« LUTAS LIVRES | Entrada | O PLANISFÉRIO DA IMPRENSA »

maio 09, 2005

OS RAMOS SÃO AS ASAS DAS ÁRVORES OU COMO ASSASSINAR UM POETA À NASCENÇA (HISTÓRIA VERÍDICA)

O miúdo rabiscava uma árvore nas costas de um envelope.
Traços carregados e verticais: o tronco. Traços mais finos e dispersos: os ramos. Traços ainda mais finos e ainda mais dispersos: as raízes.
Acontece que alguns dos ramos pareciam asas.
A mãe, inclinando o pescoço, perguntou-lhe o que era aquilo.
— São asas — disse o miúdo.
— Asas?
— Sim, asas.
— Mas as árvores não têm asas. Toda a gente sabe que as árvores não têm asas.
— Têm asas, mãe, têm asas. Isto são asas.
— És estúpido ou quê? Já te disse que as árvores não têm asas coisa nenhuma. Isso que para aí fizeste são ramos. Quem tem asas são os pássaros e os anjos.
— E as árvores.
— Já te disse que são os pássaros e os anjos.
— E as árvores.
— Os pássaros e os anjos.
— E as árvores.
— Os pássaros e os anjos.
— E as árvores.
— Cala-te! São os pássaros e os anjos e não se fala mais nisso.
— E as ár...
Estalada.
O miúdo faz beicinho mas controla-se, não chora.
A mãe pega no desenho e abana a cabeça.
— Não sei a quem é que tu saíste com estas ideias parvas.

Publicado por José Mário Silva às maio 9, 2005 01:58 PM

Comentários

como dizia o almada: a árvore pode não estar lá, mas estão os riscos com que se faz uma árvore. deus queira que o miúdo não saia à mãe.

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 9, 2005 02:49 PM

O mais grave é que na maioria das escolas este é esquema dominante, sem estaladas, mas com o mesmo espírito de castração mental

Publicado por: João Gundersen em maio 9, 2005 03:43 PM

Muito bem captado!

Publicado por: Sofia em maio 9, 2005 04:39 PM

A mim não foi a mãe (e nem foi com estaladas): foi a professora da escola primária.

Não me fez mal nenhum. Acabei por aprender a decidir mandar às urtigas o conhecimento de que as árvores não têm asas quando me apetece que tenham, mas ao mesmo tempo aprendi que para saber o que é realmente uma árvore, convém saber que tipo de asas elas não têm.

Ou, por outras palavras, nenhum poeta morre assim. Se é mesmo poeta, acaba por encontrar as asas das árvores mesmo com elas desbastadas e calcinadas por um incêndio florestal. As pessoas são cebolas de muitas camadas, e a educação (ou falta dela) só consegue estragar as mais externas.

Publicado por: Jorge em maio 9, 2005 04:48 PM

Há mães assim, com horror a outras maternidades.

Publicado por: Valupi em maio 9, 2005 05:03 PM

E os morcegos e os insectos também têm asas. Ah, e os peixes voadores... e algumas sementes (produzidas por árvores - freixos, por exemplo) também têm assim a modos que uma espécie de asas. No fundo no fundo, até do ponto de vista biológico se poderá afirmar que as árvores têm asas.
É claro que a explicação poética é muito mais bela...
Sim, as árvores têm, definitivamente, asas!

Publicado por: João Almeida em maio 9, 2005 05:05 PM

Boa malha, João.
Além de ser insensível aos dotes artísticos do filho, não me pareceu que aquela mãe percebesse muito de Biologia.

Publicado por: José Mário Silva em maio 9, 2005 05:14 PM

Será que a Maternidade é um direito Universal? Ou deviamos limitá-lo para bem da construção de uma sociedade evoluida?

Publicado por: louco em maio 9, 2005 06:16 PM

Este diálogo fez-me lembrar um filme espantoso do João César Monteiro, o "Fragmentos de um filme esmola". Dos filmes mais bonitos que eu já vi (o "400 coups" do Truffaut é o outro), dedicado a este assunto.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 9, 2005 07:17 PM

Neruda teve essa ideia, por exemplo...

Publicado por: neve em maio 14, 2005 12:43 AM

boot camp
boot camps
teen boot camp
teen boot camps
juvenile boot camp
juvenile boot camps
troubled teen
troubled teens
http://www.juvenile-boot-camps.com
">http://www.juvenile-boot-camps.com

Publicado por: teen boot camps em junho 11, 2005 08:34 PM