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abril 16, 2005

MEMÓRIAS DA ADOLESCÊNCIA (10)

Ainda não havia telemóveis. Nem blogues.

[Fim da série]

Publicado por José Mário Silva às abril 16, 2005 07:18 PM

Comentários

ZM,

Podes imaginar a memória de não haver televisão? Não podes. Como eu não consigo imaginar que não havia rádio. Que silêncio terá sido!

Publicado por: fernando venâncio em abril 18, 2005 06:47 PM

Fernando, com essa memória trouxeste a imaginação de um espaço e de um tempo onde não se ligassem as máquinas. Um dia saberemos como esse silêncio nos faz a maior das faltas.

Publicado por: Valupi em abril 19, 2005 01:12 AM

Valupi, quais seriam os sons do tempo de Camilo? (Não digo Eça, porque nos anos 1890 começaram já a soar os telefones). Além dos da natureza, haveria os dos cascos de cavalos, mais os relinchos, haveria os do rodar das carruagens na calçada. Que mais? Os de um martelo em cima dum prego, os do bate-chapas. Já haveria buzinas, nas tipóias, primeiro som menos natural. Mas, enfim, creio que quem morasse na rua da Junqueira, em Lisboa, tinha uma vida bastante silenciosa.

Ou não - e todo o som actual é sempre barulho?

Publicado por: fernando venâncio em abril 19, 2005 12:03 PM

Ah, e os sinos das igrejas. Que de natural têm pouco. Mas mil vezes preferíveis ao «Avé de Lourdes» electrónico das nossas aldeias do Norte.

Publicado por: fv em abril 19, 2005 12:07 PM

Não é só a questão sonora, Fernando, que podemos sempre recuperar num qualquer lugarejo do nosso, ou de outro, país. É a interrupção da tirania das máquinas que condicionam o espaço doméstico e impedem a comunicação interpessoal. Sonho com um Estado e respectivo Governo tão criativo, ousado e inteligente que deliberasse interromper as emissões televisivas e radiofónicas durante alguns dias no ano. Mesmo que as famílias tivessem de discutir sobre o DVD que iriam ver ao serão, esse seria um acrescento de intimidade.

Claro, este é um sonho pequeno-burguês.

Publicado por: Valupi em abril 19, 2005 12:38 PM

Valupi, alma boa e sadia:

O meu rádio está apagado, o meu televisor também, o meu telemóvel silencioso, não tenho (ainda) home cinema, o carro mais próximo passa a duzentos metros.

E todavia que doce chinfrineira ergue à minha volta este bendito blogue, desde que habemus papam. Era preciso que o teu criativo Governo apagasse também, por uns dias, a blogosfera.

E isso já não seria sonho de pequeno-burguês. Seria de angelical figura. E essa, desculpa, não na tens. No fantasmagórico, e ouso pensar que também no real.

Estamos aqui os dois tranquilos, com o barulho digital atroando-nos. Ainda haverá algures descanso?

Publicado por: fernando venâncio em abril 19, 2005 10:32 PM

Olha, Fernando, quando acabei de escrever o anterior arrependi-me de não ter metido no cabaz a ubíqua Internet. Mas claro, desliguem-se esses maquinismos todos!

Não me desejes perfis angelicais, sábio Fernando. É conhecida a inveja dos anjos para com os filhos de Prometeu. Nem bestas, nem anjos; antes pelo contrário.

E o Camilo, teria o seu blogue? Responde-me o melhor que puderes, ó homem das arábias.

Publicado por: Valupi em abril 20, 2005 02:51 AM

Ínclito Valupi,

Mas Camilo teve o seu «blogue»! Foi editor de vários periódicos, de muito curta vida,
sim, mas informativos do que 'se' pensava na cultural fonte da aldeia Portugal. E esses periódicos tinham o mesmo tipo de leitura que nós damos às produções de (é um banal exemplo) Zé Mário y Sus Muchachos.

Além disso, o mesmo Camilo teve, por períodos, já mais largos, a sua coluna de imprensa. E posso afiançar-te que, por 1850, pelos cafés de Porto e Lisboa passava, a dias certos da semana, um sururu que não ficava abaixo do dos comentários no blogue de ZMySM (o tal banal exemplo).

A História, Valupi, é lenta.

Publicado por: fernando venâncio em abril 20, 2005 08:23 AM

Verdade verdadinha, Fernando. Camilo foi um polemista brilhante e manhoso, como bem sabes. O "marreta de ferro" seria, por vocação, um bloguista militante. Até porque a inteligência desapareceu dos actuais cafés, não há com quem discutir.

Já agora, leste o padre José Agostinho de Macedo? É figura que talvez merecesse um romance dos teus – ou, dizendo melhor, é personagem que só teria a ganhar em ser tratado pela tua pena.

Publicado por: Valupi em abril 21, 2005 01:08 AM

Quem tu dizes, Valupi. E merecia decerto um romance. Que não penso escrever. Já por si, visto que a minha agenda de publicações está cheia para os próximos trinta anos. Mas sobretudo porque sei que se prepara uma grande biografia dele, que imagino seja já um grande romance.

Bom, essa tua lembrança do Macedo faz-me pensar em algo mais recente (relativamente...), de 1959, na revista de intelectuais de Direita, «Tempo Presente». Mais concretamente: a coluna «Besta Esfolada» (ora aí está ele, o Macedo), assinada por Goulart Nogueira (n. 1924).

Para teu uso, aqui vai um exemplo. Incluí-o na minha antologia (pode-se fazer publicidade, ZM?) de 100 crónicas portuguesas do século XX, saída no Círculo de Leitores. Diverte-te. E vê se não é ainda actualíssimo.

*****

«A Besta Esfolada», por Goulart Nogueira
Tempo Presente, Agosto de 1959

De um dos nossos colaboradores que escrevem assuntos filosóficos, houve, em diversas ocasiões, quem dissesse: «Argumentação infantil...». O público «snob» e «intelectual» que fez as terças feiras clássicas do Tivoli, que, como gélida corrente, mete observações disparatadas no Centro Nacional de Cultura (ou, se é mulher, profere adoráveis dislates articulados a uma torneada perna cruzada que se balanceia), o público «definitivo» e «informado» de A Brasileira, o público da Bénard, e mais o público atafulhado de folhas «culturais» de cinema, o público «consciente», o público «responsável», o público «parvenu» à cultura e cheio de embófia, o público aldrabão, ou ignorante, ou parvo, ou precipitado, ou venenoso, ou primário, ou cobarde, ou gregário, quer seja público que lê, quer seja multidão que escreve, o público que, sabendo embora algo de alguma coisa, ou até não sabendo nada de nada, desembesta a falar de tudo, mesmo do que não sabe, e a julgar e criticar tudo, mesmo o que não estudou – esse público acha pobre, banal, «infantil» e fraco o nosso colaborador. Esse público há de classificar de igual modo certas argumentações fundamentais de Zenão de Elea, de Platão, de Hegel, de Gentile. Porque esse público, à semelhança das beatas diluindo se sob o vaporizador de pregadores barrocos ou delicodoces, admira somente os palavrões científicos, o raciocínio obscuro, o rapto lírico, a solene gravidade, a acrobacia de circo, a retórica balofa e ardorosa, a sensação, o discurso, o sentimentalismo, a complicação intelectual, a pirueta humorística. Ao tal público sempre lhe repugnou – que horror! – a simplicidade, a razão, a evidência, o equacionamento básico das questões. Mas quando tudo se entrança, apenas com palavras como «problemática», «fenomenológico», «super estrutura», «ambiguidade», «existentivo», ou quando, de olhos em alvo, se valsa, ao ritmo de «liberdade» e «dignidade humana» – ah! então, sim, os severos senhores, as damas, as meninas namoradas, os católicos progressivos, os cineclubistas, os rabiscadores de jornais, os «surrealistas» de pacotilha, os «monárquicos» do Chiado, os «nacionalistas» «históricos», os leitores dos «Poètes d’aujourd’hui», os que não falham às estreias, os idólatras de Brecht ou de Becket ou de Ionesco, são percorridos por um murmúrio de admiração «formidável», o pescoço descai lhes um bocadinho para a banda, fazem boquinha pregueada e confirmante («Isto sim!»), chegam a ter delírios de admiração e gritos selvagens de aplauso àqueles crisóstomos. Mas que adultíssimas bestas!

Publicado por: fernando venâncio em abril 21, 2005 11:36 AM

Que maravilha, que maravilha, Fernando! Acabei de ler e levantei-me para aplaudir. E aplaudi.

Muito obrigado por este naco delicioso do nosso português e do nosso Portugal.

Publicado por: Valupi em abril 21, 2005 04:00 PM

(Antes que caiamos pela beira do abismo)

ZM,

Apanhaste à cena? Do Valupi a levantar-se e aplaudir? Diz.

É que ainda se acaba aqui por escrever História.


Publicado por: fv em abril 21, 2005 04:11 PM

Fernando,
Estava aqui à espreita, atrás do pano, muito caladinho, a ver como evoluía a vossa conversa. Mas agora que o Valupi se ergueu, maravilhado, prodigalizando aplausos, também eu me descubro e avanço a medo até perto do foco de luz, só para vos agradecer mais este excelso momento de meta-bloguismo.
O que é que seria do BdE sem esta outra existência (oculta, submersa, subterrânea), sem estas palavras brilhando na sombra?

Publicado por: José Mário Silva em abril 21, 2005 05:38 PM

E parabéns, ZM, pela excelente série.

Publicado por: fernando venâncio em abril 21, 2005 08:37 PM

Merecidos, Zé. Pela série, pelas séries e por tudo o resto que nos permite estes encontros.

Publicado por: Valupi em abril 21, 2005 09:43 PM