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maio 02, 2005

O 24 HORAS DE 1971

Não importa quantos panegíricos possa o Miguel Esteves Cardoso escrever, quantos orgasmos possa ter o MacGuffin ao citar Oakeshott, não sou conservador.
Não acredito no conservar por conservar, nem que menos mudança seja intrinsecamente melhor que mais mudança e duvido muito no que se chama "tradição", cuja natureza me parece ser sempre totalmente diferente do seu evento originário.
Entediam-me os "antes não era nada disto", os berros sobre a "geração rasca", os clamores de que se está a ir "demasiado longe".
Mas, diga-se, este resumo do conteúdo de um jornal popular de 1971 - uma espécie de Correio da Manhã da outra senhora - deixou-me banzado:

O Quinta-Feira à tarde de 24-5-1973, punha uma pintura de Peter Orlando, “o pintor norte-americano que expôs em Paris, sob a égide da Casa de Portugal”, a encimar um conto de Augusto Abelaira- O texto Diabólico. Na página seguinte, Urbano Tavares Rodrigues dizia que “escrevo para dar consciência a quem me leia de que temos a obrigação de transformar o mundo” e mesmo em baixo, escrevia-se sobre Daniel Defoe, perguntando João Gaspar Simões:“criador do primeiro anti-romance?” As páginas centrais eram dedicadas ás Letras e Artes. Manuel Poppe criticava um livro de João Araújo Correia sobre Camilo (Uma sombra picada das bexigas) e havia saudades para José Rodrigues Miguéis assinadas por um tal B.-B. Entre os livros escolhidos estava a revista “Análise Social” do Instituto Superior de Economia, assinada por Ruben Andresen Leitão e na página 5, um título intrigante – “Mafaldinha e Charlie Brown” – que começava assim: Quando Rabelais escreveu o seu Gargantua, estava cansado de receitar unguentos e vesicatórios para a miséria física das pessoas. Então usou a lanceta do riso no ventre da sua época.” E continua Agustina Bessa Luís – sim! É mesmo dela!- citando o Rabelais: “ Ao ver as aflições que vos consomem, antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem”. E transporta as citações para a análise das bandas desenhadas de Quino e Schultz. A página 15 é preenchida por um conto- de Maria Fernanda Adão Marques. Poupo o tempo da transcrição, mas não poupo a referência ao rigor da linguagem; à pontuação aperfeiçoada e ao vocabulário escolhido. A fls. 5, ao lado da continuação do Texto Dialógico de Abelaira, está a recensão crítica a uma obra emblemática do sec. XX- “O Homem sem qualidades “ do austríaco Robert Musil. Uma recensão crítica não assinada para “Um grande romance dum grande romancista”.

E nós que nos ficamos tão alegretes com o Mil Folhas...

Publicado por Jorge Palinhos às maio 2, 2005 02:36 PM

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