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agosto 30, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

A pedido do Fernando Venâncio, leitor e comentador de todas as horas, aqui fica mais um poema inédito (e sem título) de José Luís Tavares, oferecido ao BdE neste mês de Agosto quase a finar-se:

De ombro à ventania
gingavas na tarde estuarina,
pobre cego a que nenhum sobressalto
levará a dizer eureka.

Ao fingimento geral da felicidade,
aceitas o pânico de estar sozinho,
transístor colado ao ouvido,
donde uma parisiense já muito ustida
te nomeara esbelto cobridor
com escritório tão junto ao rio.

A voz débil de terror
canta na tarde fugitiva,
gasta a solicitude
com que em tempos a musa acudia.

Já nos visita o incessante inverno
pelo ar inchado de palmeiras,
e leves risos de viris negros,
recados porventura dalém-mar
soprados sobre um rossio
onde floresce a livre arte do impropério.

A felicidade foi não sabermos demasiado
a célere ciência do desengano,
os líricos axiomas mascavados num acaso
de conjuras, legenda de trazer ao bolso
para o descolorido retrato que de nós
o futuro traçará ou não.

Publicado por José Mário Silva às agosto 30, 2005 11:46 PM

Comentários

"Descobrir a careka à eureka!"

Esse poema está truncado, menino. Falta-lhe isto.

...e das sombras frias dos cadaveres erectos
Escorrem humores segregados agonias
Limpando lamas temporais azias
Deixando nas camas
Só as carnes alvas luzidias

Depois vem o furacão de sentidos
Sincopados no corpo da esperança
Outrora inerte
E logo verte
O líquido natural
Na mão
Que enxuga a lágrima da vida
Na pele do animal são.

Publicado por: Bombatómica em agosto 31, 2005 10:10 AM

José Luís Tavares é um mestre do desengano. Mas um desengano, atenção, sem desalento. O mundo pode nada ter de jubiloso. Mas conseguir dizê-lo com esta desenvoltura já compensa muito. Por instantes, compensa mesmo de tudo. É esse o efeito da arte: a bendita ilusão de sermos perfeitos.

Publicado por: fernando venâncio em agosto 31, 2005 09:11 PM

Não me iludo tanto.Basta-me a arte como forma de dourar a pílula da nossa existência pouco perfeita.

Publicado por: tb em agosto 31, 2005 11:03 PM

Venâncio,

Por muito comovente que o teu discurso possa soar aos meus e aos ouvidos das cidadãs e cidadãos deste blogue, não há nele nada que me convença que a maioria dos poetas, tal como a maioria do pobre “resto”, perde tempo a separar a cabeça do corpo aos jaquinzinhos fritos, antes de os engolir com um bom copo de vinho. Mas como não é justo interromper eternamente o bailado das ninfas sobre a tua cabeça, retiro a brincadeira acima e deixo incólume o prestígio e a missão do homem-poeta para continuares a deleitar-te no futuro.

Só outra nota. Enquanto houver hipócritas neste blogue com estofo para aplaudirem o aborto desenfreado ao mesmo tempo que vêm belezas arrebatadoras em meia dúzia de linhas que podem ser escritas quando estamos a defecar, haverá sempre um canalha como eu para os lembrar dessa estranha capacidade.

Publicado por: Bombatomica em setembro 1, 2005 07:03 AM

Bombatomica,

Não bailam ninfas sobre a minha cabeça, afianço-te. Mas alguma aragem passa, fugaz e imprevista, no meio do geral desconsolo dos dias. Foi isso - ou muito parecido - o que aconteceu quando li o primeiro poema, posto aqui, do Tavares. E quis assinalá-lo.

E não, razão tens: a maioria dos poetas não tira a cabeça aos jaquizinhos. Nem eu, nem tu. Somos descomplicados, broncos, naturais.

O que eu não percebo é essa do aborto desenfreado. Quanto sei, predomina por aqui a gente educada, que nunca «aplaudiria» uma desgraça. Mas, exactamente porque educados, sabem que não devem intrometer-se numa questão privada. E quanto menos intrometidos formos, Bombatómica, melhor.

Mas o que é uma filha-da-putice das grandes é a tua manobra de fazer do prazer da poesia uma razão de má-consciência. São esses golpes baixos que tanto caracterizam os espíritos mesquinhos - que esses, sim, nos zoam às orelhas uma vida inteira.

Publicado por: fernando venâncio em setembro 1, 2005 07:50 AM

É nestes momentos que nós os que defendemos a despenalização do aborto percebemos que estamos do lado errado da "barricada".

A referência implícita ao feto, perdão "umborn child" e às fezes na mesma fase mostra bem o que significa para vocês o respeito pela vida humana.

Já agora deixo aqui um apelo aos que estão dos dois lados da controvérsia para desmanchar esta ideia da "barricada". Defender a desrealização do aborto não implica necessariamente ser a favor do mesmo, porque nenhuma mulher decide abortar enquanto defeca, é sempre uma decisão tomada com dor (às mais das vezes com muita dor).

Publicado por: Luis Oliveira em setembro 1, 2005 10:05 AM

onde está "desrealização" devia obviamente estar "despenalização"

Publicado por: Luis Oliveira em setembro 1, 2005 10:08 AM

Venâncio,

É quando pões a grunhideira de fora que mais gosto de te ler, ainda que desta vez te tivesses alambazado demais com as tuas referências a manobras filhaputistas de gente mesquinha da minha laia. Meu rapaz, as conas deseducadas como eu dizem aquilo que lhes apetece quando falam com admiradores de poetas e poesia com tendências para o chilique em locais públicos. Errada ou certa noutras alturas, a minha má consciência, ou a que vejo nos outros, deixou buracos-refúgios onde poderias ter metido naturalmente, à força ou com ajuda de vaselina todos os teus favoritos vates, incluindo o autor do poema acima contra o qual não ouso levantar voz crítica pois parece-me bem melhor que a grande maioria que tem tido a honra de enfeitar as páginas deste blogue. Contudo, o hábito e a lança da regateirice educada que empunhas não te permitiram e agora o problema é só teu. Sofre ou aproveita as consequências do homem que vê na detecção do desconsolo uma oportunidade rica para provar que há várias maneiras de temperar e comer as saladas poéticas. Continua a conversa com o Oliveira até eu me curar da mesquinhez. Se voltares, dobra-me essa língua, senão obrigas-me a imitar-te.

Publicado por: Bombatomica em setembro 1, 2005 11:55 AM

Bombatomica,

Prometo que não vou implicar com o teu «nick». Já outra coisa é ter de dialogar com uma máscara. Desagrada-me, podes crer. Só me vale é isto: saber que tu tens esta e tens outras, o que te vai dando alguma espessura. Acordas, um dia, mais estrepitoso, e és Bombatomica. Levantas-te, noutro, mais discreto, e és Margarida.

Mas estávamos a falar de poesia. Há tempos, aqui, deixaste o Valupi pendurado. Perguntava-te ele qual o teu poeta favorito. Ignoro qual a resposta, if any, com que o entretiveste, mas a verdadeira sei-a eu: TU MESMA (dou-te o género gramatical dos «nicks», desculpa lá). E com razão, ganda conaças. Porque tu, com gentil, mesmo se estudada, sobranceria, vais aproveitando os buracos (termo teu) deste inenarrável blogue para publicar a tua muito estimável obra.

Agora que te descobri poeta, vês? trato-te com outros mimos. Eu tenho este fraco... Ãh? Então que é isso? Não ruborizes.

Publicado por: fernando venâncio em setembro 1, 2005 02:05 PM

Vai um «grogue» de Cabo Verde para acalmar? O senhor Silvestre, do Casmurro, pode informar acerca das virtualidades do dito.

Publicado por: José Luís Tavares em setembro 1, 2005 03:51 PM

Ele - «Ele» - em pessoa! O bardo himself. Bem aparecido. E desce a estas terrenas plagas com a mais olímpica das sugestões: um grogue de Cabo-Verde.

Qual o melhor? Qual o autêntico? Santo Antão? São Nicolau? Mestre Silvestre saberá. Os meus alunos cabo-verdianos disputavam-se a autenticidade do idioma ou (dependia dos dias)
da cachupa. Eram adolescentes. Hoje, já se terão decidido sobre grogues, e outras impressões fortes. Terão? 'M ka sabê.

Que diz Mestre Silvestre de virtualidades?


Publicado por: fernando venâncio em setembro 1, 2005 04:58 PM

Caro Fernando Venâncio , há-de desculpar-me a familiaridade, mas somos conhecidos de longa data: segui-lhe os apócrifos diálogos no JL e o zurzir de certos lombos (prosas, queria eu dizer), vezes, concordando, outras, nem tanto; mas louvando sempre a maravilha do português.
Santiaguense, embora, não há nada que se compare a uma boa aguardente de santo antão.

Publicado por: José Luís Tavares em setembro 1, 2005 05:27 PM

Caro José Luís, o prazer é todo meu. Vou ter de desencantar algures em Roterdão - a cidade cabo-verdiana mais próxima - onde comprar o fluido que me aconselha, e que, suponho, tem virtualidades calmantes. Depois lhe direi.

Queria perguntar-lhe coisas, mas só me vêm perguntas parvas, das que os poetas respondem nas entrevistas. Talvez só uma observação menos desaproveitável. Há em você uma pose clássica da linguagem - que é gozo, a gente topa -, na realidade rara entre nós (só me lembro, assim de repente, do Fernando Assis Pacheco) mas tão nitidamente nossa, de hoje, já que nenhum clássico jamais lá teria chegado. É essa impossível antiguidade da sua linguagem que faz um belo curto-circuito, ou umas felizes cócegas, no cérebro, ou onde quer que você nos mexa.


Publicado por: fernando venâncio em setembro 1, 2005 06:16 PM

Nem mais. A maravilha do português do Fernando, servida aqui em generosidade quotidiana. Sorte a nossa.
__

De facto, a Bomba não me respondeu ao inquérito poético. No que foi prudente.

Publicado por: Valupi em setembro 1, 2005 06:29 PM

Não se acanhe, homem, pergunte,pergunte. Esboçando uma resposta, presumo que, para além da procura de um certo gozo vocabular, longe de qualquer intuito preciosista, terá muito a ver com a minha língua materna (tão próxima do português de quinhentos, como você certamente terá detectado através do linguajar dos seus alunos,tanto que até tive a ousadia de verter 75 sonetos de camões para cabo-verdiano, empresa concluída há poucos dias. Há um soneto publicado em www.aulil.blogspot.com)ou não terá, já que nenhum escritor cabo-verdiano usa tal linguagem.O Assis pacheco, é cá dos meus, como são o Nemésio,O Echevarría, O Melo Neto, para ficar por alguma da maltósia que verseja em português. Querendo saber de coisas parvas, dessas que um gajo põe-se a responder, há uma no arquivo da storm-magazine,julho-agosto de 2004.

Publicado por: José Luís Tavares em setembro 1, 2005 06:40 PM

Maravilha, Valupi? Já terás lido como se passeia Camões, pela mão de Tavares, por essa língua nossa filha amada?

Tavares, o ZM era capaz de colocar aqui outro soneto que você lhe mandasse. E obrigado pela dica do excelente blogue.

Publicado por: fernando venâncio em setembro 1, 2005 07:00 PM

O Zé mário tem lá uma catrefada de coisas,incluindo sonetos, que lhe mandei, de um livro inédito sobre lisboa intitulado «Último Cabo».

Publicado por: José Luís Tavares em setembro 1, 2005 07:09 PM

Sim, Fernando. Do pouco que conheço do José Luís Tavares, regozijo-me com o seu amor à língua. Há canto nos seus cantos.

Publicado por: Valupi em setembro 1, 2005 07:28 PM

Na pressa, devo ter entendido mal - presumo que estaria a referir-se à tradução, e não a um da minha autoria. Correcto?

Publicado por: José Luís Tavares em setembro 1, 2005 07:36 PM

Correcto. Nada contra mais originais seus. Mas eu estava a pensar em mais Camões according to Tavares.

Publicado por: fernando venâncio em setembro 1, 2005 08:12 PM

Sinceramente, quem me dera ter dinheiro para ter um livro inédito, depois de ter tido sido capaz de escrevê-lo, claro, ver canto nos cantos e ter amor à língua para a estalar logo a seguir a uma boa golada de grogue cabo-verdiano. Triste vida, a dum bloguista afastado dos centros de cultura. Mas vamos ao que interessa, com as minhas desculpas ao Tavares.

Venâncio,

Reconheço que é uma desvantagem da tua parte argumentares contra uma máscara. Este tema tem sido abordado amiude neste blogue, mas o partido dos encapuçados está bem representado. A única razão porque uso uma é para proteger a minha posição no Chase Manhattan. Já aqui disse e repito, as máscaras mais perigosas são as de transparência de celofane e têm a macieza de carnes políticas legais, nem todas elas rijas. E não vejo como usando uma máscara esteja a aproveitar os buracos deste blogue para me evidenciar ou revelar a minha “obra”. Também resta saber neste campo das dissimulações se tu és franco ao ponto de me garantires nunca teres vindo a este baile com uma.

Valupi,

A razão porque não te respondi daquela vez não foi ditada pela prudência. Há outras áreas onde a utilização do cuidado é muito mais aconselhável quando se fala contigo. Apenas não quiz dar-me ao incómodo de te mentir, recorrendo a minha longa lista de poetas famosos que nunca tive a pachorra para ler, pelo menos com a profundidade que uma resposta honesta implicaria. Para mim, pobre opinião, poesia são mensagens numa lingua muitas vezes intraduzível. Nem os poetas muitas vezes sabem aquilo que querem dizer. Uns dias são claros e noutros mistério insondável ou vaidade improvável a escorrer da pena. Numa situação destas, nunca poderia considerar favoritismos. Aliás não tenho favoritos em nenhuma das áreas da expressão humana. O poeta só é diferente do resto dos animais na nossa imaginação. Se a poesia fosse uma arte pura merecedora da nossa adoração incondicional não a veríamos espalhada por todas as demências politicas organizadas em partidos Este é o meu grande fraco, não saber abstrair para ser mais justo ou poupar os inocentes. Que os há, bastantes, tenho a certeza.

Publicado por: Bombatomica em setembro 1, 2005 11:14 PM

Bomba, usei um disfarce, sim, pontualmente. E, como os outros apanhados, não inalei. E, como eles, também não gostei. Ele há máscaras e máscaras. Uma máscara pode tornar-se adequada, quem sabe se «a» adequada, porque mostra (ou pode esperar-se que mostre) tudo quanto, em certo cenário, interessa. É para mim o caso do Valupi. Ninguém sabe quem ele é (eu decerto não sei), e ainda assim sabe-se - vê-se - que ele aceita correr riscos. Uma máscara assim já é uma pessoa. Outras, bem diferentemente, são incómodas, porque não chegam a ganhar espessura, não chegam a enganar-se na sua condição de máscara. Dizes que usas a tua para te proteger, suponho que profissionalmente, na cowboiada que te calhou. Isso aguça-me a curiosidade, mas também a compaixão - uma e outra ociosas, despropositadas.

Publicado por: fernando venâncio em setembro 1, 2005 11:41 PM

Fernando,

Here we go again.Fazes-me lembrar os cuidados que o Bill Clinton, um dos soberanos mais tenebrosos da quarta dinastia, tinha quando fumava marijuana. Nunca inalava. Mas, obviamente, acredito muito mais em ti que nele. E não tenho ilusões que a um homem de letras, bom conhecedor de estilistica e perspicaz como tu possam escapar os pequenos detalhes que ajudam a desafivelar este meu disfarce desnecessário.

Noto também, não sei se estarei errado, uma certa resignação da tua parte em relação ao Valupi nesta matéria. Eu já nem penso nisso. Apesar do fosso que nos separaria se tivessemos de falar em nomes de partidos, aceito o aristocratismo de palco que se desprende do nome, embirro com as pomposidades com que ele enrola as ideias simples, mas reconheço com respeito que o homem não é para brincadeiras quando tem razão e sabe expor isso com elegancia e humor da mesma família. Tu, Fernando, com a responsabilidade que tens de carregares essa personalidade civil e publica, estás em nítida desvantagem. Claro que ninguem duvida dessa insuperável capacidade para escarrapachares uma ideia perfeita com a ajuda de um número reduzidissimo de palavras. Mas uma máscara é essencial, não só quando queremos revelar coisas consideradas ridículas pelas maiorias como também para dar aos nossos adversários a ideia de que não temos ressentimentos graves contra eles.

Em suma. O meu investimento-comentário neste blogue não é político nem pessoal. A verdade interessa-me acima de todas as coisas, não o nego. E como a verdade está rodeada de mistério, a utilização da máscara, quiça menos cavalheiresca que a do Valupi, parece-me perfeitamente aceitável. E se isto tudo, no fim, não passar duma brincadeira ou duma peça de teatro, duma cowboiada, como tu dizes, também é bom podermos rir sem que nos vejam os dentes. E os meus já estão muito amarelos do tabaco. No entanto, agradeço, mas dispenso, a compaixão.

Publicado por: Bombatomica em setembro 2, 2005 09:38 AM

Mas que bela conversa que por aqui vai.
E ainda dizem mal dos comentários...

Publicado por: José Mário Silva em setembro 2, 2005 01:20 PM

lol JMS

Publicado por: Zero à Esquerda em setembro 2, 2005 04:22 PM

Bomba,

Eu leio, releio, este teu último texto, e só sinto ganhar-me um receio: o de tu começares a tornar-te razoável. Seria o pior que podia acontecer-nos. Precisamos da tua desrazão, dos teus esbracejos, tanto mais grotescos quanto menos convicção neles pressentimos. Ao fim e ao cabo, o verdadeiro reaccionário é-o sobretudo porque se tomou a sério.

E tu, meu sacana, de reaccionário nada tens. Não chegas ao «aristocratismo» do Valupi? Também não é preciso. Não seria por te faltar nervo para isso, ou semelhante. Mas é bom deixar o Valupi sozinho no seu cuidado labirinto.

E, quanto à tua máscara, eu nem saberia por onde começar a desfivelá-la. Por este lado, não receies. Mas pode haver malta bem mais capaz - e mais motivada - do que eu.

Publicado por: fernando venâncio em setembro 2, 2005 06:24 PM

Vai mesmo. Conversa animada e colorida, com grogues e tudo.


Bomba, acabaste por dar a resposta que buscava, nessa armadilha de te acenar com uma pergunta idiota (vide etimologia) só para te pôr a discorrer poeticamente. Que o poeta é, mais do que fingidor, um vero trafulha é coisa sabida desde os cursos de pós-graduação do "Ombros Largos". Mas erramos o alvo se fulanizarmos e psicologizarmos a matéria poética, a qual flori nos jardins suspensos da linguagem.

Tenham Pessoa, Eugénio de Andrade e Herberto Hélder escrito alguns, ou todos, dos seus poemas em comércio íntimo com a luxúria da vaidade, exemplo teu, é assunto que não dá assunto. Para mim, para nós, até os podem ter escrito por maldade, ludibrio ou achincalho. Nada da psicologia do autor interfere com a autonomia da obra, pois é na pristina universalidade da linguagem que o poema verte para os vasos particulares que calhar estarem abertos. O mesmo é dizer que o poema é uma equação actualizável a cada leitura, cujos valores exactos nas decimais são determinados pelo operador, embora as operações estejam definidas à partida. Daí, um poema poder ser tudo para cada qual em concomitância com uma autoria idiossincrática.

Aparentemente, esta arte plástica de moldar o verbo escapa à tua gula. Creio-te sincero nessa confissão. Por isso, é meu dever de concidadão avisar-te que há um preço a pagar por tal carência nutritiva. Nem só de cinismo vive o homem.

Publicado por: Valupi em setembro 2, 2005 07:18 PM

Muito bem, Valupi. Obrigado por esta filigrana. Vou guardá-la na minha caixinha das respostas favoritas. E fico contente por teres admitido que poderei estar em parte certo no que respeita às intenções frivolas, porque humanas, de certos poetas. Desinspirado ou deseducado eu que nunca vi que os edificios nada têm a ver com os arquitectos! Infelizmente, como aliás frizo quando falo da pobre opinião que faço minha, as carências nutritivas são ditadas pelo poder de compra de cinismos ou azias momentâneas causadas por refluxos e desmineralizações. E há coisas, admito, que não alcanço nem com o braço esticado. Será isso que às vezes me leva a gostar de estar inserido na mentalidade deprimida das maiorias pobres? Mas não vejo sequer suave desentendimento ou motivo para polémica entre nós. Nem há intenção minha em desvirtuar as intenções dos poetas at large ou menosprezar a tua sinceridade quando subscreves o suco dos deuses que eles deixam para regalo da posteridade. Resta-me, portanto, depositar nas tuas mãos a autoridade para sentenciar quando me levarem a julgamento por este cinismo incorrigivel. Aposto que o Fernando também gostou da agradável espuma que fizeste.

Sabia que me preparavas uma armadilha. E não estava enganado. Quando é que deixas de ser sacana?


Publicado por: Bombatomica em setembro 3, 2005 09:18 AM

Espuma... Labirinto... E já chamaram coisas piores ao Valupi.

Publicado por: fernando venâncio em setembro 3, 2005 09:01 PM

Epílogo provisório e melancólico

Um poema de José Luís Tavares (ter ele sido posto aqui a meu pedido é uma honra, e uma circunstância anódina) deu pretexto a uma «bela conversa» na percepção do ZM, e também minha. É a habitual, talvez natural, deriva deste tipo de fóruns. (E já andará alguém a estudar estas coisas? O José Pedro Castanheira fez um estudo - que ainda não conheço - de uma caixa de comentários a certo texto do Expresso. Ignoro se também analisou as dinâmicas que estas correntes ganham).

Não se apoquente o poeta de ter dado ocasião a estes exactos revoluteios. Eles escapam a muitos controlos - embora sejam controláveis, sentido anglosaxónico, isto é, dirigíveis. (Também já alguém estudou este tipo de intervenção na seara comum?). Este nosso redemoinho não levou, certamente, a lado nenhum aproveitável, mas também nunca foi esse o destino dos redemoinhos mentais. Eles são o seu próprio fim e divertimento.

Entre este nosso divertimento e o do poeta é capaz, até, de não haver essencial diferença. Seremos então todos poetas? Calma aí. Mas já me parece aceitável ver no poeta um comentador. A divertir-se? Claro. E de que maneira!

Publicado por: fernando venâncio em setembro 4, 2005 03:49 PM

Bomba, nem desentendimento, nem ressentimento entre nós – we know better. A minha curiosidade era genuína, meio para confirmar a intuição. O teu discurso habita um plano médio onde o mistério não tem lugar, substituído pela suspeita. Tão forte é a luz desse mundo claustrofóbico assim imaginado que pareces fatal escravo luciferino; estás encadeado. E por isso borboleteias nestas catacumbas da socialização, saltando de espectro em espectro, de vagido em vagido, só para anunciar o longo Inverno.

Contudo, há força no teu bater de asa. Precisarias, agora, de um impossível retorno ao estado de crisálida, primeiro, de lagarta, depois. Precisarias de redescobrir a escuridão e o conforto da terra, rastejar. A terra tira-nos o medo.

A poesia também,

__

Fernando, um professor de Faculdade, que recordo com saudade, não se cansava de nos advertir contra o divertimento (vide etimologia), lembrando-nos que o sentimento a buscar era antes a alegria – a qual concebia à maneira Grega, solar e trágica.

Nestas conversas, há visões e palavras outras nas imagens e palavras mesmas que vamos deixando ao abandono. Alegrias.

Publicado por: Valupi em setembro 5, 2005 09:41 PM

Bomba, nem desentendimento, nem ressentimento entre nós – we know better. A minha curiosidade era genuína, meio para confirmar a intuição. O teu discurso habita um plano médio onde o mistério não tem lugar, substituído pela suspeita. Tão forte é a luz desse mundo claustrofóbico assim imaginado que pareces fatal escravo luciferino; estás encadeado. E por isso borboleteias nestas catacumbas da socialização, saltando de espectro em espectro, de vagido em vagido, só para anunciar o longo Inverno.

Contudo, há força no teu bater de asa. Precisarias, agora, de um impossível retorno ao estado de crisálida, primeiro, de lagarta, depois. Precisarias de redescobrir a escuridão e o conforto da terra, rastejar. A terra ara-nos o medo.

A poesia também,

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Fernando, um professor de Faculdade, que recordo com saudade, não se cansava de nos advertir contra o divertimento (vide etimologia), lembrando-nos que o sentimento a buscar era antes a alegria – a qual concebia à maneira Grega, solar e trágica.

Nestas conversas, há visões e palavras outras nas imagens e palavras mesmas que vamos deixando ao abandono. Alegrias.

Publicado por: Valupi em setembro 5, 2005 09:57 PM

Duplicidades tecnológicas. Ecos.

Publicado por: Valupi em setembro 5, 2005 09:59 PM