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maio 06, 2005

ALKMAAR DE A A Z

Azar. Devia escrever-se «AZ-ar». Sim, jogar com tamanho brilho, e ter aquelas duas canhonadas à trave.

Bandeiras. À minha volta, bandeiras do Sporting. Mas umas poucas, também, de Portugal. Sente-se a gente em casa.

Chuva. Estava prometida. Mas os gajos andam sempre a enganar-nos, não era?

Diferença. São dois jogos diferentes: o visto no estádio, o entrevisto na televisão.

Empate. Vão quatro minutos de jogo, e o comentador da TV holandesa confessa: «Claramente, o Sporting não está a jogar para o empate». Dez segundos depois, também já isso é História.

Filho da puta. Eu não sabia que o árbitro o era. E menos ainda que uma pequena multidão podia, com tanto à-vontade, publicitá-lo.

Golos. O cálculo dos exactos golos é alta matemática. A gente pode estar triste, ignorando que deveria estar alegre.

Heróis do mar. Cantamos o hino nacional, mas também «Menina estás à janela» e «O bailinho da Madeira». É a excursão da escola.

Inquieto coração. Duas horas com esta inquietação toda. Mas é porque quero. Podia estar em casa lendo um livro com um albarinho.

Jornalismo. Num café no centro de Alkmaar, quatro jornalistas da Antena 1, vestidos de Sporting e rodeados de holandeses. O sofrimento a fazer ping-pong.

Kan niet. «Não pode ser». Ela, na mesa ao lado, não saberia dizer quando se marca «canto». Mas embarga-se-lhe a voz vendo Liedson aos 47’.

Lateral. Ali, a dois passos, sem nos olharem um instante, os jogadores fazem a parte deles. Vão passar 122 minutos jogando ao sério. Por nós? Apesar de nós?

Mentira. Não, não estou no estádio. Os dois bilhetes, quase rapinados em Lisboa, foram para dois seres muito queridos.

Novo estádio. À entrada da cidade, a maquete a botar figura. Tendo que escolher, sempre melhor do que uma arena de touros.

Orações. Faltam dois minutos para o fim do fim. «Agora é só rezar», diz-me, voz profunda, um locutor da Antena 1. Para um incréu, o que se seguiu foi lixado.

Pergunta. O rapaz olha-me o caderninho. «O que é que anotas aí?». Na Holanda, o «tu» é assim, rápido. «É para um blogue em Portugal». Não sei se percebeu.

Quase. Ah, a experiência do tempo! Para uns corre, para outros emperra. Num universo paralelo, teríamos sido mais felizes?

Repetição. No estádio, não dão repetição.

Sem árbitro. Dou comigo a imaginar um homem a menos em campo. Será ele realmente indispensável?

Treinadores. Mais uma. No tempo de Mozart, não havia maestro. Era o primeiro-violino a dar o andamento.

Urinoir. Herança francesa, mas construção indígena. Como arte conceptual, a parede de Alkmaar tem já um grande futuro.

Venâncio. Vestida na bandeira portuguesa, a Aurora vai ficando afónica. Aparecerá um segundo, a um canto superior do ecrã.

Wij gaan naar Lissabon. «Nós vamos para Lisboa».Cantiga esperançosa, várias vezes cantada. Outras tantas calada.

Xenofobia. Polícias a cavalo, carrinhas com polícias de choque. «Para o caso de». Para o caso de quê?

Zaragata. Talvez lhes apetecesse, sim, a esta injustiçada gente de Alkmaar. Mas voltam para casa ordeiros. Só um pouco silenciosos. A realidade ainda é, de todas as coisas, a mais incrível. (Fernando Venâncio)

Publicado por José Mário Silva às maio 6, 2005 11:28 AM

Comentários

Brilhantíssimo, Fernando. Nem sei como agradecer tamanha gentileza, tamanho afinco, tamanha generosidade.

Publicado por: José Mário Silva em maio 6, 2005 11:37 AM

Eu que sou benfiquista adorei ler este post.
Excelente trabalho do Fernando

Publicado por: cachucho em maio 6, 2005 12:37 PM

Como benfiquista admito que torci pela vitória do SCP e festejei o 2º golo. Mas pouco depois quase me arrependi quando ao ligar a Sic Notícias me deparo com umas centenas de sportinguistas (ou anti-benfiquistas?) a cantar as cantigas ofensivas do costume. Mas esses não contam. Aos verdadeiros Sportinguistas muitos Parabéns por esta grande derrota-empate-vitória!

Publicado por: Blarghh em maio 6, 2005 12:59 PM

Muito bom...muito bem escrito...e parabéns à lagartagem que por aí anda a festejar...e que na final da taça uefa tenham também motivos para festejar....

Publicado por: portvgvesa em maio 6, 2005 01:19 PM

Caramba, agora é que vai ser sofrer na final... Vamos lá a ver se os russos me dão uma alegria. Já sinto o prazer de perguntar a algum amigo lagarto: "então o que é que o sporteim ganhou este ano?".

Publicado por: Zangalamanga em maio 6, 2005 02:20 PM

Bravo, Fernando. Uma delícia. E uma reflexão: os jornais desportivos poderiam ser veículos de iniciação e pedagogia literária, poética. Se servidos por talentos como o teu.

Publicado por: Valupi em maio 6, 2005 02:41 PM