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maio 18, 2005

O ESTRUNFE FEDORENTO

Os Monty Python têm um sketch sobre o caso Profumo, o grande escândalo político dos anos 60 em Inglaterra. Só que em vez de orgias sexuais, os Python punham os políticos a confessar que nas festas se mascaravam de ratos e comiam queijo, acto esse violentamente criticado pelos media.
Era assim que funcionava o humor do sexteto inglês: pegavam numa atitude ou comportamento considerado normal e depois esvaziavam-no do seu contexto, ou prolongavam-no até ao limite do desconforto, para demonstrar quão absurdo era.
É também essa a técnica usada no Gato Fedorento, o que leva alguns a considerá-los uma imitação tardia dos Monty, mas com algumas nuances muito interessantes.
O primeiro factor de relevo dos Gato Fedorento é o facto de assentarem baterias sobre a realidade nacional, o que o torna o seu humor muito mais próximo de nós e, como todo o bom humor deve ser, mais inquietante.
Depois praticam também um humor mais focalizado. Enquanto a trupe inglesa satirizava também figuras da literatura e da filosofia e recorria a formas típicas do teatro de variedades, os Gato são mais focalizados, concentrando-se somente nos comportamentos e figuras do quotidiano - seja esse quotidiano mediático ou real - e recorrendo apenas à linguagem jornalística.
É quase certo que os quatro humoristas portugueses se inspiram em figuras e situações específicas, mas trabalham limpando essas figuras e situações de todas as suas características individuais até obterem uma espécie de comportamento arquetipal em que quase todos os portugueses se reconhecem - do qual o "falam falam" é o exemplo supremo. Essa universalidade é intencional e reconhece-se no pormenor, genial, de dar o mesmo apelido a todas as personagens de cada série (série Meireles, série Fonseca, série Barbosa).
Tendo todas as figuras o mesmo apelido, tal como tinham os Estrunfes, obtém-se o efeito profundamente subversivo de se reconhecer que todas essas figuras são iguais debaixo do verniz. No fundo, independentemente do nome próprio, todos os Meireles, Fonsecas e Barbosas são iguais e todos nós somos, de facto ou em potência, Meireles, Fonsecas e Barbosas.
É, diga-se, muito curioso que um dos autores do Gato Fedorento se professe de direita, visto que esta filosofia do programa é eminentemente anarquista ou, pelo menos, anti-elitista. Pois, tal como nos Estrunfes não existem classes, no Gato Fedorento não existem divisões entre ridicularizadores e ricularizados. Existe apenas o ridículo.

Publicado por Jorge Palinhos às maio 18, 2005 10:45 AM

Comentários

o humor em portugal cheira mal.

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 18, 2005 11:35 AM

Bom seria que, nesta altura do campeonato, a trupe inglesa viesse desmontar a trupe do gato fedorento que neste momento não passa de um grupo de "gordos" instalados no poder da comédia.
Bom seria que a trupe inglesa viesse denunciar o carácter, as manias e as frustrações da trupe do gato fedorento que ridiculariza às claras mas "bate muitas" às escuras. Bom seria que os Monty Pytton, que nada têm a ver com os gato fedorento, os pusesse mascarados de porquinhos a rebolarem-se na lama e a rirem-se.
Aí sim teríamos o tal humor sem divisões e a cheirar menos mal.

Publicado por: patrícia em maio 18, 2005 11:38 AM

boa posta jorge.
patrícia, sem dúvida que a omnipresença do gato me começa a fazer olhá-los com uma certa... reserva, tiques talvez de sujeito habituado a ser do contra (o outro omnipresente filósofo gil chamará a isto "inveja"), mas a agressividade do teu comentário requer, parece-me alguma especificação adicional não achas?

Publicado por: tchernignobyl em maio 18, 2005 01:40 PM

boa posta jorge.
patrícia, sem dúvida que a omnipresença do gato me começa a fazer olhá-los com uma certa... reserva, tiques talvez de sujeito habituado a ser do contra (o outro omnipresente filósofo gil chamará a isto "inveja"), mas a agressividade do teu comentário requer, parece-me, alguma especificação adicional não achas?

Publicado por: tchernignobyl em maio 18, 2005 01:40 PM

Este post e o anterior (sobre os estrunfes) estão mesmo muito bons.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 18, 2005 04:32 PM

Fernando Esteves Pinto,
Se não se revê no tipo de humor do gato fedorento, então, aconselho, os malucos do riso, o levanta-te e ri ou os batanetes. Se também não se revir neste humor tem sempre os saudosos filmes do Vasco Santana/António Silva ou ainda os irmãos Marx

Publicado por: roncas em maio 18, 2005 04:37 PM