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setembro 11, 2005

PARA A IRINA NO DIA DO SEU 5º ANIVERSÁRIO

1.

Encima o ombro a ternura, o enleio:
é a filha nos seus potris três anos.
Eu, nos meus já desabalados, mofinos,
nada mais quero que servir-lhe de esteio.

Agora, porém, é o doraemon que pela mão
nos leva, por sobre campos de brilho fractal,
alto galope de tarde à parietal,
«con su bolsillo magico», diz a canção.

Arde em suas íris o vivo sol do sul
(sem o cieiro que atril jugula).
Fora pintor recobria-a de hialino azul,

mas eu só posso essa luz sonâmbula,
avesso desse silente fuzil que no sul
cospe o dia como bala.


2.

Pinto-a à luz limpa e dura
do verão, altura do chão quase,
gestos veleiros rasgando essa gaze
com que a manhã se emoldura.

É ela a comenda e a medalha
desse fazer-se ronceiro, sem vertigem.
Flor-menina, não a ponho em embalagem
para que da vida saiba a suja navalha.

Onda, brida ou meio-dia, corre
indómita pela casa, no galope das pernas
inda bambas firme vocação de torre

já se adivinha. Telegrafista de penas,
sabota-me a cifra essa exaltação pura,
sua tez embora cor da manhã madura.


3.

Ei-la, pequena corça, caçadora
ágil que me embosca o coração.
(Oh, ternura de assalto também não,
no casulo imaginário com que pura

poesia sonho). Não mais a paz redonda
que abafava os domingos, mas esta
filha que um calor de festa empresta
aos duros tormentos desta lida.

Não mais o polvo insone segregando
em treva e tinta sua morada —
algum azul de vez em quando

(da cor dos olhos da corça alada),
mesmo se ao frio do mundo
pátria futura já sombra ardida.


4.

Inventa-te o susto destas mãos
igual pássaro ao tiro da matina
ou na ira que acende o tufão
e me cabe dizer em branda cavatina

da sanguínea feito mestre
ruga a ruga te concebo
em paga fresco sorriso teu recebo
eu que só sonhei teu vozear terrestre

amanhã saberei que te foi razão
a canga lêveda no vedado terraço
onde potril transitavas o verão

guarda porém as mortas falas laço
que te prende às passadas vidas
ao louvável amor das dúvidas

(José Luis Tavares)

Publicado por José Mário Silva às setembro 11, 2005 11:54 PM

Comentários

É só na dedicação que este poema me faz lembrar um que há uns anitos escrevi e que agora deve andar perdido entre a papelada bolorenta. Antes que alguem me roube a oportunidade, gostaria de tornar pública a minha modesta opinião de que o Tavares tem o talento de nos obrigar a reler as suas palavras raras - uma homenagem aos versos que nos fazem pensar. Bela amostra. A idade também é de descobrimento e aventura contra as promessas falsas dos monopolistas das ideias. Será disso? Fico à espera de mais.

Publicado por: Bomba em setembro 12, 2005 01:15 PM