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maio 16, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

Tal como Rui Pires Cabral, Manuel de Freitas também vai buscar à música (a certas canções, a certos compositores, a certos concertos ao vivo) o ponto de partida para poemas que nunca se submetem à melodia original, antes se transfiguram noutra coisa, muito mais íntima, pessoal e indizível. Em «Jukebox», pequena plaquete editada pelo Teatro de Vila Real, Freitas regressa às suas obsessões: noites de álcool e charros, Bach e jazz, tabernas e decadência, amores perdidos, sovas antológicas, o "desfavor dos versos" e um sentimento geral de ruína, os "piores anos" a que muitos chamam juventude. Não há aqui fronteira entre a alta e a baixa cultura, entre a contenção e o excesso. Tudo é precário, tudo está perdido ou tocado pela sombra do spleen. "Parecia a minha vida, súbita / transição de Couperin / para tremoços mudos, / com demasiado futebol diante".
Deixo o poema com que mais me identifico (talvez porque também estive lá, naquela noite heróica):


ANDREAS SCHOLL, 2002

para o Nuno Franco

Hércules estava diante de nós:
usava fato completo,
óculos de escuro contorno,
e esquecera-se de trazer gravata.
Seguiam-no de perto duas flautas,
as melhores que já ouvi. E eu pensei
— talvez mal — que aquela ária
explicava com perfeita exactidão
a triste sorte de Wilhelm Friedemann
e o brando sucesso do irmão, Carl Philipp.

A música, não a vida, nos fere
às vezes assim. Duas flautas, para
Hércules; ou a breve absolvição do tempo
suspendendo o nojo de haver mundo,

esta porta imperceptivelmente aberta
quando Hércules, o próprio, cantava à nossa frente.

Publicado por José Mário Silva às maio 16, 2005 01:26 PM

Comentários

O que é a alta cultura? E a baixa cultura? Até que me digam quanto mede uma e outra não há, de facto, nenhuma fronteira a separá-las. Só a do preconceito.

Publicado por: tb em maio 16, 2005 03:54 PM

http://nada-melhor.blogspot.com/

Publicado por: nada melhor em maio 16, 2005 04:25 PM

Tb e ZM,

Eu acho que a coisa ainda consegue ser mais singela. Uma vez tocado o mundo por um fulano como este Manuel de Freitas, DEIXA de haver baixa cultura. Tudo, mas tudo serve, para o sublime, digamos. Simples, né?

Publicado por: fernando venâncio em maio 16, 2005 06:09 PM

Meus caros senhores, explicai-me por favor o que entendeis por "alta" e "baixa" cultura.
Não confundireis, por acaso, "cultura" com "costura"?

Publicado por: Filipe Moura em maio 16, 2005 07:08 PM

Não, Filipe. Fala-se sim de "agricultura". De nabos, no teu caso.

Publicado por: AAAAI! em maio 17, 2005 12:32 AM

Pois do que não se deve estar a falar é de tomates, pois senão não andarias por aqui. É que se os tivesses, identificavas-te.

Publicado por: Filipe Moura em maio 17, 2005 12:49 AM