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abril 24, 2005

SABER O SEU LADO

Existem certos debates em que vem sempre alguém à baila com a frase... "sempre que oiço alguns dos do meu lado... apetece-me... ou mudar de lado, ou bater-lhe".
Seria possível fazer este tipo de afirmação acerca de tudo que pressupõe a tomada de posições colectivas.
Não existe nenhum assunto acerca do qual duas pessoas tenham opiniões exactamente idênticas.
Existe sempre alguém que está do nosso lado numa determinada questão num determinado momento, com argumentos que nos dão vontade de lhe bater.
Existe sempre alguém que está "de acordo" connosco pelas razões que por vezes apenas ao fim de alguns anos percebemos que não têm rigorosamente nada que ver connosco.
No entanto, na maioria dos casos adoptamos a atitude "oportunista" de não manifestar a nossa repulsa para não prejudicar os objectivos de fundo.
Em poucas circunstâncias vemos manifestar-se tanta "independência" relativamente ao "seu" lado como com a questão do aborto.
É uma questão tão controversa e dolorosa que leva muitos dos apoiantes da despenalização a fazê-lo com tais reticências que viram preferenciamente contra o "seu" lado as baterias dos argumentos polémicos e até dos insultos.
E é isto que me deixa um bocado perplexo. As pessoas estão ou não de acordo em relação à forma como se apresentará exteriormente o ponto principal, a saber, o quadrado em que vão colocar a cruz no dia da votação?
Se estão, para quê repetir sistematicamente esse "acto de contrição independentista" como se fossem elas e apenas só elas que têm razões dignas para apoiar algo que só tem sentido apoiar porque é um problema social e colectivo qualquer que seja a percepção que individualmente têm do seu drama as vítimas e apesar de atitudes mais ou menos supérfluas de pessoas na maioria das vezes exteriores aos aspectos mais dramáticos do problema?
Alguém terá paciência para ir hoje vasculhar no passado motivos para demonizar aristocratas que no passado, pelas razões mais fúteis, ilógicas ou irreflectidas tenham apoiado os movimentos que tiveram como consequência a destruição da aristocracia?
Que alguns o tenham feito por estupidez, cobardia ou simples palermice altera nalgum milimetro a questão de fundo?
Não é este um assunto já suficientemente pisado e repisado para que cada um tenha já tido tempo de sobra para fazer as demarcações necessárias que o coloquem em paz com a sua consciência e se possa agora centrar no essencial?
Felizmente que o artigo de Filomena Mónica publicado no Público e citado pelo Miniscente tem o mérito de incluir duas frases importantes que talvez permitam uma saída:
1. a fauna do outro lado da barricada, os auto-intitulados "pró-vida", irrita-me muito mais
2. estou contente com o facto de José Sócrates ter tomado uma posição diferente da assumida por António Guterres.
É isto o que interessa neste momento, é esta convicção que interessa defender até ao Referendo, o resto é andarmos a dividir-nos sem necessidade. Ou então arriscamo-nos a contribuir para atrasar a resolução deste problema que já deveria estar resolvido há muito.
Do lado dos defensores da despenalização existem concerteza muitos inconscientes, e nada impede que alguém se demarque das suas posições avançando os argumentos lúcidos e ponderados, mas o que interessa em nome do combate à chaga social que é o aborto clandestino, é neste momento estar-se unido quanto ao objectivo e sobretudo afirmá-lo e escrevê-lo sem ambiguidades.

( a nova "face" do Público limita substancialmente a utilização da edição electrónica do jornal como "instrumento de trabalho" dos blogs. Talvez seja isso que se pretenda e sendo assim todos teremos a ganhar com isso )

Publicado por tchernignobyl às abril 24, 2005 12:53 PM

Comentários

Para que conste.
Os pró-vida, não comem animais mortos.
O pró-vida não acham que as alfaces, couves, cenouras, rabanetes laranjas e outras quejandas sejam considerados seres vivos. A partir de hoje ficamos todos a saber que as nossas sopas, sobremesas e saladas de frutas pertencem ao reino inanimado dos minerais.
Os pró-vida, não matam baratas aos cantos da casa, nem mosquitos, nem moscas nem tiram as carraças aos cães.
Os pró-vida não levam vacinas contra doenças nem se cuidam quando estão constipados. São completamente contra os malditos remédios que tiram a vida a esses inocentes seres.
Os pró-vida tem um problema grave moral a resolver uma vez que condenam incontáveis milhares de vivissimos espermatozoides á morte quando das relações com as suas mulheres no periodo não fertil.
Os pró-vida são contra o aborto. Eu também sou contra esses abortos.

Publicado por: charlie em abril 24, 2005 01:44 PM

Um bocado à margem do post, com o qual em geral concordo, fiquei curioso acerca da nota final em itálico. Como é que temos todos a ganhar com as limitações do uso da imprensa como instrumento de trabalho dos blogs?

Publicado por: Jorge em abril 24, 2005 03:40 PM

Outra forma de falar de literatura: http://www.icicom.up.pt/blog/muitaletra/

Publicado por: Andreia em abril 24, 2005 07:28 PM

jorge tens razão. era uma tentativa de ironia que pelos vistos não funcionou.
tentei explicar-te isto por e-mail mas a minha mensagem veio "devolvida"

Publicado por: tchernignobyl em abril 24, 2005 07:46 PM

Devolvida?

Hum... deve ser das minhas armadilhas contra o spam. Aqui nos comentários nunca ponho um mail válido, e no meu blog há um bocado a mais no endereço. É fácil de identificar, se se olhar bem para o endereço, mas suponho que se não se estiver atento passa despercebido.

Publicado por: Jorge em abril 24, 2005 09:28 PM