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abril 17, 2005

DÁ-ME LUME

No meio do salão, fumava um cigarro enquanto observava a multidão a dançar.
-Arranjas-me um cigarro?
Olhou para mim e condescendeu. Nenhum de nós tinha lume. Poderíamos usar o seu cigarro ainda aceso.
Com o mesmo ar incrivelmente condescendente, sugeriu-me que primeiro pusesse o cigarro na boca.
-Puxa, puxa,... isso.
Eu "puxei". O lume "pegou". Agradeci-lhe.
Algumas horas e muitos copos mais tarde, reencontramo-nos.
-Muito obrigado pelo cigarro que me arranjaste. Não me vou esquecer disso. Se alguma vez eu puder fazer alguma coisa por ti, é só pedires-me.
Mirou-me com o tal ar impiedosamente condescendente.
-Tens lume?
Obviamente eu não tinha. Foi à sua vida. Eu fui à minha.

Publicado por Filipe Moura às abril 17, 2005 06:21 PM

Comentários

Mas que bela história!
Já pensaste em publicar isso num livro?

Publicado por: canzoada em abril 17, 2005 07:02 PM

Filipe, andas a ler muita Rebelo Pinto ou é mais Rita Ferro?!

E já agora, se alguém te pede lume dessa maneira não percebes o que é que te está a pedir, no fundo do fundo da mais elementar fundura?

Publicado por: frei bartolomeu dos mártires em abril 17, 2005 09:48 PM

Quer dizer, quiseste engatar uma miuda na festa da RAG, e saiste-te mal...?

Nada que não me tivesse ja acontecido.

Ve la se te orientas no concerto do Bicho de 7 Cabeças, mas é...

Publicado por: Vasco Campilho em abril 18, 2005 12:01 AM

para a próxima vê se levas um maçarico para a festa

Publicado por: tchernignobyl em abril 18, 2005 10:42 AM

O melhor que tens para relatar dos teus trepidantes dias na metrópole estrangeira resume-se a uma caçarola de arroz esturricado e a esta tentativa ignóbil de engate? E estavas à espera que a moça (ou moço) te olhassem como? Com interesse?
Getalife.

Publicado por: Aiii... em abril 18, 2005 03:07 PM

Realmente, Aiii...: moça? moço?

Sim, a história está contada de modo que os sexos - tanto o de quem pede o cigarro como o de quem dá - sejam indeterminados. Quando li a história, esta manhã, também fiquei a pensar que nunca poderia traduzi-la para francês, que exige pronome sujeito; ou para neerlandês, que tem (como o inglês) pronomes possessivos identificadores; e muito menos para árabe, onde as formas verbais, até as da segunda pessoa do singular, variam em género.

Que língua sábia, esta nossa!

Publicado por: fernando venâncio em abril 18, 2005 03:29 PM

Ah; mas os ingleses, na sua incomensurável sabedoria lexical, seriam capazes de traduzir toda a história com uma só palavra. "Boring!"

Publicado por: Ooooh em abril 18, 2005 03:35 PM


Ooooh, não exagere. É até uma história bem catita. Exactamente, vácua de cima a baixo, descreve a própria vacuidade, e com alguma sabedoria, desculpe lá a metafísica.

[ E aqui entre nós: você que faz Ooooh, também faz Aiii...? ]

Publicado por: fv em abril 18, 2005 04:15 PM

Filipe,

não ligues às vozes que não vêm do céu!
Deixem lá o rapaz! Soube resistir com galhardia à tentação da fornicação.

Publicado por: frei bartolomeu dos mártires em abril 18, 2005 04:26 PM

Mas atenção que este vácuo tem la dentro pequenas jóias como a bela rima presente em "impiedosamente condescendente"...

Ó irmão Bartolomeu: o pior é que ele não resistiu nem desistiu. E tocou agora ao nosso juízo o papel de infeliz e involuntário recipiente.

Publicado por: OOH, AIII! em abril 18, 2005 05:26 PM

"involuntário"? foi mesmo "involuntário" que querias dizer?
ooo rapaz, quem se coloca no papel de "recipiente" és tu. E quanto a "juízo" só podes deves tê-lo referido aqui para rimar com "guizo" porque me parece que tens muita coisa a chocalhar-te na cabaça.

Publicado por: tchernignobyl em abril 19, 2005 01:07 AM

E de onde veio agora este cromo? O menino não aprendeu que não se deve meter a despropósito nas conversas dos crescidos?

Publicado por: Aiii em abril 19, 2005 04:46 PM