junho 29, 2004

RETRATO DO MORCÃO ENQUANTO PRIMEIRO-MINISTRO

A nossa equipa de audazes repórteres acaba de garantir outro retumbante exclusivo para o BdE. Com denodada coragem, eles vasculharam o caixote de lixo da residência oficial do presidente da CML e encontraram o rascunho do discurso que Santana Lopes prepara para a sua tomada de posse como primeiro-ministro!
Aqui fica este documento histórico, já purgado dos inúmeros erros de ortografia mas mantendo as anotações feitas pelo punho do eminente estadista:

"Cidadãs, cidadãos, portugueses (ênfase suave mas perceptível na primeira palavra; convém não descurar o meu eleitorado-chave):

Falo-vos num momento de crise grave de festa decisivo (aqui fica bem uma pausa longa. E até posso olhar assim com ar iluminado para o horizonte).
No seguimento da honra que recaiu sobre o nosso bem-amado líder Durão Barroso (atenção: nada de risinhos tontos na parte do "bem amado"), a História clama mais uma vez pela minha presença, pelo meu sacrifício no altar do bem da comunidade. (Aqui, fica bem uma pausa para o pessoal bater palmas).
Como de costume, não me faço rogado. Avanço destemido, de peito aberto contra as balas da inveja, da malquerença, da politiquice rasteira que nunca consegue respeitar os superiores interesses da Nação. E esses interesses têm hoje um nome e um rosto. Que, por acaso, são os meus (mais palmas).
Havia por aí quem pedisse eleições antecipadas. Como se isto de ir a votos a torto e a direito fosse coisa recomendável ou decente. Mas não sabem que vivemos em Democracia, e que as Democracias têm regras?
Ainda para mais, estando eu aqui à espera de uma posição à altura do meu talento predestinado, queriam dar o lugar a quem? Ao tosco do Ferro Rodrigues? Mas estão mesmo a imaginar semelhante burgesso a jantar com a realeza europeia? (isto é capaz de ser demais: tenho de manter o nível de Figura de Estado).
O que valeu a esta Nação em perigo foi o seu Presidente. Saúdo aqui a prudente coragem de Jorge Sampaio, que se soube manter em prolongado silêncio e sem levantar ondas, deixando que a História cumprisse os seus desígnios gloriosos (tenho de perguntar à Bobone se é de bom-tom fazer vénias a um Presidente; o Sampaio ia ficar todo derretido).
Há por aí quem diga que sou pouco culto (fazer pausa para as vaias). Que nem sei bem o que é um Chopin. Que não sei distinguir a Hilida Ilidida Ilíada das Páginas Amarelas.
Mas eu pergunto: quantos entre vós, bom povo português, é que já leram a Ilíada? Aliás, quantos de vocês é que leram um livro desde que saíram da escola? Estão a ver: o País não precisa de quem saiba de violinos ou de sonetos. Precisa sim de homens de acção, políticos de obra, gente que faz primeiro e pensa depois!
E assim sou eu, Pedro Santana Lopes! (Ovação delirante, miúdas a desmaiar.)

Posso não ser um grande pensador intelectualóide, mas não tenho medo de sujar as mãos no cimento das realizações, não receio dar cabeçadas nos obstáculos, porque sei que tudo se aprende na universidade da vida, tudo se solidifica no calor do combate político!
(Pedir silêncio à multidão histérica e afivelar uma expressão comovida.)
Nesta ocasião, uma palavra de especial apreço tem de ir para o meu companheiro de sempre (pôr ar mesmo sério, senão a malta ainda pensa em segundos sentidos), Alberto João Jardim. Um líder que soube levar o seu povo do deserto gonçalvista para a prosperidade de hoje. Um homem como devia haver muitos neste nosso país; mas, como não há mesmo mais nenhum, tenho a honra de o convidar, neste público e solene momento, para o cargo de ministro da Economia da Cultura dos Negócios Estrangeiros. (É melhor improvisar qualquer coisa na altura; mas onde é que vou enfiar este traste, de maneira a que não possa fazer muitos estragos?)
A restante composição do meu gabinete será conhecida muito em breve. Nós, os homens de acção, não precisamos de tempo para grandes reflexões; fazer é que interessa. E quanto mais depressa melhor! (Palmas prolongadas)
O que posso garantir ao País é que será um Governo composto pelos melhores homens e pelas melhores mulheres (Nota: convidar para Secretária de Estado de qualquer coisa aquela ruiva espectacular do gabinete do Arnault) deste País. Um governo que sabe o que os Portugueses desejam e exigem: mais dinheiro, mais obras, mais retoma!
A partir de hoje, já chega de apertar o cinto: as eleições estão à porta e urge garantir que o nosso projecto se vai prolongar por mais uma legislatura. (Aqui, se ninguém estiver a olhar, posso deitar a língua de fora àquela bruxa da Ferreira Leite.) Por isso, não me perguntem qual é a minha filosofia; os Portugueses sabem bem que só tenho uma política: ganhar as próximas eleições nem que a vaca tussa aparecer na TV com a legenda "Primeiro-ministro", ou "Presidente da República" a passar por baixo lixar a vida ao Cavaco e seus rapazinhos tudo por Portugal, nada contra Portugal! (Esta é muita boa; estou mesmo inspirado!)
Se todo o Portugal confiou na Selecção nacional, pode bem agora confiar nos craques da minha equipa; eu, qual Figo inspirado, vou rematar forte contra os nossos adversários, internos ou externos. Vamos ganhar todos os desafios; e de goleada!


THE END

(Nota: não esquecer de convidar a Nituxa para comemorar, mais logo. Pode ser que ela leve a irmã.) "


PS: obrigado, Jorge Mateus, pelo belo "boneco"!

Publicado por Luis Rainha em junho 29, 2004 06:15 PM | TrackBack
Comentários

Muito credível, Luis, muito verosímil (sobretudo as anotações). Já te estou a ver a trocar o BdE por um cargozito de assessor no gabinete do futuro primeiro-ministro... A fazer pela vida, não é? Espertalhaço.
:)
Agora a sério: bela "posta".

Afixado por: José Mário Silva em junho 30, 2004 08:25 AM
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