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maio 29, 2005

O RETORNO DA POLÍTICA (2)

Dizer que o debate foi “amplo, democrático e sério” carece de um esclarecimento importante. Importa dizer que não me refiro à campanha oficial, que foi no geral confusa e medíocre. Dum lado como do outro. O verdadeiro debate não passou por aí, passou pelos inúmeros colectivos e encontros organizados um pouco por toda a França, por debates de especialistas e menos especialistas. Pela primeira vez, aliás, os franceses investiram a internet como espaço alternativo de discussão política e os blogues (fenómeno que até agora era mais que marginal) tornaram-se um instrumento importante na difusão de ideias e opiniões (ver, por exemplo, aqui).
E a principal linha de fractura no debate não foi, como quiseram fazer crer muitos analistas, entre entusiastas da Europa e eurocépticos. Uma parte dos votos “Não” provêm, evidentemente, do habitual eleitorado nacionalista e “souverainiste”. Mas isso não é novidade. Era esperado e confirmou-se. O que mudou, o que é inédito, o que pode fazer passar o “Não”, foi o aparecimento de um voto europeu convicto, mas em desacordo com o rumo actual das instituições europeias. Um voto que não se deixa levar na cantiga do “nós sabemos que não é perfeito, mas é o melhor que se pode arranjar”. Um voto que não acredita no modelo liberal que lhe apresentam como único possível para a Europa. E é por isso, sobretudo por isso, que este voto assusta tanto os partidos sociais-democratas europeus. Porque o que se afirma no “Não de esquerda” é uma nova confiança na acção política, uma vontade de dizer de sua justiça na decisão do que deve ser e do como deve funcionar a comunidade europeia que se deseja. Porque é, de uma certa maneira, um tímido regresso da utopia.

Publicado por Manuel Deniz às maio 29, 2005 08:35 PM

Comentários

Está-se a viver um novo nacionalismo de esquerda !!
Espero que acabe melhor que o primeiros, é que os nazis eram nacionalistas e socialistas !!

Publicado por: Mr X em maio 29, 2005 10:21 PM

"foi o aparecimento de um voto europeu convicto, mas em desacordo com o rumo actual das instituições europeias."

Seria bom se fosse verdadeiramente convicto. No entanto, seria interessante conhecer os factos concretos com que substancia essa conviccao.

Publicado por: MP em maio 31, 2005 03:59 AM