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abril 27, 2005

DE QUEM ME SINTO MAIS LONGE (POLÍTICA E IDEOLOGICAMENTE) NA REPÚBLICA PORTUGUESA

Por uma questão de referência, é sempre bom quando identificamos uma pessoa com quem nunca estamos de acordo em matérias de política e ideologia. Essa pessoa seria, na porção do universo destas matérias que conseguimos (ou queremos) ver, o nosso ponto mais distante. Não lhe chamo "antípoda" porque duvido que a tal universo corresponda uma superfície compacta; ainda menos com simetria esférica. Nessa altura teríamos os "extremos que se tocam" que tanto me irritam.
Falando em "extremos", refira-se que excluo deste universo posições totalitárias. Ou seja, a pessoa a quem me refiro situa-se, politicamente, no campo democrático. O mais à direita que é possível estar neste campo (ele próprio assim se define), mas dentro dele. A pessoa em questão tem fama de ser um gajo porreiro - e acredito que o seja: falo de política e não de carácter -; tem, além disso, inúmeros fãs, à direita e à esquerda, e compreende-se pois escreve muitíssimo bem. Eu é que não gosto mesmo nada do que ele escreve.

Refiro-me a Miguel Esteves Cardoso. Nunca prestara grande atenção ao MEC, que trazia colado o rótulo de "monárquico", que é dos que mais me repelem; nunca fui leitor regular de O Independente e nem espectador das Noites da Má Língua. Até que o MEC começou a escrever no DNa. Lá fui então passando mais ou menos por alto pelas suas crónicas gastronómicas, cheias de elogios às massas Nacional. Recentemente passou a escrever no caderno principal do DN. As minhas suspeitas confirmaram-se. O MEC representa tudo o que há de mais conservador e estagnado em Portugal. O MEC é o tal que acha que o cliente habitual de uma loja deve ter direito a ser melhor atendido e a passar à frente do cliente esporádico. Ou seja, o MEC no fundo não quer saber dos favoritismos e dos clientelismos que por aí vemos, baseados nesta mesma forma de pensar. Provavelmente o MEC será contra a liberalização da venda de medicamentos sem receita, pois isso é mau para as farmácias, e o MEC sempre os comprou e sempre os quererá comprar na mesma farmácia, provavelmente propriedade de uma família muito antiga, amiga da sua família.
Sei que o MEC, sendo português, tem uma herança cultural e familiar anglo-saxónica, e andou muitos anos pela Inglaterra. Esperaria que reunisse o melhor de ambas as culturas, a portuguesa e a britânica. Pois a meu ver, e infelizmente (por se tratar de uma pessoa inteligente), o seu pensamento político, os valores que transmite representam exactamente o pior de ambas as culturas. A nossa direita clássica revê-se no MEC e em muito do que ele escreve. Há já no entanto (mais na blogosfera do que nos media) uma "nova direita" que condena e não quer ter nada a ver com o corporativismo proteccionista e o nacionalismo serôdio que o MEC preconiza. Para a demarcação ser completa, ainda restariam outras características do MEC, como o elitismo monarquizante. Mas, com a breca, a direita há-de ser sempre direita.
Com a direita e os seus problemas, porém, posso eu bem. O que me entristece é verificar que, muitas vezes, mesmo à esquerda subsiste quem, obviamente sem ser um fã político do MEC, concorda com algumas das suas ideias. O MEC nem tem culpa mas o Miguel-Esteves-Cardosismo, enquanto mentalidade, e a sua enorme popularidade em diversos sectores parecem-me ser o maior atraso estrutural que Portugal tem que vencer.

Publicado por Filipe Moura às abril 27, 2005 12:32 PM

Comentários

"...como o elitismo monarquizante." ????????
Ó camarada, isto vindo da muito elitista esquerda dita de inteligente tem mesmo muita graça.

Publicado por: fidel em abril 27, 2005 03:19 PM

Filipe,

Passas ao lado de um ponto essencial. O MEC tem uma escrita e uma originalidade que criam laços afectivos muito fortes. Ninguém está particularmente preocupado com as ideias políticas do MEC. A malta gosta mesmo é daquela sociologia espertalhona e bem humorada, aquele modo de explicar Portugal aos portugueses. Com tanto alvo por escolher, não percebo a marcação que fazes.

Publicado por: Tulius Detritus em abril 27, 2005 04:02 PM

É uma opinião perigosa, Filipe. Ou muito me engano ou vais levar na cabeça nas próximas horas. Mas antes que isso aconteça deixa-me dixer que estou completamente de acordo contigo. É refrescante ler comentários que não seguem a via habitual da veneração cega por personagens que, de uma forma que eu não compreendo, ganharam um estatuto inatacável na sociedade portuguesa.

Publicado por: CMF em abril 27, 2005 04:06 PM

Uma boa blasfémia!

Na qual me revejo, tirando aquilo do "elitismo monarquizante". Porque a direita nem sempre é a direita, co'a breca!

Publicado por: Gabriel Silva em abril 27, 2005 04:26 PM

Achas mesmo que o MEC ainda é personagem relevante? Quem é que quer saber das ideias políticas do homem, além dos amigalhaços do costume?
Se explicasses o que será o tal "Miguel-Esteves-Cardosismo" concretamente, e de que forma é que afecta alguma esquerda, talvez se entendesse melhor o que dizes...

Publicado por: Epá! em abril 27, 2005 05:06 PM

Tem piada e é mesmo para ter.
O MEC é uma criatura, tipo "xico esperto" e que faz dos outros, aquilo que ele realmente é -- um alarve.
Então aquele sorriso balofo e aquela cabeça iluminada e resplandecente é mesmo o tipo de gente de quem a gente ri sem, ao certo, saber porquê.
Todo ele é uma completa anedota.
Realmente foi boa escolha
Estás de parabens

Publicado por: fazdeconta em abril 28, 2005 12:55 AM

Lamento, Filipe, mas não concordo nada contigo. Mesmo nada. O MEC é um cronista daqueles que só aparecem dois ou três por geração. Partilhar ou não dos seus pontos de vista parece-me irrelevante. Não só porque o que ele escreve (e a forma como escreve) está muito acima dessas minudências, mas sobretudo porque enquanto escriba nunca se leva demasiado a sério. Há ali um desprendimento, uma altivez, uma falsa sobranceria que são, por si só, uma lição.
Mesmo nos seus momentos menos inspirados, o MEC é sempre um mestre. O resto são cantigas.

Publicado por: José Mário Silva em abril 28, 2005 01:03 AM

Zé Mário e Tulius, vocês só estão aqui a defender o MEC cronista, que eu não ataquei e que para o caso não me interessa nada. De facto a sua escrita nunca me criou os "laços afectivos" de que fala o Tulius, e nem creio que tal se aplique à generalidade das pessoas. Mas o post é sobre as opiniões do MEC e não sobre o seu talento como cronista (isto também é com o fazdeconta), que eu nunca pus em causa. É sobre política e não sobre estética.
Agora, não percebo como dizes, Zé Mário, que partilhar ou não dos seus pontos de vista é «irrelevante». Para mim, não é. Nem pode ser. Não são «minudências», e se ele não as leva a sério há quem as leve. O problema está aí.
Carlos e Gabriel, obrigado. Acho que perceberam o essencial.

Publicado por: Filipe Moura em abril 28, 2005 01:31 AM

Já reparaste que baseias toda a tua análise numa dedução? Deduzes que ele seja contra a liberalização da venda de medicamentos sem receita e a partir dessa dedução constróis os teus argumentos, criticando o "clientelismo", o "corporativismo proteccionista" e o "nacionalismo serôdio" que, dizes tu, "o MEC preconiza". A tua análise parece-me duplamente subjectiva. Porque parte de ti e porque se baseia na tua opinião pessoal sobre o MEC. Conviria que fosses ligeiramente mais objectivo. Ou não. Mas... se não lias O Independente, se não vias as Noites da Má Língua e se só agora lês o DNa, achas, sinceramente, que tens dados suficientes para poderes tirar as conclusões que tiraste? Lendo o teu post, e usando o teu estilo, "concluo" que és apenas mais um daqueles soldados da "nova esquerda portuguesa", que reivindicam para si a intelectualidade lusitana e que invejam aqueles que, apesar de, supostamente, serem intelectuais, abraçam uma direita que vocês reputam "conservadora" e "retrógrada"... porque nem sequer a conhecem nem procuram conhecer.

Publicado por: The Bird @ frangosparafora.blogspot.com em abril 28, 2005 09:00 AM

Estreio-me a comentar este blog.
Os meus cumprimentos a todos.
Quanto ao post sobre o MEC, e porque lia o Independente numa altura em que tinha tempo para ler quase todas os jornais, via sempre a Noite da ,Má Língua e leio há bastante o DNa, penso que tenho dados suficientes para dar a minha opinião.
Não é nunca bem aceite em Portugal que se critique quem, estranhamente, se torna não-criticável.
Se nos lembrarmos que escrevia no Independente de Paulo Portas, percebe-se o “conservador” e o “retrógado”.
Se nos lembrarmos da Noite da Má Língua, percebemos que o melhor em Portugal é “ser porreiro”. Dos 4, o MEC tinha o estilo que cultiva do puto a quem se perdoa tudo porque é traquina, mas é porreiro.
No DNa e no DN, continua sem surpresa e em boa escrita a demonstrar o seu elitismo de direita,
Bom post, Filipe.

Publicado por: jesquilo em abril 28, 2005 11:16 AM

O MEC foi, aí por 1982, ainda no DN, suplemento de Livros, uma lufada de ar fresco. Estas coisas um gajo nunca esquece. Ainda ele não era «cronista». Escrevia até sobre dicionários, essa coisa enfadonha. Mas os dicionários segundo MEC apareciam vivos, e essa é que é essa. Depois foi para o Expresso, e nasceu A Causa das Coisas. Aí começou ele, já «cronista», a, como exactíssimamente diz o Tulius, «explicar Portugal aos portugueses». Como ele, e agora é o ZMS quem disse, aparecem dois ou três por geração.

Por isso, Filipe, podes relativizar o que queiras e possas. E talvez queiras muito e possas muito. Facto é que o MEC é um daqueles gajos de quem a gente (falo por mim) se orgulha de ser contemporâneo. Acredita que, para alguma (talvez muita) gente, ele já não pode jamais decepcionar, no máximo amuar, e os amuos passam ao sol da manhã.

Tu não precisas, a sério, de alinhar. Mas há uma parte dos teus contemporâneos que também não entenderás. Nada grave. É só uma informação.


Publicado por: fernando venâncio em abril 28, 2005 04:57 PM

The Bird, eu não disse que não o conhecia antes de ele escrever no DN. Já o conhecia e às suas ideias; simplesmente, não era seu leitor regular. E não, não o invejo. Não invejo pessoas cuja mentalidade parou no meio do século passado, por muito talentosas que sejam. Acredita que não tem nada a ver com o ele ser de direita. Posso dar-te uma lista de autores considerados de direita que me agradam ler.

Fernando, tudo bem, e obrigado pelas dicas. Acredito que para muita gente ele jamais possa decepcionar. Mas não toda a gente; há muita gente a quem ele frequentemente irrita. Será que essa gente, na qual eu me incluo, é compreendida pela "outra" gente? Pelo que li aqui, receio que não.

Este tópico agradou-me e deve continuar, assim eu possa.

Publicado por: Filipe Moura em abril 28, 2005 05:22 PM

Peço imensa desculpa, mas faço parte da "outra" gente. Sempre gostei de ler as crónicas do MEC, independentemente do seu posicionamento político: tudo o que ele diz me parece lógico,sólido,estruturado. Tão estruturado e lógico, por vezes, que quase tenho pena de não concordar com ele em vários pontos ou de o achar muito pessimista. Mas há uma coisa que aprecio nele, em definitivo: faz-me rir com coisas sérias.

Publicado por: tb em abril 28, 2005 06:07 PM

pelos vistos o filipe começou a ler o mec numa fase em que eu já não o tenho acompanhado por aí além.
Confesso que deixei de o seguir há uns anitos, nem sei bem explicar porquê.
mas do que acompanhei, posso dizer que foi com certeza uma revolução na imprensa portuguesa.
apareceu numa fase em que era necessária urgentemente uma renovação de temas de maneiras de escrever. ele protagonizou esse rompimento numa fase em que havia necessidade de retomar a tradição de rebeldia numa imprensa manietada por uma mentalidade "sisuda" e rigorosamente "de esquerda". Trouxe para a imprensa portuguesa um estilo decalcado das suas influências da imprensa anglo saxónica mas fê-lo com enorme mérito e talento. é de direita? azar... ,tanto quanto eu saiba nunca foi um gajo sectário politicamente e o que há a fazer é combater as capelinhas de esquerda sectárias e reaccionárias que pensam que guardam o templo e só querem é tacho para se instalarem.
de resto se o exemplo do mec fez nascer uma geração de polemistas de direita, não é preciso andar muito por aí para ver que a "escola" meio anarca que ele instituiu tende a enquistar de novo numa "academia" de rapazes sisudos e pura e simplesmente reaccionários, a direita habitual, quer dizer, e isso, do ponto de vista da renovação e debate das ideias não preocupa particularmente. Uma coisa é apreciar o Mec e tirar-lhe o chapéu como escritor. Quanto ao resto, a esquerdalhada só depende de si própria.

Publicado por: tchernignobyl em abril 28, 2005 08:45 PM

Nas opiniões a que o Filipe se refere podemos também incluír as culturais (ou musicais)?

Publicado por: João Pedro em abril 29, 2005 01:07 AM

Curiosidade:

A vocês também acontece, vendo uma pergunta assim pendurada, pensarem: isto - o assunto - está morto?

(Bom, se esta pergunta ficar, também ela, pendurada, já terei a resposta. Obrigado, anyway).

Publicado por: fv em abril 30, 2005 03:59 PM

Fernando, desculpa mas nem sempre detecto os comentarios a tempo. Deixo este comentario so porque tenho consideracao por ti, e para nao deixar a tua pergunta pendurada. Mas nao tenho mais nada a acrescentar ao que ja disseste...

Publicado por: Filipe Moura em maio 2, 2005 09:11 AM

Obrigado pela consideração, que muito estimo. Mas, Filipe, a pergunta não era sequer minha! Eu estava (razoavelmente) satisfeito.

Publicado por: fernando venâncio em maio 2, 2005 12:53 PM

João Pedro, eu falava de política. Se as opiniões culturais forem políticas...

Publicado por: Filipe Moura em maio 2, 2005 05:48 PM