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maio 19, 2005

NOTÍCIAS DA RESSACA (4)

Não resisto a puxar cá para cima um comentário do Valupi ao jogo de ontem, em que ele faz uma interessantíssima análise da época 2004/05. Sublinho desde já que concordo absolutamente com duas das premissas: 1) o Benfica ganhou o campeonato (se é que ganhou) ao perder em Penafiel; 2) o Sporting devia ter jogado na Luz com uma equipa semelhante àquela que foi a Braga vencer por 3-0.
Mas ouçamos o que diz Valupi:

A época 2004/05 foi muito boa para os sportinguistas. Começou mal, mas foi num crescendo de alegrias, tanto em resultados como em exibições. Estas duas cruciais derrotas nada têm de extraordinário, embora resultem de causas diferentes (se possível for encontrar causas primeiras em situações tão complexas como um jogo de futebol). Agora, se houver cabecinha e/ou finanças (não vender talento, adquirir talento), esta matriz entretanto instituída (pelo Peseiro) pode levar a uma super-equipa para a próxima época.
Entretanto, desenvolvi uma tese que me dá o consolo da explicação, vingança sobre a negra "moira" que nos fez morrer na praia duas vezes seguidas em 4 dias. Ela chama-se "O Penafiel Amigo". Gozou-se aqui com o golo do N'Doye, e foi unânime a ideia de o Benfica ter comprometido o campeonato, por só ser preciso um empate ao Sporting na Luz para resolver o assunto. Ora, essa vantagem do Sporting levou a uma alteração do previsto. Estava previsto que esse jogo seria uma final, com obrigação de ganhar. A possibilidade de bastar um empate foi, porém, tentação demasiada (e, vistas bem as coisas, opção racionalmente justificada) para um treinador que tem a obrigação de conquistar duas provas em 3 jogos num espaço de 8 dias com um plantel de coxos (por lesões, a maior parte, outros por destino). E esse empate esteve quase a acontecer, só não alcançado por causa de um golo que ficará para sempre no limbo da dúvida (a menos que uma equipa de físicos, programadores e designers faça uma reconstituição digital em 3D).
O risco assumido acabou em desaire, mas o pior nem foi o desfecho (o qual é sempre imprevisível, e daí a beleza do futebol). O pior, o maligno, o criminoso, o imbecil, o tão nojentamente previsível e normal, foi a quebra da corrente "mística", a qual tinha dado coisas como a vitória ao Newcastle, o golo do Pinilla contra os holandeses, a vitória em Braga, o golo em Alkmaar, o golo do Tello ao Guimarães e uma série de defesas decisivas (e de ranço) do Ricardo. Vistos como acontecimentos isolados, não passa do acaso. Vistos como acontecimentos sucessivos e contextualizados, é um padrão.
A lógica inerente a este padrão ilógico pedia que a equipa que jogasse na Luz fosse uma surpresa, fosse de "recurso", fosse "errada". Tal como o tinha sido em Braga. O evento suscitava raciocínios "a contrario" com os pressupostos politicamente correctos, com a racionalidade calculista. As características absolutamente decisivas desse jogo para as duas equipas convocavam uma "lógica fuzzy". Peseiro e restante equipa técnica poderiam ter recolhido lições das evidências – os dramáticos, súbitos, "milagrosos", rendimentos de jogadores que nunca tinham mostrado nada, como o Tello, o Pinilla, o Miguel Garcia (sinal de outros florescimentos a poderem acontecer) – a absoluta qualidade de um puto de 18 anos (há lá outros donde esse veio) – a constatação da nulidade de consagrados, como o Polga (época desastrada), o Rochemback (época medíocre), o Pedro Barbosa (que já só pode entrar na segunda parte). Finalmente, faltou a louca decisão de jogar uma final, mesmo que o empate servisse. A melhor defesa é o ataque, ideia pré-histórica de sempiterna vanguarda, mas que requer túbaros românticos.
Mas, não. E depois, não, não e não. A derrota com afastamento do título enterrou equipa e adeptos. O jogo com o CSKA, que já era de vitória improvável, estava entregue. Hoje foi o que se viu. Vimos o Sporting a jogar dentro da sua normalidade, sem especial qualidade de passe, sem confiança criativa, sem munição intelectual. Sem "sorte". A sequência do golo falhado pelo Rogério à boca da baliza com o terceiro dos russos deve ser ligada com o golo na Luz. Senhoras e senhores, mais um padrão.
E posto isto, viva o CSKA, que fez o que tinha a fazer e sabe fazer tão bem. A Taça UEFA está muito bem entregue.

Publicado por José Mário Silva às maio 19, 2005 10:29 AM

Comentários

OK, então também eu 'puxo' o meu comentário.

Que equipas precisarão - ao lado dos técnicos em fato de treino - de um vedor dos fluidos energéticos? Cautela, Valupi, a elite russa, do Moscovo e do Chelsea, ainda te nos rouba. Mas gostei, dessa arquitectura, desse convite à heroicidade do risco. Como consolação, será sempre difícil encontrar melhor. Porque o sofrimento («Como foi possível!?») é medonhamente irracional. Mata-se a ferida com a mesma peçonha.

Publicado por: fernando venâncio em maio 19, 2005 11:17 AM

Falta dizer que o Sporting voltou a morrer pela presunção de que quando ganha 4 jogos seguidos é o melhor do mundo. Muitas pessoas não se cansaram de dizer que não viam neste Sporting nenhum futebol maravilha ou o melhor da Superliga. Mas os Sportinguistas continuaram a gritar isso bem alto até se transformar numa verdade.
Se o Benfica ganhar o campeonato, este também ficará muito bem entregue. Foi a equipa mais humilde e, porque em primeiro, A MELHOR.

Publicado por: Óscar em maio 19, 2005 12:20 PM

Pois é, Zé Mário, nada como uma autopsia para diluir o luto.

Fernando, o futebol é o nosso teatro Grego. Catarse e exorcismo. Se a natureza humana não mudou em 200.000 anos, por que haveria de se ser diferente 2000 depois? Apolo tem um lado feroz, obscuro; dionisíaco, afinal. Tal como Dionísio ilumina a noite, é apolíneo no seu excesso. Tudo isto nos ensina Platão, menino que teria compreendido na perfeição o símbolo do Yin e do Yang, caso o tivesse visto. Heraclito idem.

Os discursos sobre o futebol pertencem a uma racionalidade mitológica. O seu subtexto é o do drama religioso, a perplexidade perante a morte.

Mas anuncio ao mundo estar disponível para convites do Chelsea. Ouvi dizer que pagam bem.

Publicado por: Valupi em maio 19, 2005 03:00 PM