do PC. » ( Público , 17-4-1994.)

E, já agora, lembremos que, em 1997, Carlucci informava a Câmara dos Representantes de que no 25 de Novembro «o golpe comunista foi derrotado » ( Dossier Carlucci/CIA , ed. cit., p. 109).

Como a orientação e acção do PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa de golpe do PCP, inventou-se então a tese do «recuo» — a história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria falhar, recuou e desistiu do golpe . Essa tese do «recuo do PCP» é condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os esquerdistas «abandonados pelo PC» à sua sorte e à repressão (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 487). Falsidade e calúnia retomada por Freitas do Amaral ( O Antigo Regime e a Revolução, ed. cit., p. 477).

Explique-se. Esta invencionice, como argumento, deturpa dois factos reais: Um , as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do RAL 1).

Outro , uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política. Soares diz contudo que Costa Gomes conseguiu «convencer o Partido Comunista a desistir » do 25 de Novembro (entrevista ao Público-Magazine , 24-4-1994). A verdade é que não houve «recuo» nem «desistência» porque não houve golpe nem tentativa de golpe do PCP, mas a realização empenhada da orientação definida pelo Comité Central em 10 de Agosto, até ao último minuto, incluindo as indicações acima referidas dadas às organizações do Partido e a diligência que se lhes seguiu junto do Presidente da República.

Apesar de ficar claramente comprovado que o 25 de Novembro foi um golpe militar contra-revolucionário, há muito em preparação, Soares diz ainda, tantos anos passados, que «a tese de Álvaro Cunhal» de o 25 de Novembro ter sido um golpe e não um contra-golpe « permanece hoje historicamente indefensável » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490).

A verdade dos factos e os testemunhos mais válidos (de Costa Gomes, de Melo Antunes, de Vasco Lourenço, de Ramalho Eanes) mostram que «indefensável» é a «tese» de Soares e seus amigos quando insistem no golpe do PCP e no contra-golpe de 25 de Novembro.

3- O «cerco» de S. Bento
Na medida em que avançava a preparação do golpe militar contra-revolucionário, travou-se acesa luta política em torno dos trabalhos e das funções da Assembleia Constituinte.

Soares pretendia (tal como Freitas do Amaral) que a Assembleia Constituinte, sem aprovar a Constituição, se transformasse de imediato num órgão do poder para fazer leis gerais e escolher novo governo. Pretendia no imediato, tendo Mário Soares como Primeiro-Ministro, formar governo em substituição do VI Governo Provisório. Jorge Miranda a pedido do PS e do PPD (segundo testemunho de Freitas do Amaral a pp. 531-532 do seu livro já citado) chegou a redigir um projecto de lei constitucional segundo o qual a «Assembleia Constituinte assume a plenitude dos poderes legislativos e de fiscalização do Poder Executivo em Portugal» (art. 1º ). Compreende-se assim melhor que, nas suas memórias, Mário Soares chame «Parlamento» à Assembleia Constituinte (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). Pretendia ainda, como os acontecimentos pouco depois comprovaram, impedir a aprovação da nova Constituição.

Na preparação do golpe contra-revolucionário, que veio a realizar-se em 25 de Novembro, e no quadro desses objectivos, chegou a ser examinada a possibilidade de transferência para o Porto dos chefes da conspiração, de unidades militares comprometidas e da Assembleia Constituinte, para depois, a partir do Norte, desencadear a guerra civil e esmagar militarmente o Sul, o que chamaram a «Comuna de Lisboa».

O conhecimento da existência desse plano é necessário para compreender a conduta de Mário Soares no chamado «cerco a S. Bento», assim chamado pela contra-revolução.

Foi o caso de, em tão polémica situação, no dia 12 de Novembro, os trabalhadores terem realizado uma concentração em frente da Assembleia Constituinte com objectivos de carácter reivindicativo laboral .

Conhecendo as posições dos vários partidos relativas às suas reivindicações, os trabalhadores aplaudiram os deputados do PCP e alguns outros, que saíram calmamente do edifício e seguiram os seus destinos.

Mário Soares conta à sua maneira os acontecimentos:

«Vieram dizer-me que havia uma importante manifestação de operários da construção civil em frente ao Palácio. Fui a uma janela e apercebi-me de que uma verdadeira milícia paramilitar [?!!!], que enquadrava [?!!!] os manifestantes, se preparava [?!] para ocupar certas posições chave perto das saídas » (?!) (Mário Soares, Portugal: Que Revolução? , ed. cit., p. 187).

Segue-se a descrição da «fuga», que vale a pena ler como testemunho de uma operação teatral, espectacular e rocambolesca. Corredores fora no edifício, «começou a correr» com seus amigos, atravessou em correria os jardins de S. Bento até lá cima à residência do Primeiro-Ministro e saiu pelas traseiras... (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). O próprio Soares conta este episódio com um colorido que faz inveja aos melhores ficcionistas. Leia com gosto, se tiver ocasião.

A história do «cerco de S. Bento», como ameaça comunista de assalto à Assembleia Constituinte com tais «milícias paramilitares», correu mundo, espalhada pela contra-revolução, tal como tinham sido os casos República e do Patriarcado.

A ameaça comunista e a «fuga» a que Soares fora forçado para escapar ao perigo «provavam» que a Assembleia Constituinte não tinha condições para continuar em Lisboa.

Segundo o pormenorizado plano de ir para o Norte, era imperativo deslocar a Assembleia para o Porto, para, a partir do Norte, lançar-se à conquista da «Comuna de Lisboa». É esclarecedor que, no dia 20 de Novembro, PS, PPD e CDS aprovam na Assembleia Constituinte a possibilidade de a Assembleia reunir «em qualquer momento e em qualquer lugar» ( Diário da Assembleia Constituinte , p. 2779).

Para o Porto não foi a Assembleia mas, como veremos, foi Mário Soares, pensando poder realizar o tenebroso plano, que fora rejeitado.

Quanto à manifestação dos trabalhadores, «a ordem repôs-se» com «cedências do Primeiro-Ministro a algumas das reivindicações salariais», segundo acabou por confirmar o próprio Soares (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). Para quê ter abalado em tal correria e saído pelas traseiras?

4- O «contra-golpe» falhado
A ida, no próprio dia 25 de Novembro, de Soares para o Porto com os seus amigos, constituiu um episódio que esclarece e evidencia alguns dos mais sérios perigos de um plano muito diferente do que veio a ser o golpe do 25 de Novembro e os seus resultados.

Nesse dia, partindo para o Porto, Soares ia certamente esperançado e decidido a que o golpe contra-revolucionário vitorioso seria um confronto militar violento, que tivesse como resultado a ilegalização e repressão violenta do PCP, do movimento operário e da esquerda militar e a não aprovação da Constituição da República já elaborada pela Assembleia Constituinte.

Um tal plano foi desvendado vinte anos mais tarde pelas extraordinárias revelações de Vasco Lourenço que, nas vésperas do 25 de Novembro, substituiu Otelo no Comando da Região Militar de Lisboa e acompanhou de perto, em ligação com Eanes, a preparação final e a realização do golpe.

Vasco Lourenço revela que, já depois da formação do Grupo dos Nove e da publicação do seu documento, foi levantada e esteve quase em vias de ser aprovada a hipótese (à qual Vasco Lourenço diz ter-se oposto «firme e deliberadamente», porque seria «provocar a guerra civil») da « retirada para o Norte, com as forças que nos apoiavam (Comandos da Amadora, Artilharia de Cascais, Infantaria de Mafra e Cavalaria de Santarém), permitindo, ou provocando, [!] que se criasse a Comuna de Lisboa , que depois se procuraria reconquistar» (artigo in Revista História , nº 14, Novembro de 1995, p. 35). Seria também de considerar «passar a reunir no Porto» a Assembleia Constituinte ( ibid. ), ideia esta que Mário Soares sugere, inventando e lançando a cabala do «cerco a S. Bento» pelos comunistas. Sendo impossível à Assembleia funcionar como Constituinte em tais condições, com a ida para o Porto tornar-se-ia um Parlamento, faria leis e escolheria o governo, como consta do projecto de lei constitucional de Jorge Miranda atrás referido.

Reveladora também da natureza e execução do mesmo plano a pouco conhecida transferência para o Norte do ouro do Banco de Portugal , em «operação devidamente concertada com o sindicato dos bancários, na altura de orientação conjunta socialista e MRPP» ( Vida Mundial , Dezembro de 1998).

Os factos mostram que, ao ir para o Porto no dia 25, ainda Soares sonhava com a «hipótese» de guerra civil contra a «Comuna da Lisboa» desvendada anos mais tarde por Vasco Lourenço.

Também Melo Antunes informa «a sua vontade de evitar a deslocação do poder para o Norte, com a intenção de daí se partir à conquista da “comuna de Lisboa” » ( Vida Mundial , Dezembro de 1998, p. 50).

As revelações de Vasco Lourenço e de Melo Antunes são ainda mais esclarecedoras, se lhes acrescentarmos outras confissões, igualmente sensacionais, feitas pelo próprio Soares a Maria João Avillez: « Talvez uma semana antes do 25 de Novembro, o então Primeiro-Ministro [da Grã-Bretanha] James Callaghan enviara-me um oficial do Intelligence Service que eu, através de Jorge Campinos, apresentei aos militares operacionais [é pena não dizer quais] que, entretanto, tinham começado a gizar o seu plano militar — conforme Callaghan conta nas suas Memórias .»

«A consumar-se a divisão entre o Norte e o Sul do país [informa Soares], o Reino Unido não só nos apoiaria politicamente, como colaboraria ainda com Portugal através de apoios concretos. Prometeram-nos fazer chegar rapidamente ao Porto combustível para os aviões e também armamento. » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 491.)

Isto é: Uma semana antes do 25 de Novembro já Soares estava a combinar com os ingleses a ida para o Norte, o fornecimento de gasolina para os aviões e de armamento.

E não só. Conta Rui Mateus referindo os apoios financeiros dos ingleses: que «a entrega mais [...] volumosa, seria a 24 de Novembro, nas vésperas da partida de Mário Soares para o Porto. [...] As instruções que Mário Soares me tinha dado eram no sentido de eu me dirigir com o “pacote” a sua casa, pois o seu conteúdo era necessário para esta segunda viagem para a capital do Norte. Dirigi-me então [...] à sua casa no Campo Grande.» ( Contos Proibidos. Memórias de Um PS Desconhecido , Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, p. 89.)

Acompanhemos o desenrolar dos acontecimentos militares. No dia 25 de Novembro, pilotos e aviões são levados de Tancos para Monte Real e Cortegaça, os pára-quedistas abandonados pelos oficiais saem de Tancos e ocupam o Estado-Maior da Força Aérea em Monsanto. Está tudo preparado para desencadear em Lisboa as operações do golpe contra-revolucionário há muito preparado e definido no «Plano das Operações». Soares vai à sede do PS, aí «trocando informações com os seus camaradas e recolhendo dos militares as precisões possíveis». Vai depois ao Palácio de Belém, onde «se montara um posto de informações chefiado pelo tenente-coronel Ferreira da Cunha» , o mesmo que no 11 de Março se encontrava com Manuel Alegre e outros dirigentes do PS. «Após ter sido decretado por Costa Gomes o “estado de emergência”, mas quando a situação militar era muito confusa e Lisboa estava cercada [em vez de ficar no teatro de operações do golpe a desencadear-se nesse mesmo dia], decidiu-se, numa reunião da direcção do Partido, que alguns de nós iríamos para o Porto» (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490).

Chegara para Mário Soares a hora do seu «contra-golpe», a hora do plano referido por Vasco Lourenço, ao qual este se tinha «firmemente oposto»: a retirada para o Norte «permitindo, ou provocando, que se criasse a Comuna de Lisboa, que depois se procuraria reconquistar». Agora não seria com as unidades das Forças Armadas nessa altura consideradas. Mas poderia ser com as unidades do Norte e do Centro e com os pilotos e aviões que tinham abandonado Tancos e estavam em Monte Real e Cortegaça. E com mais armas, que poderiam fornecer os amigos ingleses, conforme não só prometera Callaghan directamente, mas confirmara por intermédio de um oficial do Intelligence Service .

E, à maneira da «fuga» espectacular do «cerco de S. Bento», aí vão eles agora para o Porto — do Estoril para Sintra, pela estrada da costa, até às Caldas da Rainha, ali pela Nazaré e S. Pedro de Muel até ao Porto (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490).

Conta Freitas do Amaral que Mário Soares, imediatamente antes de partir para o Norte, lhe telefonou a «“pedir-lhe que desse instruções para os dirigentes e os Deputados do CDS irem também todos para o Porto”», a fim de a partir dali combaterem a «Comuna de Lisboa». Perguntando-lhe Freitas do Amaral: «Acha que devemos partir antes do fim-de-semana?», Mário Soares respondeu-lhe «à queima-roupa: “Antes do fim-de-semana não, Sr. Professor. Têm de partir antes do jantar. Hoje mesmo”.» ( O Antigo Regime e a Revolução , ed. cit., p. 461.)

Melo Antunes e Costa Gomes fazem interessantes apreciações à ida para o Porto de Soares e seus amigos no momento crucial do 25 de Novembro.

Melo Antunes, usa palavras importantes para compreender esta deslocação: «Admito que tenha havido conivência entre o PS e o Pires Veloso, nomeadamente na ideia da fuga para o Norte , que, do meu ponto de vista, era completamente disparatada e só ia criar condições de dramatização, que podiam conduzir à guerra civil . Passado este tempo todo, não me custa a admitir que o PS, em particular o Mário Soares, quisessem ter, mais uma vez, um enorme protagonismo no meio disto tudo, aparecendo no fim como os grandes heróis. » (Entrevista a Maria Manuela Cruzeiro, revista Indy , 27-11-1998.)

Diz por sua vez Costa Gomes : «Achei de um ridículo espantoso a decisão de os principais dirigentes do PS se refugiarem no Norte . E parece que o Mário Soares foi um deles. Acho que isso é uma fraqueza que as pessoas têm de vez em quando. Talvez levadas, porque vejo o Mário Soares como uma pessoa corajosa. Mas, nesse momento não foi o mais corajoso. Fugiu do centro onde havia maior actividade revolucionária para um sítio onde julgava que havia paz . Mas era uma paz podre, com laivos de MDLP. » (Entrevista a Maria Manuela Cruzeiro, revista Indy , 27-11-1998. Cf. Costa Gomes. O Último Marechal , ed. cit., p. 363.)

Costa Gomes revela com frontalidade a situação, mas os factos atrás apontados mostram que não se tratou de uma «fuga» e sim da partida para a realização de um plano.

Indo para o Norte, onde o aguardavam o comandante da Região Militar Pires Veloso e Lemos Ferreira, levando os aviões e pilotos de Tancos, e contando com o apoio político, diplomático e financeiro da Grã-Bretanha, gasolina para os aviões e mais armamento, Mário Soares vai com a ideia de que o golpe contra-revolucionário em Lisboa poderá ser derrotado e então ele, a partir do Norte, desencadeará a guerra civil para esmagar a «Comuna de Lisboa».

E, sobre os pilotos que, com os aviões, abandonaram «em bloco» Tancos, e que «constituíam a parte mais importante dos “páras”» e os seus comandos todos, não é de mais lembrar que Costa Gomes lhes atribui grande responsabilidade por abandonarem os «páras» ( Indy, 27-11-1998) que em desespero foram ocupar em Monsanto o EMGFA e prender o seu comandante.

No Norte, os aliados de Soares não eram famosos.

Segundo Melo Antunes, Soares e o PS « aliaram-se ao que de pior havia nas Forças Armadas. Como já se haviam aliado ao Spínola . Numa aliança que se tornou mais evidente depois da vinda dos oficiais do ELP e do MDLP. Que se tornaram nos aliados militares preferenciais do PS.» ( Indy, 27-11-1998).

No Porto (já realizado o encontro com Pires Veloso e Lemos Ferreira) Soares dá, no dia 26, uma conferência de imprensa. Insistindo na sua tese do «contra-golpe» à tentativa de um golpe comunista, afirma que o 25 de Novembro foi (o inventado golpe comunista, claro) « o mais grave atentado à democracia portuguesa desde o 25 de Abril » ( Primeiro de Janeiro , 27-11-1975).

Dois dias depois, num comício realizado também no Porto, acusa: «os responsáveis são em primeiro lugar os dirigentes do PCP» ( Jornal de Notícias , 27-11-1975). Sottomayor Cardia classifica o 25 de Novembro como « uma insurreição comunista para a conquista total do poder e eliminação dos adversários do comunismo » ( O Jornal , 5-12-1975).

Nesse comício destacou-se uma delegação do PC de P(m-l), muito aplaudida segundo o jornal, com um sugestivo cartaz: «Prisão para Cunhal e seus lacaios» ( Comércio do Porto , 27-11-1975).

Vê-se que Soares e o PS se identificavam, quanto aos objectivos do golpe, não com o que veio a ser o golpe e o seu resultado, mas com os fascistas e «laivos de MDLP» como Costa Gomes refere. Com spinolistas e «o pior que havia nas Forças Armadas», como refere Melo Antunes. Com os reaças a ferver para « vir por aí abaixo matar comunistas », como diria dias depois o chefe da rede bombista do MDLP Alpoim Calvão. Ainda com a ideia de liquidar pelas armas a «Comuna de Lisboa».

Uma observação mais para melhor se compreender o alcance das palavras.

Os contra-revolucionários chamaram «Comuna de Lisboa» à eventual conquista insurreccional do poder pelo PCP na grande região de Lisboa. Este nome não foi utilizado por acaso. Foi por analogia com a «Comuna de Paris» de 1871, a qual nas palavras de Marx «era essencialmente um governo da classe operária» (Marx//Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, Tomo II, p. 243). Tão-pouco por acaso a analogia da repressão que projectavam para a «Comuna de Lisboa» com a conquista de Paris pelas tropas reaccionárias e o terrível e cruel esmagamento da «Comuna de Paris» com fuzilamentos em massa de dirigentes e da população.

5- A saída da crise político-militar
A preparação e a execução do golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro realizou-se no quadro complexo e movediço de alianças diversas e contraditórias, de arrumações e desarrumações de forças em movimento, de objectivos políticos e militares diferenciados e incompatíveis no que respeita ao que cada qual pretendia como resultado final do golpe.

Mário Soares e o PS participaram com importante contribuição na formação da grande aliança contra-revolucionária anticomunista e anti-MFA, que conduziu ao golpe. Mas, pela identificação dos seus objectivos e pela sua colaboração estreita e prioritária com as forças mais reaccionárias, estiveram à margem do processo efectivo de preparação do golpe e não conseguiram desencadear o que apelidavam de «contra-golpe», nem conseguiram o seu objectivo de reprimir e ilegalizar violentamente o PCP e o movimento operário.

Muitos anos mais tarde, Soares diz que, logo no dia 26, apoiou e «pareceu-lhe sensata» a célebre declaração de Melo Antunes na televisão: que «os comunistas eram indispensáveis para que se cumprissem as regras do jogo democrático» (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 489). Fantástica reviravolta, na hora do fracasso da tentativa de desencadear a guerra civil a partir do Norte.

A verdade é que, no 25 de Novembro, Soares, de companhia com a extrema direita, sofreu séria derrota política . Nem a liquidação militar da «Comuna de Lisboa», nem guerra civil, nem ilegalização e repressão do PCP, nem intervenção efectiva na saída política da situação. É pertinente a observação de Melo Antunes de que «não é por acaso que das suas declarações continuam a não constar grandes referências ao 25 de Novembro» ( Indy, 27-11-1998).

Há quem não compreenda como foi possível a surpreendente solução política, que no imediato veio a resultar do golpe. Com a salvaguarda das liberdades e da democracia. Com a formação de um governo em que continuou o PCP. Com a aprovação e promulgação da Constituição pela Assembleia Constituinte.

E entretanto essa solução política era uma possibilidade há muito considerada pelo PCP na sua análise da situação e na sua acção prática. Uma tal saída política do golpe «contra o PCP» resultou da aliança, não negociada, não debatida, não acordada, não explicitada, mas aliança com o PCP, conjuntural e objectivamente existente , de chefes das Forças Armadas, destacados participantes na preparação do golpe e na sua execução, mas defensores da continuação das liberdades e da democracia política.

A aliança, que decidiu da saída política do 25 de Novembro, não foi pois a que Mário Soares indicava como sendo a do «contra-golpe» — «militares moderados, Grupo dos Nove e PS». Não, não foi essa aliança que realizou o 25 de Novembro nem a que interveio na saída política do golpe. No complexo quadro da grande aliança contra-revolucionária, o PS, no 25 de Novembro, acabou por ficar de fora , como atrás anotámos. É Eanes que, citando o «Plano de Operações», o testemunha ( O Independente , 29-4-1994).

De facto, o «Plano de Operações», publicado como anexo em vários livros, e não nos consta tenha sido desmentido, justifica inteiramente essa afirmação.

Embora admitindo poder vir a ser necessário um «plano de acção política com deslocação dos órgãos do poder político para o Norte», o Plano estabelece que «a acção decisiva processar-se-á na Região Militar de Lisboa» «seja ou não» a iniciativa das «forças da ordem».

Elaborado sob a direcção pessoal de Eanes (como Gomes Mota informa e Vasco Lourenço confirma) o Plano permite explicar e compreender muitos dos aspectos mais contraditórios e polémicos do golpe.

O «Plano de Operações» contém, objectivamente, não o plano de um contra-golpe mas de um golpe. Não uma acção militar para responder a um golpe efectuado ou em curso, mas o plano de um golpe militar, exigindo longa preparação, com o objectivo de pôr fim a uma situação político-militar cuja responsabilidade atribuem ao PCP.

O Plano é concebido como um golpe à escala nacional e com plano de operações em todas as regiões. Faz um balanço das «unidades favoráveis» e «unidades não seguras» indicando as operações militares do golpe decorrentes da situação avaliada em cada caso.

Aponta os termos concretos da intervenção tanto das unidades das Regiões Militares do Norte, do Centro, do Sul e de Lisboa, como dos partidos que apoiam o golpe.

O Plano, embora admitindo que o momento da execução possa ter de ser determinado por circunstâncias não previstas, «está elaborado para a hipótese da iniciativa ser das forças da ordem» (hipótese 2ª) e vai ao ponto de indicar a altura do dia para o começo das operações de tais ou tais unidades.

O Plano, nas alternativas que coloca em muitos casos ao desenvolvimento das operações, contém uma avaliação de incertezas e contradições, que reflectem e correspondem às contradições do próprio golpe.

Por um lado, constitui um elemento do processo geral da contra-revolução no caminho para o fim da dinâmica revolucionária, para a efectiva dissolução do MFA, para o restabelecimento da hierarquia militar controlada pelas forças de direita.

Por outro lado, o seu resultado imediato não foi a repressão ao PCP e ao movimento operário e a instauração de uma nova ditadura, como queriam, e não estiveram longe de conseguir, os protagonistas e apoiantes fascistas e fascizantes, mas a continuação (com os comunistas e com um forte movimento sindical de classe) de um regime democrático.

Os principais dirigentes dos partidos que tinham participado e apoiado a realização do golpe evitaram até hoje dar sobre isso uma apreciação frontal. Deixaram isso para o Jardim e para os bombistas.

Pouco conformado com a saída política, Galvão de Melo (em 8 de Dezembro), brandindo a moca, apelava para que os comunistas fossem lançados ao mar.

Alberto João Jardim diria mais tarde que «o problema foi que as Forças Armadas voltaram a falhar por deixarem incompleta a missão patriótica, em que se envolveram a 25 de Novembro. Passou-se uma esponja sobre os crimes que vinham sendo cometidos desde o 25 de Abril » « mantiveram uma Assembleia Constituinte eleita em condições de total falta de imparcialidade e liberdade para vários partidos políticos, o que deu a borrada ainda hoje em vigor, quando deviam ter dissolvido essa Assembleia e, então sim, isso feito, realizar eleições verdadeiramente livres» ( O Diabo , 4-4-1994).

O chefe do movimento terrorista Maria da Fonte responsável por numerosos assaltos, atentados, destruições de instalações do PCP, lamentando não ter vencido o «Plano» gizado para liquidar fisicamente o PCP, referirá o golpe realizado como «aquele 25 de Novembro», «o pudico golpe militar de Novembro de 1975», que quis «evitar» que a intervenção dos civis na execução do «Plano» «pudesse resultar em algumas centenas de mortos» (Paradela de Abreu, ob. cit., pp. 153 e 154). Que importância teria isso?

Joaquim Ferreira Torres, destacado activista do MDLP e contratador do mercenário Ramiro Moreira, considerou o 25 de Novembro « uma traição » ( ob. cit. , p. 188).

Também o cónego Melo ficou manifestamente desiludido. Tanto empenho, tanta mobilização das populações arregimentadas pela Igreja e pelos padres, tantos assaltos e destruições de Centros de Trabalho do PCP, tantas bombas, tantos atentados — alguns dos quais até tem sido difícil manter impunes — e afinal um tal resultado: liberdades, regime democrático, aprovação da Constituição. Desapontamento profundo. Não sabe como explicar mas explica: « O 25 de Novembro foi da total responsabilidade dos marxistas […] foi uma luta de marxistas » (entrevista ao Diário do Minho/Rádio Renascença , 13-3-1999). Só faltava mais esta, não é verdade?

Como podiam fascistas e fascizantes, militares radicais, bombistas do MDLP, do Maria da Fonte e do ELP, como podiam PS, PPD e CDS aceitar que a saída política de um golpe contra-revolucionário anti-PCP fosse a continuação e retomada de funções de um governo com a continuação da participação do PCP, com um ministro e seis secretários de Estado?

Não podiam aceitar e não se deram por vencidos. Voltaram à carga no imediato numa ressaca que, como veremos, teve como objectivos imediatos fundamentais inverter a situação, impedir a aprovação e promulgação da Constituição pela Assembleia Constituinte e assegurar a efectiva tomada do poder pela contra-revolução.

____________
[*] Ex-secretário-geral do Partido Comunista Português. Capítulo 8 do livro "A verdade e a mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se", Edições Avante!, Lisboa, Setembro de 1999, ISBN 972-550-272-8

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

Publicado por: Margarida em setembro 19, 2005 09:23 PM

Sobre a Constituição dos USA esqueceu-se de dizer que tem 7 artigos e 27 emendas. E sobre essas emendas junto deixo algumas para que possa ajuizar da sua “profundidade”;

EMENDA XIII
Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.

EMENDA XVIII
Um ano depois da ratificação deste artigo será proibida a manufatura, venda ou transporte de bebidas alcoólicas, assim como a sua importação ou exportação, nos
Estados Unidos e em todos os territórios sujeitos a sua jurisdição.

EMENDA XX
Os mandatos do Presidente e Vice-Presidente terminarão no dia 20 de janeiro, ao meio-dia, e o mandato dos Senadores e Representantes no dia 3 de janeiro, ao meio-dia, nos anos em que esses mandatos terminariam se não fosse ratificado o presente artigo: os mandatos de seus respectivos sucessores terão então início.

EMENDA XXI
Fica revogada a décima-oitava emenda à Constituição dos Estados Unidos.

EMENDA XXII
Ninguém poderá ser eleito mais de duas vezes para o cargo de Presidente, e pessoa alguma que tenha sido Presidente, ou desempenhado o cargo de Presidente por mais de dois anos de um período para o qual outra pessoa tenha sido eleita Presidente, poderá ser eleita para o cargo de Presidente mais de uma vez. (…)

EMENDA XXV
Em caso de destituição do Presidente do cargo, ou por sua morte ou renúncia, o Vice-Presidente será o Presidente.

PS: Bastam as emendas para se perceber da "modernidade" da matriz...

Sobre os rótulos a que alude ('lacaios do capitalismo internacional', 'fascistas', 'burgueses', 'compagnons de route', 'verdadeiros democratas', 'faccionários de esquerda', 'faccionários de direita') nunca mos viu aplicar pois não? Alguém enfiará a carapuça do "endurecimento dos processos cerebrais", mas a mim não cabe!

Publicado por: Margarida em setembro 19, 2005 09:50 PM

Mas que verborreia, Margarida. Copiaste o livrinho de propaganda do partido todo?

Também achei curioso 'esqueceres' algumas outras emendas da Constituição do Estados Unidos... Dava jeito, não era?...

Publicado por: Pedro Oliveira em setembro 22, 2005 06:21 PM

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Publicado por: online directory main em abril 22, 2006 07:58 PM

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Publicado por: online directory main em maio 15, 2006 02:19 PM