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maio 06, 2005

MORTE CULTURAL SUBSTITUTA

Durante algum tempo trabalhei na secção de necrologia de um jornal. Por essa secção passavam todos os dias fotos de defuntos, textos pesadíssimos de condolências, anúncios de funerais, de missas de sétimo dia, uns escritos por familiares, outros pelas agências, alguns deles com lacunas e omissões reveladoras na lista de subscritores.
E que faziam os funcionários dessa secção perante a presença diária da morte?
Riam-se.
Galhofavam das expressões dos falecidos, jogavam ao "este-gajo-é-parecido-com-que-celebridade", deitavam-se a inventar histórias para as omissões do anúncio. Riam.
Tal como fazem os médicos legistas, agentes funerários e todas as outras pessoas que convivem diariamente com a morte.
Será toda esta gente um bando de irresponsáveis insensíveis?
Ou será uma forma de exorcizar o medo?

Estava exactamente no Café FNAC quando me disseram o que tinha acontecido. Fiquei momentaneamente mudo e uma estranheza galgou-me a espinha. Como é que era possível alguém morrer subitamente, entre amigos, num lugar público, num ambiente descontraído? Naquele mesmo sítio onde eu estava? Nesse preciso momento nasceu-me este post na cabeça. Não sei de onde veio - será que alguém sabe de onde vêm os posts? - mas senti-me imediatamente melhor. O medo fugiu.

No entanto, houve muita gente que se mostrou ofendidíssima com o post (espera-se a todo o momento que a família anuncie um processo judicial contra Jorge Palinhos por insensibilidade).
Sem querer perturbar pudores frágeis com a minha boçalidade suburbana (e de província), deixo aqui então um texto em substituição do post anterior destinado às almas mais susceptíveis:

Ontem, faleceu subitamente um ser humano no Café FNAC do Norteshopping, vítima de causas desconhecidas, demonstrando mais uma vez a fragilidade da vida humana e como não somos mais que pó facilmente disperso pelo sopro caprichoso dos deuses.
A preciosissima vida que foi tão friamente roubada aos seus familiares enlutados deve ser eternamente lembrada e sobre ela deve recair uma meditação dolorosíssima sobre como todos estamos sujeitos a deixar este mundo para trás, a qualquer momento, em qualquer lugar.
Guardemos, pois, respeitoso silêncio em memória desta alma que partiu para o grande desconhecido que nos aguarda a todos, quando menos esperarmos.

Espero que agora se sintam todos mais contentes.

Publicado por Jorge Palinhos às maio 6, 2005 07:41 PM

Comentários

Não sei se alguém vai ficar + contente com esse post "substituto", mas de certeza que o homem em causa quando saiu de casa ontem, não devia tar à espera nem de morrer, nem de ter 2 posts e 11 comments (até agora) num blog, por causa dele.

Publicado por: francisco em maio 6, 2005 08:52 PM

o palinhos ainda há-de rir-se da sua própria morte.

Publicado por: fernando esteves pinto em maio 6, 2005 09:13 PM

Nem eu esperava outra coisa dum marmelo que trabalhou na secção de necrologia dum jornal. Sem dúvida devias andar mordido por recordações dessa casa dos mortos, onde andaste a arrastar um intelecto com cheiro a cravos murchos que ambicionava escrever palavras de necrofobia sarcástica em blogues pouco exigentes. Este teu segundo post de arrependimento deverias aproveitá-lo para limpares o sítio do costume com ele. Mas sei que não o farás porque tens medo (esse mesmo medo que te assaltou no café da FNAC) de levar as badanas mordidas pela dentadura de ironia velada que teimosamente deixaste enrolada no papel. Tem respeito pela morte dos outros, meu gazetista sem tacto, já que não mostras nenhum pela paciência que temos. E, no futuro, evita escreveres posts deslavados baseados em fenómenos que consideras importantes para começar uma conversa – travagens repentinas de motorizadas e gritos de ludovinas bêbadas às três da manhã. Por agora escapas, ninguém te irá processar. Mas continua assim e terás os psiquiatras à porta.

Publicado por: Madalena em maio 6, 2005 10:53 PM

Esta posta demonstra a mesma insensibilidade da 1ª. Seria melhor não corrigir novamente. Ou então faça uma tentativa com um ser da sua família, um que o tenha marcado na infância, por exemplo. Como seriam os comentários lá no jornal se a foto caísse lá?
Desconstrua os seus textos e verá um enorme egoísmo e individualismo. Veja por exemplo este excerto: "Como é que era possível alguém morrer subitamente, entre amigos, num lugar público, num ambiente descontraído? Naquele mesmo sítio onde eu estava? (...)mas será que alguém sabe de onde vêm os posts? - mas senti-me imediatamente melhor. O medo fugiu."
Acho que vou fazer férias deste blog.

Publicado por: Iris em maio 7, 2005 01:56 AM

Cara Iris:

O seu raciocinio faz um certo sentido mas nao invalida a justificacao do Jorge Palinhos.

Estou a ser incoerente?

Eis uma ilustracao:

Suicidou-se ha pouco tempo alguem de quem era muito proximo - vivi com ele tres anos e meio. Obviamento como a Iris diz a morte dele nao e para mim motivo de gracas. No entanto na linha do que diz o Jorge Palinhos lembro-me de essa mesma pessoa gracejar sobre o facto de o suicidio acontecer mais frequantemente a noite depois das 10 horas: "pois a malta so da um tiro nos miolos depois de ver a telenovela".

Estas coisas sao complexas e paradoxais.

Em suma deixem la o Palinhos postar em paz!

Publicado por: Luis Oliveira em maio 7, 2005 02:10 AM

gosto muito da companhia do iris aqui no blog.
mas é sabido que a todos nós apetece meter férias de vez em quando. infelizmente nem sempre é possível fazer na vida real. nos blogs é quando nos apetece nem precisamos de avisar com antecedência.
quanto ao "escândalo" :
um bocadinho ridículas as reacções de "nojo" ao(s) post(s).

Publicado por: tchernignobyl em maio 7, 2005 09:54 AM

Não, não ficaram mais contentes pela simples razão de que agora ficou claro que a morte é democrática, é para todos em qualquer idade ou lugar. Ficou claro que ninguém domina a natureza, nem os jovens ou mais ou menos jovens (no BI)que se agoniaram tanto com o post inicial. E já que é preciso tratar do tema com pinças, por ser uma coisa melindrosa que só associamos à velhice, será por isso que se desprezam tanto os velhos, porque eles são o espelho desse horrível, inevitável futuro?

Publicado por: tb em maio 7, 2005 02:57 PM

e digo-te mais, Jorge:
brincar com a morte é uma falta sem perdão. os monthy pithon tentaram o mesmo em diversas alturas e vê o que lhes aconteceu...
é por estas e por outras que a Igreja há muito devia ter autorizado os preservativos. sempre se evitavam umas mortes e umas piadas...
podias sempre dizer que entreviste a morte do Bergman a fugir apressada do café da Fnac com o tabuleiro de xadrez debaixo do braço, largando peças e farrapos pretos enquanto escapulia por entre os corredores, perseguida pelos seguranças tentando recuperar os bens roubados! mas não, preferiste a piadinha fácil!
shame on you!

Publicado por: nuno casimiro em maio 9, 2005 12:08 PM

Gostava de saber se as pessoas sabem ler e interpretar o que lêem! O segundo Post do Jorge Palinhos parodia não o acontecimento (o falecimento súbito de um indivíduo numa loja num centro comercial), mas aqueles que não souberam compreender o seu primeiro post. Além disto, o primeiro post apenas demonstra o quão perto estamos da morte diariamente. Não há nada nele que seja ofensivo. E aqueles que escreveram a desejar a morte do escritor estão a desrespeitar a memória do texto, e do acontecimento, e igualmente a inteligência. Quem desejou mal ao escritor apenas deseja ser lido, deseja ter protagonismo, nem que isso implique deturpação e insulto. Afinal conseguimos viver com a diferença de opiniões ou não? Onde está a vossa democracia? Se desprezam as opiniões destas pessoas porquê os insultos? Por que perdem tempo a ler? Só para insultar? Acredito piamente que recorrem ao insulto e à ofensa pessoal por incapacidade argumentativa. Cresçam e façam o que pregam: respeitem!

Publicado por: Pandora em maio 9, 2005 12:50 PM