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maio 09, 2005

O CONSERVADORISMO EM 12 LIÇÕES PRÁTICAS

Antes de vos apresentar a minha breve dissertação, esclareço-vos: eu também sou conservador. Desde ontem. Os artigos em que os mais brilhantes conservadores do nosso país explicam o que é e de que insectos se alimenta um conservador convenceram-me. Identificar um conservador é simples. Num determinado grupo é sempre ele o mais prudente, o mais loquaz, o mais asseado e o único que sabe o que significa loquaz. É muito provável que seja também o que tem o penteado menos popular. Dizem-nos os conservadores que, ao contrário do que pensa a horda de primatas que constitui o resto da humanidade (mas que o conservador respeita profundamente), não pretendem conservar o passado. Esses são os arqueólogos. O que o conservador quer (e digam lá que não é esperto!) é conservar o presente. Sabe quem leu Santo Agostinho (eu não, mas disseram-me) que o presente não tem nenhuma duração, está constantemente a fugir-nos. O conservador propõe-se, então, a conservar algo que nem sequer consegue apanhar. O presente é, afinal, o que há. Seja lá o que for. Por isso, por inabaláveis princípios e porque dá muito trabalho, o conservador é contra as revoluções. Mas só enquanto estão no papel. O conservador, entendam, não é contra as mudanças introduzidas pelas revoluções. É contra as mudanças que os revolucionários planeiam introduzir. Logo que as mudanças tenham sido introduzidas passam a ser o presente que o conservador com tanto afinco defende. O tradicionalista defende que o mundo deve ser como sempre foi (ainda que o mundo nem sempre tenha sido como sempre foi e, muito menos, como é agora). O revolucionário defende que o mundo deveria ser como nunca foi (e acredita que isso obrigatoriamente acarreta melhorias). O conservador, por seu lado, defende que as coisas devem ser como estão. Afinal, o equilíbrio das sociedades humanas é frágil, os seres humanos estúpidos e os conservadores, os únicos que estariam em condições de melhorar o mundo, estão muito ocupados a ler a "Spectator" e a brincar aos ingleses. A Humanidade, à excepção do David Bowie, é avessa à mudança. Sobretudo quando a vida lhe corre bem. Passeiem por Lisboa. Olhem para as pessoas à volta. De entre todas, há grandes probabilidades de o conservador ser o mais bem nutrido e o que não tem cáries. Não o procurem em manifestações. Os comunistas tinham "amanhãs que cantam". Os conservadores têm "hojes que citam Waugh e não andam para aí a fazer figuras tristes". (Bruno Vieira Amaral)

Publicado por José Mário Silva às maio 9, 2005 09:47 AM

Comentários

Esqueceu-se da Madonna...embora (julgo eu) nunca tenha tido a qualidade do Bowie, a sua evolução artística não foi de modo algum "avessa à mudança".

Se há motivo pelo qual nunca hei-de ser um conservador, é a sua complacência...

Publicado por: grim em maio 9, 2005 01:57 PM

Esta tá brilhante. :)

Há muito tempo que me andava a apetecer escrever uma coisa assim parecida, mas agora já não vale a pena.

Publicado por: Jorge em maio 9, 2005 04:42 PM

ZM,

Fui ler o Julito. Está já nos meus (avaros) favoritos. É isso. Há mais mundos.

Publicado por: fernando venâncio em maio 10, 2005 05:40 AM

E vem uma pessoa aqui para ler qualquer coisa de jeito, afinal sai isto. Para mim conservadores, só conservados em álcool e bem longe, porque é um produto inflamável, perigoso. Embora eu prefira avaliar as pessoas por aquilo que fazem e não pelos rótulos, detesto este tipo de "propaganda" que, esa sim, é perfeitamente reaccionária, elitista no pior sentido, sectária, tendenciosa, intelectualmente desonesta; numa palavra: fascista. As pessoas podem ser o que quiserem, desde que a sua postura social seja correcta, o que não podem é nos fazer publicidade enganosa e falsa, com objectivos perversos, de lhes serem reconhecidos, como naturais, direitos que não têm. Há muita forma de prolongar as práticas feudais. Aqui é o feudalismo ao nível das ideias e do controle da maneira de pensar dos outros, como forma de manter e reclamar "previlégios e ascendência sobre os outros" que são contra natura e anti democráticos. Que se lixam estes conservadores armados em publicitários exagerados. Alguém está interessado no que eles pensam de si próprios? Garanto que não vão querer saber o que pensamos destas suas atitudes e dos seus objectivos.´Deve ser por isso que o CDS é, no dizer dos próprios, um partido de governo... apesar dos seus reles 4% de apoio eleitoral. Que bem que eles se governam com tanta cretinice...

Publicado por: Biranta em maio 10, 2005 11:44 AM

Pois está muito bem. O menino até diz umas coisas... quando não fala do seu benfica. Fui ao julito, como quase sempre. Só lhe peço que não escreva sobre novelas... nem sobre futebol, porque sábado pode trazer muita chatice... menino chico.

Publicado por: marina em maio 10, 2005 01:13 PM

Assim, bem vistas as coisas... passo a ser conservador. Pronto!

Publicado por: pedrom em maio 10, 2005 01:17 PM