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maio 05, 2005

THE BRITISH WAY OF LIFE

Ainda da mesma edição do Público:

«Em Orpington, um subúrbio de Londres que mais parece campo, sucedem-se as moradias, os relvados bem cortados, as flores bem tratadas. É um bastião conservador defendido pelo deputado John Horam que nestes últimos anos tem vindo a perder terreno para os LibDem. Nas últimas legislativas foi mesmo assim: ganhou por 269 votos. Por causa do sistema uninominal britânico, ganha o candidato mais votado e não ganha absolutamente coisa nenhuma o que fica em segundo lugar. Mas agora Mains e o seu partido sabem que estão reunidas as condições ideais para lhe roubar o lugar.
"Olá Peter, bom dia, sou o Chris Hains, o candidato dos Liberais Democratas. Como está a Sarah? Então, já sabe em quem vai votar?" O eleitor reponde-lhe: "Acho que sim, eu sou um trabalhista mas vão ser mesmo vocês que levam o meu voto, a minha mulher é que ainda está com dúvidas". Hains ri-se: "Então vou deixar-lhe aqui um prospecto e a tarefa de a convencer, está bem?". Foi assim na primeira casa do dia.
Hains tem uma lista com as moradas e os nomes de todos eleitores que vai visitar hoje. À frente de cada nome tem várias colunas. "LiDem, Conservador, Trabalhista, Não Vota, Conservador mas vai votar LibDem, Trabalhista mas vai votar LibDem". Para o caso do eleitor Peter põe uma cruzinha na última coluna. No dia das eleições, muitas visitas porta a porta depois, já terá uma ideia muito parecida com a realidade do que irá acontecer nas urnas.
Com Hains, a tocar às portas de outras casas, está Lord Dholakia, um veterano nestas andanças que já foi presidente do partido. "Consegui um trabalhista, Chris, assenta aí", diz. "Expliquei-lhe que aqui não vale a pena votar no Labour porque eles não contam para nada, disse-lhe que se votasse em nós podia ajudar os trabalhistas a livrarem-se de mais um deputado conservador", explica Dholakia ao PÚBLICO.
Sucedem-se as portas: um conservador que vai votar conservador, um trabalhista que vai votar trabalhista. Lord Dholakia "saca" uma eleitora "possível". "Primeiro disse-me que não, mas depois consegui dar-lhe a volta", explica entusiasmado. "Mas acho que é melhor verem se ela vai mesmo votar na quinta-feira, senão têm que vir cá buscá-la":
Como é que é? "É assim mesmo", explica-nos Mains. "No dia das eleições cada mesa de voto tem representantes dos partidos que vão controlando as listas dos eleitores que já votaram. Se às seis horas da tarde, este ou aquele com quem falámos e nos prometeu o seu voto, ainda não tiver aparecido, nós vamos a sua casa lembrar-lhe que é dia de eleições".»

Esta gente tem uma monarquia; bebe (em quantidades industriais) a pior cerveja do mundo (venham falar-me em fleuma...); tem das piores comidas; guia do lado errado da estrada; as torneiras também se abrem ao contrário; têm alcatifas na casa de banho; mal usam o sistema métrico.
Mas o pior para mim é esta mentalidade das neighbourhood-watch communities (que, infelizmente, também existem nas comunidades ricas dos EUA) que são a completa oposição de tudo o que seja liberalismo e urbanidade: toda a gente conhece a vida de toda a gente; toda a gente vigia e controla a vida de toda a gente. Para melhor se protegerem, pensam eles. E ainda há liberais que se inspiram na Grã-Bretanha...
Ao contrário de muita gente, eu penso que o melhor que poderia suceder à Grã-Bretanha seria uma maior americanização. Quanto mais americanizados melhor. Por americanização entenda-se uma população composta por mais negros; mais hispânicos; mais judeus; mais árabes; mais italianos; mais russos; mais... irlandeses. Ou seja: mais multiculturalismo. Mas não há nada menos inglês do que o multiculturalismo.
Deus nos livre desta mentalidade.

Publicado por Filipe Moura às maio 5, 2005 06:03 PM

Comentários

A pouca miscigenação que existe nos Estados Unidos é escondida sob a capa de raças muito bem definidas. Ninguém é mulato nos Estados Unidos faz já vários anos... Creio que estás confundindo gigantes americanos em lados opostos do planeta. Mas tu vivestes lá e se achas que os Estados unidos servem de paradigma de miscigenação é porque devem ser e eu é que não sou capaz de sair do "meu antiamericanismo"...
Um abraço.

Publicado por: RF em maio 5, 2005 06:21 PM

Filipe,

Se este blogue fosse um jornal que desse uns açoites a jornalistas que não sabem o que dizem quando falam da Inglaterra, ainda poderia fazer um pequeno esforço para ajudar o director a deixar-te esse trazeiro a arder. Mas como calculo que foste convidado por um pintassilgo que simpatiza com as tuas ideias muito neo-conistas ou libe-liberais, prefiro não dizer nada, deixar-te na ignorância, e obrigar-te a pagares a um professor se quizeres aprender. E não digas a ninguem que sou má rapariga.

Publicado por: Madalena em maio 5, 2005 11:16 PM

Tens razão, Rui; "multiculturalismo" era o que eu queria, e deveria, ter escrito. Já está alterado. Obrigado e um abraço.

Publicado por: Filipe Moura em maio 6, 2005 02:30 AM

Olha que te enganas, Filipe: a pátria do multiculturalismo é mesmo o RU. Mais do que os EUA. Ou a Holanda...
(Quanto ao controlo comunitário sobre os indivíduos, não te enganas mesmo nada...)

Publicado por: Ricardo Alves em maio 6, 2005 11:56 AM

Ricardo, das minhas andanças pelo Reino Unido quis-me parecer que havia multiculturalismo em Londres (que é uma excepção) e nos centros universitários (como sempre). No resto, havia "neighbourhood-watch communities". Mas tu conhecerás melhor o RU que eu sem dúvida.
Olha, já agora: tens alguma sugestão para um agnóstico sobre como dizer "Deus nos livre"?

Publicado por: Filipe Moura em maio 6, 2005 07:03 PM

E o multiculturalismo do midwest como e? deve ser como o da covilha (a minha terra).

Nao fazendo generalizacoes, o multiculturalismo dos centros universitarios passa, de acordo com a minha experiencia, por anular algumas das diferencas interculturais - coisa que nao me agrada muito.

Publicado por: Luis Oliveira em maio 7, 2005 02:21 AM