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abril 21, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

Roubado ao discreto, mas belíssimo, último livro do Rui Pires Cabral («Longe da Aldeia», Averno):


NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

para o Vítor

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.

ADENDA- Em resposta ao que pediu o Fernando Venâncio, aqui deixo mais três poemas de «Longe da Aldeia»:

A ESCARLATINA

Não sei se te lembras
ainda. No quarto pegado
à cozinha, uma cama
sob a clarabóia. A estreita
e um tanto triste
antecâmara do Verão.

Eram coisas que não queriam
dizer nada. Lias, juvenil,
uma história onde alguém
contraía a escarlatina.

No andar de baixo
os carpinteiros, pai e filho,
guardavam um silêncio
petulante, os finos pregos
de aço bem seguros
entre os lábios.


SENHORES PASSAGEIROS

Alguns rapazes avançam mais depressa
para a morte, mas todos se debatem
com a vida que lhes resta. Às voltas
no cimento das cidades, entre
a estrangulada circulaçãos dos veículos,
segredam ao ouvido de um deus
surdo: concede-me um novo amor
igual ao dos meus irmãos. Entretanto
são mais as raparigas que não lêem livros
no venenoso relento das estações
ferroviárias, chupam rebuçados
de menta com fel, suavemente inclinam
a cabeça para ouvir:
senhores passageiros
vai dar início à sua marcha o comboio
com destino a Santa Apolónia da escuridão.


RECOMEÇO

O primeiro cigarro do dia é na varanda
quando faz sol: misteriosamente o terraço
do vizinho continua a concentrar a tristeza
do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas
que te permitem perceber quem és, onde estás,
o que terás de fazer a seguir. E a angústia
que te abraça é a memória mais antiga
que possuis, vem das casas de Bragança
e Moncorvo, já a conhecias antes de lhe seres
formalmente apresentado. Tu nunca quiseste
pertencer. Só à ponta da navalha. Só no fundo
do beco, encurralado. Meu Deus, que vocação
para o desassossego. Mas será um sinal de resistência
ou uma espécie de defeito anímico? Tanto faz,
vamos, põe a cafeteira ao lume. E recomeça.


PS- Depois não digam que o BdE não presta serviço público...

Publicado por José Mário Silva às abril 21, 2005 07:08 PM

Comentários

Rui Pires Cabral, sim: «Haverá quem nos diga, no fim/ de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?». Curioso o título do livro: imaginaria que só daqui a dez ou quinze anos o Rui trouxesse um título assim para os seus poemas...

Publicado por: jcb em abril 21, 2005 11:04 PM

ZM,

«Rouba» mais algum poema do autor, se maravilhoso como este, o poema digo. Agradece-to quem vive longe da aldeia, e de muita mais coisa.

Publicado por: fernando venâncio em abril 22, 2005 07:25 AM

muito bonito, zé mário.

Publicado por: filipa em abril 22, 2005 11:27 AM

Comovente.Ainda bem que não há outro caminho para o Rui (Sísifo) Pires Cabral!

Publicado por: tb em abril 22, 2005 12:15 PM

Obrigado, ZM. Gostei, senhor Rui.

Se bem percebi, há, entre os nossos poetas e entre os nossos críticos actuais, algumas resistências à poesia 'quotidiana', julgo que é o termo. Se bem entendi, também, teme-se que o concreto venha perturbar a 'sugestão', o 'indizível'.

Para ser sincero, prefiro mil vezes a quotidianidade ao indizível. Mas quê, os meus contemporâneos afiançam que uma poesia que se entenda já não é poesia.

Publicado por: fernando venâncio em abril 22, 2005 01:45 PM

olá.algues me pode fornecer o contacto da editora do sr. Rui Pires Cabral, AVERNO, pois não encontro em lado algum.obridado.

Publicado por: silva em junho 2, 2005 11:19 AM