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abril 20, 2005

PÉROLAS SOLTAS APANHADAS POR AÍ

Bullet In My Breast Pocket
Years ago, my mother gave me a bullet... a bullet, and I put it in my breast pocket. Two years after that, I was walking down the street, when a berserk evangelist heaved a Gideon bible out a hotel room window, hitting me in the chest. Bible would have gone through my heart if it wasn't for the bullet.
Woody Allen, citado pela Ju (in Tomara-que-caia)

DECÊNCIA: Ludwig Wittgenstein afirmava ambicionar, antes de tudo o mais, viver uma vida decente. Hoje em dia, tal desiderato parecerá ridiculamente simples a alguns, absurdamente inalcançável a outros. Não é outro o drama da nossa época.
(in umblogsobrekleist)

- Minha querida, olha o que eu tenho aqui para ti.
- Fotocópias do dossier da Maçonaria com os nomes todos da PIDE? Por breves instantes ainda pensei que fossem aqueles óculos de sol gigantes, a dizer Dior assim de lado.
Pastel de Tentúgal (in Três Pastelinhos)

As palavras são como as cerejas
É preciso ter cuidado com os caroços.
(in Voz do Deserto)

Marcelo Salazar
O homem mais corajoso que eu conheço é este: o músico brasileiro Marcelo Salazar, que aceitou tocar na Festa do Avante.
Pedro Mexia (in Fora do Mundo)

A bola no Olival (17)
As bolas são cometas. Quem nunca jogou futebol de noite, com a iluminação dos candeeiros públicos, não pode perceber a tal afirmação. Uma bola branca a crescer para nós vinda da penumbra e em lenta aceleração, lá desde o alto, é coisa para perturbar o defesa central que nunca arriscará um verso. O futebol nocturno viciava. Havia, a começar, o "efeito do quarto-escuro ", a escuridão democratizante. Uma camisola do Barça com reflexos acetinados mal se distinguia da T-shirt ruçada da Robbialac . A noite tornava também tudo mais intimista, convidando à introspecção. Canto! Concentração de jogadores na grande área, grande tensão, o marca desmarca e M, de sorriso beatífico, em delírio poético sobre a marca de grande penalidade, pensando se as copas das faias perturbam a vida das estrelas. Uma inspiração infinita, se não tivesse sido interrompida pelo autogolo.
Ivan (in A Memória Inventada)

Das cerejas e outros frutos divisíveis por dois
Entre as inúmeras virtudes do meu pai, contava-se a de ter morrido bem, como um raio de luz e sem dor, ao lado da mulher que amava. Ele já tinha ensaiado esse truque uma boa dezena de vezes, algumas delas mesmo antes de eu ter nascido, vai-se lá saber porquê. A minha mãe conta que a primeira delas foi há mais de trinta anos, numa praia da Nazaré. Ele estava a nadar longe da costa e ela fez algo que viria a se transformar num velho truque da família e que, quem sabe?, poderá vir a ser útil às gerações vindouras: começou a pensar na morte do meu pai com muita força como para anular qualquer probabilidade de ela acontecer. Ele esteve meia hora a lutar contra a maré e chegou à areia exausto. Ambos fizeram de conta que nada tinha acontecido, mas, a partir daquele dia, a minha mãe arranjaria sempre uma desculpa para que o meu pai não voltasse a pôr um pé no mar. Depois, houve acidentes de trabalho (a morte mais indigna do mundo, segundo o pessoalíssimo e intransmissível sistema de valores da minha mãe), um carro que não travou numa passadeira, uma tábua que caiu do segundo andar de um andaime, uma intoxicação alimentar. E, em todas essas ocasiões, a minha mãe foi aprimorando um monólogo longo e seco, repleto de frases curtas e incisivas, nas quais enumerava as razões pelas quais ela considerava a sua hipotética morte um absurdo. Mas jamais a ouvi a invocar como pertinente o facto de o amar. A minha família era assim um combate de surdos: por um lado, o meu pai a meter-se em trapalhadas que punham a sua vida em jogo; e, por outro, os dons oratórios da minha mãe. No entanto, o meu pai tinha um aliado de peso: o seu corpo. O dele era 27 anos mais velho do que o da minha mãe, e, para além dos anos, o meu pai esculpiu-o à força com uma vida sedentária e três maços de tabaco que fumava todos os dias com o método e a paciência de quem forja um plano. Quando eu tinha seis anos, ele foi operado ao coração. Recordo essa noite com a mesma exactidão com que recordo o Sol que ainda há pouco vi brilhar lá fora. Ficámos ambos acordados a noite inteira na cozinha e eu ia apontando num caderno escolar as frases que ela debitava para me garantir que o meu pai não corria perigo de vida. Passados cinco anos, regressámos a Portugal, por indicação do médico de família: O senhor Costa precisa de ar puro e de fugir do stress da cidade, afinal de contas, o senhor já tem 65 anos. Viemos morar para a beira do mar, numa casa onde ainda hoje vivo e escrevo isto, não sei muito bem porquê. É que o meu pai nunca se habituou a esta merda. Faltava-lhe a azáfama de uma cidade industrial, o frenesim das horas matinais, o ruído dos carros na rua. Cismou que haveria de plantar cerejeiras no quintal, não obstante o cepticismo da minha mãe, que invocava a proximidade do mar, o clima húmido e a nortada para considerar o projecto agrícola do meu pai uma parvoíce. Durante cinco anos, podia-se ver em frente à minha casa, fosse qual fosse a estação, filas intermináveis de paus secos que nem sequer possuíam a nobreza triste que torna suportáveis os cemitérios. Houve uma vez em que me lembrei de comprar meio quilo de cerejas (o dinheiro que tinha não dava para mais) e de dependurá-las de manhã nos ramos secos e estéreis das cerejeiras. Foi a primeira vez que vi o meu pai a chorar e essa visão inundou-me com a certeza que tinha feito uma asneira insuperável. Ele tentou disfarçar, claro (tu disfarçavas tão mal, meu querido pateta), e sentámo-nos os dois a comer as cerejas, partilhando em segredo o facto da nossa pressa ter a ver com a iminente chegada da minha mãe. E depois houve um dia em que eu fui para a praia sozinho. Tinha quinze anos. Nem sequer recordo a última imagem do meu pai em vida. Sei que devo ter-lhe pedido autorização para ir, pois ainda estávamos longe da época balnear, mas as imagens que desaguam neste preciso momento na minha memória não enganam ninguém: são nítidas de mais para não serem inventadas. Lembrei-me da história da praia da Nazaré que me tinha contado a minha mãe e nadei, vejam só que estupidez, até onde as minhas forças não me permitiriam regressar. Fiquei a boiar durante mais de uma hora. A costa era uma linha pouco mais que ténue que definia o horizonte, e comecei a repetir os monólogos da minha mãe. Na tua família, morrem todos com mais de oitenta anos. Coisa ruim não parte. Tu ainda tens um filho para criar. Quando abri os olhos, a corrente já me tinha arrastado de volta e, no meu quintal, uma flor branca e inverosímil rompia a casca morta de uma cerejeira.
João Pedro da Costa (in As Ruínas Circulares)

Publicado por José Mário Silva às abril 20, 2005 07:31 PM

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