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maio 11, 2005

MAIS UM ELO NA CADEIA INTERMINÁVEL

Desafiado pelo Nuno Guerreiro e pelo Pedro Vieira, chegou a minha hora de contribuir para um dos mais irresistíveis memes que me lembro de ver na blogosfera:

1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Hipótese lógica - uma qualquer recolha não muito exaustiva de haikus (as minúsculas miniaturas verbais de Matsuo Bashô ou Issa Kobayashi, por exemplo). Hipótese tautológica - Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Sim. Fiquei apanhado pelo senhor Palomar, de Italo Calvino (não voltei a olhar da mesma forma para as ondas na praia ou para as fotos, a preto e branco, que figuram as pedras do jardim zen de Kyoto). E fiquei muito perturbado com aquele rapaz que aparece mesmo no final do conto The Dead, de James Joyce, um tal Michael Furey que vem assombrar a memória de Gretta com a sua delizadeza e o seu gesto hiper-romântico de morrer por ela, no dia em que arriscou sair de casa, muito doente, debaixo de chuva, só para lhe dizer, sabendo-a prestes a entrar num convento, que já não lhe interessava continuar vivo depois da súbita separação. O episódio é contado em curtíssimo flashback (meia dúzia de frases num texto relativamente longo) mas nunca li, garanto-vos, uma história de amor que fosse tão bela e violenta e desesperada. Depois vêm as lágrimas de Gabriel e o espantoso último parágrafo, com a neve «falling faintly through the universe and faintly falling», que deixa em qualquer ser humano digno desse nome um nó na garganta que dura muitos dias (ou talvez mesmo a vida inteira).

3- O último livro que compraste?
A Prisão e Paixão de Egon Schiele, de Vasco Gato, &Etc (para consumo da casa).

4- Os últimos livros que leste?
Folhas de Viagem, de Blaise Cendrars (Assírio & Alvim) e naïf.super, de Erlend Loe (Fenda).

5- Que livros estás a ler?
Os Americanos, de Henry Louis Mencken (Antígona) e Jukebox, de Manuel de Freitas (Teatro de Vila Real).

6- Que livros levarias para uma ilha deserta?
A obra completa do Borges. O Perec todo. Muito Flaubert, Italo Svevo, Musil, Kafka, Faulkner. O Tristram Shandy, de Sterne. Les prix de beauté aux échecs, de François Le Lionnais. A Bíblia. Cento e oitenta cadernos moleskine em branco e vinte caixas de canetas BIC.

7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Ao Pedro Mexia, por razões óbvias. Ao Alexandre Andrade, por razões óbvias. Ao João Pedro da Costa, por razões óbvias. E ao Francisco Frazão, por razões ainda mais óbvias.

Publicado por José Mário Silva às maio 11, 2005 02:59 PM

Comentários

Bem, lá terá de ser... ;)

Publicado por: João Pedro da Costa em maio 11, 2005 04:57 PM

Engraçado. Quando respondi a este questionário não me lembrei do Sr. Palomar mas na verdade também me deixou um pouco apanhado, principalmente aquele episódio da rapariga de topless... nunca mais fui capaz de saber qual a atitude a tomar em situações semelhantes.

Publicado por: p em maio 11, 2005 07:19 PM

Puta que pariu esta merda desta cadeia...

Publicado por: pataphisico_azul em maio 12, 2005 09:41 AM