« VIDA | Entrada | PRENDÊ-LAS SIM, MAS COM JEITINHO »

abril 26, 2005

O AVOZINHO SIMPÁTICO E RACISTA

Fiquei desapontado com A Queda. Não por que seja um mau filme, mas porque senti que me venderam gato por lebre.
As críticas e comentários dão ideia que se trata de um filme sobre os últimos dias de Hitler, o que é falso. É, na verdade, um filme sobre os últimos dias antes da capitulação alemã. Esta diferença pode parecer pequena, mas em vez de assistirmos à degradação e sucumbir final de um homem singular, deparamos com um fresco de personagens, umas mais interessantes que outras. Outro efeito é que a prestação de Bruno Ganz acaba por saber a pouco, na medida em que a sua personagem é secundarizada em relação à sua ínsipida secretária.

O desempenho de Bruno Ganz como Hitler é muito inteligente. Não é uma actuação tão portentosa como se diz, mas o actor percebeu perfeitamente que Hitler já não é uma pessoa, mas um arquétipo, e que bastava dar uma feição humana a esse arquétipo para que a sensação fosse nada menos que de uma revelação. Ganz interpreta Hitler como um velhinho (Hitler não era velho, mas estava psicologicamente e fisicamente muito debilitado) simpático, mas racista, que acha que a violência é solução maravilha para tudo.
A sua interpretação destaca-se também em comparação com a flacidez das outras: a secretária é (repito) insípida, o estado-maior nazi é estereotipado (Goering: oportunista e corrupto; Himmler: frio e lunático; Goebbels: fanático; Speer: tecnocrata e humano), os generais alemães encarnam o dever resignado e só se salvam alguns secundários interessantes, como Magda Goebbels, que mata os filhos sem esboçar uma lágrima, mas chora baba e ranho pelo destino do nacional-socialismo.

O filme interessou-me pela atmosfera de cataclismo que consegue criar, de apocalipse eminente. A sensação de encurralamento não é bem conseguida - como escreveu o Pedro Mexia, teria sido preferível para isso que toda a acção decorresse dentro do bunker. Mas a sensação de desespero e desalento é perceptível e epitomizada na cena em que se ordena a um soldado para ir algures e este responde cansado "Já não vou a lado nenhum" e se suicida.
Mas talvez a grande lição do filme seja mesmo a de que todo o avozinho querido e salazarista é um Hitler potencial.

Publicado por Jorge Palinhos às abril 26, 2005 05:21 PM

Comentários

Querias talvez dizer apocalipso iminente?

Publicado por: Vasco Campilho em abril 26, 2005 07:43 PM