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maio 06, 2005

SE EU FOSSE O PALINHOS, RECOMENDAVA ESTA SÉRIE

«Six Feet Under», no original. «Sete Palmos de Terra», em português. Passa à segunda-feira no canal 2, creio. É sobre a morte, enquanto tragédia e trivialidade. A morte vista por quem a conhece de perto, todos os dias. Pessoas normais que a vão integrando (a ela, à morte) nessa coisa abstracta, rarefeita e incompreensível que é a vida. E fazem-no muitas vezes, ó heresia, com humor negro, humor do luto, talvez a única forma de espantar o indizível medo.
Por isso, aos leitores que se lembraram de crucificar o Jorge, deixo uma sugestão: não deixem passar em branco o descaramento desse argumentista insensível que é Alan Ball. Toca a escrever para a 5 de Outubro, a ver se a RTP proibe a série maldita.

Publicado por José Mário Silva às maio 6, 2005 09:46 PM

Comentários

Isso do "fosso" é o lapso freudiano do semestre!

Publicado por: Sigismundo em maio 6, 2005 10:37 PM

:)
Já está emendado, caríssimo doutor.

Publicado por: José Mário Silva em maio 7, 2005 12:54 AM

se fosses o palinhos... mas não serás, por acaso, o cangalheiro desse espírito funesto?

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 7, 2005 01:18 AM

Eu vejo esse filme. A diferença que encontro entre ele e a posta do Palinhos está na sensibilidade e na elegância. Não vi nenhuma destas no Palinhas.

Publicado por: Iris em maio 7, 2005 01:58 AM

Até tu, Zé?!... Vocês estão numa fuga p'rá frente que balança entre o caricato e o primário. O Palinhos chegou ao ponto de pedir caução aos risos boçais dos coveiros e agora tu convocas o elenco de uma série televisiva como testemunhas de defesa. Dão nisto as armadilhas emocionais.

Não precisas que te expliquem a diferença entre a realidade e a ficção, pelo que vou ter a fineza de não desenvolver este ponto. Mas peço-te ajuda para levar a cabo o repto que nos deixas e levar a RTP a proibir a pouca-vergonha: esse tal de Alan Ball, numa estimativa por alto, já conseguiu matar quantos actores desde o início da série?

Publicado por: Valupi em maio 7, 2005 04:25 AM

Pois, a diferença é que se trata de ficção e não de pessoas a sério. Também sigo essa série - muito boa, secundo o conselho. Não percebo muito bem onde vês ali humor (ainda que negro), mas tudo bem. Para falar do humor negro, talvez pudesses ter referido o Gil Vicente das barcas (ou a série televisiva "Liga de Cavalheiros"). De qualquer maneira, essa é a função da ficção, ultrapassar a realidade tornando-a suportável. O caminho diferente, encarar a realidade com humor para torná-la (mais) suportável, parece-me, nalgumas situações como esta, mais questionável.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 7, 2005 07:10 AM

Não sejais tão convencidos, BdEístas! Comparar o humor negro dos Sete Palmos de Terra com a brincadeirinha do Palinhos, como quem diz: «vamos cá mandar uma piadinha a ver se brilho no blogue!» Convencidos da merda!

Publicado por: jm em maio 7, 2005 12:06 PM

Se a questão é a diferença entre realidade e ficção, por que razão não houve ninguém a perguntar ao Jorge se aquilo tinha de facto acontecido antes de começarem com tão grande despautério?
E que é a ficção sem a realidade? Como se torna verosímil? Ela não nasce, nada nasce 'ab nihilo'.
Para terminar, gostava de saber qual foi a sensibilidade e a elegância que Iris viu num episódio desta série (fantástica) em que o pé de um morto foi metido no cacifo do namorado da jovem, como vingança por ele ter divulgado na escola, que ela, na intimidade, lhe tinha chupado os dedos do pé.

Publicado por: tb em maio 7, 2005 03:28 PM

A propósito, aqui vos deixo um excerto de um diálogo da série de culto "Seven Feet Under", que ´postei' esta semana no blogue vistalegre:

"I'm pursuing my master plan of being totally forgotten after I die, and totally forgettable while I'm here."
7feetUnder

Publicado por: FlorGrela Estampa em maio 7, 2005 03:51 PM

Sim, não nasce do nada, mas ficção não é realidade. Face ao Real, há uma distinção, aristotélica de resto, entre duas atitudes miméticas possíveis: a imitação sequencial de superfície – imitação re-instanciação “real”; e a imitação aparente – simulacro. A primeira reproduz o imitado (o discurso jornalístico encontra-se aqui), a segunda utiliza esse mesmo processo para elaborar um universo outro, ficcional (o discurso romanesco entra aqui). O humor está acima destas distinções e pode ser aplicado a qualquer relato, muito embora o discurso humorístico que diga directamente respeito à realidade deva ter cuidados vários, para não se tornar ofensivo e para ser eficaz. A questão é que o humor precisa de uma reacção para ser humor e por mais voltas que dê continuo a não achar o mínimo de graça ao post e a achá-lo infeliz. Infeliz nos objectivos que traça enquanto discurso humorístico, entendes?

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 7, 2005 05:35 PM

Ó ZM, pareces um bocado desorientado, desculpa que te diga. Que comparação tão infeliz. assim como os dois posts do Jorge.

Publicado por: Monty em maio 7, 2005 07:55 PM

Caro Zero, ninguém disse que a ficção era a realidade, mas sim que têm pontos de contacto muito fortes.Aquilo que me importa verdadeiramente não são teorias, mas sim que a ficção me pode emocionar em situações (plasmadas da realidade)que eu nunca experienciei como, por exemplo, a guerra (também ela envolvendo a morte). Isso quererá dizer qualquer coisa, não?
Parece-me claro que o humor que se pode perceber no post inicial do Jorge (corroborado no 2º.)não tem nada a ver com a pessoa a quem aconteceu tal desaire. Tem a ver é com o comum das pessoas que não aceitam a morte como uma coisa natural, que acontece em circunstâncias vulgaríssimas, pessoas que se acham demasiado vivas, jovens e imprescindíveis, sem tempo para olhar para o lado, futilmente preocupadas com o quotidiano e convencidas de que só acontece aos outros. Sendo assim, parece-me que este humor é só para sorrir, levemente, no fundo da alma.
Mais uma vez, se a realidade e a ficção são tão distantes, por que não se deram ao trabalho de perguntar primeiro em qual dos níveis se inseria o post (o 1º.)?

Publicado por: tb em maio 7, 2005 09:31 PM

Uma série cheia de personagens psicóticas, atrofiados mentais, gays e foi escrita por um gajo que leva no pacote !!

Pelo vistos bem ao sabor da Esquerda !!

Eu gostava mais dos Sopranos, uma série com mafisos, gajas boas e muito sangue.

Bem ao sabor do ppl de Direita !!

Publicado por: Mr X em maio 7, 2005 10:52 PM

Para que conste, Mr. X,
Eu gosto mais, mas muitíssimo mais, dos Sopranos do que dos Sete Palmos. Obviamente não pelas razões que apontas.

Publicado por: José Mário Silva em maio 7, 2005 11:51 PM

Pois é, Monty. Se calhar a comparação até é disparatada. Mas relê os comentários ao post do Jorge e vê quem é que começou com os despropósitos.
Nunca imaginei que o pessoal da blogosfera, tão lesto a escrever e a perdoar os mais variados desaforos, fosse tão picuinhas e grandiloquente no ataque a um post que não tinha nada de desonesto ou mal intencionado.

Publicado por: José Mário Silva em maio 7, 2005 11:55 PM

confesso: esta serie é a minha telenovela (no sentido de vicio, no sentido de que acompanho, no sentido em que fico mal disposta se não a vir, perturbada se a vejo, no sentido em que a
vivo as suas personagens e as vezes sinto que algumas delas fazem parte da minha vida e partilho as suas dores e os seus sorrisos, os seus afectos e as suas fragilidades).
recomendo! às segundas feiras, na 2

Publicado por: diane em maio 8, 2005 12:28 AM

Desculpa, Zé Mário, mas não concordo contigo. Houve algumas pessoas que reagiram mal ao post, sim. Mas as reacções não apareceram a despropósito. O assunto é delicado (diz respeito a todos e, consequentemente, pode ferir sensibilidades) e não foi tratado da melhor maneira. O que acho desde o início é que fazer humor com coisas a sério é muito mais complicado (no sentido de ser mais exigente) e esta longa discussão parece confirmar isto mesmo. Não se trata de uma limitação do Humor, mas de uma exigência deste tipo de humor.
PS: TB, quando cheguei a esta discussão, já essa questão estava resolvida, por meio de um link para uma caixa de comentários.

Publicado por: ZeroAesquerda em maio 8, 2005 03:56 AM

"Esta é a história, senhoras e senhores, de um post que não tinha nada de desonesto ou mal intencionado, coitadito"

Leio e pasmo. A tremedeira que vai para aqui. O Jorge fez um post banalíssimo (sem desprimor para o autor), mais um entre tantos outros que rapidamente se lançam para o abismo do esquecimento. E o que fizerem os comentadores? Comentaram, como é suposto numa comunidade que se quer viva, frontal, diversificada. Cada um com o seu estilo, as suas razões. Uns contra, outros a favor. Como sempre. De repente, o autor sente-se na necessidade de se justificar, revelação de uma má consciência, fazendo-o da pior maneira possível por ser em registo hipócrita (vide etimologia desta palavra para evitar agitações inúteis). A referência aos comportamentos sarcásticos ou meramente humorísticos dos profissionais que lidam com a morte todos os dias confrange pela falácia da comparação (a questão não é a da psicologia desses profissionais mas o significado de um texto) e pelo argumento de autoridade: "Vejam, gozar com os mortos é normal, não tem mal nenhum, até os doutores o fazem, quanto mais..." Salva-se o testemunho do medo, que introduz autenticidade neste acontecimento bloguístico. Porém, teria sido digno reconhecer que o texto original não suporta a explicação. O post "Uma morte cultural" é um absoluto de artifício ao serviço do lúdico. E ponto final.

O problema – há que dizer o escusado – não está no tema da morte, o qual permite textos sublimes ou meramente sinceros, piadas espirituosas e espirituais, como todos estamos cansados de saber e fruir. O problema está no aproveitamento de um facto real (essa pessoa morreu, os seus familiares e amigos choram a sua morte - mas, no caso de ninguém o chorar, essa morte continua merecedora de luto por si mesma) para um exercício literário de futilidade suprema. Tudo no que o Jorge escreveu revela a origem narcísica, como tão bem a/o Iris aponta. O "Outro" foi meio, não fim – ou seja, destituiu-se esse indivíduo do seu estatuto de "pessoa" usando-o como oportunidade de lambidelas egóicas.

E respondo já à pergunta: é Pessoa todo e qualquer ser humano cuja morte nos levasse a ficar magoados ou furiosos com um texto como esse. Que o Jorge faça o exercício de reescrever o texto pela terceira vez imaginando que a morte foi a de alguém que ame ou conheça. Faria referência à torrada e à meia de leite? Lembrar-se-ia de um conto do Woody Allen? Atribuiria contentamento ao passamento? Terminaria com CD's de New Age? Pois. É preciso um autismo expressivo para usar a morte de alguém como matéria de jogos semânticos.

Depois saiu a terreiro o Zé Mário, naquele que é o maior erro de avaliação que lhe vi fazer até agora e "case study" de um desvario reflexivo. Por muito mais não desembainhou a espada, quando outros elementos do BdE estiverem (como estão sempre, fosga-se!!, isto é um blogue, não a Academia das Ciências ou uma reunião dos antigos alunos do Colégio S. João de Brito) sob fogo intenso e "violento". Talvez um tique paternalista, talvez o subconsciente reconhecimento de uma argolada (so what?), talvez a natural agressividade dos machos, o certo é isto ter derrapado para o absurdo.

Na caixa de comentários ao post original, no momento em que escrevo, aparecem 9 nomes (para além do Palinhos). Desses 9, apenas 4 se manifestam contra (44,4%, para efeitos estatísticos). E tirando o primeiro, os 3 seguintes apresentam ponderadas razões (tão legítimas como as do autor) para enquadrar a opinião. Será esta minoria de 4 o universo que o Zé Mário identifica como o "pessoal da blogosfera"?? O facto de terem opinião contrária configura um "despropósito"?? Teremos nós um currículo infame de perdão a "variados desaforos" e por isso deveremos é ficar calados?? Tratar-se-á, apenas, de se estar a ser "picuinhas e grandiloquente", maleita cuja adjectivação me estará a escapar?? No fundo, queremos é "crucificar" o Jorge Palinhos??... Incrível, o que fazem as emoções.

E por que raio estou aqui a gastar caracteres com isto, afinal só mais um episódio no disfuncional mundo da blogosfera? Porque ainda conservo a crença de que é a falar que a gente se entende.


Publicado por: Valupi em maio 8, 2005 06:43 AM

Pode-se gozar com tudo, inclusive com a morte.Com a morte de pessoas próximas e reais? Também, é uma terapia como outra qualquer, uma defesa para os morituri. Pode-se aproveitá-lo para um texto de ficção literário? Também. Quem diz o contrário é porque utiliza outra terapia, a do sentido pêsame muito sério, mais moralista e hipócrita mas que configura igualmente o medo da nossa própria morte. Ora, mas o que estava aqui em causa, inicialmente, acho que era um texto sem graça, inócuo, banal e inofensivo do Palinhos, um puro desperdício, logo seguido de uma defesa corporativa ridícula do José Mário Silva. Depois somos nós todos a perorar, o que indicia que o assunto tem o seu interesse.

Publicado por: jm em maio 8, 2005 09:42 AM

Pois cá eu, se fosse o Palinhos, mandava o texto para o concurso de micro-contos.

Publicado por: tb em maio 9, 2005 11:38 AM

Valupi,


Comentário genial. Apesar da muita delicadeza que mostrou, tenho a certeza absoluta que ainda deixou um bom par de trazeiros pequeno-burgueses da cor de certos estandartes políticos – o carmim muito desmaiadinho pelo sol que faz nesta terra de blá blá e de mé mé. Se os operários soubessem metade do que você sabe, Valupi, estes blogueiros teriam de assoar-se aos diplomas ou então bater com os costados na estiva, se os estivadores como eu não se ofendessem, bem entendido. Mas sei que vai ser misericordioso e aceitar a minha opinião de que andar lá em cima a dar pasto às feras é uma profissão ingrata com situações de irremediabilidade quando se carrega no botão à pressa. O “Esprit d´escalier” neste caso foi de tristeza pelo que se disse sem graça porque ofendeu pelo menos 44.4 por cento, de acordo com as suas estatísticas. Espero que toda a gente tenha aprendido com isto, especialmente o “crucificado” (mais pano para mangas aqui com incréus a recorrerem a palavras santas) originador deste debate interessante. Adeus a todas e a todas. Acho este blogue livre à farta. Vou recomendá-lo à malta do gancho.

Publicado por: O.Prudente em maio 9, 2005 02:15 PM

o valupi vale mais que os posts que comenta.

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 9, 2005 02:55 PM

Caro Prudente, concedo de bom grado e coração ao alto. Todos os colaboradores do BdE, sem excepção, têm mérito. O resultado é um blogue que dá gosto habitar, onde a inteligência é bem tratada. Mas este é apenas um dos lados da moeda.

Do outro, temos as moções pulsionais que perpetuam uma imaturidade dialógica. Aparentemente, o propósito de escrever num blogue será o de se ser lido por uma comunidade de potenciais anónimos. E ao se permitirem comentários, abre-se o espaço caótico das participações de terceiros. Sendo anónimos, espontâneos, imprevistos, será tolinho confundir esses comentários com "ataques pessoais", que poriam em causa o bom nome, integridade moral e futuro político dos autores dos postes. Mas é o que acontece, recorrentemente, dando origem a trocas de verbetes sem qualquer "finesse", ironia ou distanciamento. Confunde-se o cu com as calças, malhas que a vaidade tece.

Os portugueses levam-se demasiado a sério no que menos importa, e são desleixados no que mais importa. Amuam com as críticas, não conseguem reconhecer os erros, fogem da responsabilidade. A culpa é sempre dos outros. Salazar ainda não caiu da cadeira.

Publicado por: Valupi em maio 9, 2005 07:40 PM