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maio 24, 2005

AS ROUPAS REACCIONÁRIAS DO IMPERADOR

Achei bastante interessante a história, relatada pelo João Miranda sobre os trajes novos do Imperador.

Imagino que toda a gente conheça este conto de Hans Christian Andersen, mas é melhor refrescar a memória, para depois melhor o analisar:

- Dois burlões, auto-proclamados grandes alfaiates, vão ao palácio imperial anunciar que podem fazer um novo traje finíssimo ao imperador, em troca de um avultado pagamento.
- Semanas depois apresentam ao imperador um suposto traje que só pode ser visto por pessoas inteligentes e competentes. Não querendo passar por burros ou incompententes, o rei e cortesão fingem ver o traje (que não existe)
- Finalmente o imperador desfila entre o povo para apresentar o novo traje, perante a admiração geral (pois ninguém quer revelar a sua estupidez) até que uma criança clama em voz alta "o imperador está nu".

Agora, a minha interpretação: Os sábios (alfaiates) prometem uma nova solução racional (traje) aos problemas do poder/governo (imperador). Este aceita a solução para demonstrar trabalho e manter as aparências. A sociedade (povo), porque é regida pela hipocrisia, pelos interesses e pela estupidez, aceita esta solução como válida, até que surge um reaccionário (criança) que, através da sua clarividência e da pureza, denuncia o embuste que constitui a dita novidade.

É notável como de uma machadada só esta história ataca o poder central como ineficaz, ataca a razão e o saber como instrumentos de intervenção social, ridiculariza a inovação, menospreza o colectivo humano e faz a apologia do senso comum, da individualidade e pressupõe a existência de indivíduos naturalmente iluminados.
Não admira, portanto, que "o rei vai nu" seja uma expressão favorita de todos os indivíduos naturalmente propensos para o reaccionarismo.
Ao mesmo tempo, a história faz a apologia do óbvio (nudez), negando a existência ou importância da subtileza, do que transcende o olhar superficial. Por outras palavras, um pato é um pato é um pato, sem poder ser um cisne ou um ganso.

Repare-se como a história é genialmente concisa e ideologicamente coerente: os problemas sociais são simples e óbvios, podem ser resolvidos pelas pessoas comuns, recorrendo apenas aos preconceitos, sem necessidade de inovação ou adaptação à mudança. Se Andersen escrevesse a moral da história no seu fim, muito provavelmente seria: salvem o povo dos intelectuais!

Porém, esta mesma história é também um embuste. A representação da criança como símbolo da simplicidade e da independência é falsa. Tal como qualquer criança real é fácil de ludibriar e de convencer das coisas mais inacreditáveis, também não são as pessoas simples que são capazes de denunciar os intelectuais, mas sim intelectuais de ideologias diferentes. Só Bento XVI, um intelectual, poderia dizer que é preciso salvar os bons e simples cristãos dos intelectuais. Os bons e simples cristãos não se lembrariam de tal coisa por si sós.
Só alguém mergulhado em razão e ideologia pode gritar que o rei vai nu. Não porque seja certo que o rei esteja realmente nu, ou que esse pormenor seja relevante, mas porque só o intelectual reaccionário tem interesse e competências para dizer tal coisa. E, tal como as crianças são zelosas dos seu interesses (comida, doces, brinquedos), também os reaccionários não agem pela pureza de intenções, mas para atingir objectivos próprios e específicos.

Portanto, quando o João Miranda diz que o rei vai nu, não o faz por altruísmo ou abnegação, mas porque à sua ideologia importa desacreditar o rei. É que, afinal de contas, a criança não é bem uma criança, mas sim um alfaiate de uma guilda rival.

Publicado por Jorge Palinhos às maio 24, 2005 12:19 PM

Comentários

O raciocínio do Jorge Palinhos neste artigo é ainda mais confuso do que as divagações habituais do João Miranda.
Mas não escondamos a verdade: essa estorinha é socializante, pois ataca a iniciativa privada na pessoa dos dois alfaiates. Trata-se, portanto, de um conto comuna, talvez mesmo «politicamente correcto». Que coisa horrorosa!

Publicado por: Ricardo Alves em maio 24, 2005 01:50 PM

Até admito que a confusão seja o meu modo normal de raciocinar, mas nunca tinha imaginado tal epíteto aplicado aos raciocínios do João Miranda.

A tua teoria, até interessante, parece-me um tanto forçada. No conto não há referências a proletários explorados nem os empreendedores-alfaites tentam enganar o povo, mas sim o poder.

Publicado por: Jorge P. em maio 24, 2005 05:31 PM

Boa, Jorge, muito boa mesmo.

Publicado por: rui tavares em maio 24, 2005 10:45 PM

Sugiro a leitura de "Os Limites da Interpretação", de Umberto Eco (Difel). Desoladamente (todos temos dias!), é minha convicção que se Andersen ressuscitasse e lesse aquilo a que deu azo a sua obra, antes de ter um treco, suicidava-se.

Publicado por: tb em maio 25, 2005 01:30 PM