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maio 12, 2005

MUSILIANA

Leitura obrigatória: hoje, no DN, a crónica/micro-ensaio do Pedro Mexia sobre o suposto fracasso literário de Robert Musil.

Publicado por José Mário Silva às maio 12, 2005 04:22 PM

Comentários

O mais belo fracasso da literatura moderna é o Livro do Desassossego. E só então, sim, O Homem Sem Qualidades. Importa ser rigoroso nestas coisas.

Publicado por: Valupi em maio 12, 2005 05:32 PM

a do MExia e já agora a do Zé Mário sobre.. já não me lembro do t´titulo do livro, sei que é de uma autora nórdica, que a história é sobre um jovem que descobre o simulacro que é o consumismo moderno e decide parar com a vidinha que levava e que o ZM gostou muito... ;-)

Publicado por: francisco curate em maio 12, 2005 06:46 PM

Tem razão o Pedro Mexia.
Só uma nota: "o maior crítico literário alemão da actualidade", Marcel Reich Ranitzki, é o Prof. José Hermano Saraiva da literatura alemã.

Publicado por: Lutz em maio 12, 2005 08:33 PM

Ah, esta necessidade da crítica literária de 'salvar' produtos caóticos! Essa necessidade produz duas coisas, ambas perversas:

1. uma valorização desses produtos, puxada pelos cabelos, mas muito muito vistosa, e cheia de paradoxos rutilantes,

2. a convicção, em autores medíocres, de que o seu caosinho, tão queridinho, também ele está destinado à celebridade.

Eu já desisti desta batalha. Decidi poupar forças. A crítica quer monstros? A crítica terá monstros.

O caso do Desassossego, Valupi, parece-me outro. Ninguém (espero eu, rezo por isso!) afiançou que 'aquela' forma é significativa, seja em que sentido for. É uma colecção de apontamentos. Ela deixa, sim, adivinhar o que o Livro se preparava para ser, depois de mondado e alinhado: uma boa companhia para a nossa vida. Já o pode ser, e para alguns é. Mas iria sê-lo bem mais.

Publicado por: fernando venâncio em maio 12, 2005 11:13 PM

Fernando, caso possas e te apeteça, explica-nos melhor qual a tua apreciação de O Homem Sem Qualidades. Isto porque também deste se pode dizer que é uma colecção de apontamentos, e daquele que é um caos sem remissão nem remição.

É. O Desassossego é um nada, no sentido em que pode ser tudo. E o HSQ só na epiderme é um romance, mas também não ambiciona ser um ensaio – parece-me um testamento, a consumada oferenda do sublime. Numa circunstância estão para mim unidos: a de terem as mais literariamente inteligentes, ofuscantemente belas, expressões do pensamento. A espaços. A espasmos.

Publicado por: Valupi em maio 13, 2005 03:15 AM

Valupi,

«O Livro do Desassossego» e «O Homem sem Qualidades» parecem-se, mas só marginalmente. Sendo incompletos, são-no de maneira totalmente diferente.

O «LD» teve uma edição parcialíssima, provisória, 'para dar uma ideia', em vida do autor. Que eu saiba, essa edição pouco ajudou os futuros 'editors'. E já agora: a melhor edição de todas é a da TERESA SOBRAL CUNHA, na Relógio de Água, de que infelizmente só saiu ainda o primeiro volume. O «HSQ» teve uma primeira parte publicada, e a segunda ficou muito avançada, e com um fecho delineado.

Mas, sobretudo, a produção ensaística de Musil deu pistas explícitas (e também mais do que isso) para a leitura da sua ficção. Não é o caso de Pessoa, que deixou tão informes os propósitos como deixou o livro.

A pretexto deste post (e talvez a despropósito, reconheço), lembrei o afã da crítica literária em 'recuperar' o que, tendo sido deficientemente concebido, é obra falhada. A questão é que a crítica, tal como não tem (porque o deitou fora) instrumentário para louvar, também não o tem para depreciar.

Para que a desgraça seja completa, há autorzecos que, sem qualquer ideia forte para um livro, se valem de outros (e por exemplo de Musil) para justificarem o que nasceu da simples incapacidade. Se eles (como Musil) produzissem uma reflexão paralela à ficção, ainda podíamos chegar à conversa com eles. Mas não conheço nenhum caso entre nós. No máximo, em entrevistas, fazem das tripas coração, metem os pés pelas mãos, aproveita tu os órgãos que queiras.

Publicado por: fernando venâncio em maio 13, 2005 01:02 PM

Fernando, não me respondeste. Mas não o tens de fazer, óbvio. Que as duas obras não têm entre si ponto de contacto formal, estilístico, de propósitos ou origens, características de unidade ou dispersão, é assunto que nem se discute. Aliás, continua por saber o que seria o Livro do Desassossego, questão que não existe n'O Homem Sem Qualidades. O problema não é só formal mas, acima de tudo, autoral (como referes, de resto).

Eu estava era interessado na tua opinião sobre o HSQ, Iporque a tua reacção foi desproporcionada, como também reconheces agora. Just curious.

Publicado por: Valupi em maio 13, 2005 06:48 PM

Valupi, aceito que o HSQ seja, como obras suas contemporâneas, uma reflexão sobre a indefinição, o inacabado, o disperso, enfim, da pessoa humana. Ele próprio reflecte sobre a impossibilidade do romance realista (falo de cor, aqui onde estou não tenho o livro, nem ele - agora que disto falamos - conseguiu grandemente fascinar-me, mas se calhar li-o cedo de mais, essas coisas), e por isso propõe um romance à deriva. Ainda assim, embora de acção lentíssima, o livro consegue menos incoerência do que a que nele se prega! Ao fim e ao cabo, qualquer coêrencia será já um ceder (com má-consciência, mas normalmente sem ela) ao romance realista... E então prefiro o romance realista tout court, onde a gente se engana uns aos outros de olhos abertos. E, caramba, nem Musil nem vinte grandes seguidores conseguiram desacreditá-lo. Ainda hoje sabemos mentir. Mas há almas sensíveis, e correctíssimas, que, invocando São Musil, acham isso pecado.


Publicado por: fernando venâncio em maio 14, 2005 09:50 AM

Muito obrigado, Fernando. Confirmaste o implícito no primeiro comentário, que Musil não faz parte do teu Panteão. E deixas-me a pensar nas fantasias do romance realista. Essa supina mentira.

Publicado por: Valupi em maio 14, 2005 05:55 PM

Leitura nova (en Aleman) sobre Musil e Musiliana

Publicado por: bonadea em junho 17, 2005 04:56 PM