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maio 08, 2005

MORTE CULTURAL (2)

O Assis Pacheco, jornalista a sério, poeta do caraças, escritor de corpo inteiro, homem dos livros e dos outros prazeres todos da vida, morreu numa livraria: a Buchholz, em Lisboa, a dois passos da Avenida da Liberdade. Morreu no meio dos livros, depois de folhear livros, com livros na mão, livros a cercar o seu corpo caído, livros, livros, livros. Uns meses mais tarde, pedi ao escritor galego Gonzalo Torrente Ballester, de passagem por Lisboa, um depoimento que veio a ser ouvido, em gravação roufenha, numa homenagem ao autor de A Musa Irregular. Disse Don Gonzalo: «Assis Pacheco morreu como deveriam morrer todos os escritores, rodeado de livros e palavras. Uma morte bela e lógica, como a do soldado no campo de batalha.»
Ainda hoje, quando entro na Buchholz, parece que oiço à minha volta a voz tremelicante de Ballester (já velho, quase cego, trôpego) e uma espécie de bramido, cheio de relinchos e choque de espadas, vindo daquelas estantes que assistiram à queda fulminante do genial coimbrão.

Publicado por José Mário Silva às maio 8, 2005 09:03 AM

Comentários

«Genial coimbrão», ZM? Sim. E poderemos dizer tranquilamente «genial português».

Que pena esse génio ter ficado disperso: por poemas, por crónicas, por entrevistas, por uma novela (o romance já não foi o seu melhor ambiente). Em cada peça dele, está ele inteiro, isso é certo. Mas deve lamentar-se não podermos 'mandar' - a alguém que no-lo pergunta - ler um livro concreto. Como então fazer ver que Fernando Assis Pacheco foi um dos maiores artistas do nosso século XX literário, que escreve em ouro puro?

É todavia maravilhoso que um jovem jornalista, ao entrar hoje na Buchholz, assim o recorde. Não por ele mesmo, que estará bem, e que viveu razoavelmente feliz. Mas por nós.

Publicado por: fernando venâncio em maio 8, 2005 09:11 AM

a lavagem da consciência ou o regresso dos zombies?

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 8, 2005 09:27 AM

Cá está este a falar por enigmas. Safa! Explique-se, senhor.

Publicado por: fernando venâncio em maio 8, 2005 12:48 PM

explicar a morte ou os mortais?

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 8, 2005 02:52 PM

Dispenso-lhe a morte. Diga coisas dos mortais. Ainda assim, informo-o de que, mesmo a respeito dos mortais, as charadas se dispensam.

Eu não quero ser mau. Mas penso que você acreditou em que é com charadas que se faz carreira literária. E é, para já. Mas aí está Fernando Assis Pacheco a lembrar que o que dura é a descarada nitidez. Ui, essa mete um medo!


Publicado por: fernando venâncio em maio 8, 2005 03:32 PM

de charadas está este blogue cheio.


Publicado por: fernando esteves pinto em maio 8, 2005 04:20 PM

É muito engraçado quando duas pessoas tão diferentes se encontram à esquina e nem se importam de tocar a concertina. Tenho-me fartado de rir com estas trocas de palavras entre os Fernandos. Isto sim é humor, e do bom.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 8, 2005 11:01 PM

Que sorte a sua, Zero, encontrar divertimento numa deprimente troca de vozes. O meu interlocutor tem a arte (vá lá!) de desconversar.

Possivelmente o tema - Fernando Assis Pacheco - nada lhe diz, a ele. Não é grave. Há grandezas que também a mim nada dizem. Mas, a esta hora da conversa, já eu teria perguntado o que é que se poderia ler do senhor.

De resto, «A Musa Irregular», que o ZM lembra, é uma excelente entrada. É um livro divertido, muito anti-stressante. Recomendável para fernando esteves pinto.

Publicado por: fernando venâncio em maio 9, 2005 08:04 AM

É curioso, o tema continua a ser a morte num local público, longe da intimidade da família e de um quarto de hospital.Mas agora as consciências estão apaziguadas: trata-se de um escritor - e não um qualquer - que morre entre livros - e o prestígio do livro e da escrita são assinaláveis. Para mais, é uma morte sancionada por Ballester e que merece os recursos literários de um texto.
O povo, na sua infinita sabedoria, costuma dizer: "Todos os burros comem palha, o que é preciso é saber deitar-lha".

Publicado por: tb em maio 9, 2005 12:10 PM

Vejo que ainda não percebeste o que se discutiu. Discutiu-se o humor aplicado a acontecimentos trágicos factuais. Ora aqui nest post não há humor, ou há?

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 9, 2005 01:15 PM

Será que eu é que não percebi? Talvez.
Perguntas se neste post há humor. Bom, de acordo com o teu postulado anteriormente, o humor tem de provocar uma reacção e, se a pessoa não se rir, é porque não há humor ou o objectivo do texto falhou. Então, pela inversa, se o leitor se rir de uma tragédia, o texto pode considerar-se também humorístico, certo?
Não acho que o humor se meça segundo a sua exteriorização, mas se for essa a tua bitola, esclareço que este post me fez sorrir. Abertamente. Porque, julgando conhecer um pouco Assis Pacheco, homem despojado e galhofeiro, me pus a imaginar a sua "alma" (isto era um filme, claro)a olhar para ele, caído no chão entre livros, e a observar: - Quem diria!? Tão vivo que eu estava e morri!
Quanto a ter-se discutido o humor, tenho as minhas dúvidas.

Publicado por: tb em maio 9, 2005 02:40 PM

o melhor livro que ele escreveu foi morrer.

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 9, 2005 02:51 PM

Tu, então, nem sei por que continuas aqui a assombrar. Que coisa tão reles, ó pinto!

Publicado por: tb em maio 9, 2005 05:46 PM

Não, não, nada disso. O discurso humorístico precisa do riso para existir. Dizer isto não é dizer que o riso não pode ter outras origens. Claro que tem. Algumas nem são passíveis de verbalização, quanto mais. A Anaïs Nin falou uma vez do riso. Dizia ela (In "A Casa do Incesto"): "Estou doente da persistência de imagens, reflexos e espelhos. Eu sou uma mulher com olhos de gato siamês que por detrás das palavras mais sérias sorri sempre troçando da minha própria intensidade. Sorrio porque presto atenção ao OUTRO e acredito no OUTRO. Sou marioneta movida por dedos inexperientes, desmantelada, deslocada sem harmonia; um braço inerte, outro remexendo-se a meia altura. Rio-me, não quando o riso se adapta ao meu discurso, mas porque ele se implica nas correntes subjacentes do que eu digo."
O riso pode ser trágico (aliás, as pessoas quando riem muito também choram; são duas manifestações do nosso corpo que estão tão próximas que se tocam muitas vezes), perfeitamente de acordo. Mas não era de risos que falámos, mas de discursos humorísticos (in)felizes. Este post não é humorístico e o outro tentou ser.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 9, 2005 06:56 PM

Repara no que dizes:
"O discurso humorístico precisa do riso para existir.(...)Mas não era de risos que falávamos, mas de discursos humorísticos...". Aqui não bate a bota com a perdigota ou então o que é que me escapou?
Outro contra-senso é teres ficado tão incomodado com um post (na tua opinião, infeliz)e vires agora citar Anaïs Nin. Para tua felicidade, devias rever-te no texto dela, sorrindo/rindo das palavras mais sérias e troçando da tua própria intensidade. Agora a sério, não sejas tão taxativo, que isso faz mal à saúde, e deixa a porcaria dos rótulos e classificações.
Se o teu problema é o "humor aplicado a acontecimentos trágicos factuais", devo lembrar-te que, a partir do momento em que o Jorge escreveu o post, o que era "factual" passou a ser ficcional. O principal problema do post é a linguagem britânica (do sul)que praticamente não faz apelo às emoções, que não tem arrebiques, tão do gosto português. Daí a achar outras coisas sobre o seu autor, acho excessivo e preconceituoso. Mas também, eu sou das tais pessoas que mesmo na idade chavala me ria com as quedas dos outros (até com as minhas), e isso é coisa que nunca ninguém fez.

Publicado por: tb em maio 9, 2005 09:27 PM

tb agrada-me o teu segundo paragrafo.

Eu iria mais longe SE CALHAR alguns dos pudores destes comentadores sao hipocritas - nesta materia a hipocrisia nao e dos Ingleses, e das carpideiras a portuguesas, que suspeito que as vezes rejubilam na morte.

Publicado por: Luis Oliveira em maio 9, 2005 10:24 PM

Amigo, é o meu último comentário, porque a paciência também se esgota. Rir é a expressão de uma emoção. É tão natural como falar, respirar, etc. É também individualizante, no sentido em que cada um é dono do seu riso e ri-se do que bem lhe apetece. Eu posso rir quando outros choram. Eu posso rir das minhas tragédias existênciais (e por isso citei o texto da Anaïs). O riso é assim uma experiência paradoxal e potencialmente inabarcável, porque individual. Já o discurso humorístico é um artifício. Entendes? É um artifício com o objectivo de levar o outro a rir. O Post de que se tem falado muito não é só conciso, descarnado, no sentido em que a prosa de Cardoso Pires é descarnada. O texto tem claramente o propósito de levar ao riso, ou por outra, de ser humorístico - e é o próprio Palinhos que se refere ao seu texto como humorístico (Cf. os seus primeiro e segundo comentários). A construção das frases e justaposição (e choque) de planos tentam ser humorísticas (há uma morte, mas também há uma refeição e também há o ambiente "cultural" - a primeira é trágica, a segunda frugal e a terceira desapropriada a qualquer uma das outras duas). A tentativa de humor é desastrada, mais não seja porque nem tu consegues perceber ali (a tentativa de) humor.
PS: Essa do factual passar a ficcional já é pura desconversa. Sobre esses vários tipos de discursos miméticos (é neste sentido que empregas "ficcional", parece-me), já falei antes e não me quero repetir.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 10, 2005 12:15 AM

Só mais uma coisa, eu tive sempre o cuidado, desde o meu primeiro comentário, de não tecer qualquer julgamento ou juízo de valor em relação ao autor do post. Não faço (nem fiz), porque não acho caso para isso. Será que o preconceito é vosso? Será que não sabem discutir textos sem meterem à frente a figura do autor-que-fogo-até-conheço-e-é-um-gajo-porreiro? Onde está a hipocrisia? E a seriedade da discussão?

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 10, 2005 12:24 AM

"Agora a sério, não sejas tão taxativo, que isso faz mal à saúde, e deixa a porcaria dos rótulos e classificações."

Mas... tens toda a razão! Vou deixar de ser assim, vou passar a ser mais eu, como aquela senhora da Quinta das Celebridades. Se há coisa que me vinha a irritar era essa mania dos rótulos e das classificações (quando digo irritar, refiro-me a irritações na pele; não sei como foste adivinhar os meus problemas de saúde). E se era cansativo ser taxativo (para além de ter a monotonia de uma rima). É tão mais fácil falar só por falar, aqui e além, esta, aquela palavra. Como vai ser diferente daqui para diante. E tudo graças a este momento epifânico, patrocinado pelo meu bom amigo tb.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 10, 2005 01:17 AM

estes comentários são de morrer a rir.

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 10, 2005 09:00 AM

Realmente já não há a mínima pachorra para te aturar. Mas não desatines, que não vale a pena. Se contribuí de alguma maneira para melhorar a tua qualidade de vida, não precisas de agradecer. A única coisa que procurei que notasses é o teu pensamento completamente engravatado, by the book e a tua tendência compulsiva para catalogar o que vires na frente, mas até para isso tu tens toda a liberdade desde 25 de Abril de 1974 (não sei se já eras nascido). Agora, o que acontece é que andaste à procura de toda e mais alguma desculpa para racionalizares o teu desagrado pelo texto do Palinhos, quando não valia a pena. Lamento, mas não me convenceste com os teus "argumentos" e o teu último desatino (às mijinhas), não sei porquê, faz-me lembrar o post da árvore com asas ou sem asas, sendo que tu gostarias que (neste caso) eu achasse que ela não as tem.

Publicado por: tb em maio 10, 2005 12:25 PM